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28.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXVII

 


Uma vez dentro da residência e depois das apresentações e dos cumprimentos, Teresa Meireles a avó das meninas, não se cansava de olhar para a nova neta, enquanto dizia para a filha:

-Meu Deus Laura, ela é igualzinha a ti quando tinhas a sua idade. Se eu fosse uma desconhecida, pensaria que a Matilde era tua filha.

- Foi precisamente essa semelhança que me alertou - disse Gonçalo

A preocupação de Lena sobre a forma como a família de Gonçalo as recebesse desapareceu rapidamente ante a simpatia e o carinho que todos lhes demonstravam.

Houve apenas um momento de atrito, quando dona Teresa afirmou que eles teriam que casar o mais rápido possível e se ofereceu para ajudar a preparar a cerimónia.

Lena manteve a posição já assumida perante a sua própria família, de não querer o casamento, e os pais dele não gostaram disso, porém Laura tomou a sua defesa, dizendo à mãe, que aquele era um dia de festa, para viverem a alegria de conhecerem a neta e não para se meterem na vida do filho e de Helena, que eram adultos e tinham discernimento suficiente para saberem o que era melhor para as suas vidas. Além disso, os dois não se viam há muitos anos, era necessário dar tempo ao tempo, para que os dois se conhecessem de novo.

A Laura tem razão, querida, - disse Aníbal apertando carinhosamente a mão da esposa. Vamos viver este momento de felicidade, e deixar que os dois resolvam o que é melhor para eles e para a menina.

Nesse momento, Miguel que brincava com uma bola no parque, resolveu chamar a atenção para si, lançando a bola com toda a força do seu pequeno corpo para as pernas do tio e as meninas correram para junto dele, seguidas por Laura que o segurou ao colo e o apresentou a Helena, antes de dizer:

-Desculpem-me por um momento, vou trocar-lhe a fralda.

E afastou-se seguida pelas duas meninas. Teresa não voltou a pronunciar a palavra casamento e Helena sentiu-se grata por isso.

O resto do dia decorreu num clima de conversa ameno, onde as crianças foram a preocupação constante.

Pouco depois do jantar, Laura pediu desculpa pois Miguel acabara de adormecer no colo da avó, e porque no dia seguinte era dia de aulas, Sara deveria despedir-se de todos e ir lavar os dentes para ir para a cama. A filha assim fez dizendo a Matilde que uma vez que estavam na mesma escola, se veriam no dia seguinte.

Helena aproveitou para se despedir também, não sem antes de prometer que haveriam de voltar a ver-se num futuro próximo.

Gonçalo levou-as a casa e ao chegarem, a filha perguntou:

-Mãe, porque não convidas o pai a entrar e lhe ofereces um café? Ainda é cedo e afinal os adultos não se costumam deitar tão cedo como os filhos.

Helena não tinha vontade de prolongar a noite, ainda mais sozinha com Gonçalo o único homem que amara e que ainda lhe fazia tremer as pernas e adejarem borboletas na barriga.

Porém ante a insistência da filha e o olhar interrogativo do pai, não lhe restou outra alternativa que fazer o convite.

Uma hora mais tarde, depois de terem bebido o café e conversado um pouco sobre a família dele e a impressão com que ela ficara deles, ela acompanhou-o à porte e estendeu-lhe a mão para se despedir, mas Gonçalo puxou-a para si, inclinou a cabeça e beijou-a apaixonadamente

 

12.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XVI






- Deves estar muito contente.
- Por voltar a ver, sim. Mas vinha doido para ver a sua neta. Que se passa com ela?
- Não sei, Hélder. Diz-me tu, porque a queres ver? Desde quando sabias que era ela?
- Quase desde o primeiro dia. A dona Lucinda conhece-me desde sempre. Sabe da amizade que me unia à sua neta. Também sabe como fiquei meio perdido quando os meus pais morreram. Sei que pode parecer estranho que tenha sido uma miúda, a fazer com que me reencontrasse, eu que era, já na altura um homem.

- Mas foi o que aconteceu. Ela era encantadora, tão simples, tão natural, e eu sentia-me feliz a orientá-la nas leituras, a mostrar-lhe o mundo como eu o via. Era como se tivesse uma irmã mais nova, para amar e proteger. E esse sentimento levou-me a recuperar da dor e desorientação em que a morte dos meus pais, daquela forma trágica, me tinha deixado.

