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6.7.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXVI



 Epílogo

Dois anos depois…

O Verão, dera lugar ao Outono, e este cobrira o planeta de belas e quentes cores alaranjadas. As folhas das árvores formavam belos e fofos tapetes coloridos ao  redor  das mesmas, nos parques e passeios. O tempo arrefecera, o sol embora se mostrasse luminoso, já não aquecia como meses atrás. O inverno estava cada vez mais próximo. Naquele dia, o primeiro de Dezembro, Laura encontrava-se em casa de Gonçalo, com os filhos e sobrinha, esperando o irmão que tinha ido à Maternidade, buscar a mulher e os gémeos que ela dera à luz três dias antes.

Na sala, Matilde e Sara conversavam baixinho, provavelmente segredos de adolescentes, enquanto Miguel fazia desenhos completamente alheio ao que elas pudessem dizer. O menino, agora com cinco anos, não mostrava grande interesse por outras atividades ou brincadeiras, desde que tivesse à sua frente um lápis e um qualquer papel branco. Fernando costumava dizer a brincar que ele devia ter encarnado o espírito de um qualquer pintor famoso.

Laura encontrava-se sentada na cozinha. Na mão esquerda, segurava uma chávena de chá de cidreira, que de vez em quando levava à boca, enquanto a direita acariciava o ventre.  Nos seus belos olhos azuis, um olhar sonhador e misterioso, como se guardasse um segredo, que mais ninguém conhecia.

Pensava nos dois anos passados, desde que saltara por cima do medo que a atormentava e aceitara casar com Fernando. Dois anos em que a sua vida dera uma volta de cento e oitenta graus.

Depois do casamento, ela e os filhos haviam-se mudado para a casa nova que Fernando comprara. Ele não queria viver na casa dela, dizia que a casa estava cheia de tristes recordações e isso não ajudava a mulher e os filhos a largarem a bagagem emocional que carregavam. E como o seu apartamento de solteiro não era o ideal para uma família, comprara uma bonita casa a poucos quilómetros da cidade. Era uma vivenda grande, cercada por uma boa extensão de terreno com um jardim na frente e algumas árvores de fruto nas traseiras. Depois aconselhara-a a vender a sua antiga casa, na cidade e a depositar o dinheiro no banco em nome dos filhos criando assim um fundo para os seus estudos universitários

Diana, a assistente do marido, terminada que fora a sua baixa depois do nascimento do filho, regressara ao seu lugar na clinica e durante uns meses, Laura dedicara-se apenas à vida doméstica. Pouco tempo, pois, no ano letivo seguinte ela retomara a sua carreira de professora, na mesma escola que Sara frequentava a poucos minutos de casa.

Olhando para trás, Laura sabia que tinham sido dois anos muito felizes. Claro que ela não esquecera Quim, afinal fora o seu primeiro amor, o pai dos seus filhos. Mas a sua lembrança já não lhe acarretava sofrimento, nem medo, era apenas a doce recordação de um tempo da sua vida que ficara no passado.

Ao longo daqueles dois anos, Fernando sempre fora um marido apaixonado e um verdadeiro pai para os seus filhos, que o adoravam.  Agora ela estava grávida, embora fosse um segredo só dela por enquanto.

Laura esperava contar-lhe no Natal que se aproximava.  Eles nunca tinham falado em filhos, o marido sabia que ela tomava a pílula, talvez pensasse que não queria voltar a ser mãe e contentara-se em ser pai dos filhos dela, mas em Agosto ela deixara a pilula, não porque sentisse uma grande necessidade de voltar a ser mãe, mas era uma mulher muito feliz e queria retribuir essa felicidade, dando ao marido como presente, a alegria de um filho dele.

Naquele momento ouviu-se um carro estacionar à porta e ela apressou-se a sair de casa seguida pelas crianças.

Gonçalo saiu do carro, deu-lhe a volta e ajudou a esposa a sair, enquanto Laura abria a porta traseira e tirava os dois ovos, onde dormiam os gémeos Rafael e Mariana, nascidos por cesariana  três dias antes.

Matilde, agora uma bela adolescente de quinze anos apressou-se a pegar no ovo onde dormia Mariana, encantada com a bebé loira tão parecida consigo.

 Já em casa, Gonçalo ajudou a esposa a deitar-se na grande cama de casal, enquanto a irmã retirava os bebés dos ovos e os deitava num enorme berço, onde ficariam os dois no primeiro mês. Depois passariam para o quarto ao lado, onde seriam separados e cada um teria o seu próprio berço.

- Todos lá para fora agora, - ordenou Laura. Os bebés devem dormir descansados e a mãe precisa repousar.

Matilde aproximou-se da cama e disse:

-A madrinha telefonou a dizer que vinham cá esta noite, para ver os bebés e falar contigo.

Depois baixou-se, deu um beijo na mãe, de seguida beijou o pai e disse:

-Estou muito feliz com os meus irmãozinhos. Obrigado aos dois por esta felicidade.

Depois de perguntar à cunhada se precisava de alguma coisa, Laura saiu do quarto com as crianças, no momento em que um novo carro parava junto da porta. Era Fernando que ficara em casa, numa videoconferência com outros psiquiatras estrangeiros.

Ela apressou-se a abrir-lhe a porta e abraçou-o com todo o amor que o seu coração era capaz de sentir.

FIM

4.7.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXV

 






De todas as coisas que eu imaginei que me dissesses, ou pedisses, essa é a única que não posso dar-te. Ninguém tem a vida nas mãos e embora eu pense que vamos viver e envelhecer juntos, não tenho como qualquer outra pessoa qualquer garantia de que isso vá acontecer.

Todavia tal como eu tu também não podes prometer-me isso. O que pensas que me pode acontecer, pode acontecer-te a ti. Então pensa o seguinte. Tu sabes que amo os teus filhos como se fossem meus, não sabes? Então na pior das hipóteses, se de repente acontecesse alguma coisa contigo, o que seria dos teus filhos? Bem sei que o Gonçalo assumiria o cuidar deles. Mas o Gonçalo tem os seus próprios filhos e por muito que ame os sobrinhos nunca será o mesmo do que ficarem com um pai.  E tu sabes, porque me conheces desde que abriste os olhos para a vida que é isso que eu serei para eles. E sabes também que eles me adoram.

Então não tenhas medo do que pode ou não acontecer. Ambos estamos na mesma posição como aliás toda a gente. Ninguém sabe quando se deita e põe o relógio a despertar para o dia seguinte, se vai acordar e toda a gente o faz.  

Então pensa nisso e não proteles mais a data do nosso casamento. 

