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30.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXV

 


O coração de Helena batia acelerado, as lágrimas corriam silenciosas pelo rosto pálido.

Incapaz de falar, as palavras prisioneiras do nó que se lhe alojara na garganta, ela apenas pôde fazer um gesto afirmativo com a cabeça.

- Meu Deus Helena. Tenho uma filha quase adolescente e não sei nada dela, - disse com a voz enrouquecida, escondendo as mãos entre o rosto.

Novamente o silêncio pairou entre eles. Helena sentia-se arrasada com o sofrimento que Gonçalo demonstrava. E não encontrava palavras que pudessem amenizar a sua dor. Um pouco depois, ele levantou a cabeça e os seus olhos procuraram os dela.

- O que ela sabe do pai? Nunca perguntou por ele? Que lhe disse?

- Quando era mais novinha, ela queria saber porque as outras meninas tinham pai, e ela não. Mas ela é uma criança muito inteligente e um pouco precoce, de modo que penso que percebeu a situação, todavia então trocou a pergunta e começou a pedir que lhe dissesse quem era o pai. Queria a todo o custo saber o nome do homem que lhe deu o ser. Diz que não se sentirá inteira sem saber isso. Então prometi-lhe que lhe diria o seu nome quando fizesse treze anos. E está quase a fazê-los.

- Por favor Helena, se estivemos apaixonados ao ponto de ter uma filha não se justifica esse tratamento. Trata-me pelo nome e por tu, está bem?

-Sim.

-Não me sinto capaz de esperar quase um mês para poder ver e abraçar a minha filha. Podemos dizer-lhe já? Quero contar à minha irmã e aos meus pais. Meu Deus eles vão ficar loucos de ansiedade para conhecer-vos. Por isso gostaria que fossem comigo.

. Prometo que contarei a verdade à Matilde em breve, mas não hoje. É uma história muito intensa para contar a uma criança, tenho que o fazer com cuidado. Compreendes? Aliás esta semana estamos na aldeia, em casa de meus pais, onde vamos passar a Páscoa. Também preciso falar com eles, contar-lhes tudo o que me disseste. Eles sofreram muito vendo-me grávida e sozinha.

 Eu liguei várias vezes para o teu telemóvel, mas estava sempre desligado. Mandei email e nunca recebi resposta. Eles e eu pensámos que me seduziste e me abandonaste. Foi um grande desgosto que lhes dei, mas apesar disso, eles sempre me apoiaram. Só com o apoio deles e  da Rita, a filha de um amigo do meu pai, que é a madrinha da Matilde, eu consegui continuar os estudos com um bebé de pouca idade.

- Deve ter sido muito duro para ti. Não posso evitar o sofrimento porque passaste, mas posso fazer o que deve ser feito. Casar contigo, dar o meu nome à nossa filha.

- Não Gonçalo. Vou contar à Matilde e aos meus pais o que se passou. Aceito que dês o teu nome à Matilde, que a apresentes à tua família. Enfim que sejas o pai que ela tanto deseja, mas não me fales em casamento. Nunca me casaria por outra razão que não o amor.

- Mas… nós não estávamos apaixonados?

-Estávamos? Lembras-te disso?

-Não. Mas foi o que me disseram. E se temos uma filha, é porque era verdade.

- Era. Estávamos. Acaso reparaste que falaste sempre no passado?


 

Hoje dia 30 irei de novo ao hospital de Santa Maria. Vamos

 ver se me tiram os últimos pontos. E se me fazem os exames

 para receitar os óculos de modo a que finalmente consiga ler e escrever como dantes. À tarde eu dou notícias. 

 

 

 

3.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE I

 




O casal desceu a rua da Gafaria, entrou na travessa da Biker, até ao cruzamento com a rua do Infante de Sagres, continuando por esta até à baixa, passando pela Praça Luís de Camões, Rua Garrett até se encontrarem finalmente na Praça Gil Eanes, onde se dirigiram ao café Oceano para tomar o pequeno almoço.

Eram jovens, e apesar de se terem conhecido há menos de um mês, pareciam tão apaixonados que qualquer pessoa pensaria estarem juntos desde a infância. Ele, era alto e magro, tão moreno que a sua pele apresentava um tom quase azeitonado, de cabelos e olhos escuros. Tinha vinte e cinco anos e estava de férias antes de entrar no último ano de medicina. Ela, de estatura mediana, tinha os olhos castanhos, e os longos cabelos cor de trigo maduro, presos numa única trança que lhe caía sobre o peito, de seios pequenos e firmes. Tinha feito dezanove anos no mês anterior, e preparava-se para entrar no ISCAL a fim de  continuar os seus estudos.

