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30.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XV

 

-Claro, mas ser professora é a minha vocação desde sempre e quando nós fazemos o que gostamos é muito gratificante, - respondeu Laura.

- Bom, agora que isto já está entendido, vem conhecer o gabinete do doutor, - disse Diana levantando-se.

Atravessou a sala de espera, onde além de meia dúzia de cadeiras se encontravam uma mesa de jogos didáticos infantis e outra com revistas da atualidade e uma pequena estante com livros infantis e juvenis. De seguida abriu a porta em frente e Laura observou o amplo gabinete no qual havia uma estante com vários livros de medicina e psiquiatria, uma secretária de carvalho com uma cadeira de couro de frente para a porta e do lado contrário, duas cadeiras com estofo também em couro. Junto à janela uma marquesa e ao lado uma cadeira.

Laura aproximou-se da secretária sobre a qual estava uma moldura clássica com uma fotografia de Fernando com Gonçalo e ela entre os dois.  Pegou na moldura e ficou olhando a fotografia recordando-se perfeitamente de quando foi tirada. Ali ela tinha dezassete anos, acabara o Curso Secundário. Fernando e Gonçalo já estavam na Universidade.

-És tu, não és? – perguntou Diana

-No dia em que terminei o Secundário – respondeu

-Namoravas com ele?

- Não que ideia! Fernando era para mim como um irmão. Desde que me lembro sempre o vi lá por casa, juntamente com o Gonçalo. Os pais dele e os meus eram vizinhos, e ele que não tinha irmãos, passava mais tempo na minha casa, que na sua.

- Desculpa se cometi uma gaffe, mas a maneira como ele olha para ti, e a sua expressão, é de um apaixonado, não de um irmão. E eu sempre pensei que era a pessoa que estava na foto, a causa de ele nunca ter tido um relacionamento sério, - disse Diana.

- Não, não pode ser. Ele teria dito alguma coisa, nós éramos muito amigos, não tínhamos segredos e até conhecer o meu falecido marido, nunca nos separámos.

-Bom, deves ter razão. Talvez tenha sido o meu lado romântico que inventou essa história.

Laura poisou a foto sobre a mesa, ao lado do computador portátil que estava ligado a uma impressora instalada numa pequena mesa do lado esquerdo da cadeira.

-Bom, - disse Diana dirigindo-se para a porta.  Está na minha hora de almoço, vou fechar a clínica. Reabro às três horas. A primeira consulta está marcada para as três e meia. Vens de tarde?

- Não sei, se poderei vir, não falei nada com os meus pais. Eles estão cá esta semana, pedi-lhes para tomarem conta do meu filho Miguel. E, à tarde, têm que ir buscar a minha filha e a prima à escola. O doutor tem consultas amanhã à tarde?

-Tem todos os dias, de segunda a sexta. De manhã é que só tem às terças e quintas.

- E amanhã é quinta feira. As minha filha e a prima, têm aulas até às cinco.  Vou falar com os meus pais e talvez possa vir de manhã e de tarde até às quatro e meia. E quando sair passo pela escola e levo as meninas.

Pegou na mala e dirigiu-se para a porta

-Queres boleia, ou tens o teu carro? – perguntou encaminhando-se para a saída.

-Só vou fechar a porta. Trouxe almoço e fico a descansar as pernas na marquesa do doutor. Este barrigão dá-me dores nas costas e nas pernas, que é um caso sério, - respondeu Diana.

-Então até amanhã, - disse Laura, e  abrindo a porta saiu para a rua

22.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXII




Quando chegaram, o inspetor Morais, ainda não tinha regressado do almoço, mas tinha deixado ordens para que lhe colhessem as impressões digitais e as comparassem com as de Fernando Monte Real que já lhes tinham sido enviadas de manhã pelo Arquivo Central. Depois de recolhidas e enviadas para os peritos que as iam analisar, eles ficaram a aguardar, até que o policial regressasse o que demorou apenas um quarto de hora. 

Depois de os cumprimentar, pediu que entrassem no seu gabinete, e explicou-lhes o trabalho de pesquisa já efetuado junto da direção da Orquestra Nova do Porto, que lhes facultara todas as informações sobre o pianista desaparecido juntamente com a sua fotografia, e ou ele tinha um sósia perfeito, ou era realmente a pessoa em questão.

 Faltava apenas a resposta dos peritos na comparação das impressões digitais mas isso era muito rápido, devia estar a chegar. E chegou cinco minutos mais tarde por fax. Sem qualquer dúvida, ele era o pianista desaparecido em Los Angeles no dia cinco de Dezembro, quando se encontrava em coma no Hospital de S. José em Lisboa, desde o dia três. 

- Um mistério bem cabeludo, - disse o inspetor. Está claro para nós que alguém se quis livrar de si. Assim depois de o abandonarem morto na berma da estrada, - acredito que quem o fez, estava convencido que estaria morto, viajaram para os Estados Unidos com os seus documentos e registaram-se no hotel. Provavelmente quem o fez, viajou de volta para Portugal, com a sua verdadeira identidade.

