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25.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVIII

Afastou-se deixando-o só. Nuno olhou à sua volta. Nervoso, sem vontade de se sentar, dirigiu-se para a janela, de onde podia observar o movimento na rua. Ensimesmado, nem se apercebeu do tempo decorrido.
-Demorei? - perguntou Luísa, à entrada da sala.
- Não.
Caminhou até ela, olhando-a com admiração. Passou um braço ao redor da sua cintura, atraindo-a suavemente.
- Penso que podíamos passar o fim-de-semana, juntos. Queres?
- Sim,- respondeu trémula, sem deixar de o olhar.
- E não queres ir buscar algumas coisas pessoais?
- Não queres ficar aqui?
- Não. Prefiro o meu apartamento.
- Então vou pôr algumas roupas numa maleta.
Ele soltou-a e ela dirigiu-se ao quarto, voltando pouco depois, com uma pequena mala, que pousou no chão. Foi à cozinha fechar a torneira do gás, enquanto Nuno pegou na maleta e encaminhou-se para a porta da rua.
Saíram. Ele colocou a mala na bagageira, enquanto ela fechava a porta e se dirigia ao carro. Entrou e colocou o cinto de segurança, ao mesmo tempo que ele se sentava ao volante, e fazia o mesmo. Voltou-se para ela.
- São horas do lanche. Conheces algum sítio sossegado, onde o possamos fazer?
- Podemos ir à Padaria Portuguesa. Tem uma grande variedade de sandes em pães de diferentes massas, e se preferires bolos também não falta por onde escolher.
- É longe?
- Não. Nos segundos semáforos, viras à esquerda.
- Então vamos lá, - disse pondo o veículo a trabalhar.
Rodaram em silêncio durante alguns minutos. Depois…
- O Dinis já retomou as aulas? Tem-se portado bem?
- Sim, claro. É muito ajuizado, ou tem muito medo de voltar ao hospital. O certo é que tem imenso cuidado. Graças a Deus o avô melhorou, e a avó pode dedicar-se mais a ele.
Tinham chegado à pastelaria. Nuno estacionou um pouco mais à frente pois junto do estabelecimento não havia qualquer lugar vago.
- Acreditas que estou extremamente nervoso? – perguntou enlaçando-a, e dirigindo-se ao estabelecimento.
- Porque não havia de acreditar? Estou na mesma. Apesar disso, acredito que vai dar tudo certo. Sabes, penso que não pode ser por acaso que voltamos a encontrar-nos tantos anos volvidos e tanto sofrimento passado.
- Gostava de ter essa mesma fé, Luísa. Mas vamos em frente. Pode ser que, como diz o poeta, hoje seja o primeiro dia do resto das nossas vidas.




5.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VI




Saíram do aeroporto, e ele levou-a até ao carro.
-  As casas aqui são caras. Eu vivia com os meus tios.  Mais do que tios, eles têm sido para mim em todos estes anos, uns verdadeiros pais. E queriam que ficássemos a viver com eles, a casa é grande, podíamos perfeitamente viver lá. 
Porém calculei que não te sentisses muito à-vontade, afinal nem os conheces. Pensei que seria melhor  alugar um apartamento para nós e foi o que fiz.  De qualquer modo é perto da casa deles, depois de descansares, vamos até lá para os conheceres.

Sofia não respondeu. Olhava pela janela a bela cidade, e as pessoas que circulavam nas ruas. Reparou essencialmente na maneira como estavam vestidas, e sentiu-se ridícula, no seu fato de saia e casaco, bem abaixo do joelho,  demasiado antiquado, para o que ela observava naquele momento.
- Olha aqui é o restaurante dos tios. Por cima é a casa deles, e naquele prédio azul, lá à frente, fica o nosso apartamento, - informou Quim.

Chegaram pouco depois. Ele ajudou-a a descer, e carregou a mala para casa.
Estavam em frente de um edifício de quatro pisos, pintado de azul.
Pegou-lhe no braço.
- Vem. O nosso apartamento é no primeiro andar. 

Subiram o lance de escadas e ele abriu a porta. Parecia à-vontade. Sofia pelo contrário estava acanhada. Só agora se dava conta da sua real situação. Estava numa terra estranha, com um homem que não conhecia, sem nenhum familiar a quem recorrer em caso de necessidade. Agora frente à realidade, perguntava-se se a ânsia de sair da aldeia, não a tinha feito fazer uma asneira das grandes. 

