Enquanto João se metia no carro e arrancava sem rumo fixo,
perdido nos seus pensamentos, destruídas todas as suas convicções, em relação
aos progenitores, e ao papel que cada um teve na sua meninice, Inês telefonava
a Teresa.
- Amiga consegui falar com a minha médica. Ela tem
marcações até às seis, mas aceitou ver-te depois da última cliente. Já falei
com o Gustavo, e com o meu pai. O Gustavo vai buscar o Martim a casa dos avós e
janta lá, pois as consultas podem atrasar-se.
- Achas mesmo necessário ir hoje? Não podias marcar para
amanhã?
- “Não guardes para amanhã, o que podes fazer hoje “. Ademais amanhã, a médica está de serviço no
hospital. E não podes protelar mais uma consulta. Nunca vi uma grávida com tão
poucas semanas a passar tão mal. Arranja-te, eu vou buscar-te quando faltar um
quarto para as seis.
Teresa desligou a chamada e ficou pensativa. Preferia
esperar pela sua médica, ia sentir-se mais à vontade, mas como ela estava de
férias, e não querendo voltar ao Centro Clínico, tinha que aceitar a solução
encontrada pela amiga. De resto Inês sempre lhe dissera que a doutora Laura
Aguilar era uma excelente médica. Olhou o relógio. Ainda não eram cinco horas.
Podia continuar deitada mais um pouco, desde que não se deixasse dormir. Mas os
olhos pesavam-lhe tanto que achou por bem levantar-se e ir tomar banho.
Quando a amiga tocou a campainha, guardou o telemóvel na bolsa,
agarrou as chaves e saiu.
Já no consultório, como doente da primeira consulta teve
que responder a todas as perguntas que a empregada lhe fez para elaborar a
ficha. Quando terminou, olhou à sua volta. Na sala ainda estava uma mulher em
adiantado estado de gravidez. A última cliente da médica. O que queria dizer
que as consultas estavam atrasadas pois o relógio já marcava as seis e vinte.
Sentaram-se e aguardaram. Cinco minutos depois outra mulher saía do gabinete e
a assistente chamava a última doente presente na sala. Trinta e cinco minutos
mais tarde, chegou finalmente a vez de Teresa.
A médica era uma mulher baixinha, de voz suave e sorriso
fácil.
Depois dos cumprimentos, a doutora perguntou:
- Então diga-me
Teresa, o que se passa consigo, que tanto preocupa a sua amiga. É o primeiro
filho? Já fez alguma consulta depois que engravidou?
Teresa contou à médica as condições especiais da gravidez,
bem como os sintomas que tinha e quando terminou, a médica levantou-se.
-Vou observá-la e fazer uma ecografia. A Teresa parece-me
demasiado magra. Vamos pesar e medir - disse apontando a balança a um canto da
sala.
A jovem subiu para a balança, e a médica verificou primeiro
a altura depois o peso
- Um metro e setenta e cinco, cinquenta e seis quilos. Com a sua altura, pode ser um bom peso para
uma modelo, mas é claramente insuficiente para uma mulher grávida. Vamos passar
ao gabinete ao lado, e preparar para a observar.
Teresa olhou para a amiga e a médica intercetando o olhar
disse:
-A Inês pode vir.
Depois de preparada, a médica observou-a durante algum
tempo. Tinha um aspeto concentrado, e parecia mostrar-se preocupada.
Por fim, deu o exame por terminado, e então pegou no frasco
de gel, passou uma porção no ventre da jovem e deu início à ecografia:
Depois de uns minutos perguntou:
-Há na sua família algum caso de gravidez múltipla?
-Não.
-E fez algum tratamento para engravidar com mais
facilidade, algum tipo de comprimidos para estimular a ovulação?
- Sim. Disseram-me que na maioria dos casos não se consegue
engravidar à primeira vez, e então fiz um tratamento, sim.
-E sabe que esse tipo de medicamento pode ter como efeito
colateral, um híper estímulo ovariano e consequente gravidez múltipla?
- Quer dizer que vou ter gémeos? – perguntou
- Trigémeos, se conseguir levar a gravidez até ao fim, coisa
que no seu estado atual duvido muito. Precisa de repouso absoluto, e uma dieta
super-rica em proteínas, para que ganhe peso rapidamente. Mas não precisa só de ganhar peso tem que fazer repouso absoluto, e necessita de alguém que cuide de si . Penso que o melhor é ir ter comigo amanhã ao hospital e eu trato de
a internar durante uns dias, para evitar um aborto que se adivinha se não
aumentar rapidamente de peso. A Teresa está com seis semanas e quatro dias.
Quer ver os bebés? Nesta altura ainda não se podem chamar de bebés, mas o embriões já têm batimento cardíaco e o tubo neuronal - que será o cérebro e a medula espinal- está a começar a fechar-se. Vou aumentar o som para que oiça os
seus corações.
NOTA : A todas as minhas amigas recordo que Outubro é o mês Rosa. Pela vossa saúde não se esqueçam da prevenção do cancro da mama