 O seu desaparecimento seria comunicado à polícia americana, e o senhor seria sepultado em Portugal como indigente. E todas as investigações posteriores diriam que tinha viajado e desaparecido no estrangeiro, pelo que o caso seria arquivado sem solução. 

O que levaria alguém a elaborar um tal plano é o que temos de descobrir. Ou o senhor está metido com algum gang que já se fartou de si, ou viu alguma coisa que não podia, nem devia ver. Em qualquer dos casos a sua vida não está fácil. Vamos manter segredo sobre o facto de estar vivo. 

Quem se deu a tanto trabalho para se livrar de si, vai querer acabar o serviço, se souber que está bem de saúde. Vou-lhe pedir que evite aparecer em locais onde possa ser fotografado. Continua em casa da doutora?
- Sim, - disseram os dois em uníssono.
- E há algum inconveniente em manter-se lá enquanto dura a investigação doutora? 



15.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XIX

 



Ele sentou-se na cama e ela sentou-se a seu lado.
-Viste a fotografia. Sou eu, não sou doutora? Não estou doido, pois não? – perguntou com voz rouca, as mãos a tremer.
- Claro que és tu. Há alguma coisa de muito estranho em tudo isto. Penso que devíamos telefonar imediatamente para o inspetor. Espera, vou buscar o telemóvel, eu tenho o número dele.
- Mas hoje? Decerto não vai atender!

Ela foi à cozinha, pegou um copo de água e o telemóvel e voltou ao quarto.
- Toma, bebe um pouco. Vai fazer-te bem.
Ligou o número e aguardou um pouco.
- Está desligado. Era de prever. Vou mandar mensagem. Vê-la-á quando o ligar.

“Inspetor- foi dizendo em voz alta, o que escrevia.- Lembra-se do sinistrado que socorri no início do mês, sem documentos, nem memória? Acabamos de descobrir que desapareceu na América. Por favor contate-nos com urgência. E se puder veja o telejornal de hoje. Helena”

-Já está. Sentes-te melhor? A notícia não te fez recordar nada?
- Não. Contínuo vazio, de tudo o que me aconteceu até acordar no hospital.
-E no entanto quando quis inventar-te um nome, disseste imediatamente Fernando. E sonhaste com um concerto, e um pianista sem rosto. Agora sabemos que esse pianista, és tu. Tenta acalmar-te, desfruta da noite, logo ou amanhã, procuramos na internet, pelo teu nome. Pode ser que haja alguma coisa.

Pôs-se de pé e deu-lhe a mão. Ele levantou-se. Ficaram os dois muito perto um do outro, tão perto que teria sido muito fácil ceder ao impulso de a abraçar e beijar, e talvez fosse o que ela desejava, mas a verdade é que ele estava por demais concentrado na sua situação, para se aperceber disso. Ela encaminhou-se para a sala, e ele limitou-se a segui-la.

-Está melhor? - perguntou o dono da casa, quando reentraram na sala.
-Sim já melhorou, obrigado. Mas não me levem a mal, não me apetece comer. Talvez mais logo.
- Queres que te dê um beijinho para ficares bom? A mamã costuma dar-me e a dor passa, - disse o menino aproximando-se dele, e provocando um sorriso nos adultos.

4.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XV

 


Às vinte horas, Helena despediu-se da filha que dormia, com um beijo na testa e saiu, depois da enfermeira lhe ter entregue um cartão de Pessoa Significativa que lhe permitiria visitar a filha a partir das treze horas, do dia seguinte e não ter que esperar pela hora normal das visitas que era bem mais tarde.

Ao  entregar-lhe o cartão a enfermeira disse-lhe:

-É melhor ligar para cá antes de vir, o tempo de internamento nos casos de apendicectomias laparoscópicas, quando não surge qualquer complicação é de vinte e quatro horas. A ronda médica é por volta do meio dia, e se tudo estiver como se espera, ela terá alta, e sairá na hora das visitas. Se telefonar antes já saberá se deve ou não trazer a roupa dela, mas não ligue antes da uma.

 -Deixei-lhe o telemóvel. Vou ligar de manhã para saber como passou a noite e como não sei a que horas o médico a observará, venho às treze e trago-lhe uma muda de roupa.

Dirigiu-se ao parque de estacionamento, onde deixara o carro, lançou o saco com a roupa da filha para o banco traseiro e sentou—se ao volante. Pôs o veículo em movimento, e dirigiu-se a casa. Sentiu uma pontada no estômago e só então se lembrou de que não comera nada desde o pequeno almoço.

Comprou uma piza a caminho de casa. Sabia que tinha de comer, mas não tinha vontade de cozinhar. Sentia-se muito cansada, física e psicologicamente. Não lhe saía da cabeça a conversa do Gonçalo.  Por muito estranho que lhe parecesse, podia jurar que ele não só, não a reconhecera, como não tinha qualquer lembrança dela.

