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9.12.19

CONTOS DE NATAL - A PASSAGEM DE UM ANJO






As luzes cintilavam, brilhantes e coloridas, enfeitando o centro da pequena cidade. Quando a noite caía, o manto negro da lua estendidos sobre a localidade, realçava a brancura da neve e as decorações festivas. Os habitantes, bem resguardados do frio, passeavam calmamente admirando a beleza do lugar e a alva dádiva da natureza que se acumulava nos telhados e muros das casas, nas bermas dos passeios, assim como na escultura de pedra no centro do jardim. A mercearia ainda estava aberta, o sapateiro continuava a pregar solas novas nos sapatos, a livraria publicitava a última obra do escritor da terra e a loja dos brinquedos estampava no rosto das crianças o misto da surpresa, da alegria e desejo de receber uma prenda. Era Natal!
- Toni, sou o Toni...para facilitar! dizia com graça e humildade de quem se habituou a pedir. O metro e oitenta de outros tempos esfumaram-se no corpo encolhido para se defender do frio, das pernas dobradas para mendigar e no peso dos anos que se iam adicionando. Já ninguém lhe perguntava o nome mas ele dizia, falando consigo próprio e ao seu companheiro ursinho, um boneco usado, de orelhas redondas e castanhas, os olhos negros, dois simples botões, um pregado e o outro descosido
tombando sobre uma das faces como uma lágrima corrida.
Nessa noite, o frio redobrara de intensidade, os flocos de neve amontoavam-se sobre a já existente e Toni, para se defender da agreste temperatura, espremeu o corpo contra uma das paredes de pedra da escultura no centro do jardim. Pegou no ursinho e poisou-o no espaço livre da escultura, virado de costas para ele. Na escuridão da noite lançou a corda sobre um dos braços da escultura e prendeu-a com firmeza. Subiu para o pedestal de pedra da escultura e enfiou o laço ao redor do pescoço. Olhou para o ursinho que de costas voltadas não via as lágrimas que lhe humedeciam as faces. - Adeus meu amigo!, disse num tom triste. Respirou fundo e fez um apelo ao desespero que é a coragem de quem nada mais tem.
Nesse instante, o latir assanhado de um cão invadiu o silêncio. Direcionara o focinho para o mendigo e ladrava violentamente com as pernas da frente esticadas para diante, num gesto de denúncia. Toni ficara especado, não ousara mover-se, incrédulo com a atitude do cachorro de olhar esgaziado que não parava de latir. O mendigo tirou o laço do pescoço e o animal soltou então um gemido dócil esfregando o focinho entre as patas. - Boa noite meu amigo..., disse tremelicando a voz. O cão agitou vibrante a cauda e desapareceu na noite enquanto o dono caminhava no seu encalço.
Vendo o mendigo que se expunha agora à luz de um candeeiro, saudou-o com um aceno erguendo o braço e dizendo:
-Boa noite, senhor...?
O mendigo sorriu apertando o ursinho contra si.
-Toni, sou o Toni...,  para facilitar!
-  Feliz Natal senhor Toni!


ADRIANO CENTENO  in Chiado Editora  "Natal em Palavras"  coletânea de contos de Natal

