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11.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XII


Pouco depois sentados à mesa do restaurante, Gil pergunta ao irmão:
- Como vai a tua relação com a Isabel?
- Que há nenhuma relação. Ela não acredita em mim, pensa que apenas quero seduzi-la para a levar para a cama.
- E tens a certeza de que não se trata disso?
- Absoluta. Desejo-a é claro, é uma mulher muito bonita, e eu não sou propriamente um santo. Mas o que sinto por ela é muito mais do que isso. É uma vontade de estar juntos, de partilhar emoções, de formar uma família. Tenho trinta e dois anos, e nunca soube o que era uma verdadeira família. Sei que a mãe nos amou muito, que era capaz de dar a vida por qualquer um de nós. Trabalhou até ao limite para que nunca tivéssemos fome, e o nosso corpo agradeceu, mas a alma cresceu sedenta de carinho. Não estou a censura-la. A vida era muito difícil na altura, especialmente para uma mulher sozinha com três filhos. Tu foste muito novo para o clube, tinhas um sonho, algo a que te agarrares. A princípio vinhas dormir a casa, mas quase só te via quando já estava a cair de sono.
Depois quando se aperceberam da tua genialidade, passaste a viver lá, só vinhas a casa ao fim-de-semana. Eu cuidava da Laura, para que a mãe continuasse a trabalhar. As suas brincadeiras, não me diziam nada, tínhamos gostos e sonhos diferentes. Tinha saudades tuas. E sonhava com uma família diferente. Com uma mesa onde estivéssemos com os nossos pais.
 E jurei que quando crescesse e arranjasse um emprego, procurava uma mulher e me casava. Sonhava com a minha casa, a minha mulher e um ou dois filhos. Nunca senti inveja de ti, do teu êxito, do muito dinheiro que ganhavas. Todavia senti um pouco de inveja quando te casaste. Ias ter uma família, e eu continuava mais só que nunca, pois a Laura crescera, entrara na Universidade, tinha a sua própria vida, e a nossa mãe já tinha entregado a alma ao Criador, alguns anos atrás.
Porém apesar do meu sonho os anos foram passando e nenhuma das mulheres que conheci, e conheci imensas, embora a maioria nem fosse capaz de recordar o meu nome. Só me procuravam na esperança de que tas apresentasse. Apesar disso nunca senti vontade de formar com alguma delas uma família, pelo contrário repugnava-me a ideia de poder viver o resto da vida com elas. Até conhecer a Isabel. Com ela eu desejo tudo. O corpo, e a alma. Quero adormecer todas as noites no calor do seu corpo, acordar com o seu sorriso. Se isto não é amor, então não faço ideia do que seja o amor. Infelizmente, apesar de acreditar que não lhe sou indiferente, ela não acredita em mim e não sei como convencê-la.
- Se a amas assim e acreditas que ela também gosta de ti, toma uma atitude drástica. Faz qualquer coisa que a surpreenda e lhe dê a certeza do teu amor.
-Que tipo de atitude? Tens alguma ideia?
- Compra-lhe um bonito anel de noivado. Depois convida-a para jantar, leva-a a um bom restaurante e durante o jantar, dás-lhe o anel e pede-a em casamento. Ou se achas que ela não vai aceitar o jantar, leva a Teresa e a Raquel ao escritório, e na presença delas, oferece-lhe o anel, e pede-a em casamento. Com duas testemunhas ela não vai duvidar das tuas intenções.
Tinham acabado de almoçar. Gil chamou o empregado, pagou a conta e saiu seguido do irmão.
Despediram-se já no exterior, com o jovem desejando sorte ao irmão antes de entrar no carro e seguir para o hospital.
Três dias depois, Gil voltou à empresa e desta vez chegou antes da hora de abertura, conforme combinado de véspera com Marco. O doutor Alcides só chegaria perto das onze horas, para que eles assinassem os documentos de doação e alteração do registo da empresa, mas Marco, seguindo o conselho do irmão ia pedir Isabel em casamento, e queria que ele estivesse presente, para que à jovem não restassem quaisquer dúvidas, sobre a seriedade do pedido. Na véspera, marcara uma reunião com as três mulheres, no início do dia, pelo que iriam abrir as portas um pouco mais tarde nesse dia.