Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta brinquedo.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta brinquedo.. Mostrar todas as mensagens

29.12.19

CONTOS DE NATAL - O PRESENTE DE NATAL ESPECIAL



Faz todo o bem que puderes, usando todos os meios que puderes,
de todas as formas que puderes…durante o maior tempo que puderes.
John W. Desley


Através da montra da drogaria onde ambos trabalhávamos como assistentes de gerência, conseguia ver que Lamar aguardava ansiosamente a minha chegada. Tínhamos acordado no mês de novembro anterior que ele trabalharia no dia de Natal e eu no dia de Ano Novo.
O tempo que fazia era típico de Memphis nesta altura do ano. Lamar e eu tínhamos sempre esperanças de ver um Natal branco, mas este estava a desenrolar-se exatamente como os dos últimos vinte anos: frio, enevoado, sem um único floco de neve à vista.
Quando me apressei a entrar no calor da loja, Lamar pareceu aliviado.
— O dia foi difícil? — perguntei.
Gesticulando na direção da caixa central, resmungou:
— Ontem chegámos a ter filas de quinze pessoas. Nunca tinha visto tanta gente a tentar comprar pilhas e películas fotográficas ao mesmo tempo. Suponho que é uma das alegrias de trabalhar no dia de Natal.
— O que queres que faça hoje? — perguntei.
— Acho que o movimento vai acalmar por volta das seis da tarde. A noite a seguir ao Natal é sempre muito parada. Talvez pudesses pôr em ordem toda a secção de brinquedos.
E, dito isto, inclinou-se para pegar num animal de peluche.
Aquele pequeno cão de peluche tinha-se tornado a nossa mascote. Parecia que estávamos sempre a apanhá-lo do chão. Cinco, talvez dez vezes por dia. Nunca tinha sido um brinquedo bonito e agora era-o ainda menos: o pelo longo e felpudo tinha-se tornado emaranhado e sujo, por causa da poeira do chão e da sujidade das mãos das crianças que lhe tinham pegado, enquanto as mães aviavam as receitas. O brinquedo já tinha baixado de preço muitas vezes, sem sucesso. Naquele mundo de bonecos brilhantes e mágicos, um pequeno cão de pelo sujo não era um brinquedo de eleição. No entanto, todos os miúdos de Memphis devem ter apertado aquele cachorrinho pelo menos uma vez naquele Natal.
A tarde passou-se rapidamente entre devoluções, trocas e vendas de decorações de Natal (com 50 por cento de desconto). Contudo, às seis horas, tal como Lamar tinha previsto, o negócio diminuiu e fui trabalhar para a secção dos brinquedos. O primeiro brinquedo que me veio parar à mão foi, evidentemente, aquele cãozinho peludo de orelhas cabisbaixas. Comecei por pô-lo no lixo e retirá-lo do inventário, mas mudei de ideias e coloquei-o de novo na prateleira. Por razões sentimentais, suponho. De repente, uma voz interrompeu as minhas divagações.
— Desculpe, é o gerente?
Virei-me e vi uma mulher jovem e franzina com um rapazinho de cinco anos junto dela.
— Sou assistente da gerência — disse. — Em que posso ajudá-la?
A mulher baixou os olhos por um momento, depois levantou o queixo e disse num tom de voz áspero:
— O meu filho não teve Natal. Tinha esperanças de que agora tivessem alguma coisa com desconto, algo que eu pudesse pagar.
Confesso que encarava com cinismo os ocasionais pedidos de moedas dos sem-abrigo, mas a voz dela continha um tal misto de sinceridade e mágoa por ser obrigada a fazer aquela pergunta que eu disse:
— Estou agora mesmo a remarcar os brinquedos com o desconto. O que procura?
O rosto da mulher iluminou-se, como se tivesse finalmente encontrado alguém disposto a ouvi-la:
— Não tenho muito dinheiro, mas gostaria de comprar ao meu filho algo de especial.
O rapaz ficou feliz ao ouvir as palavras da mãe. Dirigindo-me a ele, pedi:
— Pega no brinquedo que mais gostarias de ter neste Natal, está bem?
O menino olhou para a mãe, que acenou em concordância. Esperei, curioso por ver qual dos brinquedos mais populares daquela quadra ele iria escolher. Talvez um carro de corridas ou uma bola de basquetebol. Porém, em vez disso, dirigiu-se ao cão velho e peludo e apertou-o com força. Fiz de conta que estava a afastar o cabelo da frente dos olhos, enquanto limpava uma lágrima.
— Quanto custa aquele cão? — perguntou a mãe, abrindo o fecho de um pequeno porta-moedas preto.
— Não custa nada — disse eu. — Até me faz um grande favor se o levar.
— Mas eu quero pagar a prenda de Natal do meu filho — insistiu ela.
— É um dólar — disse eu.
Tirou da carteira uma nota amarrotada e estendeu-ma. Depois virou-se para o filho e disse:
— Agora podes levar o cãozinho para casa. É teu.
Uma vez mais, disfarcei a minha comoção, enquanto o rapazinho sorria, extático. A mãe sorriu também e murmurou um silencioso “Obrigada”, enquanto saíam da loja.
Através da janela, vi-os embrenhar-se na noite que começava a cair em Memphis. Ainda não se via um único floco de neve, mas, quando voltei para o corredor dos brinquedos, percebi que tinha acabado de viver um Natal branco.
Harrison Kelly