Por outro lado, agora sabia onde a filha fora buscar o seu tom de pele, e a cor dos seus olhos. A semelhança com a tia era assombrosa. No seu breve e intenso namoro, Gonçalo tinha-lhe falado dos pais, e da irmã, porém ou porque não tinha com ele qualquer fotografia ou por outro qualquer motivo, ela nunca imaginou que a família dele, não fosse morena como ele.

Acabava de jantar quando o telemóvel tocou. Atendeu. Era a mãe. 

- Estou, mãe, não esperava a tua chamada hoje. Aconteceu alguma coisa?

- Não, filha. Acabei de falar com o teu irmão e deu-me saudades vossas. Depois de amanhã é Domingo de Ramos, temos a procissão e como dissestes que vêm passar a semana da Páscoa, lembrei-me que podiam vir amanhã e íamos juntas à procissão.

-Não mãe, provavelmente só poderemos ir na segunda feira. Para que a agência fique fechada uma semana, precisamos dar andamento a alguns assuntos que não podem ser adiados.

Estava a mentir, mas não ia dizer aos pais que a neta estava no hospital para que ficassem preocupados.

- E a Matilde? Hoje não quer falar com a avó?

- Não está, mãe. Hoje foi passar a noite com a Madrinha. Amanhã eu digo-lhe que telefonaste, não te preocupes. Beijos.

Desligou e de seguida ligou para Rita.

- Desculpa, -disse assim que a amiga atendeu – vi que estavas a ligar, mas estava ao telefone com a minha mãe.

- Contaste-lhe da Matilde? - perguntou Rita.

- Não queria que ficassem preocupados. Disse—lhe que ela estava em tua casa.

- Já me disseste que a cirurgia correu bem, mas como estava a Matilde quando saíste?

- A dormir tranquilamente. Em princípio deve ter alta amanhã. Olha Rita aconteceu uma coisa estranhíssima, que preciso de te contar. Queres vir amanhã tomar o pequeno almoço comigo? Sei que é sábado, o Inácio está em casa, mas eu preciso mesmo de desabafar. Se ele quiser podem vir os dois.

- A que horas? – perguntou Rita

- Não sei. Decide tu. Eu só vou para o hospital perto da uma.

- Às dez. Se estiver bem para ti, para mim é boa hora.

-OK! Às dez então.

2.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XIV

 


Gonçalo regressou ao gabinete e continuou a atender os doentes, mas o rosto de Matilde não lhe saía da cabeça. Num breve intervalo sem doentes, abriu a carteira e tirou uma fotografia observando-a de sobrolho franzido. Era uma fotografia da sua irmã quando criança, mas qualquer um que a visse diria que era daquela menina de nome Matilde Caldeira, que se encontrava agora no bloco operatório. E aquela sensação esquisita que ele sentira dias antes quando aquela mulher chocara com ele, junto à escola da sobrinha, e se repetira horas antes ao vê-la junto da maca da filha?

Voltou a guardar a foto na carteira quando lhe trouxeram a inscrição de um novo doente.

Algumas horas mais tarde, terminado o turno entrou no automóvel, mas em vez de o pôr a trabalhar e se dirigir a casa, mais uma vez retirou a foto da irmã da carteira e ficou observando-a pensativo. Não conseguia tirar aquela menina do pensamento, aqueles olhos azuis tão brilhantes e luminosos. Ele nunca vira outros assim a não ser na sua mãe e irmã. Aliás aquela criança desconhecida, era mais parecida com a sua irmã, do que Sara, a filha dela. Será que a sua mãe tinha algum familiar que ele desconhecia a viver em Lisboa?

Saiu do carro e voltou ao hospital. Tinha de falar com aquela mulher. Talvez ela pensasse que ele tinha enlouquecido, mas conhecia-se. Sabia que não iria conseguir sossegar sem saber se a menina e a mãe tinham alguma ligação à sua família. Subiu ao terceiro andar, onde esperava encontrar as duas, pois tinha visto no computador que a laparoscopia tinha terminado duas horas antes e a mãe deveria estar com ela até às vinte, hora limite das visitas.

Ainda não sabia bem como iria abordar o assunto, talvez a mulher pensasse que ele estava louco, mas algo dentro de si lhe dizia que fosse em frente.

Entrou no quarto e com um rápido olhar, verificou que a paciente dormia, enquanto a mãe se encontrava sentada num cadeirão junto à janela. 

Leu rapidamente as anotações na papeleta aos pés da cama, vendo pelo canto do olho como a mulher se punha de pé, mas não se aproximava. Teve a certeza que apesar de já não ter a bata nem o estetoscópio ela o reconhecera como o médico que mandara a filha para a cirurgia. Ficara muito nervosa.

-- Aconteceu alguma coisa com a minha filha, doutor? - perguntou com voz rouca. - Ela está bem, não está?

