- Pois, não sei. Há clássicos de que gosto muito, mas entre os modernos há autores excelentes. Como por exemplo, o Mia Couto, o João Tordo, Joaquim Pessoa, Agualusa, entre muitos outros.
- Sabe que sou escritor. Não utilizo o meu nome verdadeiro. Pelo que já viu do meu próximo livro, identificar-me-ia com algum dos seus autores preferidos?
- Sem dúvida que sim. Eu juraria que o senhor é Tomás Reis.
- Já lhe tinha pedido, para esquecer o senhor. Trate-me simplesmente por Hélder. Mas porque me associa a esse autor?
- Porque é um dos meus preferidos, li os quatro livros que publicou até hoje, e o estilo literário parece-me o mesmo.
- Folgo em saber que o Tomás lhe agrada, - disse com um sorriso que lhe suavizou os traços do rosto. - Efetivamente, eu sou Tomás Reis.
- Mas porquê tanto mistério? Por causa da…
Calou-se. Sem saber como prosseguir sem o magoar.
- Cegueira? Não se preocupe. Já lá vai o tempo em que me atormentava. Ao fim de quatro anos, um homem acostuma-se a tudo. Até a ser cego.
- Desculpe, não queria magoá-lo. Só que me intrigava que apesar do êxito das suas obras, não haja nada na Internet senão o seu nome e o nome da editora. Não há nas notícias de lançamento de nenhuma das suas obras, uma foto, uma indicação de presença, nada.
- Tudo começou com uma aposta com um amigo. Apostei em como era capaz de publicar em completo anonimato e ainda assim ser bem sucedido. O nosso valor está no que escrevemos, não na nossa vida pessoal. Ele disse que eu não conseguia. Combinamos um prazo de cinco anos, se me tornasse famoso. No meu contrato com a editora há uma cláusula proibindo qualquer revelação sobre o autor. Há quatro anos, após a saída do quarto livro, terminaram os cinco anos da aposta. Pensava em convocar a imprensa e dar-me a conhecer, no lançamento do novo livro, mas então sofri o acidente que me deixou assim e fiquei desesperado. Pensei que nunca mais ia escrever uma linha que fosse. Até que por fim a resignação chegou, e resolvi que estava na hora de retomar a minha vida.
Aborreço-a?
- De modo algum. Gostaria que continuasse. Falou em resignação. Não se pode fazer nada? Uma cirurgia, um tratamento, alguma coisa?
- Infelizmente não. Quando caí do cavalo, bati com a cabeça e fiz um hematoma epidural, com hemorragia intracraniana. Fui operado de urgência e estive algum tempo em coma. Quando recuperei estava cego. Submeti-me a muitos exames, procurei vários médicos, e todos me disseram o mesmo. Tecnicamente eu não devia estar cego, não havia nenhuma lesão, que pudesse estar a provocar a cegueira. Só podia ser psicológico, e em breve voltaria a ver. A princípio acreditei. Mas com o passar dos anos, não há fé que resista.
- Não pode perdê-la. Sempre ouvi dizer que a fé é que nos salva. E se não há doença, que o impeça, tenho a certeza que vai recuperar a visão. Talvez demore, mas volta.
- Quem dera acreditar nisso. Mas por hoje chega de conversa. Viu a correspondência?
- Sim. Nada de importante. Apenas umas cartas do banco, duas delas com avisos do seguro da casa e do carro a debitar na sua conta dentro de dias, outra com o extrato bancário.Informando os amigos.
Eu lavei a cozinha com lixivia pura , utilizando luvas, máscara, por causa das alergias e óculos de proteção. Pensei que estava bem protegida. E na verdade não tive qualquer problema de nível respiratório, mas os olhos ficaram vermelhos e chorosos, principalmente o que sofreu o transplante. Mas já estão bem melhores e conto que já hoje, Segunda feira depois de mais uma noite de descanso, consiga retomar a leitura e comentários dos vossos blogues.
