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31.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XII


Na hora do almoço, não se falava de outra coisa no refeitório, que não fosse o novo dono, e a recente reunião.
As duas amigas, que sempre partilhavam a mesma mesa, não fugiam à regra.
- Que te pareceu Tê?
- Implacável.
- Sabes que tive a mesma sensação? Um homem disposto a tirar do seu caminho, tudo o que possa impedi-lo de chegar aonde quer. Desculpa, - disse ao ver as lágrimas assomarem ao rosto da amiga. – Não queria magoar-te.
- Não tens culpa. É verdade. Só que às vezes as verdades magoam. Apesar de tudo, acredito que se alguém pode salvar a empresa, esse alguém é ele.
- Ontem à noite, fui ao Google pesquisá-lo. Já o fizeste Tê?
- Não. Não quero saber nada dele, a não ser que de momento é o meu patrão. Já te disse que vou começar a enviar currículos para outras empresas.
- Pois digo-te que é impressionante o que descobri. Tem imensos e diversificados negócios, a maior parte na Inglaterra.  É muito rico. E deve ser solteiro. Não li nada sobre casamento.
- Não me interessa, Luísa.
- Não mesmo, amiga? Então porque pensas ir-te embora? Se fosse como dizes, tinhas necessidade de fugir dele? Esqueces que te conheci antes e depois que te deixou sozinha, que acompanhei toda a tua gravidez, as tuas noites de choro? Pode um amor tão forte, morrer assim sem deixar uma réstia de esperança, uma pequena fagulha pronta a reacender-se?
- Pode. Não há amor que sobreviva a uma grande traição. E o seu abandono sem uma explicação, ao fim de dois anos de entrega total da minha parte, foi uma traição sem tamanho. Temo que ele descubra o Martim. E que mo queira tirar. Como viste à pouco, é implacável quando quer alguma coisa.
- Não me convences Tê. Já te olhaste ao espelho? És uma mulher muito bonita. Tens tido nestes anos vários pretendentes. E mantens – te só. Não sais com um homem há séculos, se é que saíste com algum depois do Martim nascer. E se ele é o pai do teu filho, diz-me tu, se houve mais algum homem na tua vida.
- Não quero dar um padrasto ao meu filho. Estamos muito bem os dois sozinhos.
-E à noite na cama? Não sentes falta de um homem? O corpo não te anseia por nada?- perguntou Luísa quase num murmúrio.
- Sabes bem que há outras coisas, capazes de aliviar a tensão do corpo, sem recorrer ao homem. - Respondeu no mesmo tom
Tinham acabado a refeição, iam voltar aos seus postos de trabalho.
- Para o corpo sim, e para o coração? – Perguntou Luísa pondo-se de pé.
Teresa não respondeu.


24.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE VI




- Vens almoçar, Teresa?- perguntou Luísa espreitando à porta do seu gabinete.
- Se esperares dois minutos para acabar isto, vou. Não queres entrar?
- Não vale a pena. Vou indo para o refeitório. Espero lá por ti. – Disse fechando a porta.
Teresa acabou de imprimir o documento, procurou uma pasta e arquivou-o.  Pôs-se de pé. Era uma mulher muito bonita. Alta, esguia, sem ser demasiado magra, morena, de cabelo castanho doirado, que nesse momento tinha preso no alto da cabeça, num elegante carrapito. O rosto oval, os olhos amendoados, a boca pequena e carnuda, o ar sereno que ostentava, tudo contribuía para fazer dela uma mulher muito bonita. Vestia um camiseiro vermelho, e uma saia justa preta, que lhe moldava o corpo até aos joelhos, deixando à mostra um perfeito par de pernas. Completava o conjunto com uns sapatos pretos de salto alto que estilizavam ainda mais a sua figura.
Alisou a saia, e saiu do gabinete em direção ao refeitório, onde a amiga já a esperava.
Esta era também uma mulher bonita, embora junto de Teresa, a sua beleza ficasse um tanto ofuscada. Porém Luísa não se importava. Era a sua melhor amiga, a madrinha do seu filho, e sua confidente.
Eram amigas de longa data. Teresa tinha partilhado um quarto com a amiga, muitos anos atrás, quando estava na Faculdade, e Luísa já trabalhava na "Tudilar". Depois Teresa apaixonou-se e foi viver com o namorado, Luísa casou, pouco depois, mas sempre continuaram amigas. Anos mais tarde, teve a sorte de se empregar na mesma empresa, embora tivessem posições diferentes. Luísa era a secretária do chefe, Teresa a Gestora de Recursos Humanos.
- Sabes que vamos reunir esta tarde com o novo dono? – Perguntou Luísa, enquanto cortava uma porção do seu bife.
Teresa respondeu com outra pergunta:
-Então sempre é verdade que a empresa vai  ser vendida?
- Não tem outra hipótese. É vender ou declarar falência.
- E tu sabes quem são os novos donos?
-Não. Até agora, só conheço o advogado do homem.  Sei que se chama Mário qualquer coisa, que não lembro. Eu chamo-lhe o senhor Mistério.
- Porquê senhor Mistério?
- Porque nem o chefe parece saber muito sobre ele. Dizem que vive a maior parte do tempo no estrangeiro onde tem diversos negócios, embora o advogado diga que ele tem um escritório em Lisboa, mas parece que pouco pára por cá. Deve ser um velho excêntrico, que não sabe o que fazer ao dinheiro.
- Sabes se vai remodelar alguma coisa, prescindir de pessoal ou isso?
- Não. O advogado não deixou transparecer nada sobre as intenções do seu cliente. Deus queira que não seja daqueles que despedem toda a gente e metem pessoal novo.
-A que horas vêm?- Perguntou Teresa
Às dezassete. O advogado diz que ele quer conhecer todos os empregados ainda hoje, - retorquiu Luísa.
Tinham acabado a refeição e dirigiam-se para os seus gabinetes.