Calou-se, e durante alguns minutos o silêncio caiu sobre eles envolvendo-os como se fora um véu.

Fernando sentia o coração galopando no peito. Esperava ter sido suficientemente convincente para apagar o medo que Laura sentia.  Por fim a jovem rompeu o silêncio:

- De forma racional, eu sei que tens razão, todavia nem sempre sou uma mulher racional. Por mim, por ti, e pelas crianças, vamos adiante que precisam de um pai, vamos adiante. Casamos quando quiseres.

- Meu Deus Laura, - disse ele abraçando-a e beijando-lhe o rosto, os olhos, o pescoço, antes de se perder na sua boca num beijo intenso que a deixou trémula e sem fôlego. Depois disse:

-Por mim casávamos amanhã mesmo, mas sei que isso não é possível. Pensas que num mês, será possível tratar de tudo.

-Provavelmente sim, - respondeu ela. Desde que consigamos convencer um padre.

-Deixa comigo, - disse perdendo-se de novo em carícias cada vez mais escaldantes. A Sara não está, o Miguel costuma acordar de noite? – perguntou.

-Não. Vem - respondeu ela levantando-se e estendendo-lhe a mão arrastou-o para o quarto de hóspedes.

Um mês depois casavam-se na igreja de Arroios, com a presença da família e amigos. Enquanto esperava a noiva no altar, Fernando dava livre curso ao seu nervosismo. Ainda lhe parecia um sonho que finalmente conseguisse o realizar o sonho de toda a vida.

Finalmente após uma curta espera, que lhe parecera uma eternidade, Helena, a cunhada entrou na igreja, com a amiga Rita. Ambas tomaram lugar junto dos respetivos maridos no altar, pois iriam apadrinhar os noivos. Atrás a mãe da noiva, trazia nos braços o pequeno Martim, que Rita dera à luz vinte dias antes. Seguiam-na os netos e logo atrás a noiva pelo braço do pai. Só quando ela chegou junto dele, Fernando respirou fundo e sentiu que o coração acalmava.

A cerimónia foi rápida, mas muito emotiva. Depois dos cumprimentos e fotos habituais todos seguiram para o restaurante onde iria decorrer a festa.

Laura irradiava felicidade e ninguém diria que um mês antes vivia atormentada pelo medo de sofrer a perda de Fernando como tinha perdido Quim.

Mais tarde, os noivos despediram-se de Gonçalo e Lena que iam ficar com os sobrinhos durante a lua de mel e escapuliram-se sem se despedirem de mais ninguém por medo da birra que Miguel poderia fazer se os visse sair.

Laura não quisera ir de viagem. Ela estava muito apegada aos filhos e não queria afastar-se muito. Uma coisa era uma semana passada em Santarém, onde ela estava a poucos quilómetros da casa, e podia estar descansada sabendo que se algum problema acontecesse em pouco tempo estaria junto deles, outra diferente era ir para o México, ou Cuba como Fernando tinha sugerido.

 

1.7.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXIV







Depois de uma risada geral, Gonçalo disse:

- Maninha, gostei muito do jantar, mas tu estás no teu lar e nós não. Está na hora de recuperar a minha mulher e regressar a casa. E outra coisa, a Matilde pergunta se a prima pode ir dormir lá em casa. Parece que elas não se cansam de estar juntas.

- Claro que pode, mas por favor vê se a trazes a seguir ao almoço. Precisa de estudar e também de brincar com o irmão. Ele sente a falta dela.

Despediram-se e pouco depois os quatro partiam.

- Enfim sós, - disse Fernando abraçando-a e beijando-o. Meu Deus não me canso de te beijar. Vamos para a sala? Pareceu-me perceber que a conversa que as duas tinham era importante. Não quero saber os vossos segredos, mas parecias perturbada e quero saber se alguma coisa te preocupa. Amo-te, o sonho de toda a minha vida é casar contigo, mas apesar de retribuíres os meus carinhos, sinto que não te entregas como uma mulher apaixonada.

Levara-a para a sala, onde se sentaram os dois no sofá.

-Que se passa? Não consegues esquecer o Quim? Ou sou eu que não consigo despertar o teu amor. Porque eu sei que me desejas como eu te desejo. Seria parvo se não o sentisse. A química entre nós é muito forte. Mas desejo não é amor, nem é apenas o teu corpo que desejo. Eu só ficarei feliz se me entregares o teu coração a tua alma, porque a minha sempre foi tua. Queres falar?

- Tens razão. Vivi muito tempo presa às recordações do Quim e sempre pensei que nunca mais me interessaria por outro homem. Pensava que se o fizesse estrava a atraiçoar a sua memória. Todavia o teu amor, a tua persistência, o carinho com que tratas os meus filhos, conquistou o meu coração, e os teus beijos, as tuas carícias despertaram os meus sentidos, o meu corpo deseja mais, mas o meu medo é maior que o meu desejo, e os meus sentimentos.

- Medo? – perguntou Fernando incrédulo. Se ela lhe tivesse dito que via o falecido cada vez que se beijavam, não teria ficado tão surpreendido.  Sabia que para a conquistar, teria que lutar contra a recordação do seu primeiro marido, e receava-o. Temia que a recordação de Quim se instalasse entre ambos, como um fantasma, mas medo?

- E do que tens medo, querida? De que defraude as tuas espectativas e não te faça feliz? De que te seja infiel? Acaso não sabes que te amo desde que te vi a primeira vez, quando a tua mãe regressou da maternidade e te apresentou a mim e ao Gonçalo. Tu dormias serenamente, as faces rosadas competindo como a cor da mantinha que te envolvia.

 Eras o bebé mais bonito que eu vira na minha curta vida. Perguntámos se te podíamos acariciar e quando a tua mãe disse que sim, eu beijei-te, tu abriste os olhitos e eu acreditei que o meu beijo te tinha acordado, tal como o beijo do príncipe acordou a bela adormecida. E que um dia casarias comigo tal como na história.

 Depois tal como nós fomos crescendo assim o meu amor por ti se foi intensificando. Quando terminaste o secundário, o Gonçalo perguntou-me porque não te dava conta dos meus sentimentos, mas eu pensava que tu eras minha jovem, e que talvez não estivesses preparada para a intensidade do meu amor. Decidi esperar até que terminasses a Universidade e toda a vida me tenho arrependido disso. Porque então apareceu o Quim…

-Meu Deus, Fernando. Eu desconhecia por completo esse sentimento e tens razão eu não teria entendido, se me tivesses contado. Para mim eras um irmão, como o Gonçalo, apesar de não termos o mesmo sangue. Foram precisos doze anos de afastamento e uma vida pelo meio, para que hoje te ame como uma mulher deve amar um homem que deseja para companheiro de uma vida. O meu medo, é de te perder. De te acontecer alguma coisa e eu sei que não conseguiria passar pelo mesmo sofrimento que passei há três anos. Desta vez, eu sei que endoideceria.