24.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE VI




- Vens almoçar, Teresa?- perguntou Luísa espreitando à porta do seu gabinete.
- Se esperares dois minutos para acabar isto, vou. Não queres entrar?
- Não vale a pena. Vou indo para o refeitório. Espero lá por ti. – Disse fechando a porta.
Teresa acabou de imprimir o documento, procurou uma pasta e arquivou-o.  Pôs-se de pé. Era uma mulher muito bonita. Alta, esguia, sem ser demasiado magra, morena, de cabelo castanho doirado, que nesse momento tinha preso no alto da cabeça, num elegante carrapito. O rosto oval, os olhos amendoados, a boca pequena e carnuda, o ar sereno que ostentava, tudo contribuía para fazer dela uma mulher muito bonita. Vestia um camiseiro vermelho, e uma saia justa preta, que lhe moldava o corpo até aos joelhos, deixando à mostra um perfeito par de pernas. Completava o conjunto com uns sapatos pretos de salto alto que estilizavam ainda mais a sua figura.
Alisou a saia, e saiu do gabinete em direção ao refeitório, onde a amiga já a esperava.
Esta era também uma mulher bonita, embora junto de Teresa, a sua beleza ficasse um tanto ofuscada. Porém Luísa não se importava. Era a sua melhor amiga, a madrinha do seu filho, e sua confidente.
Eram amigas de longa data. Teresa tinha partilhado um quarto com a amiga, muitos anos atrás, quando estava na Faculdade, e Luísa já trabalhava na "Tudilar". Depois Teresa apaixonou-se e foi viver com o namorado, Luísa casou, pouco depois, mas sempre continuaram amigas. Anos mais tarde, teve a sorte de se empregar na mesma empresa, embora tivessem posições diferentes. Luísa era a secretária do chefe, Teresa a Gestora de Recursos Humanos.
- Sabes que vamos reunir esta tarde com o novo dono? – Perguntou Luísa, enquanto cortava uma porção do seu bife.
Teresa respondeu com outra pergunta:
-Então sempre é verdade que a empresa vai  ser vendida?
- Não tem outra hipótese. É vender ou declarar falência.
- E tu sabes quem são os novos donos?
-Não. Até agora, só conheço o advogado do homem.  Sei que se chama Mário qualquer coisa, que não lembro. Eu chamo-lhe o senhor Mistério.
- Porquê senhor Mistério?
- Porque nem o chefe parece saber muito sobre ele. Dizem que vive a maior parte do tempo no estrangeiro onde tem diversos negócios, embora o advogado diga que ele tem um escritório em Lisboa, mas parece que pouco pára por cá. Deve ser um velho excêntrico, que não sabe o que fazer ao dinheiro.
- Sabes se vai remodelar alguma coisa, prescindir de pessoal ou isso?
- Não. O advogado não deixou transparecer nada sobre as intenções do seu cliente. Deus queira que não seja daqueles que despedem toda a gente e metem pessoal novo.
-A que horas vêm?- Perguntou Teresa
Às dezassete. O advogado diz que ele quer conhecer todos os empregados ainda hoje, - retorquiu Luísa.
Tinham acabado a refeição e dirigiam-se para os seus gabinetes.



11.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XIX



Isabel acabou de aspirar a casa e preparava-se para tomar banho quando Natália chegou com a menina. Ela contou à vizinha a visita do empresário e pediu-lhe se podia ficar com a criança, para que pudesse ir jantar com ele e saber o que o homem pensava fazer. Depois deu banho à menina, vestiu-a e deu-lhe a comida. De seguida, meteu-a no parque com alguns brinquedos e foi tomar banho. Estava-se a meio de Outubro, os dias continuavam quentes, mas as noites arrefeciam bastante, e por isso vestiu um vestido preto, em lã, que se ajustava ao seu corpo e lhe estilizava a silhueta, e um casaco curto de xadrez preto e branco. Acabava de se vestir quando a campainha tocou. Faltavam ainda vinte minutos para as oito, só podia ser a vizinha, Isabel foi abrir, e Natália dirigiu-se ao parque onde Matilde se tinha deixado dormir agarrada ao ursinho de peluche.
-Deixou-se dormir. Vou deitá-la. Precisa mudar de roupa? – perguntou.
-Mudei-lhe a fralda depois do jantar, ainda não há meia hora, - respondeu.-  Vou acabar de me arranjar.
-Vá sim Isabel, não se preocupe, eu cuido dela.
Isabel voltou ao quarto, procurou uns sapatos de salto alto, calçou-os e depois sentou-se em frente do espelho, apanhou o cabelo num coque, e maquilhou levemente o rosto, acentuando um pouco as maçãs do rosto, e realçando os seus olhos cor-de-chocolate.
Quando Ricardo chegou às oito horas, Isabel não parecia a mesma mulher que ele tinha visto nessa tarde. Estava muito elegante, embora sem perder o ser ar natural. Ao olhá-la, não pôde deixar de pensar que a gata borralheira se tinha transformado numa princesa.
Saíram, e ele conduziu-a ao carro. Nervosa, ela queria saber logo o que ele tinha decidido, e mal o carro se pôs em movimento, não se conteve.
-Disse-me que precisava falar comigo…
- Falaremos disso durante o jantar. Agora se não te importas, vamos deixar o tratamento cerimonioso de lado. Já nos conhecemos, e temos em comum o futuro de uma criança para decidir. De acordo?- perguntou
-De acordo – respondeu.
Tinham chegado ao parque do restaurante em Belém. Não era um grande restaurante mas tinha uma excelente vista para o Tejo e para a Torre. Saíram do carro e Ricardo deu- lhe o braço para entrarem no local.
-Boa noite, senhor.
- Boa noite. Reservei mesa para dois, em nome de Ricardo Medina
O empregado conduziu-os para uma mesa num local discreto junto à janela, e entregou-lhes a ementa. Ela porém pousou a sua quando ele abriu a dele e perguntou:
- Tens preferência por algum prato em especial? – perguntou ele.
- Não, mas gosto mais de peixe, do que de carne.
- Então vamos ver o que há hoje de peixe; salmão no forno, bacalhau com castanhas, beringela recheada com atum, pescada gratinada em cama de espinafres, filetes de robalo com batata- doce, e medalhões de pescada com bacon. Agrada-te alguma coisa?
- Salmão no forno.
- Muito bem. Eu prefiro o bacalhau.
Fechou a lista e imediatamente o empregado se aproximou. Ele fez o pedido, escolheu um Marquês de Borba tinto, e esperou que o empregado se afastasse para iniciar a conversa.