Nenhum deles morava na cidade, onde ambos se encontravam de férias. Conheceram-se quando ambos, decidiram conhecer as belas grutas da Ponta da Piedade e no cais só estava um barco disponível que ambos partilharam. Foi um passeio mágico que os deixou maravilhados. E desde aí passaram a andar sempre juntos. Amor à primeira vista, e uma paixão avassaladora como só acontece na juventude. Caminhavam de mãos dadas, parando de vez em quando para um beijo rápido.

 Gonçalo Bacelar, pertencia a uma abastada família de Braga, onde vivia com os pais e Laura a irmã mais nova. Ele e dois amigos de longa data, ambos estudantes como ele, tinham por hábito todos os alugar um apartamento para férias no Algarve. Todos os anos escolhiam uma cidade diferente e os três divertiam-se de dia na praia, de noite namoriscando nos bares, mas nunca com a mesma jovem mais do que duas noites seguidas. Nunca até agora algum deles se tinha apaixonado de modo a esquecer por completo os amigos e a diversão.

Helena Cadeira, (Lena para a família e amigos) era a segunda filha de um casal de agricultores de uma aldeia cheia de história, situada no interior da Beira Baixa, a sul da Serra da Gardunha.  Aí vivera, brincara, estudara até ao sexto ano. Depois ia todos os dias para o Fundão onde completou o Secundário. Até aos dezoito anos, tirando as viagens de estudo, o mundo dela terminava em Castelo Branco, onde fora duas ou três vezes com o pai. Sonhava em conhecer outras terras, especialmente a capital e o Algarve, mas os pais não a deixavam ir sozinha, e o irmão sete anos mais velho, que como ela sonhava com outros horizontes, terminados os estudos em Coimbra, lá se empregara como gerente, na loja do pai da companheira, antiga colega de estudos, por quem se apaixonou e com quem passou a viver, uma relação feliz, que já fora contemplada com o nascimento de um filho.

Este era, pois, o primeiro ano em que a jovem estava de férias longe dos olhares paternos, embora estivesse no mesmo apartamento com o irmão, e a família que ele formara.

Enquanto comiam, os jovens faziam juras de amor eterno e projetos para o futuro.

Eram os últimos momentos que estavam juntos. Uma hora mais tarde, Gonçalo partiria, acabadas que eram as suas férias. Lena ainda ficaria mais uns dias.

-Juras que não te vais esquecer de mim, - perguntou ela abraçando-o, antes que entrasse no carro, onde os amigos já o esperavam.

-Ainda que quisesse, e não é o caso, não o conseguiria. Levo-te aqui, - disse levantando a mão e apoiando-a sobre o coração.

 -Telefona-me quando chegares, - pediu ela quando ele já punha o carro em andamento.

-Assim farei, - respondeu  agitando a mão numa despedida, enquanto os amigos riam trocistas.



Pela segunda vez em anos, vou começar a publicar uma história sem ainda a ter acabado. Espero não ter de a parar, já que o tempo que posso estar aqui é cada vez menor, porque a Margarida só está sossegada a dormir e cada vez dorme menos. E os olhos cada vez me dão mais problemas.                                                                                                                          