 

27.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXIII




Miguel já adormecera há muito, e as duas adolescentes, por estarem de férias e terem autorização para dormir mais tarde, viam um filme na TV.

Aproveitando que estavam sozinhas, Helena perguntou:

- Como está a tua relação com o Fernando?

- Não sei se posso dizer que tenho outra relação que não seja a de empregada patrão, além da amizade que sempre tivemos.

-Mas, todos sabemos do amor que te tem, e com esta convivência mais assídua, não surgiu nenhuma chama entre vocês? Nem um beijo? Desculpa a curiosidade, mas ele disse ao teu irmão que tinha muita esperança de que em breve aceitasses o seu amor.

- Na verdade temos trocado uns beijos apaixonados. A química entre nós é muito grande, mas não consigo esquecer o Quim e a sua morte repentina. Morro de medo de me entregar de corpo e alma a um novo sentimento e de um momento para o outro voltar a sofrer um desgosto igual.

-  Não chegaste a procurar a ajuda de um psicólogo? Laura, precisas de ajuda especializada para ultrapassar esse pânico. O próprio Fernando te podia ajudar, mas se não queres contar-lhe, posso dar-te o número de telefone de uma psicóloga. Ela é muito boa, foi ela que ajudou a Rita a ultrapassar o divórcio do seu primeiro marido, que quase a destruiu.

Não podes viver com esse pânico, agora que te apaixonaste de novo. Nem renunciar a uma vida que não só te iria fazer feliz, mas que seria igualmente boa para as crianças. Elas adoram-no. E necessitam de alguém que ocupe o lugar do pai nas diversas situações que vão encontrar na vida, para os ajudar a encontrar o caminho certo.

Tu sabes que criei a Matilde sozinha. Eu pensava que lhe bastava e que ela era feliz. No entanto a sua alegria, quando conheceu o pai e a Matilde de agora que casamos e ela sente a presença do pai todos os dias é uma jovem muito mais equilibrada e feliz.

 Talvez a Sara, nunca encare o Fernando como um pai, ela tem viva a memória do Quim, mas ela adora-o e vai sempre vê-lo como um tio querido. Mas para Miguel é totalmente diferente. Primeiro porque os rapazes por norma sentem sempre mais a falta de uma figura masculina, que seja o seu herói, depois ele nunca conheceu o pai.  

-Eu sei tudo isso, repito-o a mim mesma, vezes sem conta. Sei que o Fernando os ama muito, conheço-o desde criança e embora estivéssemos  afastados vários anos após ter conhecido e casado com o Quim, ele sempre esteve presente em casa dos meus pais e junto do Gonçalo.  É um homem de sentimentos firmes, que amava muito os seus pais e que se sente solitário e carente desde que eles morreram. 

Sei que será um bom pai para os meus filhos, mas a o meu medo é maior de que tudo o resto.  eu não conseguiria resistir a outra morte repentina, a passar pelo mesmo que já passei com o Quim. Tu não sabes o que é estar com uma pessoa que amas de todo o coração, a passar um serão em família, e de um momento para o outro ele diz que está com uma dor de cabeça terrível. Levantei-me para ir buscar um comprimido e um copo de água e quando voltei já estava inconsciente.

 Chamei a ambulância, que o levou para o hospital e fiquei à espera que uma amiga chegasse para ficar com a Sara. Quando cheguei ao hospital disseram-me que ele chegara já sem quaisquer sinais vitais e que não conseguiram reanimá-lo.   Não houve tempo para um beijo, para um amo-te, para nada que o pudesse consolar naquela hora.

-Deve ter sido extremamente doloroso, para ti, mas devia consolar-te a certeza de que ele não sofreu. E já se passaram mais de três anos. O teu coração começa a abrir-se de novo para o amor. Não podes deixar que esse medo irracional te vença.

A vida é mesmo assim acontece a qualquer um a qualquer hora. De um aneurisma, de um ataque cardíaco, de um acidente de automóvel. Pega o telemóvel e toma nota do número da minha amiga psicóloga. Ou abre o teu coração para o Fernando, ele pode ajudar-te.

- Mas o que fazem vocês as duas, aí a cochichar? - disse Gonçalo entrando na cozinha.

- Não sentes as orelhas a arder? – perguntou Fernando rindo-se atrás dele.

22.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXII




O verão terminou, as folhas das árvores trocaram o verde pelos tons alaranjados e depois começaram a cair, o céu deslumbrava com ocasos que pareciam paletas de cores, apareceram as primeiras chuvas e o sol deixou de aquecer. Era o outono em todo o seu esplendor. O ano aproximava-se do fim a passos largos. Miguel adaptou-se muito bem à creche, todavia começou a fazer perguntas incómodas, como porque é que ele não tinha pai. Laura achava que ele ainda era muito pequenino para uma explicação correta sobre a vida e a morte, então disse-lhe que o pai estava no céu, era uma daquelas estrelinhas que ele via à noite a brilhar lá em cima no espaço. Mas então o menino perguntou porque é que ele não era filho de um homem, e sim de uma estrela. E quanto mais a mãe explicava mais o menino queria saber.

Então Sara, pegou na fotografia do pai e disse-lhe:

- Este é o nosso pai. Lembras do Bobi? Ele adoeceu e morreu. Lembras-te que a mãe abriu uma cova no jardim e o enterrou? Pois bem, o pai também ficou doente, e morreu. Mas como era um homem e não um cão em vez de ser enterrado no jardim foi para o céu e lá transformou-se numa estrela.

 Claro que Sara sabia o que tinha acontecido. Já tinha nove anos quando o pai morrera, estivera no funeral, ia ao cemitério com a mãe de vez em quando, levar flores à campa do pai.

Felizmente o menino pareceu ficar satisfeito com a explicação da irmã e acabou com as perguntas. Até quando ninguém sabia.  

Sara continuava a boa aluna de sempre, e cada vez tinha uma ligação maior à prima. 

Laura também se adaptou muito bem ao trabalho na clínica, estabeleceu uma boa relação de amizade com Diana com quem conversava todos os dias pelo telefone, e gostava de trabalhar com Fernando cuja faceta profissional lhe agradava bastante.

