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20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXVIII


Apesar de Jorge não ter levantado a voz, nem parecer alterado, aquela ordem continha tal força, que o filho não se atreveu a contestá-la. Levantou-se e seguiu o pai até ao escritório, parando à porta, ao ver Jorge abria uma gaveta que que habitualmente estava fechada à chave. 
- Entra. Fecha a porta e senta-te. Quero que vejas uns documentos.
Sem saber que pensar, o jovem obedeceu.
-Lê isto, - disse o pai estendendo-lhe a certidão do seu primeiro casamento.
Ele leu o documento e devolveu-o sem saber o que pensar.
- Antes que comeces a pensar noutra enormidade, a meu respeito, aqui tens o registo do divórcio, e devo dizer-te que a tua mãe, sabia que eu era divorciado quando aceitou casar comigo.
-Não sabia. E não entendo porque me mostras isto agora. 
-Serás capaz de entender, se te disser que a jovem com quem me viste, é filha da minha primeira mulher, e nasceu cinco meses após o divórcio?
Cláudio levantou-se e encarou o pai.
- O que é que estás a querer dizer-me? Que essa mulher é tua filha? E como é que nunca nos disseste nada?
- Eu próprio não sabia. Natália escondeu-me que estava grávida, e como foi viver para Lisboa, eu nunca soube. Quando ela morreu, a filha encontrou esses documentos e resolveu procurar-me. Queria saber se eu era o seu pai, e embora eu tivesse a certeza que o era, desde que me disse a data do seu nascimento, ela insistiu num teste de paternidade. Fui buscar hoje o resultado. Aqui tens.
O jovem leu o teste que provava que Helena Trindade era filha de Jorge Noronha. Envergonhado estendeu o documento ao pai.
- Onde é que ela está?- Perguntou sem se poder conter.
- Voltou à sua casa em Lisboa. Mas espero trazê-la em breve para cá. Tão depressa conte à tua mãe. O que me dói, é saber que conhecendo-me há mais de vinte anos, e depois da nossa conversa naquela noite, foste capaz de  me julgar como um ser, imoral e sem sentimentos, que abandonava a mulher doente em casa e saía para encontros amorosos, ainda mais, com uma miúda. Estou muito dececionado contigo.
- Desculpa pai. Fiquei cego de ciúmes. Lembras-te da jovem que conheci em Coimbra? A mulher por quem me apaixonei e que me deixou com uma carta de adeus? Era ela, a Helena.
- Helena, a minha filha?- Desta vez era Jorge que se mostrava surpreendido. Que coincidência. E continuas apaixonado?
- Que te parece? Não me apetece comer, durmo mal, penso nela a toda a hora e até há  minutos, tinha vontade de te esganar, por julgar que eram amantes.
-Postas as coisas assim, não tenho dúvidas, de que estás apaixonado. Mas lembra-te que para uma relação ser feliz, o amor tem que ser recíproco.
- Tenho a certeza de que não lhe sou indiferente. Mas ela tem medo, não sei se de mim ou do próprio sentimento que lhe despertei.
- O meu casamento com a mãe dela, falhou por causa desse medo, e de um ciúme exacerbado. Para felicidade de ambos, oxalá Helena, não tenha herdado isso da mãe. E agora? Que pensas fazer?
- Agora, enquanto o vinho não terminar a fermentação e não fizermos a trasfega para os barris onde vai envelhecer, não posso fazer nada. Mas logo que a operação termine gostava de ir buscá-la a Lisboa. Mas tens que contar à mãe, o mais depressa possível.
-- Conto fazê-lo depois de amanhã. Faz um mês que foi operada, o médico deve dar-lhe alta. A enfermeira diz que ela está bem, já não preciosa de cuidados especiais, a não ser claro os esforços físicos. Mas quero confirmar com o médico. Agora o melhor é ir para a cama que já é tarde. Boa noite, filho.
- Boa noite, pai. E perdoe-me.
- Não há nada a perdoar. Provavelmente no teu lugar, pensaria o mesmo.