Recolheu as sertãs de barro onde servira o Bacalhau com Natas, e serviu as Codornizes acompanhadas por uma travessa de legumes salteados. Recebeu os elogios da jovem com um sorriso de agrado e, colocou uma garrafa de vinho tinto “Contos da Terra “ reserva 2015 ao lado da garrafa “Conde da Ervideira” branco reserva 2016, com que tinham estado a acompanhar o prato anterior e retirou-se desejando” bom apetite.”
- Não é uma casa demasiado grande para uma só pessoa?-
Perguntou a jovem mal a governanta saiu.
-Tenho uma outra empregada, que só não viste, porque hoje
é o dia da sua folga. A governanta folga aos domingos. De resto a empresa que
abastece os restaurantes abastece a casa, e a limpeza é feita pela mesma
empresa que a faz nos escritórios. Também tenho um sofisticado sistema de
alarme que só é desligado por código da pessoa que vai entrar, ou quando como
hoje eu avisei que estavas a caminho, e forneci indicações sobre ti e o teu
carro. Retomamos o almoço?- Perguntou estendendo a mão para a garrafa de vinho tinto.
- Desculpa, não
podemos continuar com o anterior? Não estou habituada a beber ao almoço, muito
menos vinhos de diferentes graduações e regiões. Lembra-te que às três horas tenho que
estar na igreja e não quero ir a trocar as pernas.
-Podemos fazer o que quisermos. Se bem que as codornizes,
como são estufadas em vinho do Porto, ficam melhor acompanhadas com vinho tinto,
mais encorpado. Pelo menos é o que recomenda a etiqueta. Mas como deves saber, não sou homem de etiquetas. Tenho por
lema, que o que nos sabe bem é que importa, mesmo que a etiqueta não esteja de
acordo. O que achas das codornizes?
-Estão deliciosas! Graças a Deus, não sou de engordar
fácil, senão amanhã tinha que perder umas horas no ginásio.
- Ginásio? Não precisas, estás ótima.
-Obrigada.
- Queres repetir? Ou peço a sobremesa?
-Não como mais nada. São duas horas e ainda tenho de
fotografar o jardim antes de ir falar com o padre.
-E café?
- Café, sim aceito. Simples e sem açúcar.
- Não queremos sobremesa. Apenas os cafés simples e sem
açúcar, - pediu o dono da casa, à empregada enquanto ela retirava da mesa, a
loiça do almoço e a colocava no carrinho para levar de volta para a cozinha.
- Acompanho-te à igreja, - disse ele logo que a empregada
saiu da sala.
- Tiraste o dia para me pajear? – Já te disse que
prefiro ir sozinha.
- Isso porque talvez não saibas o poder que tem uma boa
doação para a igreja. Vais ver que será muito mais fácil qualquer acordo depois
disso. As paróquias portuguesas estão sempre a precisar de qualquer restauro
para o qual nunca há dinheiro.
A governanta entrou com os cafés, o que impediu a
resposta da jovem.
Mal terminaram de saborear a bebida Paula pôs-se de pé
dizendo:
- Vou tirar as fotos ao jardim, e à parte de trás da casa.
Como a festa começará a meio da tarde, preciso ver onde o sol está a incidir
para que a decoração seja a ideal.
- Vou ao escritório, criar um código de segurança para que possas entrar e sair sem problemas. Já vou ter contigo.
Paula saiu para o jardim e pegando no telemóvel, foi
tirando várias fotografias enquanto se dirigia para o lago no centro do jardim.
Fotografou igualmente o portão de entrada, e por fim voltou-se e fotografou a
moradia precisamente no momento em que António descia os três degraus do
alpendre. Corou envergonhada, e pensou apagar a foto e tirar outra depois que o
homem chegasse junto de si, mas acreditando que ele não se apercebera acabou
por não fazê-lo.
-Já fotografaste tudo o que querias?- Perguntou ele ao chegar junto dela.
- Deste lado sim. Vens comigo ao outro lado?
- Vou contigo até ao fim do mundo se me deixares.
- Voltou o sedutor, - retorquiu a jovem, adiantando-se
para que ele não notasse a sua perturbação.

