Ana nem soube bem como chegou a casa. Sentia o corpo tremente como se estivesse cheia de febre. Como era possível que a sua vida se tivesse desmoronado assim em tão pouco tempo. Três meses antes ainda ela era uma rapariga alegre que saía quase todas as noites com um belo homem, que dançava, ria e sonhava com um futuro risonho, mais ou menos próximo. Depois, foi a desilusão, o perceber que Paulo nunca seria o homem da sua vida. Uma nova desilusão a juntar às duas anteriores. E agora, a sua vida tinha-se transformado num caos, um doloroso emaranhado de sentimentos que ela não sabia destrinçar.
Amara o irmão, como não tinha amado mais ninguém na vida.
Ele era o seu ídolo, o seu anjo da guarda. Agora o irmão tinha morrido. Sim porque
depois do amor que vira nos seus olhos, e sobretudo depois daquele beijo
carregado de paixão, era uma imoralidade continuar a pensar nele como irmão.
Mas podia ela matar o irmão por uma ilusão de amor, que
não sabia se não passaria disso mesmo? A verdade é que o beijo, despertara-lhe
sensações até aí desconhecidas. Mas isso seria amor? O que ia ser da sua vida
daí para a frente? Saber que Simão se mantinha longe do país e da família por
culpa dela, fazia-a sentir-se culpada, mas ao mesmo tempo, dava-lhe uma
sensação de plenitude, saber que alguém a amava até aquele ponto.
Mas se depois de morto, o irmão, ela não fosse capaz de
amar Simão como uma mulher ama o homem da sua vida?
Como poderiam conviver em família? Fosse como fosse
sentia-se como um algoz, capaz de acabar com a felicidade de todos.
A meio da tarde do dia seguinte, ainda não tinha saído.
Tinha os olhos vermelhos de chorar, estava mal-encarada, não tinha dormido nem
comido nada desde o dia anterior.
Mas tinha tomado uma decisão. Tomou banho, carregou um
pouco a maquilhagem, para disfarçar as olheiras, e bebeu um copo de leite frio.
Pegou nas chaves do carro, na mala e saiu. Ia procurar refúgio junto da mãe.
Francisca sempre a compreendera.
