Na semana que se seguiu, Isabel conseguiu enfim um emprego, ia começar na segunda-feira a trabalhar como secretária,numa empresa de transportes. Certo que era temporário, pois ia substituir a secretária, que se encontrava de baixa, com uma gravidez de risco. Seriam apenas onze meses, entre o tempo de gravidez que faltava e os meses de licença pós parto, mas pelo menos durante esse tempo podia respirar descansada, não fora o facto de Ricardo ter deixado uma espada suspensa sobre a sua cabeça. As últimas palavras do empresário soaram-lhe como uma ameaça. Se arrependimento matasse ela estaria morta. Porque havia de ter feito o que a irmã pediu? Porque havia de o ter procurado? Bem, na verdade, ela sabia porque o tinha feito. A irmã sempre sentira a falta do pai. E ela não queria que Matilde fosse uma reedição de Susana. Mas que seria dela, se ele resolvesse pedir a guarda da menina em tribunal? Certo que ele dissera que não o faria. Mas poderia ela confiar na sua palavra? A irmã tinha-se apaixonado e confiado no namorado. E onde é que isso a levara? Entretanto passara-se aquele fim-de-semana, a semana seguinte, e chegara-se de novo a sábado, sem que ele voltasse a dar notícias.
Naquela tarde, Isabel aproveitava o facto de Natália ter
levado a menina ao parque, para fazer uma limpeza à casa. Vestia umas velhas
calças de ganga, e um camiseiro que em tempos teria sido vermelho, mas que
agora se apresentava bastante desbotado. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, coberto
por um lenço florido atado na nuca. Nos pés, uns chinelos já meio gastos.
Acabou de aspirar a sala, puxou o aspirador para o
corredor e preparava-se para o desligar da tomada a fim de ir aspirar o quarto,
quando a campainha tocou. Pensando que era Natália que voltava do parque, abriu a porta
e corou ao ver Ricardo, que se encontrava do outro lado.
- Devia ter avisado, vejo que não venho em boa altura.
- De facto, costumo aproveitar a ida da Matilde ao parque
para fazer estas limpezas, pois ela tem medo do barulho do aspirador.
- Precisamos falar mas posso voltar mais tarde. Porque
não vem jantar comigo? Posso apanhá-la às oito horas. A ama pode ficar com a
Matilde.
-Não é ama. É uma vizinha de há muitos anos que gosta
muito dela e me ajuda. Se não se importa, realmente a mim dá-me jeito acabar a
limpeza antes que elas voltem.
-Combinado. Volto às oito horas.
Deu a volta e foi-se embora.