Entraram em casa.
Ele poisou a mala de viagem na entrada, e começou a levantar as persianas. A casa encheu-se de luz.
- Não fiques aí parada. Vem conhecer a casa. Aluguei-a assim já mobilada, pode não ser muito a teu gosto, mas é confortável. Nunca vivi sozinho, pois como te disse, sempre vivi com os meus tios, e como viste a sua casa é bastante maior que esta, todavia mesmo assim, aluguei-a pensando que gostarias de ter o teu cantinho.
“O meu cantinho? Não deveria ser o nosso cantinho?” – Interrogou-se mentalmente.

14.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLV



- Mas não posso ir para a tua casa!- protestou.

- Porque não, Teresa? Conheces a casa, sabes que tem todas as condições para que fiques bem instalada.  Podes ter duas enfermeiras para cuidar de ti, embora eu o pudesse fazer pelo menos de noite, mas compreendo que não te sintas à-vontade sozinha comigo. Depois há uma coisa que não podes esquecer, as crianças que carregas no ventre são também meus filhos. Ninguém pode querer protegê-las mais, do que nós dois. E juntos somos mais fortes.

- O João tem razão, - disse Inês. – Se ele pode ter duas enfermeiras a cuidar de ti, tenho a certeza que a doutora Laura Aguilar, vai achar preferível que estejas em casa. Depois ela pode dar todas as indicações por escrito para as enfermeiras.

-Está bem, se a médica achar melhor eu vou para tua casa. Mas hoje fico aqui.

- Então eu também fico – disse Inês. - Já avisei o Gustavo de que se não aceitasses ir lá para casa, eu dormia aqui, pois não te vou deixar sozinha, depois do que a médica disse.

- Não senhora. A Inês vai para casa, eu fico com ela. Preferia levá-la para minha casa, mas se ela quer ficar aqui, eu também fico. Não é justo a Inês prejudicar a sua família por nossa causa:

- Está bem, vocês ganharam. João esperas na sala enquanto a Inês me põe na mala o que preciso e me visto?

-Claro.

Voltou costas e saiu do quarto.

Inês tirou de cima do guarda-fato a mala que colocou em cima da cama, e começou a guardar nela algumas roupas enquanto Teresa ia à casa de banho.

Quando voltou, despiu a camisa e enquanto se vestia, pediu à amiga.

- Guarda-me o vestido azul, e as sandálias da mesma cor para eu levar amanhã ao hospital. Além disso e da roupa interior põe na mala só camisas de dormir, pijamas e dois robes. E os meus objetos pessoais, que estão na casa de banho. Se vou passar o tempo na cama, não preciso de mais.

- Não me tinhas dito nada que já conhecias a casa dele, - disse Inês enquanto guardava as roupas na mala.

- Não foi de propósito apenas não se proporcionou a conversa. Foi no sábado depois do almoço. Acreditas se te disser que vive no último andar da empresa? Convidou-me a conhecer a empresa e de súbito estávamos em sua casa?

- E depois? Que aconteceu? - perguntou a amiga.

- Nada de mais. Conversámos um pouco na sala, e depois mostrou-me a casa. Convidou-me para lanchar, mas eu disse que tinha que tomar as vitaminas e ele trouxe-me a casa.

Inês fechou a mala e perguntou:

- Não te esqueces de nada? Os documentos?

- Estão aqui, - respondeu mostrando a carteira.

Teresa, saiu para a sala. Inês, pegou na mala, apagou a luz do quarto e seguiu-a.

Na sala, João tirou-lhe  a mala das mãos e disse:

-Se a Inês puder acompanhar-nos agradecia. Tenho a certeza de que a Teresa ia gostar. Aproveita, fica a conhecer a casa e pode sempre que quiser e puder ir visitá-la.

-Claro, eu sigo-vos no meu carro. Assim,  quando a Teresa estiver instalada regresso a casa.

Saíram e seguiram para o elevador.

Já na rua, João abriu a porta do carro, ajudou Teresa a sentar-se, colocou a mala no banco de trás e foi sentar-se ao volante. Arrancou depois de olhar pelo espelho  retrovisor e ver que Inês se encontrava pronta a segui-lo.

