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21.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE I




-Como é que ela se portou?- perguntou a jovem ao entrar em casa.
- Muito bem. É um amor. Não dá trabalho nenhum – respondeu a mulher com um sorriso. – Conseguiu alguma coisa?
-O costume. Darão uma resposta mais tarde. O pior é que já não posso esperar muito mais. Preciso de arranjar trabalho com urgência. O subsídio de desemprego está quase a acabar, o pouco dinheiro que tinha amealhado está quase no fim, e as necessidades dela são cada vez maiores.
- A Isabel sabe, que enquanto eu puder não lhe vai faltar nada, nem a si nem à menina. Não tenho mais família do que um sobrinho do meu falecido marido, que nem sei se ainda é vivo, pois desde que há dez anos emigrou para a Austrália, nunca mais deu notícias. E demais gosto das duas como se fossem realmente da minha família.
- A Natália é um amor, e eu agradeço muito, mas já basta cuidar da Matilde, sem cobrar nada. É uma grande ajuda, pois neste momento não posso pagar uma creche, e não posso continuar à procura de trabalho, com ela ao colo. Guarde as suas economias, não pode gastá-las connosco, nunca se sabe o dia de amanhã. Eu preciso mesmo de trabalhar, nem que seja a ganhar o ordenado mínimo. É apertado, mas desde que dê para as necessidades básicas, já me dou por feliz.
-Desculpe voltar ao mesmo. Mas custa-me vê-la nessa aflição. Não entendo porque a sua irmã não entrou em contacto com o pai da Matilde. Registou a bebé com o nome dele.
- Sabe como era a Susana, não se abria muito, não sei o que aconteceu para terminarem. Só me disse que o encontrou um dia no Vasco da Gama, e ele fingiu não a conhecer. A Susana ficou de rastos. Pôs o nome dele no registo da menina, por entender que a criança tem direito a saber quem é o pai. Penso que a minha irmã sempre sentiu falta do nosso pai, que ela não chegou a conhecer.
-Já me disse isso. Mas continuo a pensar que a Isabel devia procurar o pai da Matilde. Ele tem obrigação de ajudar, na criação da filha.
- E eu vou procurá-lo se não conseguir algum trabalho até ao fim do mês. Já podia ter começado a trabalhar na caixa do supermercado, mas queriam que fizesse turnos e por causa dela, não pude aceitar.
- Credo Isabel, caixa de supermercado com as suas habilitações?
-O que quer, Natália, se não consigo emprego, como secretária, tenho que me sujeitar ao que me aparecer. E ser caixa num supermercado não é desonra nenhuma. Há dez meses que estou inscrita no fundo de desemprego e só tenho feito cursos, e mais cursos, mas trabalho que é bom, nada.
-Claro que não, Isabel. De qualquer modo continuo a pensar que devia esperar um pouco mais, até arranjar uma coisa melhor. Foi uma pena que a empresa onde estava tivesse aberto falência. Já lá estava há tanto tempo!
-Seis anos. Mas enfim não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Vou preparar o almoço. Quer almoçar comigo?
- Sobrou-me uma boa parte do jantar de ontem é só aquecer. De qualquer modo obrigada. A Matilde já dorme há mais de uma hora, deve estar quase a acordar.
-Mais uma vez muito obrigada. Vou preparar-lhe o almoço, porque quando acordar deve estar cheia de fome.
-Então até logo, Isabel. Se precisar de sair é só tocar a minha campainha.
- Até logo Natália. Não conto sair esta tarde, mas se precisar não esquecerei a sua oferta. A senhora é o nosso anjo da guarda.


A quem me perguntou se esta história era uma reedição informo que não.
Fiquei tão baralhada que fui ler o inicio de todas as histórias que já escrevi e a única que tem uma jovem junto de uma falésia no início, é a "Folha em Branco" que começa com um pintor que vê uma jovem sobre a falésia, suspeita das suas intenções e a salva de mergulhar no espaço. Como verão com o avançar da história, o único ponto em comum é uma jovem e uma falésia.


23 comentários:

chica disse...

Gostei e será um prazer acompanhar! beijos, chica

Sandra May disse...

