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28.9.17

A RODA DO DESTINO - PARTE VI


Quando regressaram da lua-de-mel, ambos estavam cientes de que tinham cometido o maior erro das suas vidas, e que o melhor que podiam fazer, seria divorciarem-se. Sentaram-se e discutiram a decisão, sem ódio nem rancores. Sabiam que a única solução para eles era o divórcio. Porém também sabiam que não podiam tomar uma decisão dessas, à chegada da lua-de-mel. Ia ser um choque enorme para as duas famílias. Iam virar, a anedota da terra, e já que a asneira tinha sido deles, decidiram de comum acordo, esperar uns seis meses. Entretanto eles continuariam a ser o que sempre foram. Amigos, quase irmãos. Porém quando passados os seis meses iam contar às respetivas  famílias e avançar com o divórcio, o seu sogro fora diagnosticado com um cancro no cérebro, e de comum acordo, decidiram que o divórcio teria que ser adiado. A situação emocional dos sogros, não aguentaria semelhante dor. Além disso o marido precisava do seu apoio. Os três meses que mediaram entre o diagnóstico e a morte do sogro, pareceram anos, tão grande foi o desgaste físico e emocional, das idas diárias ao hospital, do observar o sofrimento do sogro, sem poder fazer nada para o aliviar, de ver o sofrimento da esposa, sua companheira de vida durante trinta e cinco anos. Sem falar em Afonso, para quem o pai sempre foi o herói em quem ele próprio, gostaria de se transformar um dia. Depois da morte do sogro, a instabilidade emocional, e o desgosto da sogra, deixaram-na depressiva, e mais uma vez, os dois adiaram o divórcio. 
Foram precisos mais de dois anos, após a morte do sogro, para que Anete e o marido, tivessem decidido, que era hora de tratar do divórcio. Ambos estavam a deixar passar a juventude vivendo uma mentira, e quem sabe, entretanto deixavam passar a oportunidade de conhecerem o amor das suas vidas.  
Mas ainda foi preciso convencerem as famílias, de que a decisão era irrevogável e não havia tentativa milagrosa que pudesse evitar um divórcio (que ninguém entendia), para evitar as tentativas frustradas de fazê-los mudar de ideia. O casamento fora um erro, do qual os dois eram culpados e estavam igualmente decididos a dissolvê-lo.
Depois do divórcio, como Afonso tinha a sua empresa na cidade, e precisava ficar perto da mãe, ela decidiu ir viver para a capital. Alguma coisa lhe dizia que lá estava o verdadeiro rumo da sua vida.
Conseguira, alugar um pequeno apartamento num ponto periférico da cidade, mas muito bem situado em relação aos transportes, pois tinha uma paragem de autocarros a cinquenta metros, e o metro a menos de cem. O que era o ideal, uma vez que o seu carro, ficara na garagem dos pais. Mais tarde iria buscá-lo, quando perdesse o medo à cidade grande.
Sorriu ao lembrar da cara do seu irmão Luís, quando dois dias atrás a visitara, e ela se atrevera enfim a contar-lhe a razão por que se divorciara. Contudo o seu assombro seria bem maior, se soubesse que em mais de três anos de casamento, ele nunca fora consumado.

ESTA DEVE SER A ALTURA EM QUE VOCÊS ESTÃO A PENSAR, QUE NÃO DIZ A BOTA COM A PERDIGOTA.  SERÁ QUE ME PERDI?

4.7.17

ROSA - PARTE V


Dois dias depois, Rosa estava na cidade grande. Quase sem dinheiro, o ourives dissera que os brincos não valiam grande coisa, e pagou por eles tão pouco que quase nada sobrara depois de comprar o bilhete para a capital.
A cidade era enorme e ela não sabia para onde ir nem o que fazer. Caminhou por uma rua, tão grande que era maior que a sua aldeia, batendo a todas as portas, pedindo trabalho. Mas as pessoas olhavam-na de alto a baixo como se ela não regulasse bem da cabeça e fechavam-lhe a porta na cara. Algumas até lhe acicatavam os cães. Realmente o seu aspeto não era muito agradável. A saia castanha de casimira até ao tornozelo estava bastante amassada da longa viagem de comboio, a blusa de pano-cru, com uma gola redonda, em cuja orla a avó fizera um enfeite, estava enxovalhada, as tamancas de madeira e couro e a cesta de vime escuro, onde transportava algumas peças de roupa, completavam a sua indumentária.
Faminta e cansada, sentou-se num banco de um jardim sem saber o que fazer ou para onde ir.
Pouco depois, uma mulher de meia-idade sentou-se a seu lado no banco e meteu conversa com ela. Perguntou-lhe o nome, a idade, se estava sozinha em Lisboa, se não tinha família.
Desorientada e carente, Rosa contou de onde viera, falou da morte da avó, única parente que tivera até aí, do seu desejo de arranjar trabalho, afinal a cidade era tão grande, tinha tanta casa, mal haveria de ser, que ninguém precisasse de uma criada. E ela sabia fazer tudo menos comida, que nunca cozinhara e só sabia fazer chá.
Depois de a ouvir, a mulher disse que tinha trabalho para ela. Era só acompanhá-la até à sua casa.
Rosa sentiu que lhe nascia uma alma nova, quase teve vontade de abraçar a mulher.
Quando lá chegaram, esta levou-a para um quarto como Rosa nunca tinha visto. Era espaçoso, tinha uma grande cama de casal, coberta por uma colcha adamascada em tons de vinho, reposteiros do mesmo tecido, duas mesas-de-cabeceiras e um armário com as portas em espelho de alto-a-baixo. Ao lado uma porta. A mulher abriu a porta e Rosa viu um quarto de banho parecido com aquele que tinha visto na casa grande lá da aldeia. A mulher disse-lhe para se lavar e vestir as roupas que estavam no armário. Deviam ser mais ou menos do seu tamanho.
- As tuas não servem. Não se usam na cidade nem fazem jus à tua beleza. Daqui por meia hora, venho buscar-te para o jantar.



Continua

Nota:  Parece que esta história tem escandalizado alguns leitores. Pois, ela não é uma história delicodoce  como algumas que escrevo e tanto vos agradam. É uma história de vida, de uma mulher do povo, entre os anos trinta e setenta do século passado. E antes que me perguntem, se a história é verídica, digo-vos que não, mas que há nela muita veracidade. As pessoas da minha geração sabem de muitas, Rosas, Marias, Joaquinas, etc que existiram neste país. É também um pouco da história deste país, noutros tempos, que eram bem mais difíceis do que os actuais.