A meio de outubro, Rita a sócia da sua cunhada Helena, deu à luz uma bela menina, e no início de novembro foi a vez de Diana ter um lindo rapagão de quase quatro quilos e meio. Sara e a prima estavam doidas de alegria, queriam ir ver os bebés todos os fins de semana, mas Miguel não mostrava grande interesse, e dizia com uma certa graça:

“Que interesse tem ir ver os bebés? Estão quase sempre a dormir, não falam, não brincam, quando abrem a boca ou é para chorar ou para comer.”

-És tonto, Miguel, -dizia-lhe a irmã a rir. Falas como se já tivesses nascido assim. Há bem pouco tempo eras como eles.

A família também adquirira um novo hábito. Todos os sábados, Laura e os filhos jantavam com o irmão e a família dele. Uma semana na sua casa, outra em casa de Gonçalo. Um sábado, Gonçalo convidou Fernando, e a partir daí a presença dele tornou-se habitual nos jantares de sábado, fortalecendo assim os laços de amizade com as crianças que aliás o adoravam. 

Também ganhara o hábito de ficar um pouco mais com Laura depois das crianças irem para a cama, aproveitando para se despedir com beijos que se iam tornando cada vez mais intensos e apaixonados, a que Laura correspondia cada vez com mais intensidade. Porém apesar de reconhecer que se tinha apaixonado por Fernando, continuava a não querer ouvir falar de casamento.

 Uma semana antes do Natal, que seria celebrado na quinta dos pais de Helena, na aldeia, não só porque a casa era grande e podiam juntar as duas famílias, bem como Rita o marido e a filha, que tanto a cunhada como os seus pais e irmão, consideravam como mais um membro da família. Matilde e Sara estavam radiantes, porque teriam a companhia dos primos, o que lhes permitiria organizar jogos e outros programas sem os mais velhos.

Naquela noite, Laura e a cunhada arrumavam a cozinha enquanto na sala, Gonçalo e Fernando discutiam os problemas da escassez de médicos de determinadas especialidades no SNS.

20.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXI

 


Quando o carro parou à porta de casa da jovem, Fernando saiu do carro e acompanhou-a à porta, mas quando ela se voltou para lhe estender a mão, ele passou-lhe uma mão pela cintura, atraiu-a a si e baixando a cabeça beijou-a.  Foi um beijo suave, cheio de ternura, não o beijo apaixonado que gostaria de lhe ter dado, todavia ele sabia que que se queria ter sucesso na difícil tarefa de ganhar o seu coração tinha que ter paciência. Por isso soltou-a.

-Até amanhã. Não te peço que sonhes comigo, mas pensa com carinho em tudo o que te disse.

Esperou que ela entrasse em casa e só então virou costas e dirigiu-se ao seu automóvel.

Laura entrou em casa e encontrou-a às escuras e em silêncio, sinal de que os seus filhos e os avós já dormiam.  Subiu as escadas, mas antes de entrar no seu quarto, passou primeiro pelo quarto de Miguel, depois pelo de Sara. Depois de verificar que os filhos dormiam tranquilamente, entrou então no seu quarto e dirigiu-se à casa de banho onde trocou a roupa que vestira, pelo pijama, escovou os dentes e os cabelos, apagou a luz e foi para a cama.

Estava cansada, tinha que se levantar cedo, mas apesar disso levou muito tempo para adormecer, relembrando tudo o que acontecera naquela noite.  Principalmente tudo o que Fernando lhe dissera e o beijo que mal lhe aflorara os lábios, mas que apesar disso não conseguia esquecer.

E pela primeira vez desde há mais de três anos, esqueceu da sua habitual conversa com o falecido antes de adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Saltou da cama, tomou o duche matinal, vestiu-se, prendeu o magnífico cabelo loiro num carrapito. Não se maquilhou, há anos que não o fazia a não ser para um jantar especial, ou no casamento do irmão, apenas passou um corretor para atenuar as olheiras que denunciavam a noite mal dormida.

Saiu do carro e dirigiu-se à cozinha a fim de preparar os pequenos almoços. Pouco depois os pais juntavam-se-lhe.

Depois de comer um iogurte e engolir uma chávena de café, Laura deixou os pais a comer e foi chamar a filha. Depois foi acordar o filho, vestiu-o, calçou-o, e levou-o para a cozinha a fim de lhe dar a taça de cereais que ele costumava comer de manhã.

Três quartos de hora depois estavam todos prontos para saírem de casa. Laura disse aos filhos que se despedissem dos avós que iam para casa, depois meteu o filho na sua cadeirinha e enquanto Sara se sentava ao lado do seu irmão, Laura abraçava os pais e recomendava ao pai que não exagerasse na velocidade e à mãe que telefonasse assim que chegassem a casa pois ficava em cuidado.

Terminou desejando-lhes boa viagem, entrou no seu carro e acenando um último adeus, pôs o carro em movimento dirigindo-se primeiro à creche para deixar o filho e depois à Escola a fim de deixar a filha. Olhou o relógio. Tinha que abrir a clínica às nove, não sabia se conseguiria chegar a horas. Tudo dependia da intensidade do trânsito. Provavelmente no dia seguinte teria que sair de casa uns dez minutos mais cedo.

17.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XX

 



Tinham chegado ao restaurante. Fernando estacionou o carro no parque, saiu e dava a volta ao carro, todavia Laura saiu sem esperar que ele se aproximasse para lhe abrir a porta.

- Vamos entrar? - perguntou pegando-lhe no braço pelo cotovelo. Já estão todos à nossa espera.

Não era difícil saber porquê. Afinal ele tomara o caminho mais longo a fim de prolongar o tempo a sós com a jovem.

Durante o jantar, Aníbal, o pai de Laura; e Fernando fizeram as honras da conversa, enquanto a jovem se mantinha atenta ao jantar do pequeno Miguel e  Sara contava à sua avó o quanto tinha gostado de passar aquela semana com a prima e de como Matilde se sentia feliz por ter enfim o pai e a mãe juntos.

- Sabes, avó, eu tenho muitas saudades do meu pai, mas sei que ele foi para o céu, não voltará. Mas eu e a Matilde estivemos a conversar. Ela diz que o tio Fernando gosta da mãe, e que se eles se casassem, podíamos voltar a ser uma família completa.

- E tu não te importavas se a mãe casasse com o tio Fernando? - perguntou a avó

- Claro que não. Eu gosto muito dele. Mas parece que a mãe não.

- Não te preocupes. A tua mãe também gosta dele. Só que ainda se lembra do teu pai. E isso faz com que não se dê conta do que sente pelo tio Fernando.

- Sabes o que eu penso, avó? Os adultos são muito complicados. Não sei se algum dia  vou querer ser adulta.