- Está, não se preocupe. Aliás não estou aqui como médico, o meu turno já terminou. Preciso de falar consigo de algo que é de vital importância para mim, mas este não é o local nem a hora. Queria apenas que me prometesse que podemos conversar, quando a sua filha tiver alta.

- Se não tem a ver com a saúde dela, não entendo o que possa ter a falar comigo, se mal nos conhecemos.

- Eu sei que parece loucura, e que estou a por em perigo o meu emprego e a minha carreira, caso a senhora decida participar de mim, ou me acuse de assédio, todavia juro-lhe que não lhe vou causar qualquer dano, nem quero molestá-la de forma alguma.

Helena estava aterrorizada. Inicialmente pensara que ele tivesse descoberto que Matilde era sua filha, mas logo afastou esse pensamento. Percebeu que ele não se lembrava dela, e sentiu raiva de si própria por todos os anos em que guardou as memórias daquele amor.

Ele caminhou até à janela. Apoiou as costas no parapeito e fitou-a. Ela aguentou-lhe o olhar e viu nele tristeza e dor. Surpreendeu-se.

- Desde que chocou comigo naquele dia em frente à escola, sinto-me confuso.  Não consigo deixar de pensar que de algum modo a senhora está ligada a mim, ou à minha família, mas não consigo recordar de que maneira. E hoje ao conhecer a sua filha, o meu coração disparou e a confusão aumentou. Não sei explicar, mas foi como se o coração soubesse algo, que a memória desconhece.

Sentindo que as pernas ameaçavam deixar de lhe sustentar o corpo, Helena sentou-se enquanto ele abria a carteira e retirava a foto da irmã. Estendeu-lha.

-Por favor, senhora. Veja, esta foto.

Com a mão a tremer Helena pegou na foto e olhou. A parecença com Matilde era assombrosa. Não fora as roupas e ela diria que de algum modo ele tinha fotografado a sua filha.

- É… sua filha? – perguntou quase sem voz.

- Não tenho filhos, sou solteiro. É uma foto antiga da minha irmã, mais ou menos com a idade da sua filha. Percebe a minha confusão, e porque preciso falar consigo? – perguntou Gonçalo quando ela lhe devolveu a foto.

Nesse momento Matilde gemeu e a mãe apressou-se a dirigir-se para a cabeceira de cama, dizendo.

- Por favor, vá-se embora!

Sem responder ele saiu do quarto. Ela debruçada sobre a cama da filha, sentiu um aperto no peito ao vê-lo sair com os ombros inclinados como se carregasse nas costas, o peso de uma grande dor.

 

1.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE IV

 



Tanta fotografia cansava-a. Mas enfim era a tradição e ela pensava que a mãe já tinha desgostos que chegassem para os próximos dez anos pelo menos. E chegou enfim o carro para a levar até à dependência do Registo Civil.
Bem que ela gostava de uma cerimonia em casa, mas tal não era permitido por lei.

O pai entregou-a ao sogro, que na cerimonia representava o noivo.

E depois do casamento foram até ao restaurante local celebrar o acontecimento com uma pequena festa para a família, e duas amigas com quem a noiva tinha mais intimidade. 
A viagem para França seria dois dias depois, ela já tinha a carta de chamada do marido, que lhe autorizaria a saída do país, pois sem essa autorização nenhuma mulher podia viajar. 

No dia seguinte, era a festa da aldeia, com a procissão dedicada a Nossa Senhora das Dores. Era o primeiro ano que Sofia iria participar apenas como devota, e não como parte integrante da comissão organizadora. Assim, depois do almoço saiu com a mãe para assistirem à celebração da Eucaristia, à qual se seguiria a procissão pelas principais ruas da aldeia. Era uma festa a que acorriam não só os habitantes locais, como das aldeias circundantes, da vila mais próxima, e até de outros pontos do distrito.

Homens e mulheres vestiam os seus melhores fatos, para participarem na homenagem à Virgem. Os homens, sem chapéu, alguns mostrando luzidias calvícies, as mulheres de cabeças cobertas por belos e rendados véus quase todos pretos, exceção feita para as jovens e crianças, que usavam véus brancos, em sinal da sua pureza.

Mas todos sérios e solenes, compenetrados na fé à mãe de Deus. Contudo a imagem mais ternurenta, era a das crianças, vestidas de branco, com alvas asas nas costas, e coroas de flores entrelaçadas nos cabelos.
“Parecem mesmo uns anjinhos” – murmuravam pais e avós enlevados. Outras ainda, iam vestidas com o traje de Nossa Senhora de Fátima, de Nossa Senhora das Dores, S. Francisco, S. Pedro, ou Santa Teresinha do Menino Jesus, que representavam os cinco andores que todos os anos saíam na procissão, acompanhados pela banda dos Bombeiros.

