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3.12.21

CONTOS DE NATAL - A ÁRVORE DE NATAL DE SEXTA--FEIRA



E PORQUE HOJE É SEXTA- FEIRA 


A ÁRVORE DE NATAL DE SEXTA--FEIRA

Enquanto vestia o pijama, Brian perguntou:

— Mamã, os outros meninos dizem que vamos ter uma árvore de Natal cá em casa. O que é uma árvore de Natal?

Aconchegados no pequeno quarto da casa de abrigo cristã para mulheres e crianças, Jenny Henderson abraçou os filhos, Brian e Daniel, de seis e três anos, respetivamente.

— É uma árvore bonita que ajuda as pessoas a sentirem-se felizes com o nascimento de Jesus. As pessoas costumam decorá-la no Natal e colocar, debaixo dela, presentes que compram umas para as outras.

Daniel enrugou o nariz:

— O que é “decorar”? E o que é o “Natal”?

A mãe suspirou. Durante todos os anos que vivera com o pai dos miúdos, ele sempre recusara celebrar fosse o que fosse e por muito que ela lhe pedisse. Não se celebravam aniversários, feriados, e muito menos o Natal. Daí que os rapazes nunca tivessem soprado velas de anos, visto televisão, decorado uma árvore de Natal, pendurado meias, comido um bom jantar de Natal, ou aberto quaisquer presentes.

 Quando a casa dos Henderson se tornou demasiado triste por causa das discussões e das atitudes de controlo e de dominação, Jenny foi viver com os filhos para uma casa de abrigo. Agora, podiam celebrar tudo o que quisessem, incluindo o Natal, juntamente com as outras mães e crianças que lá viviam. Jenny abraçou Daniel:

— Vou aconchegar-vos bem debaixo dos cobertores e contar-vos uma história maravilhosa sobre Jesus e o Natal.

 E contou-lhes, com todos os detalhes, a história da primeira noite de Natal. Depois, falou-lhes da decoração da árvore, da troca de presentes, e da gratidão que devemos a Deus pelo nascimento do Menino Jesus.

— Também quero amar o menino Jesus! — exclamou Brian. — E decorar uma árvore de Natal!

— Eu também quero! — pediu Daniel. — Diz que sim, mamã!

Jenny riu e disse:

— A Sra. Naples, a diretora da casa, disse que, neste sábado, vamos todos fazer uma festa para decorar a árvore de Natal, e que todas as crianças, incluindo vocês os dois, vão poder ajudar.

 Brian e Daniel ficaram tão excitados que tiveram imensa dificuldade em adormecer. E a primeira pergunta que Daniel fez, quando acordou na manhã seguinte, foi:

— Já é sábado? Já podemos decorar a árvore?

Quando chegou a sexta-feira, ouviu-se uma exclamação:

— A árvore já está aqui!

Todas as crianças se precipitaram pelas escadas abaixo e viram três homens a carregar a árvore mais bonita que alguma vez tinham visto. Era tão grande que ia ficando presa na porta. Os homens colocaram-na num pequeno pedestal e todos se juntaram em torno dela. Quase chegava ao teto!

— Podemos decorá-la já? — perguntou Daniel.

A Sra. Naples riu:

— Lembra-te de que ainda é só sexta-feira, Daniel. Vamos decorá-la só amanhã.

Nesse momento, o telefone tocou e a diretora foi atender. Era o pai dos rapazes. Uma vez que nunca tinha sido violento com os filhos, o Sr. Henderson tinha autorização para vir à casa de abrigo buscá-los, para irem fazer visitas em conjunto. Ficou combinado que viria no dia seguinte, justamente à hora em que a árvore ia ser decorada.

É óbvio que os rapazes gostavam do pai. Contudo, o seu desejo de decorar a sua primeira árvore de Natal era tão grande que perguntaram à Sra. Naples se podiam colocar um só ornamento que fosse na sexta-feira. A diretora olhou primeiro para a belíssima árvore e, em seguida, para os dois irmãos e para as outras crianças.

— O que acham, meninos? Acham que este pedido é justo? E se votássemos?