Perante a risada da avó, todos os olhares se viraram para ela.

-A minha neta acaba de me dizer que não vai querer ser adulta, pois os adultos são muito complicados, - disse Teresa perante os olhares surpresos dos restantes.

 Naquele momento o empregado trouxe as sobremesas.

Pouco depois, pediam os cafés e a conta, entretanto Miguel já cabeceava os olhitos fechados, morto de sono. Laura levantou-se e pegou-lhe ao colo, mas logo Aníbal estendeu os braços e retirou o neto do colo da mãe, dizendo:

-Nós deitamos as crianças não te preocupes. É melhor que vás com o Fernando, amanhã é o teu primeiro dia de trabalho, podem ter alguma coisa a conversar sobre isso.

Laura não disse nada, embora no seu rosto fosse bem visível o quanto as palavras do pai a contrariavam, enquanto Fernando dizia sorrindo.

-Bom, então despedimo-nos aqui, para que vocês também se possam recolher e descansar.

Abraçou o casal com o mesmo carinho com que um filho o faria, deu um beijo no bebé adormecido, e depois baixou-se para ficar ao nível de Sara, e abraçou a menina dizendo:

- Até outro dia, princesa. Dorme bem. Prometo que levo a tua mãe para casa, sã e salva, daqui a pouquinho.

Esperou até que entraram no carro, e só então se dirigiu ao seu automóvel, seguido pela jovem. Não lhe tocou, pois sabia que ela reagiria mal, zangada como estava com os pais.

Ligou o motor mas em vez de pôr o carro a trabalhar, virou-se para ela e disse:

-Vamos, desabafa essa raiva que sentes. Embora não tenha tido culpa nenhuma na situação, eu aguento.

- Parece que sou um traste de quem eles se quem livrar, - disse ela magoada. E tu também tens culpa. Podias dizer que tinhas um compromisso inadiável, e eu teria ido com eles.

- Mas não tinha e não me agradam as mentiras. E tu sabes tão bem como eu, que eles te querem muito, que não lhes agrada a solidão em que vives e se estão sempre a tentar juntar-nos é porque me conhecem de toda a vida, sabem que nunca amei outra mulher que não fosses tu, e que serei um bom pai para os teus filhos. 

Sei que não te sou indiferente, senti o teu coração bater em uníssono com o meu, senti o teu corpo tremer nos meus braços, quando dançámos juntos no casamento do teu irmão e sinto-o sempre que te toco. Se assim não fosse já te tinha deixado em paz, como o fiz quando me mandaste embora, há quase dois anos.

Também sei que ainda não estás preparada para te entregares a um novo amor, mas eu sou paciente.  E quero que saibas que enquanto estiveres na clínica, podes estar descansada, que não terei nenhuma atitude diferente daquela que teria com qualquer outra assistente.

 Pôs o carro em movimento e dirigiu-se para a residência da jovem.

15.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIX


Preparavam-se para sair de casa quando um carro estacionou à porta Laura olhou os pais e inquiriu:

-Quem será? Não estava à espera de ninguém, e vocês?

- Nós também não. Ou pensas que combinávamos jantar fora se estivéssemos à espera de alguém? – respondeu a mãe com um ar de inocência muito convincente

Naquele momento a campainha tocou, e Sara apressou-se a ir abrir.

-É o tio Fernando, - gritou antes de se pendurar no pescoço dele para o beijar.

- Se vinhas ver os noivos, eles já foram – disse Laura aparecendo junto deles.

- Olá -respondeu ele sorrindo. Eles passaram por minha casa, e disseram-me que os teus pais se iam embora amanhã. Vinha despedir-me, mas vejo que vão sair.

- Vamos jantar fora, - apressou-se a dizer dona Teresa. Mas vem connosco, estás convidado, ou já jantaste?

- Na verdade, não.

- Então não se fala mais nisso.  Na verdade, podes levar a Laura contigo, nós levamos as crianças, escusamos de ir tão apertados.

- Mãe! – disse Laura envergonhada. Não seria melhor irem vocês os três, e eu jantava em casa com as crianças? Afinal o Fernando vinha despedir-se de vocês.

-Era só o que faltava. Tens o ano inteiro para jantar com as crianças. Hoje vamos jantar todos juntos, e acabou-se a conversa, - respondeu a mãe.

Vencida, mas não convencida, logo que entraram no carro Laura disse:

-Meu Deus, a minha mãe não faz mais do que empurrar-me para os teus braços. Sinto-me envergonhada

- Porquê?

-Parece que eu sou uma mercadoria que ninguém quer, encalhada na Loja.

- Nada disso. Toda a tua família como a minha sabem de há muito tempo, do meu amor, por ti.  A minha mãe, fartou-se de chorar quando casaste e vivia desgostosa por saber que não conseguia esquecer-te e ia morrer sem chegar a conhecer os netos.

-Mas, eu nunca soube dos teus sentimentos. Para mim eras um irmão, embora não fossemos do mesmo sangue o meu sentimento por ti era o mesmo que tinha pelo Gonçalo.

-Eu sei. Por isso mesmo não lutei por ti na época. Mas hoje é diferente. Estás viúva há mais de três anos, não me podes impedir de ter esperanças.

- Mas eu ainda não esqueci o Quim…

-Nem eu espero que o esqueças. Foi o teu primeiro amor e o pai dos teus filhos.

Mas Laura, eras uma jovem mimada que nada sabia da vida, quando o conheceste e casaste. Hoje és uma mulher que conhece as alegrias e tristezas que a vida acarreta. Sofreste a dor da perda, amadureceste. A jovem que casou com o Quim ficou lá no passado, tenho a certeza que a mulher que és hoje, será capaz de me amar como eu te amo se abrires o coração a uma nova oportunidade.

Laura estava espantada consigo própria. Como é que ela se permitia falar assim abertamente com ele. Será que Fernando tinha razão? Estaria ela a transformar-se numa nova mulher?  



Vejamos se hoje o técnico consegue acabar com a Internet "vai e vem" que tenho há mais de 10 dias

8.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVIII

 


-O problema é que depois do vosso casamento e desta semana em que o vi todos os dias, dei-me conta de que este Fernando, não tem nada a ver com o rapazito que foi criado connosco, como um irmão.

-É normal, tu cresceste, ele também. Hoje são um homem e uma mulher que foram amigos em criança, se afastaram e hoje se encontram de novo. Sei que o teu irmão e os teus pais gostariam de te ver casada com ele, mas eu penso que deves interrogar o teu coração e descobrir que sentimentos tens por ele.