27.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE IX


Nessa noite, pegou no último livro de Tomás Reis, "Sonho ao luar," e releu algumas páginas.
Estava quase convencida que tinha descoberto o pseudónimo de Hélder Figueiredo.
Pesquisou o autor, na Internet, mas a única coisa que encontrou, foi o nome dos vários livros, publicados e o nome da editora. Nem uma fotografia, nem a idade, nada que o identificasse. Era muito estranho.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Tomou banho, vestiu -se e foi para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Preocupou-se por não encontrar a avó, que sempre se levantava cedo, e foi ao quarto, onde também a não encontrou. Começava a ficar assustada quando a porta se abriu e a avó entrou com o missal na mão. Tinha ido à missa das sete. Era o dia do aniversário da morte do marido.

Isabel, acabou de fazer as torradas, aqueceu o leite para a avó, e fez um sumo de laranja para ela.
Acabada a refeição deu um beijo na idosa, e saiu apressada, pois faltavam apenas trinta minutos para as nove horas.
Encontrou Hélder com outro homem que lhe apresentou como sendo o seu advogado. Ele estendeu-lhe o contrato que ela leu e assinou. Depois despediu-se e partiu.

- Continuo com o trabalho de ontem? – perguntou quando ficaram sós
- Sim. Preciso desses capítulos acabados. Vou à cidade. Precisa alguma coisa?
- Há pouco papel para impressão.
- Mais alguma coisa?
- Penso que não.

Ele saiu, enquanto ela ligava o computador, a impressora e o gravador, iniciando assim o seu dia de trabalho.
Às onze horas, Antónia, apareceu com um chá e biscoitos.
Porém ela estava demasiado entusiasmada, com o livro, pelo que bebeu apenas o chá e continuou o trabalho.
Quando acabou de imprimir a última folha, desligou o gravador, organizou as folhas imprimidas, furou-as e arquivou-as numa pasta.

Olhou o relógio. Hora de almoço. Desligou o computador. Hélder, ainda não tinha voltado, não podia esperar, ele podia decidir almoçar na cidade 

                                                    

15.5.19

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE I

REEDIÇÂO


Amigos, para a semana terão uma nova história.  Até lá vou reeditar, uma pequena história (3 dias). Alguns talvez se lembrem outros por serem leitores recentes não a terão lido. É uma história diferente por se tratar de gente sénior. Espero que vos agrade
                                                           




                                                                 I


O homem estacionou o carro e entrou no centro comercial apressado. Tinha sessenta e cinco anos, era alto e delgado. Com o uma farta mas bem curta cabeleira completamente branca, e algumas rugas apresentava ainda uma certa beleza apesar da idade. Os olhos azuis, qual pedaço de céu em dia ensolarado, o nariz retilíneo e a boca bem desenhada, eram parte do seu encanto. Apesar da idade, e das rugas, era ainda um homem muito interessante.
No olhar inquieto e no movimento das mãos, notava-se que apesar da sua presença forte, estava nervoso. Vinha para um encontro, que podia mudar toda a sua vida, mas… com quase vinte e quatro horas de atraso.
Quando Abílio tinha vinte anos, namorara Ema, uma rapariga da vizinhança, cinco anos mais nova.
 Ele sabia que ela era uma menina, mas gostava do jeito da gaiata, da sua personalidade,e pensara que como tinha uma vida à sua frente, podia esperar uns anos para que a rosa que se adivinhava naquele botãozinho, crescesse e desabrochasse esplendorosa.
Porém o pai da jovem não esteve pelos ajustes, proibiu o namoro, e ameaçou que o denunciaria às autoridades como pedófilo, se voltasse a vê-lo com a filha. Por essa altura Abílio foi para a tropa, e alguns meses mais tarde partiu no paquete Vera Cruz para uma comissão no norte de Moçambique.
Abílio não esquecia a sua pequena Ema, e tinha esperança de quando acabasse a comissão e regressasse a Portugal, o pai dela tivesse mudado de ideia, e não pusesse obstáculos ao seu namoro com a filha.
Isso mesmo escreveu numa carta amorosa, em que lhe falava das saudades que tinha dela, e lhe pedia uma fotografia para o acompanhar naquele tempo de provação.
A carta veio devolvida pouco tempo depois, como vieram as restantes que escreveu durante seis meses, até se convencer que era tempo perdido. 
Então um dia numa revista de espetáculos, viu umas páginas em que vários soldados pediam madrinhas de guerra, e resolveu escrever para a revista com o mesmo pedido. Aguardou impaciente, com um certo receio de não receber nenhuma carta, mas recebeu muitas.
 Ou era chique, ou moda, as moçoilas terem um afilhado de guerra. De todas as cartas, ele escolheu a de Fernanda, uma jovem de Santar, uma vila beirã de que nunca tinha ouvido falar até à data, mas cuja carta lhe pareceu a mais atilada de todas. 
De regresso à Pátria, ansioso por ver a sua amada Ema, sofreu o desgosto de saber que se tinham mudado para parte incerta, logo após a sua partida para África. Guardou no coração, todos os seus sonhos do futuro, e a recordação de um amor que nada mais lhe dera do que um terno e ingénuo beijo, e decidiu levar a vida em frente.