— Vamos votar! — pediram todos.

Pouco depois, todos ajudavam a carregar caixas inteiras de ornamentos, que colocaram em torno da árvore despida. Virando-se para os dois irmãos, a Sra. Naples disse:

— Rapazes, têm uma hora para decorar a árvore como quiserem. Podem tirar o que quiserem das caixas, sem a nossa ajuda. Amanhã, quando estiverem fora, tiramos os ornamentos para que as outras crianças possam ser elas mesmas a colocá-los. Mas hoje é a vossa noite.

A diretora mandou embora as outras crianças e deixou os dois irmãos sozinhos.

Brian e Daniel nunca se tinham sentido tão felizes na vida. Pegaram em cada bola brilhante, em cada grinalda cintilante, em cada conjunto de sincelos tão cuidadosamente, como se fossem feitos de diamantes, e colocaram-nos na árvore com todo o carinho. Algum tempo depois, a Sra. Naples passou pelo átrio para ver como os irmãos se estavam a sair. Em torno dos ramos mais baixos, e tão alto quanto os bracinhos lhes permitiam, Brian e Daniel tinham colocado ornamentos alegres em azul, vermelho, verde, dourado e prateado, aos quais juntaram fiadas de grinaldas e muitos conjuntos de sincelos.

Contudo, em vez de estarem a admirar o seu trabalho, tinham-se ajoelhado e rezavam, de olhos fechados. Brian dizia: “Muito obrigado, querido Jesus, por teres nascido no Natal. E por nos teres deixado decorar a árvore. É o melhor presente de Natal que alguma vez tive.” Daniel acrescentou: “Jesus, quando o nosso pai vier amanhã e vir a nossa bela árvore, faz com que ele goste dela e que não se zangue. Faz com que ele queira gostar de ti.”

Brian pensou por um momento e disse: “Tens razão. Esse é que seria o melhor presente de Natal”.

Bonnie Compton Hanson

Jack Canfield & Mark Victor Hansen

Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer

Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008

(Tradução e adaptação)


Lido  AQUI

3.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXIII

Epílogo

Giovanna, acabara de prender o véu nos cabelos de Eva, quando Isabella entrou para dizer que a limusina já tinha chegado. Eva  ainda não sabia onde ia ser o casamento. André fizera questão de manter o segredo para surpreendê-la, e ninguém na família quisera quebrar a ordem.
Nunca, nem nos seus sonhos mais românticos, ela sonhara viver, como vivera aqueles dez dias. Dois dias antes, chegara o resto da família, que viera de Itália, bem como toda a família portuguesa, que vivia em Braga. E todos sem exceção a acolheram com todo o carinho. Na última noite, André fora dormir no hotel, donde seguiria para a igreja, com a família. Com ela ficaram a futura cunhada Giovana e Isabela, a sobrinha mais velha, filha de Pietro, para a ajudarem a preparar-se para a cerimonia. Agora, seguiam a caminho do local onde o casamento se  realizaria.
Quando a limusina parou junto do portão do orfanato, e viu os portões abertos, guardados por dois seguranças, e o grupo de meninos, rigorosamente vestidos, segurando folhas de palmeira formando um arco para ela passar, a emoção foi tão grande que quase não conseguia andar.
O sogro aproximou-se e deu-lhe o braço para a conduzir à capela, em cujo altar André aguardava ansioso.
Para Eva tudo era um sonho. As meninas todas vestidas a rigor, (saberia mais tarde que tinha sido o noivo e os seus pais, que tinham oferecido as roupas às crianças do orfanato) aguardavam-na perto da capela, muito compenetradas do seu papel de damas de honor, a Irmã Maria interpretando Avé – Maria, de Schubert. André, no altar, de olhos brilhantes e sorriso rasgado, ladeado pelo irmão e cunhada, que iam ser os seus padrinhos, a capela engalanada, a Irmã Madalena no altar, acompanhada de um tio de André, que se seriam os  padrinhos dela. 
A cerimonia decorreu de forma muito emotiva. Quando o padre, os declarou marido e mulher e disse ao noivo que podia beijar a noiva, o beijo foi tão intenso, que todos os presentes aplaudiram. O copo-de-água, no refeitório do orfanato, totalmente engalanado, a alegria das crianças, tudo contribuiu para um dia excecional que ela não esqueceria nem que vivesse várias vidas. Por fim, a emocionada despedida da Irmã Madalena, que só voltaria a ver quando viessem de férias a Portugal e da sua nova família, que iria reencontrar na Toscana, quando voltassem da lua-de-mel, cujo destino ela ainda desconhecia, mas a julgar pelo que vivera até ao momento, seria a continuação de um belo sonho, disso não tinha dúvidas.



