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22.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE III




Uma tarefa árdua.  Alzira corava quando o marido lhe lançava um olhar mais atrevido, tinha vergonha de se despir na frente dele, quanto mais abandonar a posição de missionário por uma nova experiência, ficar de luz acesa nos momentos de intimidade, ou retribuir-lhe as carícias. Foi preciso muita paciência, muito amor, até que a esposa, percebesse que não há nada proibido, nem vergonhoso entre dois seres que se amam, e entendesse que contrariamente ao que a mãe lhe dizia, o caminho para o coração de um homem, pode não ser exatamente o do estômago.

Três anos depois, Luís começava a ficar preocupado, pois apesar de não usarem métodos contracetivos, e terem uma vida sexual intensa, Alzira não engravidava. Depois de conversarem sobre o assunto, resolveram procurar ajuda médica. Luís pensava que talvez a esposa fosse estéril, e ela temia isso mesmo. Emagreceu, estava triste. Temia perder o marido. Adorava-o. Para ela, era Deus no Céu e o marido na terra. Ele percebeu. E apesar de ansiar por um filho, jurou-lhe que nada mudaria se ela não os pudesse ter. Amava-a de qualquer jeito. 

Porém depois de todos os exames feitos descobriu que afinal o problema era dele. Sofria de Azoospermia.
Ele não sabia o que isso era e então o médico explicou-lhe que o seu sémen  não continha espermatozoides. Era como se o seu sémen fosse um ovo apenas com clara, sem gema. Impossível ser pai, a não ser que recorresse à adoção. 
Ficou triste, enraivecido, doente. Sentia-se diminuído.

Foi nessa altura que se apercebeu do verdadeiro amor da esposa e de como ela tinha mudado. Convenceu-o que para ela, era muito mais importante o seu amor, do que o desejo de ter filhos. 
Ainda que não fosse mãe, era mulher, e uma mulher que ele fazia muito feliz.  Mas a maior prova de amor, recebeu-a, quando interrogada pelos pais, sobre quando lhes daria um neto, assumiu perante a sua família que nunca lhos daria, porque ela era estéril.

Anos mais tarde, pensando que aprendera o suficiente para tentar dar outro rumo à vida, Luís decidiu emigrar. Alzira deixou tudo e foi com ele. Estiveram quinze anos na Suíça. Trabalharam muito, fizeram imensos sacrifícios, mas regressaram com o dinheiro suficiente para comprarem um terreno e construírem uma bonita casa.

Não era nenhuma grande mansão, muito menos um palacete, mas era uma bonita casa térrea, com um pequeno terreno à volta que a mulher logo encheu de flores.



10.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVII



 Eram dez horas da manhã de segunda-feira, quando os três partiram para a aldeia na Beira Alta onde iam passar o Natal na casa dos pais de Helena.  Nas vésperas tinham passado o dia no Centro Comercial, onde ela comprara para ele, várias peças de roupa. No inverno precisa-se muito mais roupa que no verão, especialmente no norte do país onde é mais rigoroso.

 Almoçaram num dos restaurantes do Centro e depois levaram a criança ao cinema para assistir à sessão de Minions. Mais tarde passaram no supermercado, e comparam frango assado e batatas fritas para o jantar.

 O menino adorou o dia, estava encantado, com tudo, especialmente com o “tio”. Helena nunca se tinha apercebido de como ele necessitava de uma figura masculina. Mas não era só Diogo que estava encantado com Fernando. Ela também estava. Tanto que receava estar a apaixonar-se por ele. 

Sentia um formigueiro no corpo e as pernas tremiam-lhe, cada vez que ele lhe tocava, ainda que fosse apenas para a aliviar do peso do saco das compras. Dava por si, a fantasiar como seria fazer amor com ele. Sentir-se beijada e acariciada por ele. Aquilo não podia estar a acontecer. Raio de sorte a sua. A primeira vez que se apaixonara, fora por um traste, e agora ia apaixonar-se por um homem que não sabia quem era? Não devia ter-se metido naquele imbróglio, mas agora o mal já estava feito.

Felizmente que em casa dos pais, não teriam a intimidade que tiveram naquele fim de semana, e seria bem mais fácil a convivência sem constrangimentos. Tinham chegado a um determinado ponto da estrada, numa longa reta, quando ela parou o carro e voltando-se para ele informou.
- Foi aqui, na berma, naquele lado da estrada.

Ele não disse nada. Limitou-se a olhar, viu as três árvores mais à frente, alguns arbustos, e então perguntou:
- Não pensaste que podia ser uma armadilha, que podia alguém estar escondido naqueles arbustos?
- Claro que pensei. Mas também pensei que podia ser alguém em perigo de vida. Sou médica, e felizmente o meu instinto sobrepôs-se ao medo.

Ele pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios.
-Obrigado.
Sentiu-se recompensada com a rouquidão da sua voz, e o brilho húmido do seu olhar.


