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18.6.20

ISABEL - PARTE XXVII







O telemóvel tocou. Isabel pousou o livro e atendeu. Era Amélia a reforçar o convite para irem ao tal bar. Isabel voltou a descartar qualquer hipótese de sair. Desligou e olhou para o relógio. Dez e vinte, era muito cedo para se deitar, mas a chamada fizera-a perder o interesse pela leitura. Que fazer? Olhou o portátil na mesinha de bambu e vidro junto ao sofá. Mas não lhe tocou. Na verdade navegava tanto por questões de trabalho que em casa muito raramente o abria. Aconchegou o robe ao corpo seminu e estendeu-se no sofá. Fechou os olhos e reviveu a cena dessa tarde. Quem seria aquele homem? Luís. Ele dissera que se chamava Luís. Bom pelo menos a partir de agora o desconhecido tinha nome. Mas isso mudava alguma coisa? Lembrou-se da mãe. Ela sempre dizia que cada um nasce com o seu destino traçado. Costumava dizer que não há coincidências. As coisas acontecem, para seguir a ordem natural, dos caminhos do destino de cada um. Ela não acreditava muito no destino. Sempre acreditou que o destino, é obra do que cada um faz na vida. Agora já não tinha tanta certeza disso. Ela não fizera nada para trazer para a sua vida aquele homem, nem os estranhos desejos que a assaltavam desde que o conhecera.
Será que a mãe tinha razão? Que ele estivera sempre no seu destino, à espera da hora certa para aparecer? E se assim era, que papel ia interpretar no teatro da sua vida? Seria um grande papel, ou era uma figuração apenas? De súbito deu-se conta de algo muito estranho. Ultimamente quase não se recordava de Fernando. E quando o recordava tinha dificuldade em lembrar as suas feições. Que estranho poder tinha aquele homem para invadir assim a sua vida e a sua mente, e esvaziar a gaveta das memórias que ela guardou com tanto esmero e cuidado durante quase vinte anos?
 Isabel jamais acreditaria que situações assim acontecessem na vida real. E porque haviam de lhe acontecer logo a ela? Que já tinha desistido de ter uma família e estruturara toda a sua vida, sobre recordações? E agora que fazer? Esperar que o destino ou lá o que era os juntasse de novo? Tentar esquecer e reconstruir a muralha atrás da qual vivera todos aqueles anos? E se voltassem a encontrar-se o que ela faria? Tentaria dar uma hipótese a si mesma com dizia Amélia, ou fugiria de novo? E mais importante que tudo. Quem lhe dizia que o homem não era comprometido? E ainda que o não fosse quem lhe dizia que se ia interessar por ela? Um homem como ele devia ser como uma flor à beira de uma colmeia.
Exausta acabou por adormecer ali mesmo no sofá.



                                             

21.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... PARTE II

reedição





-João, estás-me a ouvir? Fala a Cecília, não te lembras de mim?
- Bom... gaguejou João enquanto tentava descobrir, quem raio era aquela Cecília, que parecia conhecê-lo tão bem.
- Estou a ver. Não te lembras de mim é o que é. Devia ficar zangada sabes? Não te lembrares da tua primeira namorada...
- Cecília Pedrosa? - Perguntou incrédulo
- Ah! Afinal lembras-te, - disse soltando uma sonora gargalhada.
João raciocinava a mil. Cecília Pedrosa. Mas então ela não estava no Brasil? E como é que se lembrara de lhe telefonar? E como obtivera o número do seu telefone?
- Cheguei ontem do Brasil. E acabo de encontrar a Sandra que me deu o teu número.
“Diabos, parece que escutou os meus pensamentos”, pensou.
- Olha, - continuou Cecília do outro lado. Estamos aqui em Alcântara, num bar que tu conheces bem, segundo diz a Sandra. Não queres vir ter connosco?
Sandra era a irmã do Zé. O bar só podia ser o que costumavam frequentar. Sandra era uma boa amiga. Não daria o seu número, a qualquer uma.
E depois Cecília tinha sido a sua primeira namorada, ainda antes da faculdade. Mas depois fora para o Brasil e nunca mais soubera dela... 
- Então João, - a voz do outro lado soava com impaciência
- Eu vou - numa fracção de segundo João resolvera arriscar. Afinal era noite de Sexta-feira, no dia seguinte poderia dormir até tarde.
Desligou o telefone e dirigiu-se à casa de banho para um duche rápido. Enquanto se barbeava, surpreendeu-se com uma pergunta.
Estaria casada? Sacudiu a cabeça. Claro que não. Uma mulher casada não telefona a um ex-namorado, convidando-o a sair.
Continuaria bonita? Há tantos anos que não se viam. 
Vestiu umas calças de ganga e uma camisola de gola alta, enquanto fazia mentalmente as contas.
"Deve estar com trinta e seis anos", murmurou vestindo o casaco.
Fechou a porta e caminhando a passos largos dirigiu-se ao elevador.



