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29.5.17

JOGO PERIGOSO -PARTE X


Ouviu-se de novo a pancada na porta, e à sua ordem de entrada, Rita abriu a porta e deixou passar Glória.
Era uma mulher alta, magra e muito bonita. Uma das modelos que no ano anterior tinha participado no catálogo e que pouco tempo depois se tinha convertido em sua amante.
Aproximou-se, como se estivesse desfilando, deu a volta à secretária e exclamou enquanto o abraçava.
- Que se passa amorzinho, não tens aparecido, não telefonas…
Afastou-a sem violência, mas com firmeza.
- Senta-te Glória, precisamos falar.
Esperou que ela se sentasse e depois fez o mesmo recostando-se na cadeira, sem que lhe passasse despercebido o cruzar das pernas, com que ela o presenteou. Procurou uma desculpa.
- Sabes que não disponho de muito tempo livre.
-Sei. Mas antes tinhas sempre tempo para mim…
- Antes, tinha mais tempo. Acabei de comprar uma nova fábrica. Estou demasiado ocupado. Compreendo que és jovem, bonita, e que mereces gozar a vida. Será melhor que não te prendas comigo.
- Quer isso dizer que estás a correr comigo?- Perguntou os olhos faiscantes de raiva. Quem é ela? Uma nova modelo? Foi por isso que não quiseste que participasse neste catálogo?
- Nada disso, Glória. Não tenho ninguém, acredita. Quero que sejas feliz, e eu não tenho tempo, nem estou preparado para uma relação séria.
- Não acredito. Por tua causa rejeitei um bom contrato, que me podia levar até ao Japão. E agora corres comigo.
- Lamento. Posso ajudar-te até teres um novo contrato, e mover as minhas influências para conseguir-to rapidamente.
Estendeu a mão, pegou num cheque, que tinha em cima da mesa e estendeu-lho. Ela estava furiosa, e preparava-se para uma discussão, mas um rápido olhar ao cheque, acalmou-a. Um lampejo de gozo perpassou pelo olhar masculino. Ela pegou no cheque, dobrou-o e meteu-o na mala. Não agradeceu. Limitou-se a dizer:
-Espero que me consigas um bom contrato em breve.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando a porta aberta. Rita assomou à porta, e sorriu:
-Foi dispensada? Pensava que desta vez, tinhas sido apanhado. É muito bonita.
- Tão bonita, quanto oca. Bom, põe-te em contacto com a Lanvin em Paris, e vê se o meu amigo Louis Courtney, está.
- Tens pressa em despachá-la para longe?
Ele não respondeu


18.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXV




Iniciava-se a década de 60, a gloriosa década de 60, o mundo inteiro está em mudança, mas em Portugal, a politica de isolamento, castrava à nascença, qualquer indício de modernidade vindo do estrangeiro. Por outro lado a maioria do povo seguia uma vida de miséria, provações e medo.  E na seca, a vida continuava absolutamente igual ao que sempre fora.  A mulher do Manuel, era simultaneamente porteira,e trabalhadora da Seca,  já que era ela quem abria o portão, para o pessoal que vindo do Barreiro, encurtava caminho, passando pela caldeira do Alemão, e seguindo junto ao rio, até ao portão de entrada na Seca, que lhe ficava à porta. Quando passavam as últimas pessoas, fechava o portão à chave, e seguia com elas para o trabalho de lavar, salgar, banhar, estender ou enfardar o bacalhau. À tarde saía um pouco mais cedo para ir abrir o portão, por onde o pessoal passava de regresso a casa. Cabia-lhe ainda, a ingrata tarefa de revistar os cabazes que o pessoal trouxera com o almoço, não fora alguém esconder nele algum bacalhau. Na Seca havia outro portão, que servia para os trabalhadores que moravam na Telha, ou vinham de Palhais, ou Santo António. Era a entrada principal por onde passavam os carros.
Além dos três filhos com pequena diferença de idade, o casal cuidava ainda dum sobrinho, que tinha quase a idade do filho deles, e tinha escrito aos tios, logo que terminou a primária, a pedir para vir morar com eles, pois queria fugir da miséria na aldeia.
No casarão vivia ainda o cunhado mais novo  do Manuel, que entretanto saíra da tropa e fora trabalhar para a Siderurgia no Seixal. Namorava uma rapariga de Palhais, que trabalhava na Seca, queria juntar uns tostões para o casamento e vivendo com a irmã não pagava renda, era mais fácil.
A filha mais velha já trabalhava na Seca, sempre ajudava o orçamento.  Ficou assim a trabalhar na seca durante a safra. O pior eram os meses em que o trabalho na seca estava parado. A miúda já se inscrevera em lojas, mas sempre queriam alguém com experiência e ninguém tem experiência antes do primeiro trabalho.
O pequeno terreno que desbravara ao mato, ajudava com os legumes, e a mercearia ele mandava pôr no rol, que pagava religiosamente quando a próxima safra começava.
A filha do meio estudava na Escola Industrial e Comercial Alfredo  da Silva no Barreiro, porque depois de muito pensar, de pesar os prós e os contras, Manuel decidiu que ia dar à filha a oportunidade de estudar. Pelo menos naquele ano, depois se veria se ela sabia ou não aproveitar a oportunidade. O filho, que finalmente começara a falar como gente, recuperara o tempo perdido, e está agora na 4ª classe no Barreiro.