Então Suzana morreu mesmo, não é? É Isabel ficou no lugar de mãe da Matilde?
Tô gostando!
Boa noite, Elvira. Até amanhã!

Arte & Emoções disse...

A Susana esqueceu que a vida tem seus altos e baixos e suicidou-se, esqueceu também que tinha uma irmã maravilhosa, a Isabel, e que sempre poderia contar com ela. A história/estória promete muitas emoções. Aguardemos.

Abraços e uma ótima semana para ti e para os teus.

Furtado

Pedro Coimbra disse...

Já percebi que realmente é outra narrativa.
Mas o início deixou-me na dúvida.
Abraço

Anónimo disse...

Mais um bonito fruto da sua infinda capacidade de engendrar enredos e personagens, este Presente Inesperado, Elvira.

Forte abraço,



Maria João

Joaquim Rosario disse...

Bom dia
Mais um lindo conto para seguir todos os dias , logo de manha !!
JAFR

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Um belo começo vou acompanhar.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Janita disse...

E assim, ficou a Isabel com a sobrinha a seu cargo, felizmente para a menina.
No início também pensei nessa da jovem salva pelo pintor, mas vi logo que não poderia ser a mesma, quando a autora decidiu que ela se atiraria, em voo, pela falésia.

Quem comete esse acto desesperado do suicídio, é alguém profundamente traumatizado. Pena que ninguém adivinhe e possa ajudar, atempadamente.
Conheci, bem de perto, dois casos. Isso deixa marcas profundas... :(

teresa dias disse...

Elvira, esta história é cativante.
Arredada da cena a Susana o protagonismo passou para a Isabel.
Como irá correr o encontro dela com o Ricardo?
Natália é realmente um anjo da guarda. Irá mudar de comportamento?
Curiosíssima!
Venham mais episódios.
Beijo.

Cidália Ferreira disse...

Mais uma estória que promete!

Hoje, passo a palavra aos meus leitores ...
.
Momentos...
Beijo e um excelente dia!

Meu Velho Baú disse...

Mais uma história que promete....
Devido à minha ausência vou pôr a escrita em dia.
Beijinhos

Olinda Melo disse...


Olá, Elvira

Consegui apanhar esta história ainda no princípio.
Com os problemas humanos que a sua sensibilidade
nos coloca, acho que promete que o enredo promete.

Bj

Olinda

noname disse...

Presente, como sempre, nesta nova história.

Abraço apertadinho

Teresa Isabel Silva disse...

Quero ver o que é que vai acontecer daqui para a frente!

Bjxxx
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Edumanes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edumanes disse...

Em tempo de guerra não se limpam armas. Quem não tem trabalho e precisa de trabalhar para se sustentar e sustentar quem a seu cargo tem. Terá de se sujeitar a qualquer oferta até que lhe apareça oportunidade mais favorável!

PS:Essa do pintor, e da jovem que se queria atirar da falésia já li!

Tenha uma boa noite amiga Elvira. Um abraço.

Larissa Santos disse...

Vamos lá acompanhar mais uma história

Bjos
Votos de uma óptima noite

Roselia Bezerra disse...

Boa noite de paz serena, querida amiga Elvira!
Pena o suicídio (cada vez mais em alta), mas tem sempre um anjo que nos salva das nossas inconsequencias de desespero.
Tenha dias abençoados!
Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Estou a gostar.
Vamos ter mais uma bela história cheia de emoções.
Um beijinho,
Ailime

Os olhares da Gracinha! disse...

Vamos lá acompanhar mais um belo conto!!! Bj

Emília Pinto disse...

Cheguei tarde, mas fui atrás ler tudo, pondo-me assIm a par da história que promete. Elvira, então os teus olhos? Já estão bons? Espero que sim, amiga! Um beijinho e tudo de bom para todos em tua casa.
Emilia

aluap disse...

Os cursos e mais cursos podiam trazer algo de útil às pessoas se aproveitassem na prática o que lá ensinam!

Um abraço.

Gaja Maria disse...

Então a Susana atirou-se mesmo do penhasco e a filha ficou com a irmã. Já estou presa à história.