24.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE IV



Passou a mão pela testa, tentando afastar os pensamentos dolorosos. A vizinha tinha razão, ela devia entrar em contacto com o pai da criança. Afinal era isso que a irmã desejava que ela fizesse. Mas… e se ele lhe quisesse tirar a menina? Ela morreria de dor. Matilde era muito mais que sua sobrinha.
Tinha quase trinta e três anos, e o único namorado que tivera, acabara o namoro quando a sua mãe morreu e ela assumiu a responsabilidade de acabar de criar a irmã. Ele não estava disposto a começar uma vida com tal encargo. Depois disso, dedicara-se por completo à irmã, e depois à sobrinha. Acreditava que lhe queria tanto como se fosse sua filha. Por isso a criança lhe chamava mãe. Na verdade nunca conhecera outra.
Mas será que ele ia querer saber duma criança fruto de uma aventura passageira? E se lhe escrevesse uma carta e lhe mandasse a cópia da certidão de nascimento da menina? Assim era melhor, se não obtivesse resposta à carta, era sinal que ele não se interessava e pronto, assunto arrumado.
Ouviu o sinal de que a máquina acabara de lavar. Levantou-se e foi estender a roupa. Logo de seguida, ouviu a criança a chamar, e foi tirá-la da cama. Levou-a para a cozinha e deu-lhe o lanche. Depois mudou-lhe a roupa, e a criança riu feliz e bateu as palmas, quando lhe disse que iam ao parque.
Pôs no saco um biberão com água, colocou e prendeu a menina no carrinho, deu-lhe o seu peluche preferido, pegou na mala, nas chaves e saiu. Tocou a campainha do andar em frente e uns segundos depois a vizinha abria a porta.
- Vou ao parque com a Matilde. Quer vir connosco?
-Se esperar uns minutos, enquanto calço uns sapatos, e dou uma penteadela ao cabelo, vou.
-Claro que esperamos.
De facto, Natália, não demorou mais do que dois minutos a voltar. Fechou a porta e as duas saíram do prédio e encaminharam-se para o parque que ficava muito perto. No seu carrinho, Matilde palrava num alegre conversa com o seu peluche. Ficava sempre radiante quando ia ao parque. Gostava de andar de baloiço, e de atirar pedacinhos de pão para o lago. Ria alto e batia palmas sempre que algum dos patos apanhava o pão.
Tinha começado a andar há pouco tempo, ainda não conseguia dar mais que três quatro passos sozinha, mas agarrada aos móveis corria a casa toda. Também palrava imenso, mas palavras, dizia poucas. Pronunciava bem, mãe, e não. Depois havia outras palavras, que não sendo corretas se entendiam perfeitamente. " vó Taia” para chamar Natália, “Bias” o seu peluche preferido Tobias, (ão ão), cão (áua) água. As duas mulheres, tal como todas as mães e avós sorriam enlevadas a cada nova gracinha da bebé.

