Apesar de Jorge não ter levantado a voz, nem parecer alterado, aquela ordem continha tal força, que o filho não se atreveu a contestá-la. Levantou-se e seguiu o pai até ao escritório, parando à porta, ao ver Jorge abria uma gaveta que que habitualmente estava fechada à chave.
- Entra. Fecha a porta e senta-te. Quero que vejas uns
documentos.
Sem saber que pensar, o jovem obedeceu.
-Lê isto, - disse o pai estendendo-lhe a certidão do seu
primeiro casamento.
Ele leu o documento e devolveu-o sem saber o que pensar.
- Antes que comeces a pensar noutra enormidade, a meu
respeito, aqui tens o registo do divórcio, e devo dizer-te que a tua mãe, sabia
que eu era divorciado quando aceitou casar comigo.
-Não sabia. E não entendo porque me mostras isto agora.
-Serás capaz de entender, se te disser que a jovem com
quem me viste, é filha da minha primeira mulher, e nasceu cinco meses após o divórcio?
Cláudio levantou-se e encarou o pai.
- O que é que estás a querer dizer-me? Que essa mulher é
tua filha? E como é que nunca nos disseste nada?
- Eu próprio não sabia. Natália escondeu-me que estava
grávida, e como foi viver para Lisboa, eu nunca soube. Quando ela morreu, a
filha encontrou esses documentos e resolveu procurar-me. Queria saber se eu era
o seu pai, e embora eu tivesse a certeza que o era, desde que me disse a
data do seu nascimento, ela insistiu num teste de paternidade. Fui buscar hoje
o resultado. Aqui tens.
O jovem leu o teste que provava que Helena Trindade era
filha de Jorge Noronha. Envergonhado estendeu o documento ao pai.
- Onde é que ela está?- Perguntou sem se poder conter.
- Voltou à sua casa em Lisboa. Mas espero trazê-la em
breve para cá. Tão depressa conte à tua mãe. O que me dói, é saber que conhecendo-me
há mais de vinte anos, e depois da nossa conversa naquela noite, foste capaz de me julgar como um ser, imoral e sem sentimentos, que abandonava a mulher doente em casa e saía para
encontros amorosos, ainda mais, com uma miúda. Estou muito dececionado contigo.
- Desculpa pai. Fiquei cego de ciúmes. Lembras-te da jovem
que conheci em Coimbra? A mulher por quem me apaixonei e que me deixou com uma
carta de adeus? Era ela, a Helena.
- Helena, a minha filha?- Desta vez era Jorge que se
mostrava surpreendido. Que coincidência. E continuas apaixonado?
- Que te parece? Não me apetece comer, durmo mal, penso
nela a toda a hora e até há minutos, tinha vontade de te esganar, por
julgar que eram amantes.
-Postas as coisas assim, não tenho dúvidas, de que estás
apaixonado. Mas lembra-te que para uma relação ser feliz, o amor tem que ser
recíproco.
- Tenho a certeza de que não lhe sou indiferente. Mas ela
tem medo, não sei se de mim ou do próprio sentimento que lhe despertei.
- O meu casamento com a mãe dela, falhou por causa desse
medo, e de um ciúme exacerbado. Para felicidade de ambos, oxalá Helena, não tenha herdado isso da mãe. E
agora? Que pensas fazer?
- Agora, enquanto o vinho não terminar a fermentação e não
fizermos a trasfega para os barris onde vai envelhecer, não posso fazer nada. Mas
logo que a operação termine gostava de ir buscá-la a Lisboa. Mas tens que
contar à mãe, o mais depressa possível.
-- Conto fazê-lo depois de amanhã. Faz um mês que foi
operada, o médico deve dar-lhe alta. A enfermeira diz que ela está bem, já não
preciosa de cuidados especiais, a não ser claro os esforços físicos. Mas quero
confirmar com o médico. Agora o melhor é ir para a cama que já é tarde. Boa
noite, filho.
- Boa noite, pai. E perdoe-me.
- Não há nada a perdoar. Provavelmente no teu lugar, pensaria o mesmo.