18.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VII




A colega despediu-se, depois de mais umas perguntas ao doente:
- Bom, Helena, tenho que ir. Conversamos amanhã.
- Amanhã estou de banco. Ligo-te, quando puder. Obrigada, por me teres avisado.
Helena puxou a cadeira para junto da cama e sentou-se:
- Fico feliz por ver que está em franca recuperação. Cheguei a temer que fosse demasiado tarde quando o encontrei.
- Já me contaram doutora. Sei que lhe devo a vida, e não tenho palavras para lhe agradecer. Foi muito corajosa.
- Não tem nada para agradecer, mas se o quiser fazer, agradeça-me pondo da sua parte todo o empenho numa rápida recuperação. E não me chame doutora. Guarde esse tratamento para a minha colega, que é a sua médica. Trate-me por Helena. Vou deixá-lo. Precisa descansar. Vou passando quando puder, para ver como vai. Sei que está a passar por uma experiência difícil, Tente não ficar desesperado, tenha a certeza de que a equipa médica que o acompanha, vai fazer tudo para o ajudar.
- É um desespero, não saber quem sou. Esforço-me por me recordar de alguma coisa e nada.
- Bom, - disse ela pondo-se de pé. – Tenho que ir, está quase na hora do jantar. Quer que lhe traga alguma coisa, quando voltar?
- Uma cabeça nova, - disse sorrindo pela primeira vez.
Helena, não pôde deixar de notar, como a expressão no rosto masculino, se suavizara com o sorriso. Estendeu-lhe a mão.
- Se isso fosse possível até eu quereria uma, - disse rindo.
Ele apertou-lhe a mão entre as suas, e disse com a voz enrouquecida.
- Obrigado. Nunca vou esquecer o que fez por mim, doutora

Helena não respondeu. Suavemente soltou a mão e virou costas, perplexa com os seus sentimentos. O que é que estava a acontecer com ela? Não podia estar a interessar-se por um desconhecido. Disse a si mesma que era apenas o interesse profissional dum médico pelo doente, e isso tranquilizou-a um pouco. Olhou o relógio. Tinha demorado mais do que queria, estava quase na hora de saída da empregada. Tinha que se apressar. Ainda tinha que passar pela pizaria, tinha prometido ao filho que levaria uma piza para o jantar. A rua fervilhava de gente aquela hora. As montras decoradas, mostravam que se estava quase no Natal e ela ainda não comprara os presentes. Tinha que o fazer no próximo fim de semana.




Parece que os leitores, estão tão às escuras como o sinistrado. Ninguém aventura um palpite?

2.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE I




O primeiro domingo de Dezembro, nascera frio e seco. Na aldeia, a doutora Helena Correia, preparava as suas malas para o regresso à cidade com o filho. Tinha regressado de um congresso em Inglaterra na sexta-feira, e depois de ter tomado um duche, trocou de roupa, nem desfez a mala, mas colocou algumas peças de roupa num pequeno saco de viagem, pegou no carro e seguiu para a aldeia, a fim de ir buscar o filho que tinha deixado com os avós, antes de partir de viagem. Não parou pelo caminho, nem sequer para comer, cheia de saudades do pequeno Diogo, um garoto de cinco anos, que ela amava mais do que tudo na vida.
Helena, era filha única, de um casal de agricultores, não muito abastados, mas com o poder económico suficiente para dar à sua filha a realização do seu sonho de sempre. Ser médica-cirurgiã. Nunca cultivou grandes amizades, era uma aluna exemplar, apenas interessada em acabar os estudos, com o mínimo de gastos possíveis para os seus pais. Todo o tempo que os estudos, lhe deixavam livre, ela empregava-os no hospital, vendo doentes, assistindo a cirurgias, ou mesmo dando assistência a cirurgiões sempre que eles lho permitiam. Sabia que não era fácil, ela bem via, o estado de exaustão a que por vezes alguns cirurgiões chegavam, mas a sua força de vontade era de ferro, e a sua coragem não tinha limites. Terminado o curso, teve oportunidade de ir trabalhar para um hospital londrino e aí completou a sua especialização na área que sempre a apaixonara. Regressou a Portugal, com vinte e seis anos, virgem de todas as emoções amorosas, pelas quais nunca se interessara. Por essa altura, a mãe fora diagnosticada com um cancro na mama, e Helena resolveu ficar algum tempo sem começar a exercer, para ajudar a mãe naqueles tempos difíceis. Foi nesse interregno que se apaixonou, pelo psicólogo, a que levou a mãe, que se sentia arrasada e sem força de vontade de viver, depois da mastectomia.
Para Helena, que nunca se tinha apaixonado,
nada sabia dos prazeres do sexo, a relação era séria. Para Hugo, um trintão, habituado a saltar de cama em cama, não passou de uma aventura. Descobri-lo foi um trauma para ela, mas habituada a lidar com o sofrimento, não se deixou abater, e nem sequer se preocupou em procurá-lo quando descobriu que estava grávida.
O erro fora seu, a responsabilidade pelas consequências eram suas, foi o que disse aos pais, quando eles a aconselharam a procurar Hugo, e a contar-lhe que estava à espera de um filho. Conhecedores do temperamento da filha, limitaram-se a apoiá-la.
Por essa altura, Helena concorreu a um lugar num posto médico estatal. Ser médica de família, era por de lado o seu sonho de chegar a ser uma grande cirurgiã, mas ela sabia bem que ele não era compatível com a sua situação actual.