 

24.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE X



Teresa chegou a casa pouco passava das três, da tarde. Poisou a pequena mala em cima da cama e levantou a persiana, passando depois às outras divisões e fez o mesmo, exceto na sala onde naquele momento o sol incidia com toda a sua luz e calor. Voltou ao quarto, esvaziou a mala e guardou-a em cima do roupeiro. Depois pegou na roupa suja, levou-a para a cozinha, meteu-a na máquina, adicionou o detergente, escolheu o programa e ligou-a. Passou a mão pela testa transpirada e suspirou. Precisava com urgência de um duche, estava demasiado calor.
Pensou que o melhor era tomar banho e depois descansar um pouco sobre a cama. Quem sabe fazer uma pequena sesta. Com a ansiedade, quase não dormira na noite anterior e depois o calor e a viagem tinham acabado com a sua resistência. Mais tarde, iria ao supermercado e como era domingo, dia de encerramento da pastelaria, talvez desse um salto a casa de Inês, para matar saudades de Martim, o pequeno filho da amiga, seu afilhado.
Pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e foi para a casa de banho onde tomou um duche refrescante. Enquanto se dedicava a secar os longos cabelos, pensou que talvez fosse uma boa ideia procurar um salão de cabeleireiro e dar-lhe um bom corte. Afinal de contas, para quê manter um cabelo que lhe chegava à cintura se na pastelaria andava sempre com ele preso dentro da touca, e em casa o prendia numa trança ou num coque no alto da cabeça? Com essa ideia na cabeça foi até ao quarto e entendeu-se sobre a colcha.
Pouco depois, o cansaço, o calor, ou as duas coisas, venceram-na e adormeceu.
Acordou duas horas mais tarde. Vestiu-se foi à dispensa buscar um saco para as compras, retirou da porta do frigorífico a lista de faltas, pegou na carteira e nas chaves e saiu.
No supermercado, perdeu quase uma hora na secção de bebé, vendo e tocando nas roupinhas, sem no entanto, se atrever a comprar nada, pois tinha bem presente aquilo que na aldeia se dizia. “Dá azar começar a fazer compras antes dos três meses de gravidez”. Mas não resistiu a comprar uma moto de plástico azul para o afilhado. O menino tinha treze meses começara a andar há um mês, talvez já se equilibrasse na moto. Se não os pais guardavam-na por mais uns meses.
Contente, com a imaginada alegria do menino, pôs a caixa com  o brinquedo, no carrinho das compras e suspirando foi enfim comprar as coisas que segundo a lista lhe faziam falta.
Mais tarde, em casa de Inês, e depois de ter colocado o afilhado em cima da moto, segurando-o, pois, os pezitos ainda não chegavam aos pedais, e na tentativa de lhe chegar, o bebé não se equilibrava, Gustavo pegou no filho ao colo e disse:
- Vou mudar a fralda do Martim. Enquanto isso porque não ofereces um café à Teresa?
Mal virou costas, Inês pegou no braço da amiga e “arrastou-a” para a cozinha.
- Então como te sentes?
- Bem. Se não fossem os resultados dos testes diria que estou na mesma.
-E quando vais ao médico?
-Tenho consulta marcada para amanhã. Provavelmente vai fazer-me outros exames.
- Tens noção que a tua vida vai mudar muito, não tens? Não vais poder levantar-te às quatro da manhã, para estares na pastelaria às cinco.
-Tenho intenção de continuar a fazê-lo pelo menos enquanto a barriga não se torne demasiado pesada. Gravidez não é doença.
- Diz isso ao teu organismo, quando os enjoos te deixarem de rastos, ou quando o sono não te deixe abrir os olhos.
- Não pode ser tão mau assim! Ou ninguém engravidaria.
- Pois, eu também pensava como tu.  Mais, julgava que as pessoas diziam isso para nos assustar. Mas passei por isso tudo. Os enjoos, o sono, os pés inchados, as dores nos rins, o cansaço. E mais dezasseis horas de contracções, até ao momento em que o Martim nasceu.
- Caramba Inês, não há dúvida que sabes como animar uma pessoa.