 Fim 

Elvira Carvalho

                                      INFORMANDO

Para quem me lê há pouco tempo, devo dizer que as minhas histórias quase todas partem de um assunto que não me agrada, e para o qual quero chamar a atenção, nesta por exemplo, o tema era os malefícios do jogo (lembro-me da minha avó contar uma história de um homem que perdeu a casa e a mulher numa mesa de jogo, nos anos trinta do século passado) e do branqueamento do dinheiro, de atividades ilícitas, através do jogo. À volta desses dois temas criei esta história. Noutras o tema foram a fome, a guerra e os mutilados por bombas em África, a guerra no Afeganistão, a traição entre casais, a inseminação através de esperma de um dador anónimo, a violência doméstica, e as suas consequências na vida adulta das crianças que a sofreram, os acidentes por alcoolismo, etc. 
 As exceções são a "Rosa", retrato de uma época entre 1945 e 1975, que tentei retratar o mais fiel possível, (assisti a muitas das situações lá descritas), bem como em "As Cores do Amor," uma história romanceada entre 1973/1975 onde se descreve o antes e depois do 25 de Abril e o despoletar da guerra em Luanda, que vivi nesse tempo. O "Casamento por Procuração", retrato de uma época entre 1960/1974  cheia destes casamentos, e onde se lembram as fugas de salto para França e as condições quase sub-humanas em que viviam os emigrantes portugueses nos Bidonville, e "Renascer," 1971/1974 todas elas parte da nossa história no século passado. 
Posto isto, resta-me acrescentar que desta vez exagerei no romantismo. Na verdade agi como a fada madrinha para Eva.
Afinal, dizem que quando a idade pesa mais do que nós, ( e eu já estou nessa fase) voltamos a ser crianças. E elas acreditam em fadas.
Agradeço a vossa compreensão.


A nova história tem apenas um capítulo pronto e eu não gosto de fazer publicações antes de entrar na reta final. Por isso e como alguns me pediram "À Média Luz", escrita na mesma época de Dívida de Jogo" será essa que entra para a semana.