31.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XIII

 


Na sexta-feira de semana anterior à Semana Santa, Matilde acordou maldisposta e a queixar-se da barriga. Como pertencia aos escuteiros e estivera três dias acampada com o grupo, inicialmente a mãe pensou que a má disposição fosse efeito de qualquer coisa que teria comido no acampamento. Foi fazer um chá e telefonou á Rita avisando que iria mais tarde, logo que a filha se sentisse melhor. Todavia quando regressou com o chá encontrou-a a tiritar de frio, e quando lhe mediu a temperatura verificou que estava com trinta e nove graus de febre. Deu-lhe um comprimido antipirético, aconchegou-lhe a roupa e disse-lhe para dormir um pouco mais.

Uma hora depois, ouviu-a gemer. Foi ao quarto e encontrou-a toda encolhida com as mãos na barriga e a chorar. Voltou a medir a temperatura e estava com quase quarenta graus. Assustada ajudou-a a vestir-se e a sair de casa até ao carro, saindo para o hospital no limite da velocidade.

Foi atendida por uma médica que depois de um breve exame, perguntou há quanto tempo ela tinha dores de barriga, ao que Matilde respondeu que tinha começado no último dia de aulas, mas não se queixara com receio de que a mãe não a deixasse ir acampar.

- É grave doutora? – perguntou Helena.

- Parece—me uma apendicite. Vai fazer umas análises e uma ecografia, depois será observada pelo cirurgião, e dependendo da gravidade da situação poderá ter que ser operada de urgência, pois como deve saber um apêndice infetado é muito perigoso. Mas não se preocupe. Ultimamente estamos a operar por laparoscopia, não tem perigo e recupera rapidamente. Mas o principal agora é fazer os exames que eu pedi. Vou pedir a um maqueiro que a leve, ela não pode ir a caminhar. Assim que chegarem os resultados, consoante a gravidade da situação um colega lhe dirá se terá de ser ou não submetida a uma cirurgia de urgência.

- Não será a doutora?

-O meu turno está prestes a terminar, os resultados levam algum tempo a chegar. Mas fique descansada. Qualquer dos médicos da equipa é tão ou mais competente que eu.

- E posso acompanhá-la, até fazer os exames? – perguntou Helena preocupada.

-Claro que sim, mãe. E não esteja tão aflita por favor. De todos os problemas que a Matilde poderia ter, apendicite é dos mais simples.

Entretanto chegou o maqueiro, a enfermeira passou a menina da marquesa onde se encontrava deitada para a maca e os três dirigiram-se ao laboratório.

Enquanto percorriam os enormes corredores que ligavam as urgências ao laboratório, Matilde não parou de gemer e de apertar a mão da mãe. A parte racional de Helena, repetia-lhe o que a médica dissera sobre a apendicite, mas os olhos viam o sofrimento da filha e o seu coração de mãe, estava num grande desassossego.

Quase três horas mais tarde, Matilde estava na maca, com a mãe a seu lado, separada de outros doentes por cortinas de poliéster, no espaço, fora dos gabinetes de atendimento médico. Esperavam o resultado dos exames quando um médico se lhes dirigiu, e fez algumas perguntas. Ao vê-lo, Helena quase ficava em choque, pois o médico em causa era Gonçalo Bacelar. Fazendo um esforço sobre-humano, conseguiu olhá-lo e questionar o estado de saúde da filha.  Ele voltou-se e encarou-a. Tinha uma expressão estranha, e Helena teve a certeza de que ele a teria reconhecido, embora não o desse a entender.

- A Matilde está com uma apendicite aguda, vai ser operada de urgência, a enfermeira Ilda vai prepará-la para a cirurgia e levá-la para o bloco operatório, onde uma equipa médica já está à espera dela.

E voltando—se para a menina, disse:

- Vai correr tudo bem, não te preocupes, nem fiques com medo. Dormes um bocadinho e quando acordares já passou, vais ver que não custa nada. E tu tens cara de ser uma menina corajosa.

Virou costas e afastou-se depois de deixar em cima da maca a papeleta com o nome e os resultados dos exames.

A enfermeira começou então a empurrar a maca dizendo:

-Venha comigo, mãe. Vou prepará-la para ir para o bloco e terá que guardar as roupas dela.

 

 Tenho mais dois dias de tratamento intensivo e depois começo a reduzir e aos pouco vou voltar ao vosso convívio. Ainda tenho posts programados para esta semana, mas espero estar de volta antes do fim de semana. Estou-vos muito  grata pelo vosso carinho e compreensão. 

23.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXII

 


-Boa tarde Olga.  Alguma novidade? – perguntou o empresário ao passar pela secretária da sua assistente.

- Comunicaram do armazém para avisar que já seguiu a encomenda do Survive II, para a Holanda. E o dr. Afonso diz que precisa falar contigo, por causa do contrato dos estagiários.  Mas diz-me, como correu a consulta da Teresa, está tudo bem com ela e os bebés.

- Vem, falamos no meu gabinete, - disse abrindo a porta.

