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1.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIII


Mário não tinha ido almoçar. Precisava estudar a carteira de clientes. Riscar algum que tivesse falido, contactar os que tinham diminuído as encomendas, procurar no mercado novos possíveis clientes. Não adiantava, pôr a empresa a produzir muito se não tivesse clientes para escoar o produto.
Apercebeu-se que o pessoal no escritório ao lado, tinha regressado do almoço. Premiu a campainha de chamada da sua secretária. Logo em seguida, bateram à porta e Luísa entrou.
- Chamou, senhor?                                           
- Sim. – Não levantou os olhos do que estava a fazer. – Pode trazer-me uma sandes e um café, por favor?
- Simples, ou mista?
- Mista. E o café bem forte, e sem açúcar.
- Muito bem, senhor. Volto já.
Efetivamente voltou pouco depois com uma bandeja, onde trazia, a sandes pedida, um guardanapo, uma chávena de café e um bule com o aromático líquido, que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa, senhor?
O homem levantou a cabeça e olhou para ela. Esboçou um sorriso.
- Sei que é a minha secretária pessoal. Vou precisar muito da sua colaboração, e vamos ter que trabalhar muitas vezes em conjunto. Sou exigente, mas sei reconhecer quem é eficiente. Irrita-me que me esteja a chamar senhor, de minuto a minuto. Isto não quer dizer que seja dado a intimidades com quem trabalha comigo, entendeu?
- Sim … claro – Ia dizer senhor, mas emendou a tempo.
- Muito bem. Pode retirar-se.
Uma hora mais tarde a luz da campainha acendeu-se de novo na secretária de Luísa. Levantou-se e …
- Chamou?
Sim. Pode levar a bandeja. E de seguida pesquise-me as empresas
que vendem os componentes de que precisamos. Não as atuais fornecedoras, mas outras que existam no mercado. Preciso de todos os nomes, e números de telefone aqui, o mais depressa possível. 
Levantou-se.
- Se precisar de mim, estou nos Recursos Humanos.
Foi impressão sua, ou ela sobressaltou-se? Ia jurar que um lampejo de medo perpassou pelo seu olhar.
Luísa saiu pela porta que dava para o escritório, e ele dirigiu-se à outra porta e fez o mesmo


BOA TARDE AMIGOS. AMANHÃ ESTAREI DE NOVO NA CLÍNICA EM LISBOA, PARA SABER O QUE OS MÉDICOS TENCIONAM FAZER COM O MEU OLHO. ESTOU CANSADA, E A  PERDER A ESPERANÇA.

19.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXVII




Setembro estava a chegar ao fim. Cláudio saiu da adega, depois de ter mexido o mosto, e verificado o açúcar do vinho que estava no seu processo de fermentação. Ia sentar-se no alpendre mas ao ver o pai, fez menção de entrar em casa.   O pai gorou-lhe a intenção.
- Senta-te filho. Precisamos conversar.
 Sentou-se de má vontade. Não queria falar com ele, se pudesse nem queria vê-lo. Não conseguia esquecer a imagem do pai a entrar no hotel com a jovem Helena. Dois dias depois, ao retirar o correio, viu uma carta do hotel dirigida ao pai. Claro, ele devia estar a pagar-lhe as despesas. Durante as vindimas o pai não tinha ido a Viseu, mas várias vezes o surpreendeu ao telemóvel, todo carinhoso. E naquela tarde ele voltara à cidade. Cláudio toda a vida amara e respeitara aquele homem com se fora o seu pai. Houve uma altura em que Jorge quisera adotá-lo. Cláudio tinha então dez anos, tinha perdido o pai havia quatro anos. Lembrava-se bem do progenitor, parecera-lhe que a adoção seria uma traição à memória do pai, e não quis que Jorge o adotasse. Disse à mãe que fugiria se eles levassem aquela ideia adiante. Mas quando tinha catorze anos, seduzido pelo amor que o marido da mãe lhe dedicava, começou a chamar-lhe pai. E nunca se arrependeu. Até descobrir que o pai não só traía a mãe, como o fazia com a única mulher do mundo  que não podia fazê-lo. A mulher que ele amava. Aquela com quem sonhava todas as noites, a mulher que não lhe saía do pensamento apesar de saber da sua indignidade. Tinha horas, em que lhe apetecia desaparecer, para não ter de encarar o pai.
- Queres dizer-me o que se passa contigo? Porque andas com essa cara de quem comeu e não gostou e foges do nosso convívio? A tua mãe já anda preocupada.
Apertou os punhos, furioso.
- Será que não sabes? Como podes ser tão cínico? “Se pensas que eu era capaz de trair a tua mãe, não me conheces. Amo-a mais do que a mim mesmo” – disse imitando o jeito de falar do pai.  És um hipócrita. Julgas que eu não sei que tens uma amante?
- Baixa a voz, Cláudio. Que a tua mãe não oiça tal disparate!
- Isso, finge que te preocupas com ela. Mas não penses que me enganas.
- Não sei o que te disseram, mas não te admito que me faltes ao respeito.
- Que respeito, julgas que me mereces, quando te vejo levar para um hotel uma jovem mais nova que eu, enquanto a mãe estava a convalescer da cirurgia? E não me venhas dizer que é mentira, eu vi, ninguém me contou.
Furioso, Jorge levantou-se e dirigiu-se ao filho. Cláudio pensou que o pai lhe ia bater, e preparou-se para se defender. Apesar de toda a raiva acumulada durante aqueles dias, um resto de respeito impedia-o de revidar, se o pai o agredisse. Porém Jorge limitou-se a passar por ele ordenando.
- Vem comigo ao escritório. Agora!
E sem ver se o filho o seguia, ou não, encaminhou-se para o aposento.