25.6.20

ISABEL - PARTE XXXII




foto do google

O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando, e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura e na gastronomia. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
E o jantar continuou entre animada conversa.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
Luís pagou a conta e desceram juntos para o piso inferior. 
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro, - disse ele enquanto se encaminhavam para a saída. - Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Dás o teu número de telefone?
Ela abriu a mala e tirou um cartão, da firma.
- Fax e  telefone são da firma, mas o telemóvel é o meu número.
- Não tenho comigo nenhum cartão, - disse ele. Tens onde escrever?
Ela retirou uma pequena agenda da mala, e anotou o número que ele lhe ditou.
Saíram do edifício e já no parque, ela estendeu-lhe a mão dizendo:
- Agora tenho mesmo de ir.
Ele segurou-a, e olhos nos olhos, puxou-a para si. Abraçou-a.
Isabel sentiu as pernas a tremer. Tanto que receou não se segurar de pé. 
Sentindo o beijo eminente, baixou a cabeça, fazendo com que os lábios masculinos apenas roçassem a sua testa, enquanto o seu íntimo se revoltava, amaldiçoando-a pela falta de coragem.
O homem sentiu-lhe o corpo tremente. Percebeu-lhe a emoção. Se fosse mais jovem, teria-lhe-ia levantado o queixo e forçado o beijo. Mas Luís tinha quarenta e cinco anos, e nessa idade, um homem já não se preocupa tanto com a satisfação imediata dos seus desejos. Preocupa-se mais com as emoções da alma. Ele sabe que o resto vem por acréscimo. Soltou-a.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois encaminhou-se para a estação do metro que o levaria de regresso à sua nova casa, pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe, e ao mesmo tempo me deixa ansioso como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que  tinha contado praticamente toda a sua vida pessoal e profissional, a  Luís se limitara a ouvir e pouco falara sobre ele, continuando assim a ser um quase desconhecido.
De uma coisa ela tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. E, se como dizia Amélia,  "a vida é como brisa de verão em fim de tarde,  passa rápida e poucos dão por ela". Um dia destes acordava e a brisa tinha virado vento de inverno, derrubando-a como folha morta. Decidiu-se.  Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Luís, ela iria lutar por consegui-lo. Assim Deus lhe desse coragem!

                                               


12.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VII


Quando duas horas depois, André voltou, a primeira coisa que viu, assim que Eva lhe abriu a porta, foi o seu rosto congestionado, e os olhos vermelhos e inchados, indicadores claros de ter levado o tempo a chorar. Sentiu um baque no peito. Era tão jovem. Parecia uma menina e já tão sofrida. Sorriu, tentando animá-la.
- Trouxe jantar para os dois. Calculei que não te apetecesse cozinhar. E uma vez que ia sair do hotel preferi fazê-lo antes do jantar. Vou pôr a mala no quarto e já venho. Queres por a mesa? Na cozinha, se não te importas.
Estendeu-lhe o saco, e seguiu com a mala para o quarto. Eva pôs a mesa. Depois abriu o saco, e tirou dele uma garrafa de vinho tinto, um recipiente com frango assado, outro com batatas fritas, um com salada e uma caixa de gelado, que colocou no congelador. Procedia quase como um autómato, pensando quão estranha era a vida. De manhã, ela nem sonhava com a existência de André. E agora ali estava a por a mesa, para um jantar a dois, como se fossem um casal, ou pelo menos amigos íntimos. Curioso é que depois do embate inicial, e sobretudo depois da conversa que tiveram horas antes, ela deixou de recear o que lhe podia acontecer no futuro. Confiava nele? Sim, mas não de peito aberto. Como diria a Irmã Madalena, confiava, desconfiando. Muita água teria que correr debaixo da ponte, até que voltasse a confiar em alguém, em pleno, como confiara no marido.
- Espero que gostes de frango,- disse ele ao voltar minutos depois.- Teria telefonado para te perguntar, mas não tenho o teu número. Pudemos começar? Estou cheio de fome.
Puxou-lhe a cadeira para ela se sentar, e esse pequeno gesto, fez com os olhos femininos, ficassem rasos de água. Nunca ninguém tivera com ela gesto tão delicado, nem sequer o marido no tempo de namoro, muito menos depois de casados. Durante alguns minutos comeram em silêncio. Depois ele retomou a palavra.
- A tua família, já sabe o que se passou?
- Não tenho família!
-Como assim? Ninguém? Nem sequer um parente afastado?
-Não. Fui abandonada à porta de uma instituição católica que acolhe órfãos. E lá vivi até ao casamento. A Irmã Madalena, é o mais parecido que tenho com uma família.
André despejou um pouco de vinho no seu copo, e tentou fazer o mesmo no dela, que o cobriu com a mão dizendo:
-Não obrigada. Prefiro água.
Olhou-a pensativo. Será que estava grávida? Isso justificaria o ter desmaiado no advogado e o não querer bebidas alcoólicas. Ou será que temia que ele a embebedasse, para depois abusar dela?