Uma vez lá dentro, João despiu o casaco e pendurou-o num cabide, afrouxou e tirou a gravata, e pendurou-a também.

-Senta-te mulher, - disse ao ver que Olga  continuava de pé. - Estou cansado de te dizer, que quando estamos sós, não tens que aguardar ordem para te sentares.

Ela obedeceu e esperou que ele falasse.

A médica disse que está tudo bem. A Teresa, está com bom peso, e os bebés já estão formados. Até já vimos que um é menino. Os outros dois tinham o sexo escondido. Parece que daqui para a frente é só crescerem e desenvolverem os órgãos internos. Imaginas o que é um bebé que da cabeça aos pés, mede cinco centímetros?

- Mais pequeno que qualquer boneco. Os meus parabéns. E a gravidez continua a ser de risco?

-Sim, mas segundo a médica, parece que a partir de agora o risco de aborto diminuiu e embora a Teresa tenha que continuar com muito descanso não precisa passar o resto da gravidez de cama a não ser que surja qualquer problema. Pelo menos por agora pois também lhe disse que depois das vinte e quatro semanas é provável que volte a estar o tempo todo deitada, para tentar aguentar os bebés o máximo de tempo possível, pois se nascerem muito antes das trinta e seis semanas, provavelmente precisarão de incubadora. E sabes a novidade maior. Convenci a Teresa a casar comigo. Finalmente vou saber o que é pertencer a uma família, a minha.

- Que bom João.  Fico tão feliz por ti, que tenho vontade de abraçar-te.

- E o que esperas para o fazer? - retorquiu pondo-se de pé.

Ela também o fez e os dois abraçaram-se emocionados.

- Lembras-te do que te disse a primeira vez que me falaste da Teresa depois da primeira visita dela? - perguntou Olga com a voz embargada, enquanto se sentava de novo. 

-Sinceramente, não.

-Eu disse: "Deus os fez, Deus os juntou" Acredito nisso, sabes? E acredito que vão ser uma família feliz. E para quando é o casamento?

- Por tudo o que te disse, o mais breve possível. Espero que dentro de duas, três semanas no máximo. Amanhã vou começar a tratar de tudo, e espero que me ajudes, pois, receio esquecer-me de algo importante. Vai ser uma cerimónia íntima, com pouco mais que os padrinhos, lá em cima no átrio. Depois dos bebés nascerem, casamos pela igreja e fazemos então a festa que não é possível agora, dadas as circunstâncias. E, claro, que conto contigo para minha madrinha.

-E eu sinto-me honrada pelo convite. Parece-me que tens tudo mais ou menos delineado, por isso só tens que me dizer o que queres que eu faça.  A propósito, não me mostraste o anel de noivado.

- Meu Deus, o anel. Como é que me esqueci disso? Anda, veste o casaco e vamos à ourivesaria.

-Agora? Esqueceste o doutor Afonso?

- Olha, liga para o departamento jurídico e passa-me a chamada.

Minutos depois estava em contacto com o advogado.

- Boa tarde, Afonso. Que se passa com os estagiários?

- Estão a terminar o estágio. E dos três, dois são mesmo muito bons e gostava de continuar com eles, o problema é que só temos vaga para um.

- Traga-os amanhã ao meu gabinete às dez e resolvemos isso. Agora preciso sair.

30.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LII


 

Com todos os cuidados que lhe dispensavam, Teresa sentia-se agora mais confiante, embora como toda a grávida de risco, continuasse com um certo receio que, no entanto, tentava afugentar com a leitura, ou a música.

As enfermeiras, eram simpáticas e muito profissionais. Estavam sempre atentas aos seus mais pequenos gestos, zangavam-se quando não queria comer tudo, e mimavam-na quando acontecia o contrário, fazendo-a recordar os cuidados da mãe quando ela era criança. Por vezes tinha vontade de se insurgir, mas ao lembrar-se dos três bebés que tinha no ventre e das advertências médicas, engolia a revolta e fazia o que lhe mandavam.

Com os comprimidos para o enjoo, as náuseas eram agora mais raras, e assim foi ganhando peso, e a cor voltou ao seu rosto, antes sempre lívido.

Continuava com muito sono, levava grande parte dos dias a dormir e dava graças por isso, porque fazia com que o tempo de imobilidade não lhe parecesse tão longo.

A cozinheira da empresa confecionava os almoços e jantares durante a semana, para o patrão e as enfermeiras, e ao fim de semana, as refeições vinham de um restaurante próximo. As suas continuavam a ser confecionadas pelas enfermeiras que seguiam rigorosamente as indicações da médica. João estabelecera uma certa rotina que consistia em ele comer na hora em que ela o fazia, e passar depois todo o tempo em que as enfermeiras se ausentavam para comer, junto dela.

Interessava-se por saber como se sentia, falava-lhe do seu trabalho, contava-lhe episódios mais ou menos engraçados do seu dia a dia, e Teresa deu por si a desejar essas horas em que estavam os dois sozinhos em ameno convívio.

Olga ia vê-la todas as manhãs e levava sempre um ramo de flores com que lhe alegrava o quarto. Inês também fora vê-la duas vezes e numa delas no último fim de semana, levara Martim, o que muito a alegrara pois adorava o afilhado.

