Visivelmente irritado, João Teixeira, desligou a chamada. Levantou-se e foi até à janela, de onde observou a rua lá em baixo, onde as pessoas se cruzavam em passo acelerado, como formigas em carreiros diferentes.
Depois de uns momentos, voltou para a secretária. Alto, bem constituído, vestia um fato azul, cujo casaco repousava nas costas da cadeira, e camisa branca que acentuava a largura dos seus ombros. Sentou-se e passou os dedos pelos cabelos castanho-escuro, já salpicados por alguns fios brancos, afastando da testa uma madeixa rebelde. Parecia preocupado e irritado.
Carregou no botão que o ligava ao gabinete da sua assistente.
Depois de uns momentos, voltou para a secretária. Alto, bem constituído, vestia um fato azul, cujo casaco repousava nas costas da cadeira, e camisa branca que acentuava a largura dos seus ombros. Sentou-se e passou os dedos pelos cabelos castanho-escuro, já salpicados por alguns fios brancos, afastando da testa uma madeixa rebelde. Parecia preocupado e irritado.
Carregou no botão que o ligava ao gabinete da sua assistente.
Quase no mesmo instante, ouviu-se uma batida na porta e uma
mulher dos seus quarenta e cinco anos, de cabelo curto e fato creme, entrou no
gabinete com um bloco.
- Ainda não acabei o relatório que me pediste, - disse.
-Não foi por isso que te chamei. Liga para o departamento
jurídico, e pergunta se o Afonso Cardoso está, e se estiver diz-lhe que estou à
sua espera no meu gabinete.
- E se não estiver, pode ser outro advogado?
-Não.
-Pareces irritado. Aconteceu alguma coisa?
- Desculpa, agora não dá para falar nisso. Mais tarde te
conto!
- Muito bem, vou ver se encontro o advogado. Não era hoje
que ele tinha uma audiência, por causa dos tipos que fizeram aquelas cópias
piratas?
- Tens razão. Então é provável que ainda esteja no
tribunal. Envia-lhe uma mensagem para o telemóvel, caso ainda não tenha
regressado.
- Precisas de mais alguma coisa?
- De momento não, obrigado.
Olga era a sua assistente. Mas era muito mais do que uma
secretária, era o seu braço direito como soe dizer-se. Conheceu-a quando tinha dezoito
anos e a cabeça tão cheia de projetos, quanto de sonhos. Era sua vizinha e
contrariamente ao seu pai, que levava a vida a insistir com ele, para ir
trabalhar na sua oficina de mecânica, e a queixar-se do “madraço” do filho, que
estava sempre agarrado ao computador e não queria fazer nada, Olga
incentivava-o a aperfeiçoar a sua ideia, e ajudou-o a registar o seu jogo e a comercializá-lo através de uma reputada
distribuidora. João tinha fé no jogo,
mas nem em sonhos, pensou que o seu sucesso fosse tão retumbante, nem que lhe
desse tanto dinheiro.
Assim que começou com a empresa, na altura num barracão
alugado, convidou Olga para sua secretária. Nessa época, ela estava a trabalhar
numa empresa de venda a retalho, mas aceitou imediatamente a sua proposta. Isso, tinha sido há quase dezasseis anos, e desde essa época muita coisa tinha
acontecido na sua vida.
Tinha criado um império,
geria um negócio que movimentava muitos milhões, e empregava quase meio
milhar de trabalhadores entre engenheiros eletrotécnicos e de computadores,
engenheiros de controle, analistas de sistema, especialistas em jogos digitais
e toda uma vasta gama de outros técnicos, que produziam não só peças e
programas, como computadores e telemóveis, numa empresa que era, no seu género, a
maior da Península.
Ouviu-se um toque na
porta e de seguida Olga entrou.
- Aqui tens o relatório que pediste. Telefonou a Rita
Sampaio, da Academia Moderna, diz que estão com problemas no programa que lhe
instalámos. Não conseguem entrar no stock das sucursais de Almada e
Setúbal. Mandei o Aníbal Guerreiro para
lá. E já falei com o Afonso. A audiência terminou há momentos, ele está a caminho.
-Fá-lo entrar assim que chegue.