25.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VI




Gil escreveu a história daqueles meninos até à idade adulta, e mostrou a uma amiga de outros tempos, agente de alguns grandes nomes na literatura mundial. Não tinha grande esperança de que o manuscrito tivesse muito valor, mas a agente ficou entusiasmada.
"Contrata-me como tua agente, e consigo-te um excelente contrato de exclusividade com uma das melhores editoras mundiais."
Ele aceitou com a condição de utilizar um pseudónimo, e a sua identidade ser absolutamente secreta. Nem nomes, nem fotos, nada. 
E Luna cumpriu o prometido.
O livro foi publicado em simultâneo em Portugal, Espanha, França, Estados Unidos e Brasil, e a primeira edição esgotou em dois dias, talvez fruto de uma boa campanha publicitária da editora, que elevou ao máximo a curiosidade dos leitores, por um escritor que ninguém conhecia. A critica não podia ser mais unânime nos elogios e as edições seguintes em várias línguas, esgotavam-se como pão fresco.
Entusiasmado com o sucesso, e também por pressão da editora, começou a escrever um novo livro desta feita sobre o mundo do futebol. Nele, descreveu os sonhos, os sacrifícios, os treinos diários, as amizades, as intrigas e invejas, as emoções da vitória, o desalento da derrota, as lesões, o medo de não se voltar à mesma forma, quando se sofre uma lesão, o espectro de um fim de carreira muito jovem, sem ter amealhado o suficiente para uma vida digna, pois só uma ínfima parte dos milhões de jogadores em todo o mundo, têm a sorte de se tornarem grandes profissionais pagos a peso de ouro. A grande maioria nunca chega a sair das divisões menores, em clubes pequenos, que não pagam muito, e quando acabam a carreira, não sabem fazer mais nada, pois desde bem pequenos viveram apenas para o sonho de se tornarem um novo Pelé, Eusébio ou Maradona.
E talvez porque não existiam livros sobre o assunto, ou porque existe do público uma grande curiosidade sobre o mundo do futebol, o livro teve um sucesso, ainda maior que o primeiro, esgotando a primeira edição no próprio dia do lançamento. Ninguém a não ser Luna, a sua agente e  o doutor Alcides, o seu advogado, conheciam a sua identidade. Nem mesmo aos irmãos ele tinha contado, embora tivesse oferecido ao irmão um exemplar de cada livro, dizendo-lhe que os lera e gostara.
A ele ainda lhe parecia um sonho, o que se estava a passar. A imprensa já dizia que o autor estava prestes a ultrapassar as vendas de Harry Potter de J. K. Rowling.
A imprensa escrevia, que o autor estava a usar o mistério, como uma arma para vender mais, mas não era esse o caso. Gil cansara da fama. De ser perseguido pelos fotógrafos a toda a hora, de não ter privacidade. Queria que o deixassem sossegado.
E de facto, a pressão dos média desaparecera e ele quase experimentara a doce sensação de ser um cidadão anónimo. Quase, porque havia sempre uma ou outra foto dele, seguida de uma pequena notícia, quando aparecia em algum evento de origem  beneficente, mas era uma coisa momentânea que não o incomodava muito. Esse “estado de graça” terminara, com o circo que a imprensa montara no hospital, no dia do assalto que acabara com a vida de Sara e as múltiplas chamadas que lhe faziam todos os dias a pedir uma entrevista.
Leu e releu o email de Luna. Nele, ela dizia-lhe que um produtor americano queria comprar os direitos do seu primeiro livro para o cinema. Mandava-lhe a cópia da proposta dele e na realidade era excelente.  Mas ele estava indeciso. Por um lado, tinha receio de que o filme deturpasse o verdadeiro sentido do livro, por outro receava ter que aparecer, e não estava preparado para isso.
Não agora. No momento, apenas queria pensar na sua filha, e na luta que era cada novo dia, até ao seu possível nascimento.


Obrigada a todos os que ontem me deixaram mensagens de apoio. Como já expliquei aos que me enviaram mensagens particulares, eu não estou depressiva, nem é a falta de vontade que me tem mantido prostrada, mas uma sucessão de males, que quase todos os anos me atingem no Outono e que este ano talvez pela situação de stress que tenho vivido o ano inteiro vieram todos de enfiada, não me dando tempo a recuperar de um para cair noutro. O último foi uma virose com todos aqueles inconvenientes que vocês conhecem. Tenho tido sempre acompanhamento médico e penso que começo a melhorar, pelo menos já não tenho febre. 
De todo o coração, muito obrigada



