-Desculpa interromper-te. O
Artur Simões ligou. Diz que finalmente conseguiu acabar a aplicação das
traduções em simultâneo, e pede se podes ir lá abaixo à secção para fazerem um
teste.
-Diz-lhe que vou lá depois do almoço. Como é
que estão os preparativos para a festa? Já enviaste os convites para a
imprensa?
-Tudo em ordem, não te
preocupes. Já enviei para os principais jornais, para a rádio e televisão.
Também para os nossos principais clientes. Pareces-me preocupado, mas penso que
não tem nada a ver com o lançamento do jogo. Aconteceu alguma coisa que me
queiras contar?
-Estou preocupado sim, mas
tens razão, não se refere à festa. Acabei de telefonar à Teresa Sobral e convidei-a
para a festa.
- E ela não aceitou o convite!
- Como sabes?
-Elementar, meu caro chefe.
Sou mulher!
- Sim? Sabes que não acredito
nessa história de que vocês têm um sexto sentido.
- Não é preciso um sentido a
mais, nem tão pouco uma bola de cristal. Depois do choque que ela deve ter sofrido
ao descobrir o que aconteceu, o que mais deve desejar é estar em paz e refletir
na estranha situação em que uns incompetentes a meteram.
- Eu estou na mesma situação…
- Eu sei. Mas para os homens
tudo é mais fácil. Não me refiro a que vocês tenham menos sentimentos, ou que
não sofram. Mas vocês não sabem o que é carregar nove meses um filho dentro de
nós. Ter que viver com os efeitos que as cargas hormonais provocam no corpo e
no sistema sensorial, os desejos, os receios de que alguma coisa corra mal, a
dilatação do ventre, as estrias, as dores dos rins, o cansaço, os pés inchados, etc.
-Como é que sabes tudo isso,
se nunca engravidaste?
- Desculpa, mas às vezes não
me pareces o homem inteligente que sei que és. Um psiquiatra precisa ser louco,
para tratar os seus doentes? Um bombeiro, precisa atear um fogo, para aprender a
apagá-lo? Uma mulher casada, apaixonada pelo seu marido, tem nele e no seu amor,
um suporte para viver as vicissitudes da gravidez; uma mulher que decide
ser mãe solteira, só pode contar com ela mesma. E no caso da Teresa Sobral,
todos os problemas da gravidez são acrescidos pela incompetência de alguém, que
a colocou numa corda bamba, da qual receia cair a qualquer momento. Como
querias que ela aceitasse vir para uma festa onde não conhece ninguém e onde se
ia tornar objeto de exposição para os teus funcionários e para os convidados?
- Foi mais ou menos isso que
ela alegou para não aceitar. Mas Olga, nós temos de conviver. Afinal ambos
somos igualmente pais da criança que está para nascer e ambos a queremos.
- E é só pela criança, que
achas necessária essa convivência?
- O que é que estás a
insinuar?
- Nada chefe, - disse sorrindo
ao ver o empresário franzir o sobrolho. Sabia bem o quanto ele se irritava,
quando o chamava assim. – Só que me parece que estás tão ou mais interessado na
mãe, que no filho. O homem que não acreditava no amor. Pois sim! Desta vez parece
que andou por aqui o menino das flechas.
- Estás doida. Vinhas dar o recado do Artur? Pois já tens a
resposta. E se não tens mais nada que fazer, revê tudo para a festa. Anda
desaparece.
Olga apressou-se a sair do
gabinete, sorrindo. A verdade é que o
empresário estava diferente desde aquela tarde em que conhecera a futura mãe do
seu filho.
Enquanto isso João
levantava-se e dirigia-se à janela, inquieto.