Bom amigos, esta história é como viram ontem uma reedição. Tem uns quatro anos e apenas quatro episódios. Alguns leitores mais antigos lembram-se. Continuo a não ter nada novo para vós, a não ser a certeza de que não serei operada hoje uma vez que não me telefonaram da clínica na Sexta-feira, a dizer que o tal especialista que o cirurgião pediu, está disponível esta segunda. 

29.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLIII


Não, não é um barco que errou a sua vocação marítima, ou foi trazido numa tempestade.  É mesmo a Igreja de S, Francisco Xavier, no Restelo em Lisboa.


Findas as vinte e quatro horas, de observação, Tiago foi transferido para o quarto. Segundo os médicos, estava tudo a correr bem, mas o jovem continuava em coma. Clara passava junto dele todo o tempo que o hospital permitia. Lembrava coisas da sua infância, falava das crianças, da saudade que elas tinham dele, enfim de tudo o que se lembrava, e que pensava o podiam trazer de volta. Ricardo por seu turno levava e ia buscar os filhos à escola, deixando-os depois com Antónia, para se juntar à mulher no hospital, dando-lhe todo o apoio necessário para ela não desanimar. Não raras vezes, tinha que insistir com ela para que fosse ao bar comer qualquer coisa, pois estava a emagrecer a olhos vistos. Foi assim naquele dia, o sexto desde o acidente.
Depois de grande insistência de Ricardo, Clara saíra para comer alguma coisa, e ele sentara-se junto da cama, pegou na mão do jovem e começou a falar pausadamente.
-Sabes, hoje lá fora, brilha um sol radioso. Os dias já são bem maiores, estamos quase no verão.
Foi impressão sua, ou Tiago mexeu a mão?
Levantou-se, aproximou o rosto do paciente e acariciando-lhe o rosto falou ternamente perto do seu ouvido.
- Acorda, Tiago. Nós amamos-te muito, e estamos com muitas saudades. Volta para nós, Campeão. Por favor, dá-nos essa alegria.
Então lentamente o jovem abriu os olhos. Ricardo tocou imediatamente a campainha, e pouco depois uma enfermeira entrou no quarto. Viu que o jovem tinha recuperado embora parecesse estranho como se não soubesse o que se tinha passado.
- Ora bem, o nosso jovem acordou. Já era tempo, de voltar. Vamos ver como está, - disse pegando-lhe no pulso e olhando o relógio. Depois disse: - Vou ter que lhe fazer algumas perguntas, para ver se está tudo bem. Entende?
Ele fez um gesto afirmativo
-Consegue falar?
- Sim.
- E sabe onde está?
-No hospital – disse passeando o olhar pelo espaço
-Muito bem. - Colocou a mão na sua frente com o indicador erguido.-
- O que é que eu estou a fazer? - Perguntou correndo a mão de um lado ao outro para ver se o olhar do paciente seguia o movimento.
-Está a mostrar-me um dedo.
- Certo. E lembra-se do que lhe aconteceu?
-Fui atropelado.
-Muito bem.
Consultou a papeleta aos pés da cama, e acrescentou.
- Vou ter de comunicar com o médico. Precisa de alguma coisa?
-Água.
-Vou molhar-lhe os lábios. Por agora não, pode beber água. Acabou de sair do coma, podia engasgar-se. Dentro de uma hora já poderá beber.
A enfermeira saía quando Clara voltava. Ao ver o irmão acordado, chorou de alegria e emoção. Beijou o irmão e depois refugiou-se nos braços do marido que lhe disse ao ouvido:
-É melhor ires lá para fora, um bocadinho para te acalmares. O teu irmão não deve emocionar-se e ver-te assim não lhe faz bem nenhum.
As palavras dele tiveram o condão de a acalmar. Aceitou o lenço que lhe dava, enxugou as lágrimas e esboçou um sorriso.
Virou-se para o irmão e acariciou-lhe o rosto. Ele fechou os olhos.
- Tens dores?- Perguntou-lhe.
- Não. Mas sinto-me cansado e enjoado.
- Queres que vamos embora, para descansares?
- É melhor sim- respondeu a enfermeira que voltava. O médico já aí vem, o paciente vai ter que fazer alguns exames e precisa descansar.
Amanhã já estará bem melhor e podem então conversar.
Os dois despediram-se do doente, e saíram. Ricardo colocou o braço sobre os ombros da jovem e ela não se afastou. Pelo contrário enlaçou-lhe a cintura e assim enlaçados como um casal de namorados, encaminharam para o elevador.   -Gostaria de ir a uma igreja. Sabes se há por aqui perto, alguma? – Perguntou já no carro, quando ele pôs o veículo em marcha.
- A Igreja de S. Francisco Xavier fica próximo daqui. São dezoito horas, penso que ainda estará aberta. Vamos lá ver.
Minutos depois Ricardo estacionou o carro perto da igreja, junto de uma florista.  Entrou na loja enquanto Clara  entrava na igreja.
Pouco depois ajoelhou a seu lado e sussurrou entregando-lhe um ramo de rosas brancas.
- Supus que gostarias de oferecê-las à Virgem, - disse, sabendo por ela lhe ter dito anteriormente, que pedira a Nossa Senhora pelo irmão.
Oraram, durante alguns minutos, lado a lado, e depois ela levantou-se e foi depositar o ramo no altar da Virgem, persignou-se e encaminhou-se para a saída, seguida pelo “marido”.