E assim se passaram os dez dias e naquela manhã era dia de voltar ao hospital, para avaliar da sua recuperação.

Pouco antes das onze horas, João parava junto da porta do hospital, onde se faziam as consultas externas, para que Teresa e Sandra saíssem e ia depois estacionar o automóvel. Pouco depois juntava-se-lhes na sala de espera, onde a duas aguardavam pela consulta  que a médica marcara para aquela hora. Vinte minutos mais tarde, Teresa foi chamada.

A médica admirou-se com a diferença operada na jovem, mas antes de a observar mandou-lhe ir fazer uma série de análises. Sempre acompanhada pela enfermeira Sandra, deslocou-se ao laboratório do próprio hospital, fez os exames e regressaram à sala de espera junto ao gabinete para aguardar os resultados.

Então Teresa ligou ao empresário avisando que provavelmente a consulta demoraria, e que talvez ele tivesse trabalho urgente no escritório, elas podiam regressar de táxi, mas ele respondeu-lhe que nada era mais prioritário na sua vida do que ela e as crianças que esperava.

Felizmente as análises não foram muito demoradas, já que meia hora depois, a médica voltava a chamá-la.

- As suas análises estão ótimas. Não há qualquer vestígio de infeção, nem de diabetes e a anemia desapareceu. Vamos pesar?

Recuperou peso, mas ainda está abaixo do normal para uma grávida da sua altura, – disse ao verificar o peso. Como é que estamos de náuseas? Melhorou com os comprimidos?

-Muito, embora os vómitos não tenham parado por completo.

- Os vómitos vão parar em breve. Está com oito semanas, muito raramente eles persistem depois das doze semanas. Vamos deitar e preparar para fazer uma ecografia.

16.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVI





Embora Inês estivesse espantada com a casa do empresário, especialmente com aquele átrio à saído do elevador, meio estufa meio sala, não fez qualquer comentário. João abriu a porta e acendeu a luz convidando-as a entrar. Depois conduziu-as até ao fundo do corredor dizendo:

-Será melhor que te deites, deves estar muito cansada. A Inês pode ajudar-te.

-Mas este é o teu quarto, - protestou Teresa.

-Agora é o teu. É o maior,  tem mais luz, e dá para o terraço, onde podes apanhar um pouco de sol, quando a enfermeira o aconselhar. Amanhã quando viemos do hospital, se a médica estiver de acordo com o meu plano, mando instalar aqui um biombo e uma cama de modo a que a enfermeira da noite esteja perto de ti se necessitares de alguma coisa.

Pousou a mala no chão e disse:

- Deixo-vos sós para que te possas deitar. Entretanto vou  aquecer-te um copo de leite.

- Mas…

- Sem discussão Teresa. Já viste a casa. Sabes que posso ficar comodamente instalado em qualquer dos outros quartos. E se não te sentes à vontade com a enfermeira no quarto, pudemos comprar um intercomunicador e instalá-la no quarto ao lado. Confia em mim. Farei tudo para que passes uma gravidez o melhor possível.

Quando ele saiu, Teresa sentou-se na cama e começou a despir-se, enquanto Inês abria a mala e tirava uma camisa de dormir, o robe e os chinelos

Ajudou-a a trocar a roupa e depois perguntou:

- Consegues ir sozinha à casa de banho?

- Claro. Podes trazer-me os meus objetos de higiene?

- Já os tenho aqui - disse mostrando a bolsa.

Só na casa de banho, Inês se atreveu a comentar o que lhe ia na cabeça.

- Menina, que casa! Nunca imaginei nada igual. E que cuidados ele tem contigo. Esse homem está apaixonado por ti.

- Não digas asneiras. Está preocupado com os filhos. Imagina um homem com a sua posição social, sem poder ter descendentes a quem deixar todo o esforço do seu trabalho. E de repente dizem-lhe que vai ser pai, não de um, mas três filhos embora o risco de não ter nenhum seja grande. Ficou apavorado e fará tudo para que nada corra mal. Mas isso não tem nada a ver comigo, muito menos com estar apaixonado, que ideia.

- Pode ser que tenhas razão, mas não estou convencida disso. Se me dás licença vou abrir a cama, e arrumar o resto das roupas. Com tudo isto, já são dez e vinte.

Meia hora mais tarde, já Inês tinha visto toda a casa e despedia-se da amiga que lhe disse:

-Obrigado por tudo. Fica em casa amanhã, precisas descansar. Depois que a doutora Laura me atender, telefono-te.

- Ela disse para estares lá às onze horas, não esqueças, - disse despedindo-se com um abraço

João acompanhou-a até ao parque, onde tinha o carro e quando voltou ao quarto, verificou que Teresa tinha adormecido.

 


9.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIII



 Depois da ecografia, a médica dirigiu-se à sua sala para retirar as luvas e lavar as mãos, enquanto Inês ajudava Teresa, que parecia ter perdido as poucas forças que ainda lhe restavam ao saber que ia ter três filhos, em vez de um.

