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2.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVII



Vinte minutos mais tarde, Olga entrava no gabinete.

-Desculpa interromper-te. O Artur Simões ligou. Diz que finalmente conseguiu acabar a aplicação das traduções em simultâneo, e pede se podes ir lá abaixo à secção para fazerem um teste.

 -Diz-lhe que vou lá depois do almoço. Como é que estão os preparativos para a festa? Já enviaste os convites para a imprensa?

-Tudo em ordem, não te preocupes. Já enviei para os principais jornais, para a rádio e televisão. Também para os nossos principais clientes. Pareces-me preocupado, mas penso que não tem nada a ver com o lançamento do jogo. Aconteceu alguma coisa que me queiras contar?

-Estou preocupado sim, mas tens razão, não se refere à festa. Acabei de telefonar à Teresa Sobral e convidei-a para a festa.

- E ela não aceitou o convite!

- Como sabes?

-Elementar, meu caro chefe. Sou mulher!

- Sim? Sabes que não acredito nessa história de que vocês têm um sexto sentido.

- Não é preciso um sentido a mais, nem tão pouco uma bola de cristal. Depois do choque que ela deve ter sofrido ao descobrir o que aconteceu, o que mais deve desejar é estar em paz e refletir na estranha situação em que uns incompetentes a meteram.

- Eu estou na mesma situação…

- Eu sei. Mas para os homens tudo é mais fácil. Não me refiro a que vocês tenham menos sentimentos, ou que não sofram. Mas vocês não sabem o que é carregar nove meses um filho dentro de nós. Ter que viver com os efeitos que as cargas hormonais provocam no corpo e no sistema sensorial, os desejos, os receios de que alguma coisa corra mal, a dilatação do ventre, as estrias, as dores dos rins, o cansaço, os pés inchados, etc.

-Como é que sabes tudo isso, se nunca engravidaste?

- Desculpa, mas às vezes não me pareces o homem inteligente que sei que és. Um psiquiatra precisa ser louco, para tratar os seus doentes? Um bombeiro, precisa atear um fogo, para aprender a apagá-lo? Uma mulher casada, apaixonada pelo seu marido, tem nele e no seu amor, um suporte para viver as vicissitudes da gravidez; uma mulher que decide ser mãe solteira, só pode contar com ela mesma. E no caso da Teresa Sobral, todos os problemas da gravidez são acrescidos pela incompetência de alguém, que a colocou numa corda bamba, da qual receia cair a qualquer momento. Como querias que ela aceitasse vir para uma festa onde não conhece ninguém e onde se ia tornar objeto de exposição para os teus funcionários e para os convidados?

- Foi mais ou menos isso que ela alegou para não aceitar. Mas Olga, nós temos de conviver. Afinal ambos somos igualmente pais da criança que está para nascer e ambos a queremos.

- E é só pela criança, que achas necessária essa convivência?

- O que é que estás a insinuar?

- Nada chefe, - disse sorrindo ao ver o empresário franzir o sobrolho. Sabia bem o quanto ele se irritava, quando o chamava assim. – Só que me parece que estás tão ou mais interessado na mãe, que no filho. O homem que não acreditava no amor. Pois sim! Desta vez parece que andou por aqui o menino das flechas.

- Estás doida.  Vinhas dar o recado do Artur? Pois já tens a resposta. E se não tens mais nada que fazer, revê tudo para a festa. Anda desaparece.

Olga apressou-se a sair do gabinete, sorrindo.  A verdade é que o empresário estava diferente desde aquela tarde em que conhecera a futura mãe do seu filho.

Enquanto isso João levantava-se e dirigia-se à janela, inquieto.