Enquanto terminava a maquilhagem, Daniela pensava em tudo o que lhe acontecera desde que conhecera David. A raiva que a tomara, de início, foi substituída por um sentimento que ela ainda não sabia bem como definir. O que sabia, é que o seu corpo entrava em ebulição quando ele estava perto, e que desde o dia em que quase se beijaram no escritório, que ela vivia a sonhar com os seus beijos. Sabia que se estava a meter num terreno perigoso, mas não lhe importava. Tinha quase trinta e dois anos, era uma mulher adulta. Sabia que não podia sonhar com o casamento, mas também não ia levar o resto da vida, em abstinência total. David agradava-lhe, e percebia que ele também a desejava. O único problema era o facto de serem sócios. Misturar o trabalho com uma aventura, não ia dar certo, ela sabia-o.
Acabou de se arranjar no momento em que a campainha
tocou. Abriu a porta, e saiu.
-Estás linda!
-Obrigada.
-Tens algum sitio especial onde queiras ir? –
Perguntou-lhe enquanto punha o carro em marcha.
- Não. Escolhe tu.
Levou-a para um restaurante à beira-mar.
- Um local muito bonito. Costumas vir aqui muitas vezes?
- Algumas. Não conhecias?
- Não.
- Enquanto esperavam ser atendidos, ele pegou-lhe na mão
e pediu num sussurro.
- Fala-me de ti.
- Não é um tema interessante.
- Isso, sou eu quem decide.
- Bom. Fui uma criança feliz, mimada pelos pais e pelo
Daniel que tem mais três anos do que eu, e que até à minha entrada para a faculdade
sempre foi muito protetor. Cursei contabilidade e gestão de Empresas, porque
sempre me fascinou a ideia de vir a gerir o negócio da família, tanto mais que
o meu irmão, se direcionou para a medicina e desde muito novo mostrou a sua vocação
para se por ao serviço dos mais necessitados. Não fora a doença do nosso pai, e
já há muito tinha ido para África.
Calou-se enquanto o empregado tomava nota do pedido.
-A minha mãe morreu quando entrei para a faculdade.
Cancro no peito. Era ainda jovem e morreu em seis meses. Senti muito a sua
falta. Nessa época conheci o Filipe. Era simpático, bonito, e foi um grande
apoio, para a minha dor. Casamo-nos dois anos depois. O casamento não foi o que
esperava, e ao fim de quatro anos, o divórcio foi a única solução.
A doença do meu pai, não me deixou tempo para carpir
mágoas. O meu irmão não queria ouvir falar da fábrica, e o pai já não conseguia
continuar. Comecei a trabalhar a seu lado, mas em breve, ele teve que ser
hospitalizado e pouco tempo depois morreu. E é tudo.