Ao voltar para a sala, a médica disse-lhe:

- Vou-lhe receitar uns comprimidos para  as náuseas, para tomar um quarto de hora antes da refeição, a  ver se conseguimos parar os vómitos. Também um suplemento oral de ferro. Mora sozinha?

- Moro.

-Tem família próxima?

-Não.

- Então, se realmente deseja estas crianças, o melhor é mesmo o internamento. Vá ter comigo amanhã às urgências do hospital às onze horas. E vá preparada para ficar pelo menos uma semana. Não quero alarmá-la, mas esta, é uma gravidez de alto risco dado o estado de fraqueza em que se encontra. 

Depois de pagarem a consulta, dirigiram-se ao carro a fim de voltarem a casa.

- Não vais ficar sozinha em casa – disse Inês, enquanto dava a volta à chave para por o motor a trabalhar. – Vamos passar pela farmácia, para aviar a receita. Depois passamos por tua casa para apanhares o que necessitares e vais passar a noite lá em casa. Vou avisar o Gustavo. Quando chegarmos a casa preparo-te o jantar.

- Não vou ficar em tua casa. Agradeço-te que tenhas vindo comigo, e se puderes acompanhar-me amanhã ao hospital, é um favor que não vou esquecer. Mas não vou ficar em tua casa. Não te preocupes não me vai acontecer nada, de noite estou em descanso.

- Não te deixo sozinha, digas o que disseres. Nesse caso, faço-te o jantar e assim que tenhas comido e estejas na cama, dou um salto a casa e volto em seguida.

Tinham chegado junto da farmácia. Inês parou o carro e disse.

- Não precisas sair, dá-me a receita que eu vou lá.

Teresa entregou-lha. Quando Inês saiu, ela encostou a cabeça para trás e fechou os olhos. Quando a médica lhe disse que ia ter três bebés, quase desmaiou.  Mas passado o choque inicial, sentia-se feliz apesar de sentir uma certa apreensão e um medo maior que nunca, de abortar.  Quando chegasse a casa, tinha que telefonar ao João. Como é que ele reagiria ao facto de em vez de um, serem três bebés? Ficaria feliz? 

Com esta interrogação adormeceu. Nem deu pelo regresso da amiga, que pôs o carro a trabalhar e só quando estacionou à porta do edifício a chamou.

- Teresa, amiga, já chegámos!

- Desculpa, adormeci. Estou sempre cheia de sono.

-Deve ser por estares fraca – disse Inês.

Saiu, deu a volta ao veículo, e abriu-lhe a porta.

-Vem, apoia-te em mim, não vás ter alguma tontura.

Ao entrarem em casa, Inês disse:

- Vais-te deitar. Diz-me o que tinhas pensado fazer para o jantar, que eu trato disso e levo-to assim que estiver pronto.

-Tenho no frigorífico uma taça com sopa de legumes que fiz ontem e que não consegui comer.

-Mas não podes ficar só com a sopa, precisas de algo que te dê mais alimento. Vai lá para a cama, que eu já te levo o comprimido para o enjoo. Entretanto vou ver o que tens no frigorífico.

Teresa foi à casa de banho, despiu-se, vestiu a camisa de dormir e foi para a cama. Acabara de se deitar quando a amiga entrou com o comprimido e um copo de água.

- Também tens no frigorífico uma taça, com um pouco de esparguete e legumes. Tirei um bife de peru do congelador, descongelo no micro-ondas e frito para acompanhares o esparguete. Depois do comprimido tens que esperar um quarto de hora, é tempo suficiente para te preparar o jantar.

Quando Inês saiu, Teresa pegou no telemóvel que tinha pousado em cima da mesa-de-cabeceira e marcou o número do empresário

7.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLII


 

Enquanto João se metia no carro e arrancava sem rumo fixo, perdido nos seus pensamentos, destruídas todas as suas convicções, em relação aos progenitores, e ao papel que cada um teve na sua meninice, Inês telefonava a Teresa.

- Amiga consegui falar com a minha médica. Ela tem marcações até às seis, mas aceitou ver-te depois da última cliente. Já falei com o Gustavo, e com o meu pai. O Gustavo vai buscar o Martim a casa dos avós e janta lá, pois as consultas podem atrasar-se.

- Achas mesmo necessário ir hoje? Não podias marcar para amanhã?

- “Não guardes para amanhã, o que podes fazer hoje “.  Ademais amanhã, a médica está de serviço no hospital. E não podes protelar mais uma consulta. Nunca vi uma grávida com tão poucas semanas a passar tão mal. Arranja-te, eu vou buscar-te quando faltar um quarto para as seis.

Teresa desligou a chamada e ficou pensativa. Preferia esperar pela sua médica, ia sentir-se mais à vontade, mas como ela estava de férias, e não querendo voltar ao Centro Clínico, tinha que aceitar a solução encontrada pela amiga. De resto Inês sempre lhe dissera que a doutora Laura Aguilar era uma excelente médica. Olhou o relógio. Ainda não eram cinco horas. Podia continuar deitada mais um pouco, desde que não se deixasse dormir. Mas os olhos pesavam-lhe tanto que achou por bem levantar-se e ir tomar banho.

Quando a amiga tocou a campainha, guardou o telemóvel na bolsa, agarrou as chaves e saiu.