 E se para isso precisas de conviver mais com ele, talvez que trabalhando juntos seja uma boa maneira de o descobrires. Que ele é doido por ti, todos sabem, até eu que só o conheci há pouco tempo. 

Todavia se descobrires que não há química entre vós, que continuas a amá-lo como um irmão, diz-lho e segue em frente. Um casamento sem amor é uma tragédia. A história de que um pode amar pelos dois, é muito bonito em canção, mas na vida real não existe. Sabes que apesar de nos conhecermos há pouco tempo gosto muito de ti e só quero que sejas tão feliz como eu.

 – Eu também gosto muito de ti e lamento sinceramente a partida do destino que fez com que não nos tenhamos conhecido antes, - olhou o relógio e acrescentou. Meu Deus estamos a conversar há tanto tempo, o teu marido deve estar furioso comigo por te monopolizar. Não devia tê-lo feito, afinal sei bem o que é uma lua-de-mel.

Levantaram-se e regressaram à sala. Ao vê-las aparecer, Gonçalo levantou-se e dirigiu-se-lhes:

-Já estava para vos ir chamar. Desculpa maninha, mas está a fazer-se tarde, viemos apenas vê-los e buscar a Matilde, vamos seguir para Coimbra, a Lena quer ir conhecer o seu novo sobrinho.

Despediram-se e saíram os três, enquanto Laura e os pais, ficavam no alpendre, até que o carro entrou na estrada principal e desapareceu entre o tráfego. No dia seguinte também os pais seguiriam para Braga, deixando-a sozinha com os filhos. Laura sentiu que ia sentir saudades da animação dos últimos dias.

-Filha, - disse dona Teresa ao ver que Laura se dirigia para a cozinha para iniciar o jantar. - Como partimos amanhã, o teu pai e eu pensámos que gostaríamos que tu e as crianças fossem jantar fora connosco. O que dizes.

- Por mim tudo bem, vou tratar das crianças, toar um duche e vestir-me.

- Vai cuidar de ti, - disse-lhe a mãe. A Sara já se sabe arranjar sozinha, eu dou banho ao Miguel e visto-o. Afinal tenho tão poucas oportunidades de o fazer.

Laura dirigiu-se ao quarto, enquanto a mãe pegava no neto ao colo, mas antes de se afastar em direção à casa de banho murmurou ao marido.

“Faz o que combinámos”

 

6.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVII

 






No fim de semana Laura andou num redopia entre a ansiedade de Matilde, cujos pais regressavam da lua-de-mel, a persistência da mãe, que insistia em que era mais que tempo de terminar o luto e dar um novo rumo à sua vida, a chegada dos noivos, o jantar de comemoração num restaurante da moda, oferecido pelo padrinho e a preparação mental para a separação do filho, Miguel, que ia para a creche no início da semana, além do emprego que ia iniciar e que a ia por em contacto diário com Fernando com quem toda a família parecia querer vê-la casada.

No Domingo, teve oportunidade de uns momentos a sós com a cunhada, com quem desabafou um pouco das suas preocupações.  Na verdade, ela e Lena, sentiram uma empatia imediata, no dia em que se conheceram e depressa se tornaram amigas.

- Não vejo razão para estares preocupada, - disse-lhe a cunhada. Afinal o trabalho é decerto bem mais fácil do que preparar uma aula para mais de vinte alunos. E, segundo sei vocês conhecem-se de toda a vida, o Fernando pelo que tenho observado é educado e simpático. Do que tens medo? Dele ou de ti?

- Na verdade, não sei. Como dizes conheço-o de toda a vida, fomos amigos de brincadeiras, sempre o olhei como um irmão. Quando fiquei viúva, ele foi um apoio muito importante, principalmente para a Sara, que adorava o pai e a quem eu, devastada pela minha dor, reconheço não ter apoiado tanto quanto devia. Um dia, surpreendo o Fernando olhando-me de uma forma estranha. 

Olhava-me como um homem olha para uma mulher que deseja. Fiquei escandalizada e disse-lhe a Sara já estava melhor e que o Miguel precisava de toda a minha atenção e pedi-lhe que não voltasse.

 Ele afastou-se, mas de súbito os meus pais e o teu marido, começaram a dizer-me que tinha de tentar esquecer o Quim e recomeçar a minha vida, que os meus filhos precisavam de uma figura masculina, que o Fernando era uma ótima pessoa e seria um bom pai para os meus filhões etc. E quanto mais a família insistia nisso, mais eu me agarrava às memórias do Quim e mais raiva desenvolvia em relação ao Fernando. Consegues compreender-me?

- Caro que sim. Afinal eu vivi apenas um mês com o teu irmão, pensei que ele me tinha abandonado porque nunca me amara, e não consegui esquecê-lo nos catorze anos que não soube nada dele. Felizmente os meus pais sempre respeitaram a minha decisão de não querer saber de outro homem até à maioridade da Matilde. 

Talvez isso fosse uma desculpa porque lá bem escondido num cantinho do coração eu tivesse o sonho de voltar a encontrar o Gonçalo e recuperar o amor que nos tinha unido. O teu caso é diferente. Por muito que tenhas amado o Quim sabes que está morto, e não tens a ilusão da sua volta. Podes e deves seguir em frente, refazer a vida, com o Fernando ou com qualquer outro, se apenas consegues ver o Fernando como irmão. Afinal tens apenas trinta e três anos.   

- Que às vezes me parecem sessenta…

-Eu sei, o sofrimento faz-nos sentir assim.

3.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVI


Para Laura, o resto da semana passou a correr, com a presença dos pais, as crianças e a ida à clínica. Teve oportunidade de ver a versão profissional de Fernando, tanto com as crianças, como com os adultos. Ela sabia que ele era psiquiatra, mas não que seis anos atrás se especializara também em psiquiatria infantil.

Claro nessa época ela estava casada e depois do casamento nunca mais o vira até que a fatalidade a deixara viúva.

Nessa época ela estava de rastos, chegou a pensar que acabaria por perder o filho que ainda estava para nascer. O irmão, mudara-se para Lisboa, para estar junto dela e Fernando passava lá em casa todo o tempo que tinha livre.

Agora, pensando nisso, acreditava que se Sara era uma menina feliz, talvez se devesse ao apoio que ele lhe dera quando perdera o pai.  E na verdade ele também a apoiara muito, mas na altura ela vivia e alimentava-se apenas da dor e do enorme sentimento de vazio que lhe enchia corpo e alma. E tinha corrido com ele, quando um dia lhe surpreendeu um olhar, que não era compatível com o sentimento de irmão que sempre sentira por ele.