18.12.18

O NATAL EM QUE PERDI A INOCÊNCIA



Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa.
Meus pais, e meus avós maternos, diziam que na noite de Natal, o Menino Jesus, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes. 
Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por quatro casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com onze metros de comprimento, ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão.
 Pelo Natal em alguns anos, vinham meus avós maternos, que viviam em Santa Cruz da Trapa, uma aldeia beirã, no concelho de S. Pedro do Sul, afim de passarem o Natal com os filhos, noras, genros e netos. Juntavam-se todos lá no barracão por ser o único sítio onde cabia toda a gente.
Por essa altura já o meu tio, Zé Varandas, e a minha mãe  tinham três filhos cada. 
Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, coisa que não víamos no resto do ano,  minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. As couves e as batatas, eram do quintal que meu pai cultivava à roda da casa, e o bacalhau era comprado na Seca que naquela altura sempre era vendido aos trabalhadores, por um preço especial. Alguns anos, a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar. 
 Não havia rádio, nem televisão, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. 
Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava, abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos, nessa noite em que toda a gente ia para a cama muito tarde. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas Alhas" que era assim. Sentávamos-nos à roda da mesa e cada um tinha um pequeno monte de cinquenta pinhões, não descascados, para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros  "Pinhas alhas" e os outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E cada um dizia um número. Se alguém acertasse  na quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas em compensação recebíamos aquela mesma quantidade de cada um que errara. nas mãos. Era o nosso entretém.
Pelas onze horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém, íamos pôr os tamancos de madeira, que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão, para o Menino Jesus deixar os presentes.
Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano, o Menino Jesus, deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos.
Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos sessenta, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus, que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos, que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, ou até de uma peça de roupa, mais bonita, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez, que ainda não andava na escola, e naquela época entravamos aos sete anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada durante um bom bocado e a certa altura ouvi barulho e saltei da cama, para me confrontar com o Menino Jesus. 
Quando somos crianças, temos tanto de inocência como de atrevimento, de modo que saí decidida do quarto, e  apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós, porque éramos pobres e não tínhamos uma casa de pedra. Chorei tanto, que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus, não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade, as prendas, eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Elvira Carvalho


Nota: Um resumo deste conto foi publicado agora numa coletânea de contos de Natal da Chiado Editora.  Como não pude ir ao lançamento, ainda não tenho o livro, quando tiver publico a foto.
Teve que ser resumido pois eles limitavam os contos a 500 palavras.