1.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXI


Senhas de racionamento.

 Pouco antes do término do racionamento do açúcar,  sem senhas e com falta dele para as crianças, o Manel apostou com o amigo Bernardino, que faria os três quilómetros até à estação dos barcos no Barreiro em menos de 15 minutos. Se ganhasse, o amigo dava-lhe a sua senha para o açúcar. Se perdesse, ele ia sachar uma "courela" na quinta. Feita a aposta o Manuel lá foi a correr, sempre acompanhado pelo Aires e pelo Firmino, dois dos vigias da Seca que o acompanharam de bicicleta.. Percorreu a distância em 12 minutos controlados pelos dois. Ficou estoirado, mas ganhou a senha para o açúcar. E os filhos não tiveram que tomar o mata-bicho amargo.
Em Março desse mesmo ano, acabou o racionamento do açúcar, ao mesmo tempo que o seu preço baixava. Uma boa nova para o Manuel, já que se gastava bastante açúcar com as sopas de café, e até para misturar à banha, com que se barrava o pão para o lanche das crianças.
O chiqueiro continua vazio à espera do leitão que ainda não conseguiu comprar, e o terreno à volta sem cultivar por falta de água.
 Mas ele aprendeu a apanhar no rio Lambujinhas, e canivetes.  Nos seus tempos livres, sempre que a maré estava vazia, o Manuel arregaçava as calças quase até à virilha, pegava uma lata de zinco, e lá se fazia ao lodo. Voltava todo sujo, mas quase sempre com comida para uma ou duas vezes.
Porque se algo atormentava o Manuel, era o pensamento de que a família passasse fome. Tudo o resto era naquela altura de somemos importância para ele. Com a barriga cheia tudo se enfrenta melhor , era o que sempre dizia.
Por vezes, Manuel participava com alguns amigos pescadores na pesca por cerco no rio. Eles espetavam estacas em circulo, numa parte do rio. Presa nas estacas, uma rede. Faziam-no com a maré cheia. Quando ela começava a vazar, todo o peixe que estava no circulo tentava acompanhar a água e ficava preso na rede. Manuel não era pescador, nem o pessoal que vivia na Seca fazia "cercos" Mas como morava ali à beirinha do rio, às vezes dava uma ajudinha aos pescadores, e estes sempre compensavam com uns peixes.
Nas noites quentes de Verão o Manuel senta nas escadas de madeira, que dão acesso ao barracão, pega o filho ao colo, olha as estrelas e sonha. Sonha com um poço, que lhe permita cultivar o terreno à volta da casa, sonha com o porco no chiqueiro, sonha com uma bicicleta, e pouco mais. Manuel anda muito cansado e também preocupado. A mulher nunca mais foi a mesma desde o parto do filho mais novo. Enquanto acaricia o miúdo, ele engole as lágrimas de remorsos sentindo-se culpado. Se ele não quisesse tanto um filho… Se ela não tivesse ficado grávida logo de seguida ao parto da miúda…
Se ele tivesse dinheiro para a levar a um bom médico… se...se...
A vida do Manuel era uma sequência de ses…