18.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXVI



Surpreendes-me. Pensava que o sonho de todas as mulheres, fosse um lindo casamento, uma entrada na igreja, com um longo e belo vestido branco, e uma lua-de-mel, num lugar paradisíaco.
-Claro que é, quando os dois estão apaixonados e se trata de um casamento de amor. Não é o nosso caso. Outra coisa, pagarás as despesas da Matilde e da casa. Nada mais que isso, as minhas despesas pessoais serão minhas, pagá-las-ei com o meu ordenado, não quero um cêntimo teu.
- Não aceitarei uma condição tão absurda. Uma vez casada, as tuas contas serão minhas.
-Então desiste do casamento e procura outra solução.
- Dá-me uma razão lógica para tal atitude, - disse ele irritado.- Não me digas que és uma dessas feministas com a cabeça cheia de ideias idiotas.
-Não se trata de ser ou não feminista. Trata-se de que não quero sentir-me, como se me vendesse. Posso aceitar o casamento como sendo o melhor para a Matilde e por ela sacrificar-me. Mas não acredito que a perda da minha dignidade, lhe seja de algum modo benéfica. Está na tua mão aceitares ou não as condições.
Ele mordeu os lábios para conter um impropério. Não lhe agradava aquela situação, mas ainda lhe agradava menos que ela lhe lembrasse que o casamento era um sacrifício, especialmente depois da reação que aquele beijo lhe provocara. Mas que fazer? O melhor era aceitar todas as condições que ela impusesse. Depois de casados ele trataria de a fazer mudar de ideias.
-Aceito, embora me reserve o direito de tentar fazer-te mudar de ideias. Mais alguma coisa? – perguntou
- Sim. Não quero a Matilde em creches, enquanto não tiver dois anos. Deverá ficar com a Natália, a senhora que viste aqui no outro dia. É uma grande amiga, tem-me ajudado muito, e cuida da Matilde sempre que eu preciso de me ausentar, seja para trabalhar, ou para fazer compras. Gostam tanto uma da outra, que a Matilde chama-lhe  a "vó Táia". Algum problema?
- Problema nenhum. Quando podes ir comigo ao registo para dar andamento aos papéis?
- Amanhã, aviso no trabalho que preciso de sair por umas duas horas. Será tempo mais que suficiente para isso. De acordo?
- De acordo. Também quero visitar-te diariamente até ao casamento, e quero ver a menina acordada. Quero que ela se vá habituando a mim, para que não estranhe depois do casamento. Durante a semana, como estás a trabalhar, posso encomendar o jantar e jantaremos juntos. Alguma objeção?
- Nenhuma.
Ele levantou-se, dizendo:
-Então é melhor que me vá agora. Telefonas-me de manhã assim que puderes sair, e vou-te buscar. Até amanhã.
Encaminhou-se para a porta, seguido pela jovem. Aí deu-lhe um beijo rápido e saiu. Ela fechou a porta e encostou-se à mesma, com as pernas a tremer.



NOTA DA AUTORA 
O capítulo de ontem, parece ter surpreendido pela negativa. Pode ter parecido invulgar, surreal, eu mesma tive dúvidas ao escrevê-lo, não gosto muito de fugir da realidade. Porém estamos numa época em que algumas mulheres casam com homens que nunca viram, outras se mostram aos possíveis interessados como se fossem gado à espera de compra, e outras ainda vão dormir com qualquer um que acabam de conhecer. Postas as coisas neste ponto, que tem de especial que uma mulher queira saber, se não vai sentir repulsa pelo homem, com quem pode vir a passar o resto da vida, através de um beijo? 