7.12.18

A ÁRVORE DE NATAL DE SEXTA-FEIRA



Enquanto vestia o pijama, Brian perguntou:
— Mamã, os outros meninos dizem que vamos ter uma árvore de Natal cá em casa. O que é uma árvore de Natal?
Aconchegados no pequeno quarto da casa de abrigo cristã para mulheres e crianças, Jenny Henderson abraçou os filhos, Brian e Daniel, de seis e três anos, respetivamente.
— É uma árvore bonita que ajuda as pessoas a sentirem-se felizes com o nascimento de Jesus. As pessoas costumam decorá-la no Natal e colocar, debaixo dela, presentes que compram umas para as outras.
Daniel enrugou o nariz:
— O que é “decorar”? E o que é o “Natal”?
A mãe suspirou. Durante todos os anos que vivera com o pai dos miúdos, ele sempre recusara celebrar fosse o que fosse e por muito que ela lhe pedisse. Não se celebravam aniversários, feriados, e muito menos o Natal. Daí que os rapazes nunca tivessem soprado velas de anos, visto televisão, decorado uma árvore de Natal, pendurado meias, comido um bom jantar de Natal, ou aberto quaisquer presentes.
 Quando a casa dos Henderson se tornou demasiado triste por causa das discussões e das atitudes de controlo e de dominação, Jenny foi viver com os filhos para uma casa de abrigo. Agora, podiam celebrar tudo o que quisessem, incluindo o Natal, juntamente com as outras mães e crianças que lá viviam. Jenny abraçou Daniel:
— Vou aconchegar-vos bem debaixo dos cobertores e contar-vos uma história maravilhosa sobre Jesus e o Natal.
 E contou-lhes, com todos os detalhes, a história da primeira noite de Natal. Depois, falou-lhes da decoração da árvore, da troca de presentes, e da gratidão que devemos a Deus pelo nascimento do Menino Jesus.
— Também quero amar o menino Jesus! — exclamou Brian. — E decorar uma árvore de Natal!
— Eu também quero! — pediu Daniel. — Diz que sim, mamã!
Jenny riu e disse:
— A Sra. Naples, a diretora da casa, disse que, neste sábado, vamos todos fazer uma festa para decorar a árvore de Natal, e que todas as crianças, incluindo vocês os dois, vão poder ajudar.
 Brian e Daniel ficaram tão excitados que tiveram imensa dificuldade em adormecer. E a primeira pergunta que Daniel fez, quando acordou na manhã seguinte, foi:
— Já é sábado? Já podemos decorar a árvore?
Quando chegou a sexta-feira, ouviu-se uma exclamação:
— A árvore já está aqui!
Todas as crianças se precipitaram pelas escadas abaixo e viram três homens a carregar a árvore mais bonita que alguma vez tinham visto. Era tão grande que ia ficando presa na porta. Os homens colocaram-na num pequeno pedestal e todos se juntaram em torno dela. Quase chegava ao teto!
— Podemos decorá-la já? — perguntou Daniel.
A Sra. Naples riu:
— Lembra-te de que ainda é só sexta-feira, Daniel. Vamos decorá-la só amanhã.
Nesse momento, o telefone tocou e a diretora foi atender. Era o pai dos rapazes. Uma vez que nunca tinha sido violento com os filhos, o Sr. Henderson tinha autorização para vir à casa de abrigo buscá-los, para irem fazer visitas em conjunto. Ficou combinado que viria no dia seguinte, justamente à hora em que a árvore ia ser decorada.
É óbvio que os rapazes gostavam do pai. Contudo, o seu desejo de decorar a sua primeira árvore de Natal era tão grande que perguntaram à Sra. Naples se podiam colocar um só ornamento que fosse na sexta-feira. A diretora olhou primeiro para a belíssima árvore e, em seguida, para os dois irmãos e para as outras crianças.
— O que acham, meninos? Acham que este pedido é justo? E se votássemos?
— Vamos votar! — pediram todos.
Pouco depois, todos ajudavam a carregar caixas inteiras de ornamentos, que colocaram em torno da árvore despida. Virando-se para os dois irmãos, a Sra. Naples disse:
— Rapazes, têm uma hora para decorar a árvore como quiserem. Podem tirar o que quiserem das caixas, sem a nossa ajuda. Amanhã, quando estiverem fora, tiramos os ornamentos para que as outras crianças possam ser elas mesmas a colocá-los. Mas hoje é a vossa noite.
A diretora mandou embora as outras crianças e deixou os dois irmãos sozinhos.
Brian e Daniel nunca se tinham sentido tão felizes na vida. Pegaram em cada bola brilhante, em cada grinalda cintilante, em cada conjunto de sincelos tão cuidadosamente, como se fossem feitos de diamantes, e colocaram-nos na árvore com todo o carinho. Algum tempo depois, a Sra. Naples passou pelo átrio para ver como os irmãos se estavam a sair. Em torno dos ramos mais baixos, e tão alto quanto os bracinhos lhes permitiam, Brian e Daniel tinham colocado ornamentos alegres em azul, vermelho, verde, dourado e prateado, aos quais juntaram fiadas de grinaldas e muitos conjuntos de sincelos.
Contudo, em vez de estarem a admirar o seu trabalho, tinham-se ajoelhado e rezavam, de olhos fechados. Brian dizia: “Muito obrigado, querido Jesus, por teres nascido no Natal. E por nos teres deixado decorar a árvore. É o melhor presente de Natal que alguma vez tive.” Daniel acrescentou: “Jesus, quando o nosso pai vier amanhã e vir a nossa bela árvore, faz com que ele goste dela e que não se zangue. Faz com que ele queira gostar de ti.”
Brian pensou por um momento e disse: “Tens razão. Esse é que seria o melhor presente de Natal”.


Bonnie Compton Hanson
Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
(Tradução e adaptação)