20.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE VI



Deixou um quarto para a mãe e dividiu o outro com o irmão que traumatizado com a morte do seu progenitor e o alheamento da mãe, não fazia outra coisa que não fosse chorar. Essa fora a principal razão que a levara a inscrever o irmão nos escuteiros da paróquia de São Pedro de Alcântara. Após a mudança e despedida a última empregada, Clara pensou que precisava de arranjar rapidamente trabalho, pois o dinheiro que sobrara, depois de pagar aos credores, escoava-se rapidamente nas necessidades básicas do dia-a-dia. Porém como fazê-lo se tinha de cuidar da casa, da mãe e do irmão, na época apenas com apenas com sete anos? Ainda restavam as jóias da mãe, mas de modo algum queria desfazer-se delas. Cada uma representava para a progenitora, um momento especial, seria decerto um choque fatal desfazer-se delas.
Infelizmente seis meses depois de terem mudado para a nova casa, a mãe morreu docemente enquanto dormia. Clara havia completado dezoito anos dois dias antes. Foi como se a mãe tivesse esperado que ela atingisse a maioridade para se reunir ao seu amado marido. Assim ela podia assumir a educação do irmão. Se fosse menor, a Segurança Social tê-los-ia separado, e provavelmente acabariam os dois nalguma instituição.
Com o pequeno Tiago na escola, podia enfim arranjar um trabalho, que lhes permitisse viver. E foi o que fez. Arranjou trabalho num café perto de casa. O salário não era muito grande, mas com o abono de família, e as gratificações dos clientes, dava para irem vivendo. Com a vida mais estabilizada, propôs-se terminar o décimo segundo ano à noite, coisa que levou a cabo com a ajuda das vizinhas que lhe tomavam conta do irmão, nas horas em que ela estava na escola.
Mais tarde, fora a uma entrevista e conseguira entrar como escrituraria numa empresa e o salário aumentou substancialmente. E assim foram vivendo os dois, os anos passando, Tiago crescia, sem lhe dar problemas. Tinha dezasseis anos, e ia iniciar o penúltimo ano do Secundário. Quando terminasse essa fase,  teria que entrar no mercado de trabalho, já que de modo algum, Clara conseguiria pagar-lhe a faculdade, a menos que vendesse as poucas jóias da mãe, que ainda lhe restavam, coisa que ela não desejava fazer.Eram a única recordação que tinham dos pais, e uma defesa para a eventualidade de uma doença. E foi então que no refeitório da empresa uma colega lhe chamou  a atenção para um anúncio, no jornal, que na altura considerou absurdo.

“Cavalheiro 35 anos, deseja conhecer senhora dos 30 aos 35 anos, que goste de crianças, meiga e competente, para possibilidade de desempenhar o papel de mãe delas. Assunto sério. Resposta ao apartado 1100 Rossio”

Porém o resto do dia, o anúncio não lhe saiu do pensamento. Ela gostava de crianças. Se o homem pagasse bem, e tendo em atenção que provavelmente iria viver lá para casa, talvez conseguisse pagar a Universidade ao irmão.
Assim, depois de uma noite em que quase não dormiu, decidiu responder ao anúncio. Nunca lhe passou pela cabeça que se tratasse de um casamento, pensou sim que se trataria de um emprego como ama.
Escreveu a seguinte missiva no trabalho durante a hora de almoço.

Exmo. Senhor.
Talvez não devesse perder tempo a responder ao seu anúncio, já que refere a idade entre 30 e 35 anos, e eu tenho apenas 26. Mas como gosto imenso de crianças, e tenho experiência no assunto já que há oito anos, venho criando sozinha, um irmão que tem atualmente dezasseis anos, penso que talvez a questão da idade não tenha uma importância muito grande, e eu possa ser escolhida para cuidar das suas crianças.
Estou na atualidade empregada na firma, Ramos & Ramos Lda em Alcântara, mas não teria problema em pedir a demissão.
Sem outro assunto, termino com os melhores cumprimentos.
Atenciosamente
Clara Mendes de Sá.

P.S. Não envio referências, pois acredito que o senhor não entregará os seus filhos ao cuidado de ninguém, sem antes fazer uma aturada investigação sobre essa pessoa. Pelo menos, era o que eu faria, se fossem meus filhos.