Uma hora depois, Clara entrou na biblioteca com as crianças que correram para o pai, para o abraçar.
Ele beijou-os, e depois afastando os papéis que tinha
à sua frente, ergueu-os e sentou-os na secretária.
- Olá. Parecem muito contentes hoje. Por onde andaram?
-Estivemos no jardim, - disse a menina.
-Andámos de baloiço, e brincámos à cabra-cega, e a
Clara quase caiu na piscina, - acrescentou o irmão rindo.
- Muito bem. Mas vocês lembram-se da conversa que
tivemos ontem? Antes de sairmos para a igreja, quando vos disse que a Clara ia ser a vossa mãe?
- Eu lembro, - disse o rapazinho baixando os olhos
- E eu. Desculpa pai, - disse a menina meio envergonhada
Antes que ele dissesse algo mais, Clara adiantou-se e disse-lhes:
-Vá meninos, agora que já viram o vosso pai, dêem-lhe um
beijinho gostoso e vão ter com a Antónia, que já deve ter o vosso lanche
pronto.
Ricardo beijou as crianças pondo-as em seguida no chão. Elas
saíram a correr e Clara fechou a porta atrás delas.
Então virou-se para ele e disse:
-Começo a pensar que cometemos um erro com este casamento precipitado. Não sei onde
estava com a cabeça para aceder a isto. Ricardo, nós só nos vimos, três vezes
antes da cerimónia. No dia da entrevista, quando assinámos o acordo no
advogado, e quando assinamos os papéis no registo. Em nenhuma dessas ocasiões,
as crianças estiveram presentes. Nem quero acreditar que lhes ias pedir para me chamarem mãe. Como queres que o façam, se sou uma
desconhecida? Por favor não os obrigues a isso. Deixa que me torne amiga deles,
e que me tratem como a uma amiga, pelo nome. Eles mudarão de tratamento, quando sentirem que os amo e que me porto como mãe.
-Tens razão. Devia ter começado por vos apresentar
antes mesmo da cerimónia, mas a verdade é que foi tudo muito rápido.
- Agora vou ter com eles, mas gostaria de te pedir que
disponhas do tempo em que irão dormir a sesta, depois do almoço, para que
possamos conversar sobre eles, como são, do que gostam, do que já viveram. Não posso cuidar deles, se não estiver a par do que lhes aconteceu
antes. O pesadelo da Soraia esta noite deixou-me muito preocupada. É costume tê-los?
- Uma vez mais estás certa. Teremos uma longa
conversa, mais logo. Não vai ser fácil, reabrir feridas, mas compreendo que
seja necessário, para bem deles.
Vendo que o rosto masculino se contraía, Clara voltou
costas e saiu. Ricardo pousou os cotovelos na secretária e ocultou o rosto nas
mãos.
Não lhe tinha passado pela cabeça, contar a ninguém os seus desenganos amorosos, muito menos a uma mulher. Isso fragilizava-o. Não gostava de recordar que fora tão idiota, que se deixara enganar com a mesma facilidade com que se engana uma criança. Mas como falar do filho sem contar toda a verdade?
- Que se lixe - murmurou. Afinal que me importa o juízo que ela faça de mim?
O que pretendo é que cumpra o contrato, cuidando bem deles, não conquistá-la.
- Que se lixe - murmurou. Afinal que me importa o juízo que ela faça de mim?
O que pretendo é que cumpra o contrato, cuidando bem deles, não conquistá-la.