28.12.19

CONTOS DE NATAL - O ESPÍRITO DE NATAL





Estava o Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que prontamente obteve dele esta resposta:
— Comigo não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e a sua bazófia de novo-rico.
— Então se não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem idoso e magro tossir convulsivamente.
— Estou aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse — para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no Natal.
— Com que então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande construtor civil com interesses de norte a sul do País — temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma dessas organizações internacionais que nós pagamos com o nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.
— Está muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu o homem pobre, idoso e magro.
— Bem, se quer mesmo saber, eu digo-lhe. Quem tem posses como eu pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz, a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão receber os presentes. Quem é pobre como você fica a assistir. Percebeu a diferença?
O homem magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeu-lhe com uma nova pergunta:
— Então e o espírito do Natal?
— O que vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de curiosidade, o Senhor Teotónio.
— O espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está muito para além dos presentes que damos. Para muitas pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma carícia ou um telefonema quando se está só.
— Era só o que me faltava agora — desabafou, enfastiado, o Senhor Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo, para aqui a debitar sentenças.
O homem magro e idoso afastou-se do carro, mostrando que não queria esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada pelo Senhor Teotónio, e encaminhou-se para um grupo de crianças que o esperavam.
Quando o Senhor Teotónio passou por eles no carro, ouviu uma voz de criança a dizer:
— Vamos, Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.
Dizendo isto, o grupo ergueu-se no ar a esvoaçar com destino incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no céu cinzento de Dezembro.



José Jorge Letria
A Árvore das Histórias de Natal
Porto, Ambar, 2006





6.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XL






Olhou o relógio. Já passava das quatro da tarde. Precisava despachar-se. Dirigiu-se ao quarto, retirou uma mala de cima do guarda-fatos e colocou-a em cima da cama. Começou a procurar a roupa para a viagem. Calças de ganga, T-shirt, calções, fatos de banho, páreos, lenços, pijamas e roupa interior. Não pensava em saídas noturnas, precisava descansar, não de divertimentos.  Começou a arrumar tudo na mala. Antes de a fechar pensou melhor, e foi buscar um vestido de seda estampado com motivos florais. Era um vestido simples mas elegante, ideal para uma saída à noite se algum dia isso lhe apetecesse.
Fechou a mala e foi buscar um saco onde colocou dois pares de sandálias rasas, chinelos de praia, chinelos de quarto, ténis, e um par de sandálias vermelhas, de salto alto, que faziam conjunto com o vestido de seda. Antes de fechar o saco procurou lembrar-se se faltava alguma coisa. Convencida que o que faltava eram só as coisas de última hora como os produtos de higiene e um ou dois dos últimos livros que tinha comprado e ainda não tivera tempo para ler, fechou a mala e o saco e colocou-os no chão.
Sentou-se em cima da cama e relembrou a conversa com a madrasta. Como o pai tinha sido cruel! Porque não se limitara a dar parte à polícia do roubo, sem acusar o empregado? Mais uma vez tentava lembrar de António no escritório da empresa do pai, e mais uma vez não o encontrou nas suas memórias. Também não admirava. Naquela época ela odiava aquele escritório, pensava que era por causa dele que o pai não lhe dedicava tempo nem atenção. Lembrava isso sim que no escritório trabalhavam dois homens e uma mulher. Um dos homens era mais velho, o outro bem como a mulher eram mais jovens. Mas não conseguia recordar o rosto de nenhum dos três. Suspirando levantou-se e voltou à cozinha. Abriu o frigorífico. Lá não havia mais nada senão a caixa da “pizza” guardada na antevéspera. Retirou-a e jogou-a no caixote do lixo. Depois abriu o congelador e lá também não havia nada. Ultimamente nem sequer tinha tido tempo de ir às compras. Desligou o frigorífico, a fim de o deixar a descongelar para limpar depois do jantar. Lavou as duas chávenas do chá limpou-as e guardou-as. Deu uma olhada à sala, ajeitou as almofadas no sofá, fechou a persiana, e pensando que estava tudo em ordem foi ao quarto, retirou da cómoda um conjunto de roupa interior de algodão rosa. E com ele na mão foi para a casa de banho a fim de tomar duche e despachar-se para estar em casa do pai a horas do jantar.
Meia hora mais tarde, saiu de casa envergando um vestido de alças e um casaquinho do mesmo tecido. Levava o cabelo apanhado, e calçava sandálias de salto alto.
Tinha a chave da casa do pai, mas desde que saíra de casa para viver sozinha nunca mais a utilizara. Aquela fora a sua casa até esse dia, agora era a casa do pai. Tocou a campainha e aguardou que a empregada viesse abrir mas foi Miguel, quem a abriu a porta, cheio de alegria. Paula baixou-se e abraçou o menino com todo o carinho.
-Onde estão todos? – perguntou entrando em casa pela mão do menino.
-  A mãe está no quarto, o pai no escritório. Vou avisá-los que já chegaste.