22.7.13

SEM TITULO - II PARTE




Acordou sobressaltado com o toque do telefone. Atendeu e do outro lado uma voz maviosa, falou o seu nome. Ficou surpreendido e irritado. Quem tinha o desplante de lhe ligar, numa hora tão imprópria.
-João, estás-me a ouvir? Fala a Cecília, não te lembras de mim?
- Bom... gaguejou João enquanto tentava descobrir, quem raio era aquela Cecília, que parecia conhecê-lo tão bem.
- Estou a ver. Não te lembras de mim é o que é. Devia ficar zangada sabes? Não te lembrares da tua primeira namorada...
- Cecília Pedrosa? - perguntou incrédulo
- Ah! Afinal lembras-te, - disse soltando uma sonora gargalhada.
João raciocinava a mil. Cecília Pedrosa. Mas então ela não estava no Brasil? E como é que se lembrara de lhe telefonar? E como obtivera o nº do seu telefone?
- Cheguei ontem do Brasil. E acabo de encontrar a Sandra que me deu o teu nº.
“Diabos, parece que escutou os meus pensamentos”, pensou.
- Olha, - continuou Cecília do outro lado. Estamos aqui em Alcântara, num barzinho que tu conheces bem, segundo diz a Sandra. Não queres vir ter conosco?
Sandra era a irmã do Zé. O bar só podia ser o que costumavam frequentar. Sandra era uma boa amiga. Não daria o seu número, a qualquer uma.
E depois Cecília tinha sido a sua primeira namorada, ainda antes da faculdade. Mas depois fora para o Brasil e nunca mais soubera dela... Estaria casada?
- Então João? - a voz do outro lado soava com impaciência
- Eu vou - numa fração de segundo João resolvera arriscar. Afinal era noite de Sexta-feira, no dia seguinte poderia dormir até tarde.
Desligou o telefone e dirigiu-se ao quarto para se vestir. Veio-lhe novamente à memória, uma pergunta? Estaria casada? Sacudiu a cabeça. Decerto que não. Uma mulher casada, não telefona a um ex-namorado convidando-o a sair. Continuaria bonita? Já lá iam uns bons anos. Mentalmente fez contas. Deve estar com 36 anos, murmurou para si enquanto fechava a porta.
E caminhando a passos largos dirigiu-se ao elevador.


Continuo à espera das vossas sugestões para o titulo do conto.


Desejo a todos que por aqui passem, uma boa semana