continua



15.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXV



Deixou-se cair na cadeira, passando a mão pela testa. A conversa com a irmã, deixara-o nervoso. É claro que ele já tinha reparado na mulher. Nem podia ser de outra maneira se viviam na mesma casa há tantos meses. Para ser sincero, reparara bem demais, para a sua estabilidade emocional.
Pegou no telefone interno.
- Dona Luísa, a partir deste momento não estou para ninguém. E não me passe chamadas. Entendido?
Desligou. Pegou na moldura. Olhou-a relembrando o dia em que a tirou. Tinha chegado a casa e encontrara Francisca na sala a brincar com as crianças. A cena parecera-lhe tão naturalmente íntima, que sem eles perceberem registou o momento no telemóvel.
Depois imprimira-a e colocara-a ali. A fotografia de Olga repousava no fundo de uma gaveta da secretária. O facto da
 irmã, ser amiga de Francisca, e encontrá-la numa época em que ele estava desesperado, foi uma dádiva do destino, talvez arrependido de ter deixado, duas crianças de tão tenra idade sem mãe.
Era admirável, o modo como ela cuidava da casa, como cuidava das crianças. E era tão bonita, que aos poucos a imagem de Olga se foi desvanecendo na sua mente enquanto Francisca se ia instalando no seu coração.
Há já algum tempo que se dera conta disso. Cada dia lhe era mais difícil, ter uma atitude natural junto dela, quando o que realmente desejava era apertá-la nos braços e amá-la até a fazer desfalecer de paixão.
Abriu a gaveta e tirou a cópia do contrato assinado antes do casamento.
A quinta cláusula, dizia expressamente, que nenhum dos contratantes podia molestar o outro com qualquer atitude de cariz amoroso ou sexual, sob pena de o molestado ter direito a rescindir o contrato e a seguir a sua vida liberto de todas as obrigações com o outro.
Que raio de coisa havia ele de ter inventado? Mergulhado na dor da perda da mulher, convencera-se que nunca a esqueceria. Que a sua capacidade de amar morrera com ela.
E, desesperado para resolver a situação, em que se encontrava, temendo que os sogros conseguissem levar-lhe as filhas, parecera-lhe que aquela cláusula, era um incentivo para que Francisca se sentisse mais segura para aceitar o contrato que ele lhe propunha. 
Como pudera ser tão estúpido? E agora? Agora estava manietado de pés e mãos. Não podia sequer imaginar que Francisca pudesse abandonar a casa, se ele se atrevesse a expressar o que lhe ia na alma. O que ia ser da sua vida? E das filhas? Como podiam viver sem ela? 
Voltou a guardar o malfadado contrato na gaveta, fechando-a à chave.

reedição





11.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVII

Não abriu a porta. Bateu com os nós dos dedos.
-Entre
Entrou e fechou a porta atrás de si, ficando na expectativa.
Afonso deu a volta à secretária e dirigiu-se para ela.
-Senta-te. – Disse indicando-lhe o sofá. Esperou que ela se sentasse e fez o mesmo. Continuou.
-Deves estar cansada, não é fácil cuidar de quatro crianças tão pequenas. Podias ter aceitado a ajuda da minha irmã.
-A Graça vai embora depois de amanhã. Tenho que me habituar. E depois tenho a ajuda de Simão, – respondeu.
-Reparei que ele não é como o irmão. Parece triste.
-Sempre foi uma criança mais comedida nos sentimentos. E soube há poucos dias, que o pai morreu. Tinha-lhes dito que andava em viagem, mas ele ouviu uma conversa da avó com uma vizinha e questionou-me.  Tive que lhe contar a verdade. É muito responsável e acredita que tem de cuidar de mim e do irmão.
- E eu? Sou um intruso que odeia?
-De modo algum. Mas não esperes que seja tão espontâneo como o irmão. Ele é cauteloso. Tem de sentir que o chão onde põe os pés, é firme. Mas se percebe que assim é e se entrega, é um menino amoroso.
- Bom, sendo assim espero ganhar a sua confiança em breve. A Ana e a Marta, aceitaram-te como se estivesses com elas desde que nasceram.
- É natural, eram tão pequenas quando a mãe morreu que nem devem recordar-se dela. O mesmo acontece com João que só conheceu o pai por fotografia. O Simão é mais velho,  lembra-se, amava o pai, e tinha por ele uma grande admiração.  
Falavam nas crianças, chamando-as pelos nomes. Nem um nem outro se atreviam a dizer “nossos filhos” o que pressupunha uma intimidade que não havia entre eles, mas também não diziam, os teus filhos, os meus filhos, para que o outro não pensasse que não cumpriam a sua parte no acordo. Francisca quebrou o silêncio que se instalara.
- A Graça disse que me querias falar. Passa-se alguma coisa?
- Amanhã, é o dia dos meus ex-sogros virem passar o dia com as netas.
Propositadamente não lhes falei de ti nem das minhas intenções de voltar a casar. 