3.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XV





Tinham-se passado os dois dias de prazo, e Pedro tinha de novo Joana na sua frente.  
- E então, - perguntou depois da saudação inicial, quando a jovem se sentou na sua frente, procurando não parecer ansioso. Qual é a tua resposta?
-Aceito, com algumas condições.
Ele não manifestou surpresa. Limitou-se a esperar.
-Mandarás redigir o tal documento, em que te comprometes a cumprir aquilo que me prometeste. A minha mãe, precisa de um tratamento urgente, por causa de uma doença grave no rim esquerdo. Esse tratamento é recente e só está disponível num hospital privado. Ela já teve cancro na mama, fez mastectomia parcial e reconstrução mamária. Está muito fragilizada, não só pela doença, como pela morte da minha irmã. A alternativa a este tal tratamento é a quimioterapia, mas o médico acha que ela está demasiado frágil para isso, além de estar com as plaquetas muito baixas em consequência da quimioterapia anterior.  Deverá iniciar o tratamento logo após o nosso casamento, que tratarás de que seja o mais depressa possível. 
-É tudo?
-Não. A minha mãe nunca consentirá neste “negócio”. Por isso temos que inventar uma história, e fazer-lhe acreditar que estamos apaixonados.  O menino será adotado pelos dois, como desejas, poderás sem dúvida dar-lhe uma educação que lhe permita ter um futuro melhor, muito mais facilmente do que eu, independentemente de fazeres ou não dele teu herdeiro. És ainda muito novo, não podes prever se no futuro, vais ou não mudar de ideias.
Que fique claro, que não quero nada além disto, e que não vou viver à tua custa.Tenho uma pequena empresa de doces e salgados para festas de aniversário ou de empresas, estou a começar, mas já tenho alguns clientes e espero vir a ter muitos mais. Por enquanto tenho trabalhado em casa, não tenho meios ainda para alugar um espaço onde possa montar a minha cozinha, por isso terei de passar várias horas lá em casa, não só para executar as encomendas, como para  criar e testar novas receitas, e acompanhar a minha mãe nesta fase critica da sua saúde. Se estiveres de acordo, podemos avançar com o negócio.
Apesar de não ter gostado do facto de ela rejeitar o seu dinheiro, Pedro não se mostrou surpreendido. Desde o primeiro momento, tinha percebido o seu amor pelos seus e a sua grande dignidade.
- Muito bem. Dispões de tempo agora, para começarmos a tratar de tudo, ou marcamos para amanhã?
- Se tu tens tempo, eu pedi a uma vizinha amiga, para ficar com a minha mãe. Ela a ajudará a cuidar do bebé quando ele acordar.
Pedro pegou no telemóvel e marcou um número.
- Ricardo, estás no escritório? Sim? Ótimo, estou a caminho com a Joana. Preciso daquele documento  de que te falei. Podemos ir aí agora para tratar disso? Obrigado, até já.
Desligou o telemóvel, guardou-o no bolso do casaco e pegando nas chaves disse:
-Vamos, Joana. O advogado espera-nos.
Saíram e seguiram para o elevador, depois do empresário ter dado instruções à sua secretária.  
Vinte minutos mais tarde entravam no escritório de Ricardo Araújo. Que já os esperava.
Pedro fez as apresentações, e depois explicou ao amigo o que desejava. 
Ricardo tomou alguns apontamentos, esclareceu alguns pontos jurídicos, pediu os documentos para o registo de identificação.
- Temos muita pressa,- disse Joana. A minha mãe precisa iniciar logo o tratamento.
-Amanhã estará pronto. Mas um casamento leva tempo a preparar.
Talvez seja melhor que a sua mãe inicie o tratamento logo que os dois assinem o documento.
- Falaremos disso, depois. A que horas tens, o documento pronto?
-Amanhã às dez podem vir assiná-lo.
Em seguida despediram-se e saíram


5.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE IV





A sua estatura, não ultrapassava o metro e sessenta, mas era bem proporcionada e o corpo apresentava umas curvas tentadoras. Era empregada de uma pastelaria perto da sua casa, onde ele entrara uma vez por acaso, a fim de tomar o pequeno-almoço antes de ir para o hospital, e de onde acabou por se tornar freguês diário por causa dos lindos olhos de Odete, e do seu jeito tímido e simpático tão diferente das mulheres com quem ele se dava ultimamente.
Encantou-se com ela, mas se por um lado compreendeu que a jovem não era mulher que se contentasse com uma simples aventura sem compromisso por outro lado assustava-o a juventude dela, que tinha exatamente menos dez anos do que ele.  Porém um dia convidou-a para uma ida ao cinema, depois para um passeio e quase sem dar por isso, estavam apaixonados.
Odete era a mais nova dos quatro filhos da família Oliveira. Os dois irmãos mais velhos, ainda solteiros, eram emigrantes em França, para onde tinham partido em busca de uma vida melhor. A sua irmã casara com um inglês, que conhecera no Algarve onde estava a trabalhar, e vivia em Leeds. O seu pai era camionista e a mãe, trabalhava numa firma de limpezas. A jovem terminara o secundário e aceitou o primeiro emprego que lhe apareceu, precisamente naquela pastelaria perto da casa do médico. Aurora, a mãe de João aprovou feliz a escolha do filho. “Odete é uma mulher a sério, filho. Uma das nossas” dissera-lhe depois de conhecer a jovem. Casaram meio ano depois. Uma cerimónia simples mas muito emotiva. E durante  mais de três anos foram muito felizes.
Odete era uma mulher maravilhosa, apaixonada, que transformara a sua vida solitária e sem graça, numa vida alegre e feliz.  De súbito, um dia, a sua mulher começou a mudar. Naquela época ele trabalhava muito. Saía do hospital às quatro horas e seguia para o seu consultório, onde atendia até às oito, nove horas. E depois ainda havia as noites de plantão no hospital. Acabava por chegar a casa, como se costuma dizer de rastos e talvez por isso inicialmente nem se tivesse dado conta da mudança subtil da mulher. Uma manhã ao chegar depois de mais uma noite de plantão, encontrou-a com sinais evidentes de ter chorado. Interrogou-a e ela disse-lhe, que eram saudades de Laura a sua irmã. Pensou que era normal e como estava demasiado cansado foi-se deitar.