27.5.17

JOGO PERIGOSO -PARTE VII





- Tem razão David. Na verdade, o único culpado disto tudo, é o meu irmão. E já que não podemos alterar os factos, é lícito que o ponha a par de tudo o que se passa. Disse que vai mandar trazer uma secretária. Enquanto ela não chega, podemos ver as instalações. Está de acordo?
Uns minutos antes, parecia uma leoa prestes a atacá-lo, agora aparentemente estava calma. Aquela mulher era surpreendente. Sorriu
- Vejo que percebeu a situação. Na verdade, a secretária deve estar a chegar, disseram que a entregariam às onze horas. Vamos então ver a fábrica agora?
Ela avançou para a porta. Vestia um fato de calça e casaco azul- escuro, e um lenço de seda em tons de azul e cinza ao pescoço. O cabelo estava apanhado, e nos pés usava sapatos de meio salto pretos. Habituado a lidar com mulheres bonitas, David não teve dificuldade em catalogar Daniela como uma bela mulher. Seria casada? Não usava aliança, foi a primeira coisa em que ele reparou, logo não devia ser. Porque é que Daniel nunca lhe tinha falado nela? Afinal eram amigos há quase dez anos. No escritório, Daniela, reuniu as empregadas, Madalena e as outras duas mulheres mais jovens, e apresentou-lhes David, informando que ele era agora seu sócio, e portanto, igualmente dono da empresa. Depois seguiram para a fábrica. Ele ia observando tudo, atento ao que ela lhe explicava. Vendo que uma máquina estava parada, ele quis saber porquê e ela explicou que estavam à espera da peça para ser reparada.
Então Daniela chamou Bruno e apresentou-lhe David, informando-o, sobre a sua posição dentro da empresa.
Depois passaram pela secção de embalagem, passaram pelo armazém e por fim regressaram ao escritório, quando os empregados acabavam de colocar a nova secretária no gabinete que até aí fora só dela. 
- A fábrica é grande, suporta com facilidade mais duas máquinas, - disse ele, mal ficaram sós. Com elas podíamos ter uma produção bem maior.
- E verdade. E então agora com aquela máquina parada, para entregar a encomenda que está a ser embalada hoje, o pessoal teve que trabalhar por turnos. Mas aquelas máquinas comportam um grande investimento…
-Calculo que sim. Mas não me importo de investir na compra das máquinas, se em troca passar a ter os tecidos para a confecção das minhas coleções, feitos aqui, a tempo e horas. - Olhou o relógio e acrescentou. – São horas de almoço. Continuamos de tarde?