Já no consultório, como doente da primeira consulta teve que responder a todas as perguntas que a empregada lhe fez para elaborar a ficha. Quando terminou, olhou à sua volta. Na sala ainda estava uma mulher em adiantado estado de gravidez. A última cliente da médica. O que queria dizer que as consultas estavam atrasadas pois o relógio já marcava as seis e vinte. Sentaram-se e aguardaram. Cinco minutos depois outra mulher saía do gabinete e a assistente chamava a última doente presente na sala. Trinta e cinco minutos mais tarde, chegou finalmente a vez de Teresa.

A médica era uma mulher baixinha, de voz suave e sorriso fácil.

Depois dos cumprimentos, a doutora perguntou:

-  Então diga-me Teresa, o que se passa consigo, que tanto preocupa a sua amiga. É o primeiro filho? Já fez alguma consulta depois que engravidou?

Teresa contou à médica as condições especiais da gravidez, bem como os sintomas que tinha e quando terminou, a médica levantou-se.

-Vou observá-la e fazer uma ecografia. A Teresa parece-me demasiado magra. Vamos pesar e medir - disse apontando a balança a um canto da sala.

A jovem subiu para a balança, e a médica verificou primeiro a altura depois o peso

- Um metro e setenta e cinco, cinquenta e seis quilos.  Com a sua altura, pode ser um bom peso para uma modelo, mas é claramente insuficiente para uma mulher grávida. Vamos passar ao gabinete ao lado, e preparar para a observar.

Teresa olhou para a amiga e a médica intercetando o olhar disse:

-A Inês pode vir.

Depois de preparada, a médica observou-a durante algum tempo. Tinha um aspeto concentrado, e parecia mostrar-se preocupada.

Por fim, deu o exame por terminado, e então pegou no frasco de gel, passou uma porção no ventre da jovem e deu início à ecografia:

Depois de uns minutos perguntou:

-Há na sua família algum caso de gravidez múltipla?

-Não.

-E fez algum  tratamento para engravidar com mais facilidade, algum tipo de comprimidos para estimular a ovulação?

- Sim. Disseram-me que na maioria dos casos não se consegue engravidar à primeira vez, e então fiz um tratamento, sim.

-E sabe que esse tipo de medicamento pode ter como efeito colateral, um híper estímulo ovariano e consequente gravidez múltipla?

- Quer dizer que vou ter gémeos? – perguntou

- Trigémeos, se conseguir levar a gravidez até ao fim, coisa que no seu estado atual duvido muito. Precisa de repouso absoluto, e uma dieta super-rica em proteínas, para que ganhe peso rapidamente. Mas não precisa só de ganhar peso tem que fazer repouso absoluto, e necessita de alguém que cuide de si . Penso que o melhor é ir ter comigo amanhã ao hospital e eu trato de a internar durante uns dias, para evitar um aborto que se adivinha se não aumentar rapidamente de peso. A Teresa está com seis semanas e quatro dias. Quer ver os bebés? Nesta altura ainda não se podem chamar de bebés, mas o embriões  já têm batimento cardíaco e o tubo neuronal - que será o cérebro e a medula espinal- está a começar a fechar-se. Vou aumentar o som para que oiça os seus corações.

 

 NOTA : A todas as minhas amigas recordo que Outubro é o mês Rosa. Pela vossa saúde não se esqueçam da prevenção do cancro da mama

