- Já
não chama. Ou ele desligou o telemóvel, ou ficou sem bateria – disse Marco.
- Nem
uma coisa nem outra - disse Laura com voz trémula, esforçando-se para não
chorar. - O Gil nunca faria isso. Ele mantinha-se sempre em contacto com a casa desde que a filha nasceu. Meu Deus deve ter tido algum acidente, esta maldita
tempestade…
- Não
nos precipitemos, o melhor que podemos fazer agora, é irmos à polícia - disse
Alcides. Se ele teve algum acidente, eles têm o registo e podemos saber para
que hospital foi levado. Posso ir sozinho, ou vamos todos.
- Vamos
todos, claro – respondeu Marco.
-
Esperem só dois minutos enquanto vou buscar um casaco e calçar uns sapatos –
disse Laura dirigindo-se apressada para o quarto.
Meia
hora depois estavam no posto de polícia onde um agente depois de os ter ouvido,
verificava no computador, se havia algum registo de acidentes durante a noite
na autoestrada do Norte. A tempestade
tinha fustigado a Península Ibérica, atingindo a maior intensidade entre a meia
noite e as cinco da manhã desde a Galiza até Coimbra. Havia registos de muitas
árvores arrancadas, casas destelhadas, rios que galgaram as margens inundando
habitações ribeirinhas, mas não havia nenhum registo de acidente na estrada.
-
Mas o meu irmão telefonou a dizer que vinha na autoestrada a caminho de casa e
não chegou.
-Talvez
se tenha apercebido que não podia continuar e tenha pernoitado em algum
hotel, - disse o agente.
-Não
há hotéis na autoestrada – insistiu Laura.
- Mas há saídas para as localidades.O mais natural é que tenha saído e esteja nalgum hotel, à espera de que passe a
tempestade, que apesar de já ter tido, o seu pico máximo de intensidade, ainda
está bastante forte lá para o Norte.
Foi a vez de Marco afirmar:
-Teria
telefonado.
-Se
conseguisse. Há muitas localidades sem eletricidade, nem telefone. O telemóvel pode ter ficado sem bateria e não haver eletricidade para o carregar. De qualquer
modo não posso ajudá-los mais. Aconselho-os a irem para casa e aguardarem, ele pode
dar notícias a qualquer momento, - disse-lhes o polícia.
Alcides
tirou da carteira um cartão e entregou-o ao agente dizendo:
-
Por favor se chegar algum registo de acidente, telefone-me.
Saíram
da esquadra e entraram no automóvel para regressarem a casa.
-Laura,
porque não telefonas à Celeste? Pode ser que o Gil já tenha dado notícias –
disse Alcides.
-
Não acredito. A Celeste teria telefonado para mim, imediatamente. Sabe que
fiquei muito preocupada.
-
De qualquer modo não se perde nada em tentar - disse Marco ao mesmo tempo
que marcava o número da casa do irmão
Ao
terceiro toque Celeste atendeu:
-
Residência do senhor Gil Gaspar, bom dia.
- Bom
dia, Celeste, fala o Marco. O meu irmão já deu notícias?
-
Não senhor. Não disse nada desde ontem à noite. Estamos todas muito
preocupadas.
- Estivemos
na polícia e não há registo de acidentes na autoestrada. O tempo está muito
mau, talvez esteja à espera que melhore. Entretanto se ele telefonar ligue-nos
logo.
-Fique
descansado, senhor Marco.