12.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE XV




Foto minha


Acabou de se vestir e olhou-se no espelho do roupeiro. Por momentos ficou indecisa entre um ténis brancos e uns sapatos rasos, azuis, tipo sabrina. Acabou por escolher estes e juntou o ténis ao restante calçado, num saco de lona azul com riscas brancas.
Fechou a mala e colocou o saco com os sapatos em cima.
O telemóvel tocou de novo.
- Bom dia. Está tudo bem? – Perguntou Amélia
- Bom dia. Sim, está. E contigo? Alguma coisa urgente? Vi que ligaste quando estava no banho.
- Queria saber a que horas chegas. O Paulo esteve cá. Quer que vamos a um jantar de despedida esta noite em sua casa.
- Está bem. Chego cedo. E ele? Disse se já tem substituto?
- Diz que sim, mas ainda não chegou. Parece que é um filho de um amigo do Paulo.  Segundo ele não vivia em Lisboa.
- Está bem. Logo falamos. Estou a acabar de arrumar as coisas. Dentro de uma hora mais ou menos, estou a caminho.
- Então até logo. Boa viagem.
-Obrigado.
Terminada a chamada dirigiu-se à casa de banho com uma pequena bolsa, na qual guardou os objectos de higiene pessoal.
Depois de transportar tudo para o carro, percorreu a casa a ver se tinha esquecido alguma coisa,  colocou os óculos escuros, guardou o telemóvel na bolsa que colocou a tiracolo, pegou  nas chaves e saiu. Tocou a campainha do lado e entregou à senhora as chaves da casa. Esta desejou-lhe boa viagem e deu-lhe um cartão com o número do telefone. “ Pode precisar quando voltar para estes lados” disse.
Isabel agradeceu e finalmente meteu-se no carro e subiu a rua em direcção à parte alta da cidade. Aí poderia seguir para a A 22 a chamada “via do Infante”, mas Isabel pretendia tomar o rumo contrário e seguir em direcção à marginal. Queria olhar a baixa e o mar pela última vez.  Sairia da cidade pela marginal,  na direcção do Chinicato, e aí entraria na "via do Infante".
  . E foi o que fez. Passou pelo parque de campismo, viu a estátua de S. Gonçalo, passou pelo forte Pau da Bandeira, pelas muralhas de castelo sempre procurando um sítio para estacionar. Conseguiu o tão precioso lugar bem em frente do mercado municipal quase por trás do banco onde estivera sentada no dia anterior.








Amigos/as.  O site Maria Capaz, acaba de publicar um pequeno conto meu.
Se puderem passem por lá. O tema do conto é a violência a que muitas mulheres estão sujeitas. AQUI o link  para o conto. Muito obrigado a todos.

26.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVIII




Foto do google

Tinham-se conhecido, muitos anos atrás. Miguel tinha dezanove anos, era estudante. Olga, quarenta e era uma mulher  muito bela, alegre, que vivia dos favores que o seu corpo proporcionava aos homens. Ganhara fama a sua beleza, e era procurada pelos homens mais ricos da cidade. Mas também por jovens estudantes, que gastavam no seu leito, a maior fatia das suas mesadas. Miguel fora um desses estudantes.
Era muito novo, quase um rapazinho. Ele apaixonou-se pela bela mulher, que lhe ensinava todos os prazeres do sexo, despertando-lhe, sentidos e emoções, nunca antes experimentados.
Ela gostou do rapaz que a tratava com cuidado e carinho, fazendo-a esquecer-se da realidade da sua vida, para se sentir apenas uma mulher amada. Foi tão intenso, que Miguel, um sonhador com alma de poeta, como ela costumava dizer, chegou a pedir-lhe para ficarem juntos, mesmo que para isso  tivesse de abandonar os estudos, e ir trabalhar para a sustentar. Ela não se iludia. Sabia que mais dia, menos dia, Miguel ia encontrar alguém,da sua idade, e nunca mais punha os pés na sua casa.
E isso aconteceu, uns tempos depois, quando Miguel se apaixonou por uma colega na universidade. Lembrar-se-ia sempre, da tarde em que chegou com o ar mais sério do mundo, e lhe contou, pedindo-lhe desculpa, por ter traído o seu amor.
Para ela não foi nenhum drama. Nunca tivera ilusões. E aquilo, era o rumo natural da vida.
Pensou que nunca mais ia aparecer. Seria o que faria qualquer outro no seu lugar. Mas Miguel não era qualquer um. Era um ser especial como ela não conhecera outro na sua vida.
Apesar de nunca mais, se ter deitado  na sua cama, de vez em quando,  Miguel aparecia por lá. De manhã, sabendo que estava sempre sozinha nessa altura.
Conversavam um pouco, bebiam um chá e ia-se embora antes da hora  do almoço. E foi assim ao longo dos anos, antes e depois, dela ter largado a 
"vida", e se ter tornado uma simples e idosa dona de casa.
 Às vezes não aparecia durante um ano ou mais. Mas quando alguma coisa o incomodava, era com ela que ia desabafar. Como quando os pais morreram. Como agora.
- Não te atormentes. A história é totalmente diferente. Desde logo, porque uma mulher de vinte anos é muito mais madura, do que tu eras nessa idade. Não confunde sentimentos, sabe muito bem o que quer. Depois, nem tu nem eu nos amávamos, embora na altura pudesses ter pensado que sim. Tu ficaste deslumbrado, pela mulher mais velha, que te despertava os sentidos. Eu, gostava do  rapazito, que me tratava como se eu fosse uma rainha. Nada mais. 
Entre nós, nunca houve amor, Miguel. Atracção física, troca de experiências, um pouco de carinho, talvez. Mas, amor não. Nenhum de nós traiu o outro, porque não há traição, onde não há amor.
Anda, vai para casa. Escuta o teu coração. E se realmente, amas a rapariga, aproveita a oportunidade que a vida te dá e sê feliz. O tempo passa rápido, e quando damos conta, a vida está no ocaso como o sol no fim do dia.
Miguel não queria ir para casa, Não naquela noite. A tensão, a que obrigara o corpo, deixara-o de rastos. Estava muito cansado, sentia-se sem forças, não queria tonar uma decisão que ia mudar a sua vida naquele momento. Podia vir a arrepender-se.
Posso, ficar aqui, esta noite?
- Claro que sim. Vou buscar um cobertor que a noite está fria.
Quando voltou, já Miguel dormia estendido no sofá. Tirou-lhe os sapatos, estendeu sobre ele o cobertor, apagou a luz e retirou-se em seguida.