Naqueles dois dias, através de Diana, ela aprendera muito sobre o homem, que fora o seu melhor amigo de infância. E criara uma ligação de amizade com a jovem assistente, que não pensara possível em tão pouco tempo.

Na Sexta feira, como não havia consultas de manhã, as duas conversavam quando Diana perguntou:

- Não pensas voltar a casar? Sei que foste muito feliz no casamento e que sofreste muito com a morte repentina do teu marido, mas já lá vão mais de três anos. És nova e bonita, não sentes a falta de um homem a teu lado?

- Para ser sincera comigo mesma, sinto. Embora o Quim continue no meu coração, a verdade é que o corpo sente a falta de um abraço, do calor de outro corpo junto ao meu. Parece-te mal?

- Não. É normal, afinal estas na plenitude da vida. Só não percebo porque não dás uma hipótese ao doutor. E não me venhas dizer que ele é apenas como um irmão, que eu não sou cega e tive a oportunidade de ver ontem a forma como te olha. Ele está apaixonado por ti e de há muito tempo. Porque outra razão teria a tua foto em cima da sua secretária há tantos anos?

-Não quero voltar a amar. Tu não sabes o que é entregares-te a um homem de corpo e alma, e de repente ficares sem ele. Eu tinha vontade de me juntar a ele. Acredita, a única coisa que me impediu de fazer um disparate e me prendeu à vida, foram os meus filhos.  Não quero, não posso passar pelo mesmo.

-Tens medo de amar, porque podes voltar a enviuvar? – perguntou Diana espantada. Perdoa-me, mas isso é uma estupidez. Nunca ouviste dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo local? Nenhum de nós pode prever o futuro. Renunciar ao amor, por medo de voltar a perder o parceiro, é antinatural. Não tiveste acompanhamento psicológico quando o Quim morreu?

-Tive a ajuda da família e também durante algum tempo de Fernando.

-A família, por muito boa que seja apenas pode ajudar fisicamente, não tem capacidade para mais. Precisas de um psicólogo, ou psiquiatra. Porque é que o Doutor se afastou.

-Na verdade fui eu que o afastei.

-Porquê?

-Um dia, surpreendi-lhe um olhar que me deixou chocada. O Quim havia morrido há quatro meses, eu tinha sido mãe havia dois meses e vivia mergulhada na dor. Então disse-lhe que não o queria ver mais, que ele não era da família e que não tinha qualquer direito de ir lá todos os dias. Depois disso só voltei a vê-lo no casamento do meu irmão.

- Olha se queres o meu conselho, procura uma ajuda profissional que te ajude a ultrapassar esse medo.

 

 

30.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XV

 

-Claro, mas ser professora é a minha vocação desde sempre e quando nós fazemos o que gostamos é muito gratificante, - respondeu Laura.

- Bom, agora que isto já está entendido, vem conhecer o gabinete do doutor, - disse Diana levantando-se.

Atravessou a sala de espera, onde além de meia dúzia de cadeiras se encontravam uma mesa de jogos didáticos infantis e outra com revistas da atualidade e uma pequena estante com livros infantis e juvenis. De seguida abriu a porta em frente e Laura observou o amplo gabinete no qual havia uma estante com vários livros de medicina e psiquiatria, uma secretária de carvalho com uma cadeira de couro de frente para a porta e do lado contrário, duas cadeiras com estofo também em couro. Junto à janela uma marquesa e ao lado uma cadeira.

Laura aproximou-se da secretária sobre a qual estava uma moldura clássica com uma fotografia de Fernando com Gonçalo e ela entre os dois.  Pegou na moldura e ficou olhando a fotografia recordando-se perfeitamente de quando foi tirada. Ali ela tinha dezassete anos, acabara o Curso Secundário. Fernando e Gonçalo já estavam na Universidade.

-És tu, não és? – perguntou Diana

-No dia em que terminei o Secundário – respondeu

-Namoravas com ele?

- Não que ideia! Fernando era para mim como um irmão. Desde que me lembro sempre o vi lá por casa, juntamente com o Gonçalo. Os pais dele e os meus eram vizinhos, e ele que não tinha irmãos, passava mais tempo na minha casa, que na sua.

- Desculpa se cometi uma gaffe, mas a maneira como ele olha para ti, e a sua expressão, é de um apaixonado, não de um irmão. E eu sempre pensei que era a pessoa que estava na foto, a causa de ele nunca ter tido um relacionamento sério, - disse Diana.

- Não, não pode ser. Ele teria dito alguma coisa, nós éramos muito amigos, não tínhamos segredos e até conhecer o meu falecido marido, nunca nos separámos.

-Bom, deves ter razão. Talvez tenha sido o meu lado romântico que inventou essa história.

Laura poisou a foto sobre a mesa, ao lado do computador portátil que estava ligado a uma impressora instalada numa pequena mesa do lado esquerdo da cadeira.

-Bom, - disse Diana dirigindo-se para a porta.  Está na minha hora de almoço, vou fechar a clínica. Reabro às três horas. A primeira consulta está marcada para as três e meia. Vens de tarde?

- Não sei, se poderei vir, não falei nada com os meus pais. Eles estão cá esta semana, pedi-lhes para tomarem conta do meu filho Miguel. E, à tarde, têm que ir buscar a minha filha e a prima à escola. O doutor tem consultas amanhã à tarde?

-Tem todos os dias, de segunda a sexta. De manhã é que só tem às terças e quintas.

- E amanhã é quinta feira. As minha filha e a prima, têm aulas até às cinco.  Vou falar com os meus pais e talvez possa vir de manhã e de tarde até às quatro e meia. E quando sair passo pela escola e levo as meninas.

Pegou na mala e dirigiu-se para a porta

-Queres boleia, ou tens o teu carro? – perguntou encaminhando-se para a saída.

-Só vou fechar a porta. Trouxe almoço e fico a descansar as pernas na marquesa do doutor. Este barrigão dá-me dores nas costas e nas pernas, que é um caso sério, - respondeu Diana.

-Então até amanhã, - disse Laura, e  abrindo a porta saiu para a rua

27.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIV


Laura conversou com a mãe, que se mostrou radiante por ela ter aceitado a proposta de Fernando e afirmou cuidar do neto, enquanto ela estivesse ausente.

Assim, pouco depois das nove ela chegava à clínica do psiquiatra e apresentava-se à sua assistente, que não se mostrou surpreendida pois um telefonema do chefe logo de manhã, tinha-a avisado.

Diana era uma jovem morena de estatura mediana, de olhos castanhos e sorriso fácil. O cabelo curto, era igualmente castanho, embora mais claro que os seus olhos. O seu enorme ventre, mostrava que devia estar muito perto do final da gravidez e fazia com que a jovem parecesse mais baixa do que realmente era.