Aviso: Como sabem acabo o tratamento no dia 13. Dia 14 vou fazer exames para ver se a córnea recuperou ou não para a nova cirurgia. Se estiver bem o médico deverá marca-la para os dias que se seguem. Para que esta história não se torne eterna, haverá alguns dias em que sairão dois capítulos. Um ao início do dia e outro às 20 horas. Espero que não se zanguem.




Deixo-vos com a minha última foto. Como vêm o olho está quase tão aberto como o outro.
Só que não vê.



28.12.18

O ESPÍRITO DE NATAL





Estava o Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que prontamente obteve dele esta resposta:
— Comigo não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e a sua bazófia de novo-rico.
— Então se não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem idoso e magro tossir convulsivamente.
— Estou aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse — para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no Natal.
— Com que então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande construtor civil com interesses de norte a sul do País — temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma dessas organizações internacionais que nós pagamos com o nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.
— Está muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu o homem pobre, idoso e magro.
— Bem, se quer mesmo saber, eu digo-lhe. Quem tem posses como eu pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz, a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão receber os presentes. Quem é pobre como você fica a assistir. Percebeu a diferença?
O homem magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeu-lhe com uma nova pergunta:
— Então e o espírito do Natal?
— O que vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de curiosidade, o Senhor Teotónio.
— O espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está muito para além dos presentes que damos. Para muitas pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma carícia ou um telefonema quando se está só.
— Era só o que me faltava agora — desabafou, enfastiado, o Senhor Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo, para aqui a debitar sentenças.
O homem magro e idoso afastou-se do carro, mostrando que não queria esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada pelo Senhor Teotónio, e encaminhou-se para um grupo de crianças que o esperavam.
Quando o Senhor Teotónio passou por eles no carro, ouviu uma voz de criança a dizer:
— Vamos, Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.
Dizendo isto, o grupo ergueu-se no ar a esvoaçar com destino incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no céu cinzento de Dezembro.



José Jorge Letria
A Árvore das Histórias de Natal
Porto, Ambar, 2006



Este é o último conto de Natal de 2018. Ainda tinha programados mais três mas ficarão para o próximo Natal.
Para que pergunta pelo meu olho, estou melhor mas não tanto quanto gostaria. Já não ando perdida no nevoeiro e deixei de ver em duplicado, mas ainda vejo desfocado. Continuo a sentir a impressão de ter uma areia no olho mas já não dói.
Obrigada a todos pelo vosso carinho. Bem Hajam

5.7.18

O DIREITO À VERDADE - XV





Helena que acabara de jantar, no hotel, regressou ao quarto, pensando no que lhe acontecera nessa tarde e em Cláudio. Interrogava-se se teria feito bem em aceitar o convite para almoçar com ele no dia seguinte. Afinal ela tinha feito aquela viagem com o firme propósito de conhecer o seu pai. Mesmo que por alguma razão não lhe dissesse quem era, queria saber como era o homem que lhe dera o ser. E nada nem ninguém deviam desviá-la desse objetivo. Nem mesmo aquele homem, interessante e másculo, com os olhos mais bonitos que ela já vira na vida. Retirou da mala um curto pijama de algodão e com ele na mão foi para a casa de banho. Despiu – se e meteu-se debaixo do chuveiro. Depois do banho secou cuidadosamente o corpo dolorido, e olhou-se ao espelho. Tinha uma grande mancha negra que ia na anca, até meio da coxa, e uma outra mais pequena junto ao joelho do lado esquerdo. E outra no ombro e no braço do mesmo lado. Enrolou o corpo na toalha e foi buscar o gel à mala que tinha deixado no quarto. Ao retirar o pacote da farmácia trouxe também o envelope que o tio lhe dera e de que nunca mais se lembrara, Deixou o envelope em cima da cama, e voltou à casa de banho, a fim de massajar a zona dorida com o gel.
Vestiu o pijama, secou e escovou os seus bonitos cabelos negros, escovou os dentes e regressou ao quarto. Em cima da cama, continuava o envelope. Decidida abriu-o. Dentro tinha um cartão multibanco, a nota de abertura de uma conta com cinco mil euros, em seu nome, e uma carta do tio. Desdobrou-a e leu.