17.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXX








Passadas as festas do Natal e Ano Novo, as crianças voltaram à escola e Clara retomou a rotina de as levar e ir buscar várias vezes, ao dia, já que não ficava descansada se eles almoçassem na escola.
E veio Janeiro, e com ele, as constipações e a tosse, que fez com que por duas vezes, Clara os levasse ao médico. E a seguir veio Fevereiro com o Carnaval. O tema do desfile escolar eram as profissões, e os dois irmãos foram vestidos de palhaços. Mas também escolheram outras máscaras para usarem fora do desfile escolar. Bernardo quis vestir-se de militar, com um camuflado como costumava ver o pai. Soraia escolheu uma bata branca e um estetoscópio de acordo com o que sempre dizia :"Quando for grande vou ser médica, doutora"
E o Carnaval também passou. Ricardo estava quase de regresso. Partira a vinte e oito de Agosto, e os seis meses cumpriam-se no fim do mês. Clara não sabia a data certa do seu regresso, coisa que Ricardo também parecia não saber, pelo menos nas mensagens apenas lhe dissera que tinham terminado no dia vinte a missão para a qual estiveram a trabalhar, e que no dia seguinte, deveriam chegar, outro tipo de militares. Médicos e enfermeiros.
As crianças sabiam que o pai estava quase de regresso e andavam ansiosas perguntando todos os dias. “ Mãe é hoje que o pai volta?”
Naquela manhã do primeiro dia de Março, Clara regressara a casa depois de ter deixado os filhos na escola, e encontrava-se na cozinha, conversando com Antónia, quando Ricardo apareceu à porta, provocando uma reação de alegria e surpresa nas duas.
Estava mais magro e tinha um ar cansado que o fazia parecer mais velho. Pousou a mala no chão, abriu os braços, e abraçou-as.
- Deveríamos ter chegado ontem à noite, mas tudo se complicou, no aeroporto, por causa do mau tempo, e o avião saiu cinco horas mais tarde do que o previsto. Não consegui chegar a tempo de ver as crianças antes de irem para a escola.
- Vão ficar doidas de alegria quando vierem para almoçar e te virem, - disse Clara.
- Preciso tomar um banho e despir este camuflado. Meu Deus, não acredito que estou em casa.
- Vai tomar o teu banho, e já conversamos – disse Clara. Estás com ar cansado.
-E tem que comer alguma coisa. Está tão magro. Tinham a comida racionada, ou não sabiam cozinhar? – Perguntou Antónia.
Ele largou-as dizendo.
- Ninguém no mundo cozinha como tu. Mas já tomei o pequeno-almoço. Vou pôr-me apresentável.
Voltou-lhes as costas, agarrou na mala e dirigiu-se à escada.
Meia hora mais tarde, vestindo umas calças de ganga e um camisolão de malha azul, recém-barbeado e com o cabelo ainda húmido, Ricardo entrou na biblioteca, onde Clara se encontrava a ler.
Olharam-se. E como se fosse uma cena de um filme mudo, ele caminhou até ao sofá e estendeu-lhe a mão. Ela pousou o livro e pousou a sua pequena mão na mão forte do homem.  Ele puxou –a fazendo com que se levantasse e com o impulso o seu corpo colou-se ao dele. E então ele apertou-a ao peito e beijou-a com intensidade. Tão intenso e sôfrego como um marido apaixonado beijaria a sua esposa depois de uma longa ausência.
Clara retribuiu o beijo. Primeiro tímida, depois apaixonada, os seus braços enlaçando o pescoço masculino. Aquilo era um sonho. Talvez mais tarde chorasse de arrependimento, quando ambos se posicionassem nos seus devidos lugares, ele o patrão e ela a empregada. Mas naquele momento, ela não conseguia pensar em nada. Limitava-se a sentir. E sentia que as suas pernas tremiam tanto que já teria caído se os fortes braços dele a não segurassem.
Finalmente as suas bocas separaram-se, mas não os corpos nem os olhos.
-Meu Deus o que mais desejava neste momento era levar-te para a cama.
Ela disse quase sem voz, porém sincera.
-Eu também gostaria de fazer amor contigo.
Então ele largou-a e virando-lhe as costas, aproximou-se da janela.






7.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE VII





Três dias depois, João tinha acabado de atender a última doente daquela semana, pois no seu consultório só dava consultas às terças e quintas, e era precisamente quinta-feira, quando a sua assistente entrou no gabinete para lhe dizer que estavam duas senhoras na sala que queriam, porque queriam uma consulta para esse dia.
- Tentei marcar a consulta pela agenda, mas a senhora mais nova disse que era urgente e que é sua esposa.
Odete estava ali? Teve vontade de se levantar para a ir receber. Porém não fez um movimento. Com o ar mais indiferente que conseguiu arranjar, disse:
-À sim, ela tinha-me avisado que vinha e eu acabei esquecendo de lhe dizer. Mande-as entrar, e pode sair, mas não esqueça de fechar a porta da rua.
- Muito bem doutor. Bom fim-de-semana, para o senhor.
Ela saiu e João continuou a fazer anotações na ficha que tinha na frente, tentando aquietar o coração. Ia ver de novo a sua mulher depois de mais de três anos de silêncio absoluto da parte dela.
Uns segundos depois, uma leve batida na porta e esta abriu-se para dar passagem à sua mulher e à mãe. O seu olhar percorreu-a da cabeça aos pés. Estava mais bonita, mais madura, mas tinha um ar sério e triste que lhe tocou o coração.
- Boa noite João.
- Que surpresa Odete. Podias ter telefonado antes de vires, e não passavas pelo constrangimento de teres que dar explicações, à minha assistente.
- Se eu telefonasse atendias-nos?
- Porque não havia de atender? Acima de tudo sou um profissional. Que se passa? Estás doente?
-Não. É a minha mãe. Tem passado mal, tem dores no peito, dificuldade em respirar, cansa-se com facilidade. A médica de família, mandou fazer um Ecocardiograma e um registo de Holter e aconselhou a consulta com um cardiologista. Mas a consulta no hospital está demorada, e eu sei que és um dos melhores cardiologistas do país. Por isso aqui estamos.
Com o maior profissionalismo perguntou:
- Trouxeram os exames?
Ela tirou-os da mala e estendeu-lhos. Ele examinou-os, fez algumas anotações numa nova ficha e disse:
- Preciso examiná-la. Por favor senta-a na marquesa e ajuda-a a despir-se da cintura para cima. 
Durante algum tempo, ele concentrou-se na auscultação da sogra. 
Terminada a auscultação disse:
-Por favor deite-se aqui. Vamos fazer um ecocardiograma, preciso ver com exatidão o que há com o seu coração.




Aviso a quem me acompanha. No próximo dia 8 por ser o Dia Internacional da Mulher, a história será outra. Esta continuará no dia 9.