- Por muito estranho que pareça, dada a nossa diferença de idades,  durante quatro anos, fomos os melhores amigos do mundo. Depois um dia descobri que se tinha apaixonado por mim. Fiquei zangado. Foi como se a vida me tivesse roubado de novo, como se a minha irmãzinha tivesse morrido. E de certa forma assim foi, já que desde esse dia, nunca mais fui capaz de a ver, ou de pensar nela, da mesma maneira. 

 -Fui para Lisboa, empreguei-me numa loja, e aluguei um pequeno apartamento com outro colega. Comecei a escrever. Sempre gostei muito de o fazer, mas nunca pensei que a minha vida seguisse esse rumo. Mas o livro foi um sucesso estrondoso, e de repente, o livro era traduzido em várias línguas, as edições sucediam-se, até se projetava um filme baseado nele, e então deixei o emprego e dediquei-me apenas à escrita. 

-A recordação de Isabel nunca me abandonou. Era algo muito íntimo. Fazia parte de mim. estava sempre à espera de poder voltar a vê-la. Depois sofri o acidente deixei de ver, e durante muito tempo estive apenas centrado na tentativa de recuperar a visão. Quando perdi a esperança, voltei para casa. E de novo Isabel, veio e me salvou. Porque foi desde que tive a certeza que ela estava comigo, que a minha visão começou a dar sinais de querer voltar.  

-Durante estes meses, eu descobri porque é que nunca me interessei a sério, por nenhuma mulher nestes dez anos. O amor pela sua neta enchia o meu coração. Neste último mês, vivi entre o Céu e o Inferno, com o desejo de lhe confessar o meu amor, e o medo de não poder oferecer-lhe, nem sequer um olhar apaixonado. E agora que os meus olhos lhe podem mostrar o que me vai na alma, ela não quer falar comigo, e estou desesperado.

Calou-se. A senhora estava emocionada.
- Sabes de uma coisa, Hélder? Vocês hoje em dia são demasiado complicados para o meu gosto. A Isabel ama-te desde menina e foi-se embora em desespero, convencida de que nunca corresponderias ao seu amor.
- Convencê-la-ei do contrário. Só não sei onde encontrá-la.

- Eu sei. E vou ajudar-te. Mas tens que me prometer trazê-la de volta. Estou velha, não gostava de morrer, sem a ver feliz.
Inclinou-se para a mesa, apanhou um bloco e escreveu uma morada. Depois arrancou a folha, e deu-lha. Ele abraçou a idosa e deu-lhe dois carinhosos beijos.
- Fico-lhe eternamente grato, avó. Parto depois do almoço.

4.1.20

QUANDO OS ALCATRUZES DESCEM AO FUNDO DO POÇO



A minha avó costumava dizer que a vida era como uma nora com os seus alcatruzes. Ora estava cá em cima ora lá no fundo. E que a sabedoria estava em festejar quando se estava nos píncaros e aceitar com alegria quando se estava no fundo porque a partir dali era sempre a subir.
O  alcatruz da minha vida, desceu o ano passado até ao fundo, com o meu problema nos olhos e as três cirurgias que tive de fazer, a tendinite no ombro direito que me impediu de mexer o braço durante algum tempo, os AVC, do meu cunhado em Maio e do meu marido em Julho, a queda da minha sobrinha, que sofre de Esclerose Múltipla e fraturou bacia e colo do fémur, o que a obrigou a internamento e cirurgia, e a morte de quatro amigos que me eram muito queridos. Um ano de muito sofrimento,  que levou os alcatruzes da minha vida até ao fundo do poço. Mas tal como dizia a minha avó eles começaram a subir,  depois do meio do ano. A cirurgia da minha sobrinha correu bem e ela já recuperou a pouca mobilidade que tinha anteriormente, o meu marido, recuperou muito bem, apenas com um mês de internamento, tivemos a alegria do nascimento de mais uma neta; e o meu cunhado também está a recuperar embora esteja longe de conseguir fazer uma vida normal, sem ajuda. Espero e desejo que o transplante de córnea me dê alguma visão no olho esquerdo, até porque tem dias que quase não consigo ler, escrever, ou estar  no pc, porque o olho direito põe-se vermelho, começa a chorar e a arder e só estou bem com os olhos fechados.
Essa é também a razão porque eu não comento como merecem os vossos artigos.
Termino agradecendo a compreensão e apoio que me dedicaram ao longo de todo o ano.
Que Deus vos abençoe.