Querida sobrinha:
Peço-te que aceites esta quantia como um presente, não meu, mas da tua tia, que tenho a certeza o faria, na presente situação, se estivesse entre nós. Não sei o tempo que levarás até encontrares o Jorge e o que acontecerá depois.  Que essa quantia sirva para te ajudar enquanto não decides a tua vida. Não te passe pela cabeça devolvê-lo sob pena de me ofenderes. Como sabes a minha irmã não teve filhos, e o meu… bom tu sabes. Hoje és a minha única família e amo-te muito
Teu tio
Alberto.

Acabou de ler a carta com as lágrimas rolando silenciosas pelo rosto. Pegou no telemóvel e ligou ao tio.
- Tio, desculpa ligar só agora. Acabo de abrir o envelope, e nem sei que te dizer a não ser que também te amo muito e que não precisavas fazer isto, Eu disse-te que tinha algumas economias.
-Sim querida. Mas assim estou mais descansado e podes dispor de mais tempo para procurares o teu pai. E de Coimbra, estás a gostar?
-Ainda não vi muita coisa, mas sim estou a gostar. Estou no hotel, e vou deitar-me em seguida. Estou cansada.
-Fazes bem, os últimos tempos foram muito desgastantes. Vai dando notícias. 
-Fica descansado. Até amanhã. E mais uma vez muito obrigado.
-Até amanhã querida.


Informando os amigos.

Acabei de chegar do médico.
Segundo ele a minha coluna não está para brincadeiras. O problema não são as hérnias, mas o aperto que umas vértebras estão a fazer sobre os terminais nervosos. Proibição absoluta de esforços, tomar relaxantes, e fazer fisioterapia. Se isto não resultar ou se piorar tenho que equacionar a possibilidade de ter que ser operada. Exercícios só caminhadas, o sol na praia faz bem mas a água só se estiver com temperatura  "tipo caldo" 

13.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVI






Às onze e meia, da manhã de sábado, Odete entrou na casa onde vivera os anos mais felizes da sua vida, e onde iria voltar a viver, a troco da saúde da sua mãe. Não sabia o que lhe reservava o futuro, mas sabia que ia ser doloroso, viver debaixo do mesmo teto que o marido, pois apesar da dor da traição, e do tempo que vivera longe, o seu amor por ele continuava intacto. Por mais que a razão tentasse esquecê-lo o coração não obedecia.
- Bom dia, - saudou-a o marido. Vejo que não esqueceste a chave. Como está a tua mãe?
- Bom dia. Como queres que esteja? Cada vez mais debilitada. Obrigado pelo que estás a fazer por ela.
- Não me agradeças. Os teus pais sempre me trataram como se fosse um filho. A única queixa que tenho deles, é a de não me revelarem o teu paradeiro, mas acredito que por imposição tua. Vai guardar a mala no quarto e prepara o suficiente para uma noite, vamos viajar.
- Não vou a lado nenhum. A minha mãe pode precisar de mim a qualquer momento.
- A tua mãe pode precisar de cuidados médicos e se assim for, a enfermeira avisar-me-á imediatamente e eu tomarei providências. Tenho um colega pronto a atendê-la se for necessário. Vai, faz o que te disse e não demores. Almoçamos pelo caminho.
Mordeu os lábios e engolindo a resposta agreste que lhe apetecia dar, pegou na mala, e dirigiu-se ao quarto de hóspedes. Ele que não pensasse que iam partilhar o quarto.
Mudou de roupa pôs o essencial numa maleta, e regressou à sala.
-Estou pronta, - anunciou
-Vamos, - disse tirando-lhe a maleta das mãos e dirigindo-se para a porta.
Entraram no carro e durante um certo tempo, mantiveram-se em silêncio
- Pode saber-se para onde vamos? - Perguntou ao ver que João entrava na autoestrada do norte.
-A Aveiro ver a minha mãe.
- A tua mãe está em Aveiro? A fazer o quê?
-Logo depois que desapareceste, a tia Margarida ficou viúva, e a minha mãe foi passar um tempo com ela para a animar. Gostou de viver lá e como as duas são viúvas resolveu ficar . Uma faz companhia à outra. Gosta muito de ti e pergunta-me sempre porque não te levo quando vou vê-la.
- Eu também gosto muito dela, foi sempre muito carinhosa comigo.
- Folgo sabê-lo.
O silêncio caiu de novo sobre eles. Intenso, sufocante. João mantinha-se sério, atento à estrada, ela estava espantada. Por que razão a sogra, perguntava sempre por ela? Acaso não sabia que se tinham separado? Será que João tinha escondido isso da mãe?  E porque razão o faria? Teria esperança de que ela voltasse?
Nessa altura, João saiu da autoestrada, na direção de Torres Novas, onde tinha decidido que iam almoçar.