6.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE VIII




 - Demoraste tanto. Os miúdos estão fartos de perguntar por ti, - disse a mãe mal ela entrou em casa.
- Estava muita gente no registo, acabei por perder o autocarro das onze. Onde estão eles?
- Lá atrás no quintal. O teu pai está com eles. E então, já estavam prontos os documentos?
-Já, -respondeu saindo para o quintal.
-Mãe, mãe, - gritaram os dois catraios correndo para ela.
 Baixou-se e abriu os braços para os receber. Eram dois meninos morenos de cabelo escuro, quase do mesmo tamanho, apesar de Simão ser quase dois anos mais velho que o irmão. Enquanto os apertava ao peito, não deixava de pensar na proposta da amiga.
- Ainda bem que chegaste. Vê tu que o Simão me perguntou se tinhas ido viajar como o pai. Não era melhor dizer-lhes logo a verdade?
- Quando chegar a hora eu conto, pai.
- Vão crescer enganados. No meu tempo não se escondiam essas coisas.
- Está bem pai. Mas agora é diferente.
O pai entrou em casa sem responder.
-Mãe, sabes que os coelhinhos já saíram do ninho? São tão "pequininos". Queres ver? – Perguntou o filho mais novo.
-Mais logo, filho. Agora vamos para dentro. Está quase na hora do almoço e vocês estão todos sujos. Vamos para a casa de banho.
Pegou nele ao colo e com o outro pela mão entrou em casa.
Depois de os lavar, deixou-os na sala a ver os desenhos animados e foi para a cozinha ajudar a mãe a acabar de por a mesa. Aproveitando que o pai tinha saído de novo para o quintal e as crianças estavam a ver TV, Francisca perguntou à mãe o que ela pensava se voltasse a casar. Ao contrário do que esperava a mãe não se escandalizou.
-Penso que isso era o melhor que podias fazer por ti e pelos miúdos. Eles precisam de um pai e tu estás viúva, há mais de três anos. Mas é preciso cuidado. Nem todos os homens aceitam criar os filhos dos outros com carinho. Por outro lado, não podes estar toda a vida dependente de nós. Um dia destes dá-nos uma “macacoa” qualquer e lá vamos nós. Já dizia a tua avó. “Quem de novo não vai, de velho não escapa.” Mas porque me fazes essa pergunta hoje? Tens algum pretendente?
Não se atreveu a contar à mãe a proposta da amiga.
-Não mãe. Foi só uma coisa que me passou pela cabeça
- Então vai desligar a televisão e trás os miúdos para a mesa que eu vou chamar o teu pai.  


reedição



2.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXVI



 Aquele domingo marcou o início de uma nova vida para Amélia e o filho. Conheceram Alfredo e a família. A jovem percebeu a forte amizade entre o caseiro e o dono da propriedade, e entendeu o desejo deste, de partilhar com o seu irmão de criação a herdade.
Martim, logo fez amizade com os dois meninos, mas sobretudo encantou-se com Matilde, uma bonequinha loira de três anos, sempre atrás deles e a querer entrar nas brincadeiras dos manos. A avó entabulou uma longa conversa com Augusta, a mãe de Alfredo. Noutros tempos, quando os respetivos maridos, eram vivos, encontravam-se de vez em quando para confraternizar. Depois que ficaram viúvas, ambas se entregaram à sua dor e se meteram em casa, deixando de lado o convívio social. Agora conversavam animadas trocando recordações, e vivências. Depois do almoço, Paulo aproveitou que as mulheres estavam entretidas na cozinha, e Alfredo ia levar as crianças a ver os animais, para convidar Amélia a dar um passeio pela herdade. Encaminharam-se na direção do rio.
. Dá para perceber que eles gostam muito de ti.
- Como eu deles. Na verdade pode dizer-se que são a minha única família. Daí a minha ideia de lhes doar metade desta herdade.
- Comentaste isso alguma vez com eles?
-Achas? Se nem eu mesmo tinha pensado nisso até que vi a dimensão atual da quinta e vi os filhos deles. Pensei que eles mereciam ter mais oportunidades na vida, do que as que são dadas aos filhos dum simples caseiro. Incomoda-te a minha decisão?
- Porque havia de me incomodar? Os bens são teus.
- Mas eu fiz-te uma proposta. E se nos casarmos?
- Se eu aceitar casar contigo, não será pelo teu dinheiro, mas porque soubeste chegar ao meu coração. Toda a vida tenho trabalhado para me sustentar e ao meu filho.
Ele parou. Pôs-lhe as mãos nos ombros e atraiu-a para si. Sem desviar os seus olhos dos dela, baixou o rosto e os seus lábios poisaram sobre a boca feminina. Primeiro suavemente, numa carícia tão suave como o roçar de uma pena, depois mais intenso, a sua língua impaciente, forçou a boca dela, que se abriu e entregou, como um botão de rosa que desabrocha, sob um intenso raio solar.
As mãos grandes e nervosas do homem introduziram-se por baixo da blusa dela acariciando-lhe as costas, para depois, desapertar o sutiã, e acariciar-lhe os seios, enquanto a apertava contra o tronco de uma árvore o corpo dele, pressionando o dela, fazendo-lhe sentir a sua excitação.
O chamamento de Martim ao longe suou, como uma campainha de alarme, aos ouvidos dos dois que se largaram imediatamente. Amélia baixou os olhos envergonhada, enquanto Paulo a ajudava a compor a roupa. Ele estava encantado com a mulher apaixonada que acabara de descobrir, ela envergonhada pela sua reação às carícias masculinas.
- Meu Deus! Isto não devia ter acontecido!
- Porquê? Isto é a prova da química que há entre nós. Não podemos lutar contra os sentimentos. Vá lá, querida, diz que sim, que me aceitas na vossa vida e que vamos formar uma família feliz.