reedição






26.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE V




-Não seria melhor deitar o bebé um pouco no sofá? – Perguntou assim que a secretária saiu. - Deve estar cansada, e além disso pode ser perigoso, que beba o chá com ele ao colo. Ajudou-a a levantar-se e ficou a observar o cuidado com que deitava o bebé no sofá. Quando se voltou e encaminhou para a mesa, não pode deixar de reparar que apesar de não ser uma mulher alta, tinha um corpo escultural.
- Açúcar? - Perguntou.
Ela negou com a cabeça. Não sabia o que fazer ou dizer, sentia-se pouco à vontade na presença daquele homem poderoso, e desconcertante, que ainda há poucos minutos parecia disposto a maltratá-la, e agora se mostrava afável. Pegou na chávena que lhe estendia e levou-a à boca, pensando quão injusta fora a vida para a sua irmã, para ela, e para o menino que naquele momento dormia de novo.
Ele estendeu-lhe a mão dizendo:
- Ainda não me disse o seu nome. O meu já sabe, sou Pedro Mesquita, dono desta empresa.
- Joana Teixeira, - respondeu retribuindo o cumprimento.
- Agora que já nos apresentámos, gostaria de saber. Conheceu o pai do bebé? Se foi algum dos meus empregados talvez eu possa ajudar.
-Claro, - ela tirou da mala o telemóvel, procurou uma fotografia, e estendeu-lhe o aparelho dizendo. – Aqui está. Esta foto, foi tirada dois dias antes do  seu desaparecimento.
Ele pegou no telemóvel e sentiu que os seus piores receios se confirmavam. Desde menino, o primo sempre tivera o costume de se desculpar com ele, quando fazia qualquer asneira. Mas manter o hábito já adulto, e chegar ao ponto de engravidar uma jovem enganando-a quanto à sua identidade era demais.
- Este homem trabalhou aqui sim. Mas o seu nome era Paulo Amado e não Pedro Mesquita. Morreu num acidente há seis meses. Lamento,- disse estendendo-lhe o aparelho.
- Meu Deus! Então o seu abandono não foi propositado, como nós pensávamos. Pobre criança que não chegou a conhecer pai nem mãe.
Pedro não teve coragem para lhe dizer que o primo era um cafajeste, que nunca iria assumir o filho, porque se as suas intenções fossem nobres, não teria trocado o nome. Afinal o primo estava morto, não valia a pena manchar mais a sua memória. Olhou o relógio. Dezoito e quarenta e cinco. O dia estava a acabar, não tinha nada pendente, para acabar nesse dia. Tomou uma decisão.
- Veio de carro?- Perguntou
- Vim de metro.
- Pegue o bebé, eu levo isto, - disse agarrando a bolsa, onde ela carregaria decerto as coisas do menino. Venha, levo-a a casa.
-De modo algum. Já perdeu imenso tempo comigo.
- Não discuta comigo. Afinal a criança é filha de um empregado meu. De certa forma sinto-me responsável. E a senhora deve estar muito cansada.
Esperou que ela acomodasse o bebé numa espécie de bolsa, no colo, e depois apontou-lhe a porta, e seguiu-a. Ao passar pelo gabinete onde a sua secretária desligava o computador, e se preparava para sair despediu-se com um simples até amanhã, e seguiu para o elevador atrás de jovem


3.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XII






Desceu às oito em ponto. Envergava um vestido azul escuro, de corpo bordado, e ampla saia rodada. O comprimento ligeiramente acima dos joelhos, dava destaque às compridas e bem torneadas pernas, que os sapatos de salto alto, tornavam mais elegantes. Sobre os ombros uma jaqueta curta em tom pérola. Prendera o cabelo num coque, o que deixava a descoberto a linha longa e fina do seu gracioso pescoço. O belo rosto apresentava uma maquilhagem muito ligeira. Era uma mulher muito bonita e tinha consciência disso.
Salvador que se encontrava no passeio junto ao carro, aproximou-se de mão estendida.
-Boa noite. Está linda!
- Obrigada. Não tinha a certeza se já tinha chegado. Porque não tocou?
- Porque não me disse, qual era o seu apartamento.
- Que distração a minha! Segundo direito.
- Não esquecerei. Vamos?
Colocou-lhe a mão no ombro e encaminharam-se para o carro.
Salvador, abriu-lhe a porta, esperou que se acomodasse, e só depois a fechou, deu a volta ao carro e sentou-se ao volante.
Arrancou suavemente e durante um longo minuto manteve-se em silêncio, apenas observando a sua companheira, pelo canto do olho. Quanto mais a observava, mais se convencia que aquela jovem e a sua cunhada, estavam de algum modo ligadas. Não podia ser só coincidência. As duas juntas e vestidas de igual, nem a mãe seria capaz de as distinguir.
- Em que pensa? Não me diga que continuo parecida com a sua cunhada.
-Como duas gotas de água.
- Que pena não ter uma fotografia dela. Despertou-me a curiosidade.                
- Prometo que em breve lhe trago uma fotografia de Ana Clara.
Salvador, dirigiu-se para Belém. Considerava a zona, uma das mais bonitas da cidade, com o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, e todo o enorme jardim que separa os dois monumentos. Uma zona ideal para caminhar um pouco depois do bom jantar que os esperava no "Ânfora", onde tinha reservado mesa.
 Estacionou o carro e apressou-se a rodeá-lo para lhe abrir a porta, mas Anete simplesmente abriu a porta e saiu, antes que ele tivesse tempo de a ajudar.
Estava uma noite linda, embora um pouco fria, pois o outono já se fazia sentir. Anete aconchegou a jaqueta ao corpo e poisou a sua mão no braço que Salvador lhe oferecia, encaminhando-se ambos para o restaurante.