7.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VIII





Sofia abriu a mala e começou a arrumar as suas roupas. Foi à casa de banho e refrescou-se um pouco. Apetecia-lhe tomar um banho, mas estava demasiado cansada. Voltou ao quarto e só então reparou bem nele. O quarto estava pintado de branco. A estrela do quarto, era a enorme cama de casal coberta com uma fina colcha de lã. Sobre ela, tal como no resto da casa, almofadas coloridas. Na parede por cima da cama, molduras coloridas com pedaços de pano iguais às almofadas. De cada lado da cama, uma pequena cómoda pintada de amarelo, servia de mesa-de-cabeceira. Ao fundo um grande armário pintado de branco.

6.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VI




Saíram do aeroporto, e ele levou-a até ao carro.
- Aluguei um pequeno apartamento. As casas aqui são caras. Vivi com os meus tios, até ao mês passado. Mais do que tios, têm sido para mim uns pais. Queriam que ficássemos a viver com eles. A casa deles é grande. Mas calculei que não te sentisses à-vontade, afinal nem os conheces. De qualquer modo o apartamento é perto da casa deles, depois de descansares, vamos até lá para os conheceres.
Sofia não respondeu. Olhava pela janela a bela cidade, e as pessoas que circulavam nas ruas. Reparou essencialmente na maneira como estavam vestidas, e sentiu-se ridícula, no seu fato de saia e casaco, demasiado antiquado, para o que ela observava.
- Olha aqui é o restaurante dos tios. Por cima é a casa deles, e naquele prédio azul, lá à frente, fica o nosso apartamento, - informou Quim.
Chegaram pouco depois. Ele ajudou-a a descer, e carregou a mala.
Estavam em frente de um edifício de quatro pisos, pintado de azul.
Pegou-lhe no braço.

11.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE XIV


foto do google

Levantou-se, tirou uma mala que estava em cima do roupeiro e colocou-a em cima da cama. Depois abriu o roupeiro e escolheu umas calças de ganga e um top sem mangas para a viagem. Dobrou cuidadosamente o resto da roupa e meteu na mala.
Abriu uma gaveta separou duas peças de roupa intima meteu as restantes num saquinho de algodão florido, atou com a fita de cetim rosa e guardou-a igualmente na mala.
De seguida dirigiu-se à casa de banho e meteu-se no duche. Deixou que a água lhe resvalasse pelo corpo esbelto durante alguns minutos tentando afastar da mente a recordação do sonho esquisito que tanto a inquietava. Inutilmente. A água acalmava o corpo mas não o espírito.
Pensou em Paulo. Que diabo lhe teria acontecido para pedir transferência? Paulo era o director comercial de uma grande superfície. Era também o encarregado das campanhas publicitárias da empresa e fora o seu primeiro cliente. Ele acreditara no talento de uma jovem inexperiente, e dera-lhe a oportunidade que a maioria dos jovens não tem. Foi um risco para ele e uma bênção para ela. Graças a esse primeiro trabalho bem sucedido viera uma boa carteira de clientes. Paulo era um homem a rondar os cinquenta anos, completamente apaixonado pela esposa. Tinha uma filha. Uma jovem que ia agora entrar para a Universidade. Ele era além de um bom cliente, um grande amigo. E agora? Decerto a empresa continuaria a trabalhar com ela. Pelo menos até ao fim do ano, data em que terminaria o actual contrato.
O telemóvel tocou. Isabel fechou a água enrolou-se na toalha e dirigiu-se ao quarto. A meio do corredor o aparelho calou-se e ela pensou que quem quer que fosse ligaria de novo, e voltou para a casa de banho.
Espalhou pelo corpo uma camada de creme hidratante com gestos automatizados pelo hábito, enquanto o pensamento lhe fugia para o sonho. Que sonho tão confuso. Seria um aviso do seu subconsciente? E se era, que quereria dizer-lhe? Porque é que o rosto de Fernando não era visível como em sonhos tantas vezes aparecera ao longo de muitos anos? E porque é que no fim do sonho ele se ia embora? E aqueles olhos cinzentos? Porque é que lhe apareciam no sonho, se apenas os tinha vislumbrado durante segundos?

"Esquece Isabel", murmurou sacudindo a cabeça.



Nota: Este conto, vai ser interrompido NO DIA 15, para postagens mais alusivas à época, regressando pós Ano Novo para o seu desfecho.