Nota: 1 Este episódio parece um final, mas só parece. Não esqueçam que gato escaldado de água fria tem medo, e Amélia jurou não cair noutra quando soube da traição do marido. 

Nota 2  A minha princesa faz 9 anos no domingo. E sou eu que estou a preparar a festinha dela. De modo que não sei se conseguirei visitar-vos a todos, hoje e amanhã.

31.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE VIII





 - Demoraste tanto. Os miúdos estão fartos de perguntar por ti, - disse a mãe mal ela entrou em casa.
- Estava muita gente no registo, acabei por perder o autocarro das onze. Onde estão eles?
- Lá atrás no quintal. O teu pai está com eles. E então, já estavam prontos os documentos?
-Já, -respondeu saindo para o quintal.
-Mãe, mãe, - gritaram os dois catraios correndo para ela.
 Baixou-se e abriu os braços para os receber. Eram dois meninos morenos de cabelo escuro, quase do mesmo tamanho, apesar de Simão ser quase dois anos mais velho que o irmão. Enquanto os apertava ao peito, não deixava de pensar na proposta da amiga.
- Ainda bem que chegaste. Vê tu que o Simão me perguntou se tinhas ido viajar como o pai. Não era melhor dizer-lhes logo a verdade?
- Quando chegar a hora eu conto, pai.
- Vão crescer enganados. No meu tempo não se escondiam essas coisas.
- Está bem pai. Mas agora é diferente.
O pai entrou em casa sem responder.
-Mãe, sabes que os coelhinhos já saíram do ninho? São tão "pequininos". Queres ver? – Perguntou o filho mais novo.
-Mais logo filho. Agora vamos para dentro. Está quase na hora do almoço e vocês estão todos sujos. Vamos para a casa de banho.
Pegou nele ao colo e com o outro pela mão entrou em casa.
Depois de os lavar, deixou-os na sala a ver os desenhos animados e foi para a cozinha ajudar a mãe a acabar a pôr a mesa. Aproveitando que o pai tinha saído de novo para o quintal e as crianças estavam a ver TV, Francisca perguntou à mãe o que ela pensava se voltasse a casar. Ao contrário do que esperava a mãe não se escandalizou.
-Penso que isso era o melhor que podias fazer por ti e pelos miúdos. Eles precisam de um pai e tu estás viúva, quase há um ano. Mas é preciso cuidado. Nem todos os homens aceitam criar os filhos dos outros com carinho. Por outro lado, não podes estar toda a vida dependente de nós. Um dia destes dá-nos uma “macacoa” qualquer e lá vamos nós. Já dizia a tua avó. “Quem de novo não vai, de velho não escapa.” Mas porque me fazes essa pergunta hoje? Tens algum pretendente?
Não se atreveu a contar à mãe a proposta da amiga.
-Não mãe. Foi só uma coisa que me passou pela cabeça
- Então vai desligar a televisão e trás os miúdos para a mesa que eu vou chamar o teu pai.