31.1.14

A ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE IV



O Santa Maria estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque, um homem alto, bem vestido, aparentando uns cinquenta anos, que olhava a cidade com um ar cansado.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude quando a ambição nos domina! O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros anos vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio morrera, o Chico ficara com a pequena oficina onde confeccionava ou arranjava o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos docemente amendoados. Conheceram-se e amaram-se no mesmo instante. O Chico era um belo rapaz, com um ar altaneiro, que fascinava as moças casadoiras e as deixava suspirando pelos cantos. Mas ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos, trocaram juras de amor, sonhando com um futuro a dois muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os fregueses optavam por comprar sapatos feitos, em vez de os mandarem fazer, e ele ouvira falar do Brasil e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E um dia decidiu-se. Vendeu a oficina e comprou a passagem. Com tudo decidido, procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, da separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que estivesse a trabalhar, arranjava casa e casavam por procuração. Depois, ela embarcava e ia ter com ele ao Brasil.
Chorosa, ela abanava a cabeça incrédula. Ele afirmava convicto:
- É verdade! Eu já vi isso num filme.
Antes da partida, Esperança quis dar-lhe as duas únicas coisas que tinha de valor. Uma medalhinha em ouro que a mãe lhe dera dias antes de morrer, dizendo que era para lhe dar sorte, e a sua virgindade.
Ele aceitou emocionado e partiu chamando-lhe “a minha mulherzinha”. Ela ficou no cais sonhando com o dia em que fosse ela a embarcar para ir viver com o seu homem.
No Brasil, o Chico fora bafejado pela sorte. Conheceu um conterrâneo que já tinha “feito a vida” e que queria regressar. Simpatizou com ele e deixou-lhe um pequeno restaurante para que o Chico começasse a vida. Ele nem queria acreditar mas o homem dissera que como não tinha filhos podia ajudar o filho de um homem que muitos anos atrás fora seu companheiro de brincadeiras. Ele tinha mais do que precisaria para regressar e viver bem até ao fim dos seus dias.
Quando a vida começa a ser muito fácil, um homem perde-se. O Chico tinha condições agora para chamar a mulher que ,lá longe, só sonhava com esse dia. Mas não o fez. Quis mais. “Quando eu for rico, chamá-la-ei e dar-lhe-ei uma vida de rainha”- pensava.
Trabalhou dia e noite, rodeou-se de alguns bons colaboradores e, em pouco tempo, o restaurante foi ampliado. Mais tarde comprou outro e depois outro.
Então decidiu aventurar-se noutros negócios e fez sociedade com um fazendeiro que possuía também uma fábrica de queijos.
O sócio, um viúvo idoso, só tinha uma filha, demasiado mimada, e muito dinheiro. Laura, a filha do sócio, tentava seduzi-lo e em pouco tempo o Chico tinha decidido casar com ela.