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26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia? 

3.1.18

HELENA - FINAL


Depois do casamento, Inácio não se mostrou o homem romântico e apaixonado que as cartas mostravam. Antes pelo contrário parecia que não tinha desejo por ela. As poucas vezes que faziam amor, era como se ele estivesse a cumprir uma obrigação. No entanto quando saíam ele mostrava-se carinhoso, e toda a gente pensava, que eles eram um casal feliz.
Um dia ele chegou a casa com a novidade. Fora destacado para Angola, e ia partir em breve.
Foi um choque para a jovem. Ela soubera nesse dia que estava grávida e esperava a sua chegada com ansiedade para lhe dar a notícia. Esperava que ele ficasse feliz, mas em vez disso ele mostrou uma completa indiferença, mostrando-se muito mais entusiasmado com a comissão, do que com o filho que ia nascer.
Nos dois anos seguintes, os aerogramas, (os famosos bate-estradas) chegavam regularmente e Inácio parecia um homem feliz. Muito mais feliz com os colegas, do que com a mulher.
Quando voltou, as esperanças que Helena pudesse ter sobre a conduta do marido dissiparam-se. Ele estava cada dia mais seco, e não lhes ligava nenhuma a ela nem à filha que ainda não fizera dezoito meses.
Helena que na época estava empregada num laboratório em Lisboa começou a pensar, que aquilo não era vida, e pediu-lhe a separação, já que naquele tempo, ainda não havia divórcio em Portugal. Inácio teve uma atitude estranha. Pediu-lhe mais uma oportunidade, prometeu que ia ser diferente, disse que ia arranjar uma casa melhor. E arranjou. Um rés-do-chão num prédio novo, ali perto. Mas a sua indiferença não mudou. Nem sequer quando Lena se desculpou com os medos da filha e colocou um divã no quarto dela. Os anos foram passando, e Helena vivia apenas para o trabalho e para a filha a quem amava como a mais extremosa das mães. O marido era como um hóspede. Dava dinheiro para a casa e em contrapartida, tinha cama, comida e roupa lavada. Quando a filha terminou a 4ª classe, Helena, aproveitando que nessa altura já era legal, pediu o divórcio ao marido. Este negou-lho dizendo que se ela insistisse, as punha na rua, já que a casa estava em nome dele, e mais, não daria dinheiro algum para a filha. Pior ainda ameaçou bater-lhes.
Helena pensou que o seu ordenado não dava para educar a filha, pagar a renda de uma casa, e comerem. Por amor à filha, desistiu do divórcio.
Entretanto o marido começou a ausentar-se, vinha de vez em quando, mas quando vinha, por qualquer coisa oferecia pancada à mulher e à filha, chegando às vezes a vias de facto.
Anos e anos de sofrimento. No dia em que a filha se formou, Helena pode enfim requerer o divórcio.
Muitos anos mais tarde, ela confirmou algo de que sempre suspeitou. O marido usou-a, por cobardia, porque não tinha coragem de assumir a sua homossexualidade. E descarregava nela e na filha a frustração e infelicidade, resultante da sua cobardia.



FIM

Elvira Carvalho