Quando sorria, duas covinhas apareciam no seu rosto que parecia iluminar-se.

Laura gostou imediatamente dela.

- Já era tempo de que o doutor se decidisse a arranjar alguém para me substituir – disse. Mais um pouco e eu entraria de baixa e ele ver-se-ia na contingência de ter que ser ele a explicar o serviço. Podes ir buscar uma cadeira à sala de espera, para te sentares aqui ao pé de mim?

- Claro.

Laura fez o indicado e logo que se sentou, disse:

-Não pareces surpreendida por não vir de nenhuma agência temporária.

-Não. O doutor detestava ter de o fazer. Ele gosta de trabalhar com alguém conhecido, sente-se melhor. E eu sabia que ele te queria aqui, desde que o teu irmão lhe contou que querias regressar ao trabalho, mas não tinhas conseguido vaga numa escola aqui na cidade.

-Conheces o meu irmão?

- Como não? Os dois são tão amigos que quando comecei a trabalhar aqui, e o doutor Gonçalo passava quase sempre aqui no fim das consultas, pensei que eram irmãos. Foi há anos, o chefe já tinha a clínica e alguns clientes, embora na altura ainda fizesse serviço no Hospital de S. José.  O teu irmão tinha acabado o curso e estava a estagiar no hospital de Santa Maria. Segundo me disse deveria ter acabado o Curso mais cedo, mas um grave acidente de moto, interrompeu-lhe os estudos.                                  

Quando acabou o estágio, o teu irmão foi para um hospital no Porto, o chefe decidiu encerrar a clínica e foi para Londres, onde esteve dois anos, num hospital. Ele era na altura um homem muito amargo, eu só o sentia mais alegre, quando o teu irmão o visitava. Bom, vamos então começar?

- Claro, foi para isso que vim, - disse Laura embora tivesse gostado que Diana lhe continuasse a falar de Fernando. Na verdade, ela perdera todo o contacto com ele quando casara e viera viver para Lisboa. Na altura, ele já tinha terminado o curso, e embora já estivesse em Lisboa, ela tinha-lhe perdido o rasto.

- Aqui atrás de mim, está o ficheiro onde se guardam todas as fichas dos clientes por ordem alfabética. O chefe não usa estas fichas, ele escreve tudo no computador. Depois que as consultas acabam, tens que transcrever tudo para as fichas do doente. Isto porque pode haver uma falha do sistema, e sem uma ficha atualizada em papel, ele não teria acesso aos dados do doente.

 É a velha história, os computadores são rápidos e eficientes, mas quando o sistema falha o que salva qualquer negócio, são os registos em papel. Quando fazes a inscrição, se for a primeira vez, abres esta gaveta, tiras uma ficha destas e preenches com o nome e idade do doente. Se já é doente é só procurares no ficheiro.

- Não parece difícil.

-Nada. Tenho a certeza que é bem mais difícil preparar uma aula nova todos os dias.

25.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIII


Quando Fernando chegou para levar as crianças à escola, já se tinha decidido.

- Bom dia! -saudou ele

- Bom dia, - respondeu. Entra, vieste mais cedo, hoje. As meninas estão a acabar o pequeno-almoço. Queres beber um café, enquanto esperas?

-Aceito, obrigado. Tenho uma notícia para a Matilde.

- Aconteceu alguma coisa? Tiveste notícia dos noivos? - perguntou assustada enquanto fechava a porta atrás dele que já se encaminhava para a cozinha.

- Não, descansa, não é nada grave. O Sérgio ligou-me ontem à noite. A Sofia tinha acabado de dar à luz um rapagão com quase quatro quilos.

- Meu Deus, outro menino. E ela tinha tanta esperança que desta vez fosse uma menina.

- Queres dizer que eles não sabiam que era um menino? Ela não fez ecografias?

- Fez. Mas o bebé estava sempre em má posição e o médico nunca conseguiu ver. E toda a gente lhe dizia que quando é assim, é menina! Deve ter sido uma desilusão.

-Pois ele pareceu-me muito feliz, quando me deu a notícia.

- E tenho a certeza que a Sofia também estará. Na verdade, o desejo de qualquer mãe ou pai, é que o seu bebé seja perfeito e saudável.

Tinham parado no corredor, e preparavam para entrar na cozinha quando Matilde saiu, seguida da prima.

-Olá! Que fazem vocês aí a bichanar no corredor? Aconteceu alguma coisa com os meus pais? – perguntou preocupada.

-Não, - respondeu a tia. O Fernando estava a contar-me que o teu tio Sérgio lhe ligou, a informá-lo de que já tens mais um primo.

- Outro rapaz? Coitada da tia Sofia! Queria tanto uma menina! Bom, tio Fernando, esperas um pouco, enquanto nós vamos lavar os dentes e buscar as mochilas?

- Claro Matilde não te preocupes. Enquanto isso vou aceitar o café que a Laura me ofereceu. Temos tempo, eu hoje vim mais cedo.

Enquanto elas se dirigiam à casa de banho, os dois entraram na cozinha. Laura tirou do armário uma chávena que encheu com o aromático café e colocou-a na mesa em frente dele.

-Bebes só o café, não queres comer nada?

- Não, obrigado!

- Tens consultas de manhã?

-Não. Vou ter uma vídeo conferência com outros psiquiatras de várias partes do mundo, sobre o desenvolvimento de novas doenças mentais e quais as melhores terapias. Porquê?

- Porque decidi aceitar a tua proposta, e tencionava ir esta manhã ao teu consultório, se os meus pais ficarem com o Miguel.

-Mas é claro que podes ir na mesma. A Diana está lá e põe-te ao corrente de tudo. Fico muito feliz com a tua decisão. Custava-me ter de recorrer à empresa de trabalho temporário, e ter que trabalhar com uma desconhecida.

Naquele momento as duas adolescentes apareceram à porta da cozinha.

-Já estamos prontas, tio Fernando. Podemos ir quando quiseres.

Ele levantou-se e encarou-as.

- Claro, quando eu ganhar o meu beijo das duas princesas.

Rindo elas beijaram-no, e depois fizeram o mesmo com Laura e os três encaminharam-se para a porta da rua, seguidos pela dona da casa.

-Juizinho, - recomendou-lhes antes que entrassem no carro. Elas voltaram-se e atiram-lhe um beijo na ponta dos dedos entrando no veículo em seguida e fechando a porta.

Logo de seguida o carro arrancou suavemente. Laura ficou na porta até vê-lo entrar na estrada e desaparecer. Só então fechou a porta e voltou à cozinha.