Atenção
Têm-me pedido capítulos mais longos. Percebo a vossa curiosidade, mas capítulos longos cansam, e eu tenho estado a publicar dois por dia, o que acaba sendo  como um grande.  

24.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE IX


Nessa noite, pegou no último livro de Tomás Reis, "Sonho ao luar," e releu algumas páginas.
Estava quase convencida que tinha descoberto o pseudónimo de Hélder Figueiredo.
Pesquisou o autor, na Internet, mas a única coisa que encontrou, foi o nome dos vários livros, publicados e o nome da editora. Nem uma fotografia, nem a idade, nada que o identificasse. Era muito estranho.
Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Tomou banho, vestiu -se e foi para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Preocupou-se por não encontrar a avó, que sempre se levantava cedo, e foi ao quarto, onde também a não encontrou. Começava a ficar assustada quando a porta se abriu e a avó entrou com o missal na mão. Tinha ido à missa das sete. Era o dia do aniversário da morte do marido.
Isabel, acabou de fazer as torradas, aqueceu o leite para a avó, e fez um sumo de laranja para ela.
Acabada a refeição deu um beijo na idosa, e saiu apressada, pois faltavam apenas trinta minutos para as nove horas.

14.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXV



Deixou-se cair na cadeira, passando a mão pela testa. A conversa com a irmã, deixara-o nervoso. É claro que ele já tinha reparado na mulher. Nem podia ser de outra maneira se viviam na mesma casa há tantos meses. Para ser sincero, reparara bem demais, para a sua estabilidade emocional.
Pegou no telefone interno.
- Dona Luísa, a partir deste momento não estou para ninguém. E não me passe chamadas. Entendido?
Desligou. Pegou na moldura. Olhou-a relembrando o dia em que a tirou. Tinha chegado a casa e encontrara Francisca na sala a brincar com as crianças. A cena parecera-lhe tão naturalmente íntima, que sem eles perceberem registou o momento no telemóvel.
Depois imprimira-a e colocara-a ali. A fotografia de Olga repousava no fundo de uma gaveta da secretária. O facto da
 irmã, ser amiga de Francisca, e encontrá-la numa época em que ele estava desesperado, foi uma dádiva do destino, talvez arrependido de ter deixado, duas crianças de tão tenra idade sem mãe.
Era admirável, o modo como ela cuidava da casa, como cuidava das crianças. E era tão bonita, que aos poucos a imagem de Olga se foi desvanecendo na sua mente enquanto Francisca se ia instalando no seu coração.
Há já algum tempo que se dera conta disso. Cada dia lhe era mais difícil, ter uma atitude natural junto dela, quando o que realmente desejava era apertá-la nos braços e amá-la até a fazer desfalecer de paixão.
Abriu a gaveta e tirou a cópia do contrato assinado antes do casamento.
A quinta cláusula, dizia expressamente, que nenhum dos contratantes podia molestar o outro com qualquer atitude de cariz amoroso ou sexual, sob pena de o molestado ter direito a rescindir o contrato e a seguir a sua vida liberto de todas as obrigações com o outro.
Que raio de clausula havia ele de ter inventado? Mergulhado na dor da perda da mulher, convencera-se que nunca a esqueceria. Que a sua capacidade de amar morrera com ela.
E, desesperado para resolver a situação, em que se encontrava, temendo que os sogros conseguissem levar-lhe as filhas, parecera-lhe que aquela clausula, era um incentivo para que Francisca se sentisse segura e aceitasse o contrato que ele lhe propunha. 
Como pudera ser tão estúpido? E agora? Agora estava manietado de pés e mãos por aquela maldita cláusula. Não podia sequer imaginar que Francisca pudesse abandonar a casa, se ele se atrevesse a expressar o que lhe ia na alma. O que ia ser da sua vida? E das filhas? Como podiam viver sem ela? 
Voltou a guardar o malfadado contrato na gaveta, fechando-a à chave.