    

29.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVIII


Encontrou a mãe na sala, tricotando uma camisola para a neta. Recebeu o beijo que a filha lhe dava e disse.
- Senta-te. Esperava-te de manhã
Não se admirou. A mãe sempre sabia quando algo a atormentava. E também sabia que recorreria a ela com a mesma fé com que o náufrago se agarra à tábua de salvação que lhe estendem.
-Sabes o que se passa?
 Assentiu com a cabeça.
- Sabia-lo há muito tempo?
Voltou a acenar com a cabeça.
- Desde quando mãe?
- Pois não tenho a certeza, quando começou. Eu descobri-o nos seus olhos há cinco anos, na cerimonia de casamento dos teus irmãos.
- Era assim tão evidente?
- Para o coração de uma mãe, sim.
-Sabes que ele não regressa por minha causa?
- Sei.
- E não me odeias?
- Que ideia é essa, Ana? Sabes que sempre te amei como uma filha, muito embora não o sejas. Se tivesse que odiar alguém talvez tivesse de o fazer comigo. Pensas que não me sinto culpada? Se não tivesse fomentado entre vós esse arreigado sentimento de fraternidade, talvez agora estivéssemos todos mais felizes. Simão diz que não o consegues ver, senão como irmão.
- Desde ontem que o tento, mãe. Contou-te que me beijou?
Negou com um movimento de cabeça.
 - Beijou-me. E esse beijo mexeu comigo como nada nem ninguém o tinha feito até hoje.
Abraçou a mãe e escondeu a cabeça no seu regaço, exatamente como quando era menina, e alguma coisa a preocupava. Francisca estendeu a mão e acariciou a cabeça da filha.
- Tenho medo, mãe.
- Medo de quê, Ana?
-Medo de me deixar embarcar numa ilusão que nos traga muito sofrimento. Ou que afunde a família.
- Pensas que não o amas, ou que podes vir a amá-lo?
-Não sei. O meu coração está desnorteado, a minha cabeça confusa. O Simão foi para mim o mais amado dos irmãos. Por isso estava tão zangada, por achar que já não gostava de mim. Mas nunca até ontem o vi como homem, nem nunca passou pela minha cabeça pensar nele como tal. Muito menos como o homem da minha vida. Mas desde que me beijou, tudo mudou. Imagino-o de mil maneiras, menos como irmão. Se isso é amor, não sei. Sinto-me desorientada.
É natural, Ana. Espera um pouco. O tempo ajuda a clarificar sentimentos.
- Sabes que não quero só alguém que me ame e me proponha casamento. Se fosse só isso, há anos que me tinha casado. Eu quero alguém que partilhe tudo comigo. A sua vida, os seus sonhos,  o seu amor. Que me enlouqueça.  Imagina que isso não acontece com o Simão. Perdi o irmão e não ganhei o amante. Entendes?
Acenou afirmativamente.
- É disso que tenho medo. De me expor, e de expor toda a família ao sofrimento. No fundo, o que eu queria, era viver um amor como o teu com o pai. Nunca conheci ninguém tão feliz como vocês.
- Nem sempre foi assim, Ana.
- Não? – Perguntou admirada.
-Vou contar-te como conheci o teu pai. É um segredo que nunca contei a nenhum dos teus irmãos, e que espero fique entre nós.  
E Francisca, falou do estranho contrato, celebrado com o marido, que estivera por base do seu casamento. 
Ana estava verdadeiramente espantada. Custava-lhe a aceitar a história que a mãe lhe contava.
- Foi muito arriscado. E se nunca se tivessem apaixonado?
 Viveriam uma vida sem amor, só por nossa causa?
- Era uma boa causa. Mas eu amei o teu pai desde o primeiro dia. E tinha a esperança de que um dia me correspondesse. E às vezes, para chegar ao cume da montanha,não basta ter um bom equipamento.   É preciso correr riscos.
Ana olhou a mãe tentando entender a mensagem.


reedição







27.6.17

SONHO AO LUAR -PARTE XV




Hélder entrou em casa. Tirou o casaco que pendurou no bengaleiro, e olhou para todos os lados, analisando cores e móveis. Respirou fundo. A sua casa. Era a primeira vez que a via, desde que partira há dez anos. E estava bem diferente após a remodelação que sofrera há meses. Antônia à porta, olhava-o espantada. Como é que ele tinha vindo sozinho? E onde estava o cão?