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13.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXIV








Recolheu as sertãs de barro onde servira o Bacalhau com Natas, e serviu as Codornizes acompanhadas por uma travessa de legumes salteados. Recebeu os elogios da jovem com um sorriso de agrado e, colocou uma garrafa de vinho tinto “Contos da Terra “ reserva 2015 ao lado da garrafa “Conde da Ervideira” branco reserva 2016, com que tinham estado a acompanhar o prato anterior e retirou-se desejando” bom apetite.”
- Não é uma casa demasiado grande para uma só pessoa?- Perguntou a jovem mal a governanta saiu.
-Tenho uma outra empregada, que só não viste, porque hoje é o dia da sua folga. A governanta folga aos domingos. De resto a empresa que abastece os restaurantes abastece a casa, e a limpeza é feita pela mesma empresa que a faz nos escritórios. Também tenho um sofisticado sistema de alarme que só é desligado por código da pessoa que vai entrar, ou quando como hoje eu avisei que estavas a caminho, e forneci indicações sobre ti e o teu carro. Retomamos o almoço?- Perguntou estendendo a mão para a garrafa de vinho tinto.
 - Desculpa, não podemos continuar com o anterior? Não estou habituada a beber ao almoço, muito menos vinhos de diferentes graduações e regiões. Lembra-te que às três horas tenho que estar na igreja e não quero ir a trocar as pernas.
-Podemos fazer o que quisermos. Se bem que as codornizes, como são estufadas em vinho do Porto, ficam melhor acompanhadas com vinho tinto, mais encorpado. Pelo menos é o que recomenda a etiqueta. Mas como deves saber, não sou homem de etiquetas. Tenho por lema, que o que nos sabe bem é que importa, mesmo que a etiqueta não esteja de acordo. O que achas das codornizes?
-Estão deliciosas! Graças a Deus, não sou de engordar fácil, senão amanhã tinha que perder umas horas no ginásio.
- Ginásio? Não precisas, estás ótima.
-Obrigada.
- Queres repetir? Ou peço a sobremesa?
-Não como mais nada. São duas horas e ainda tenho de fotografar o jardim antes de ir falar com o padre.
-E café?
- Café, sim aceito. Simples e sem açúcar.
- Não queremos sobremesa. Apenas os cafés simples e sem açúcar, - pediu o dono da casa, à empregada enquanto ela retirava da mesa, a loiça do almoço e a colocava no carrinho para levar de volta para a cozinha.
- Acompanho-te à igreja, - disse ele logo que a empregada saiu da sala.
- Tiraste o dia para me pajear? – Já te disse que prefiro ir sozinha.
- Isso porque talvez não saibas o poder que tem uma boa doação para a igreja. Vais ver que será muito mais fácil qualquer acordo depois disso. As paróquias portuguesas estão sempre a precisar de qualquer restauro para o qual nunca há dinheiro.
A governanta entrou com os cafés, o que impediu a resposta da jovem.
Mal terminaram de saborear a bebida Paula pôs-se de pé dizendo:
- Vou tirar as fotos ao jardim, e à parte de trás da casa. Como a festa começará a meio da tarde, preciso ver onde o sol está a incidir para que a decoração seja a ideal.
- Vou ao escritório, criar um código de segurança para que possas entrar e sair sem problemas. Já vou ter contigo.
Paula saiu para o jardim e pegando no telemóvel, foi tirando várias fotografias enquanto se dirigia para o lago no centro do jardim. Fotografou igualmente o portão de entrada, e por fim voltou-se e fotografou a moradia precisamente no momento em que António descia os três degraus do alpendre. Corou envergonhada, e pensou apagar a foto e tirar outra depois que o homem chegasse junto de si, mas acreditando que ele não se apercebera acabou por não fazê-lo.
-Já fotografaste tudo o que querias?- Perguntou ele ao chegar junto dela.
- Deste lado sim. Vens comigo ao outro lado?
- Vou contigo até ao fim do mundo se me deixares.
- Voltou o sedutor, - retorquiu a jovem, adiantando-se para que ele não notasse a sua perturbação.


12.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXIII


- E agora que já conheces a casa, que te parece?
-Muito bonita, mas se queres uma opinião sincera, falta-lhe alma. Aposto que escolheste um decorador famoso, e lhe entregaste o trabalho, sem pores nada teu nela. Acertei?
- Na "mouche". Contratei o Fernando Lins. O que achas mal?
-Não é que ache mal, a decoração está linda. Só que tanto pode ser a tua casa, como a minha, ou a de outro qualquer que tenha dinheiro para pagar um bom decorador. Percebes? Por exemplo eu sei que tens um grande amor à tua família. E não vi na casa uma moldura, um quadro, nada que me dissesse que tens uma família que amas. Bem sei que atualmente não se usam molduras, mas repara há fotos que são verdadeiras obras de arte. Então porque não ampliá-las e usá-las em vez dos quadros, pelo menos nos locais onde decerto passarás mais tempo, por exemplo no escritório?
- Entendo. Aceitarias fazer esse trabalho para mim?- Perguntou enquanto afastava a cadeira para ela se sentar à mesa.
- Não me costumo dedicar à decoração fora do âmbito das festas. E além disso o nosso contrato termina no fim do mês.
Alice, a governanta, entrou empurrando um carrinho com o almoço. Colocou na mesa o Bacalhau com Natas dizendo:
-Como o senhor não me deu qualquer indicação para o almoço, tomei a liberdade de perguntar à menina se gostava de dois dos seus pratos preferidos, e como a resposta foi positiva fiz Bacalhau com Natas e Codornizes à minha Moda. Espero que seja do vosso agrado.
-Muito bem. Pode retirar-se. Chamarei quando terminarmos o primeiro prato. 
Esperou a saída de empregada e disse voltando-se para a jovem:
-Apraz-me verificar que temos gostos semelhantes na gastronomia. Mas voltando à minha proposta. Gostaria muito que pensasses nela.
- Parece-me que estás a tentar envolver-me numa teia de sedução. Como se na verdade aquela absurda proposta de casamento continuasse na tua cabeça. Gostaria que fosses sincero comigo.
-Porquê absurda?
-Disse-te o que pensava de casamentos por interesse.
Eu sei. Mas acredita que um casamento entre nós, não será nem um pouco por interesse. Até porque no final do mês, o teu pai recuperará a firma e a credibilidade junto dos meios financeiros. Não voltarei a interferir nos seus negócios, dou-te a minha palavra. Sei que tiveste uma relação com um médico e que a terminaste a poucos meses do casamento. Dado que ele se casou pouco depois com uma enfermeira da sua equipa e já foi pai, não é preciso ser um “expert” para saber que não te respeitou.
- Andaste a investigar-me?
-Não, mas investiguei-o a ele após a vossa rotura. Calculo que não terá sido fácil para ti veres ruir os teus sonhos de um momento para o outro. Mas passaram quase dois anos. É tempo de esqueceres o que se passou e dares a ti mesma uma nova oportunidade de seres feliz. É desse momento que estou à espera.
-E se eu te disser que deixei de acreditar nos homens, e no amor?
- Eu direi que és demasiado inteligente para julgares todos os homens, pelos erros de um.
António carregou num botão na parte inferior do tampo da mesa, e segundos depois a governanta, voltava à sala com o carrinho de serviço.