Com este conto, encerro este ciclo de contos de Natal. Espero que tenham gostado, escolhi-os porque em todos eles há um pouco de magia, que nos levam a sonhar com um  mundo melhor. 


Regressei há poucas horas. Espero que tenham passado um Natal muito feliz, e agradeço a todos as mensagens de boas festas recebidas. Hoje, domingo tentarei retribuir as vossas visitas.
Bem Hajam.

1.7.16

MANEL DA LENHA. - Parte XCVII



Depois desta viagem, foram muitas as que o filho proporcionou aos pais. Todos os anos, no Verão fechava o aviário e partia com os pais.para S. Pedro. Ficavam aí uma semana, e depois seguiam para outros sítios. O Gerês, o vale do Douro, Santiago de Compostela, as Beiras,o Algarve  e o Alentejo.
Sempre que estavam de partida, o Manuel ficava numa felicidade que nem criança com brinquedo novo. A mulher pelo contrário ia sempre resmungando, porque é que não iam pai e filho e a deixavam em casa. Em casa é que se sentia bem, e" re-beu-beu , pardais ao ninho" como dizia o marido com uma certa graça. Às vezes o filho sabia de uma festa, como por exemplo as de Campo Maior,  e na altura tinha o aviário a funcionar. Ele pagava a alguém para ficar a cuidar dele durante dois ou três dias e levava os pais. Claro que a Gravelina, não conseguia andar mais do que meia dúzia de metros, mas a cadeira de rodas ia sempre com eles e ela nunca deixou de ver nada por não ter mobilidade suficiente. 
E Janeiro de 98 começa com a Vitória de Jorge Sampaio nas eleições presidenciais. Em Março é aprovada na Assembleia a amnistia das FP-25, Sampaio é empossado no cargo, e Marcelo Rebelo de Sousa chega à presidência do PSD, no primeiro congresso depois do suicídio no mês anterior de Alexandre Gouveia, fundador do partido. Em Julho, Almeida Santos substitui Jorge Sampaio que por motivos de doença se manterá afastado até 7 de Agosto.
A 13 de Agosto, morre o marechal Spínola, uma personagem controversa, para uns um herói, que contribuiu para a implantação do regime democrático, para outros um homem dúbio, com uma enorme sede de poder, cujo contributo se deveu apenas ao sonho de vir a ser o todo poderoso Presidente do País. O que ele não esperava, era que o movimento dos militares, estivesse tão bem estruturado e fosse tão firme. Só teve consciência disso no próprio dia 25 de Abril quando tentou tomar as rédeas da revolução e se propôs rever e alterar o programa do MFA . Victor Crespo enfrentou-o dizendo; "Os blindados e tropas ainda estão na rua, se for preciso, continua-se com o golpe"
Dias depois morre  a jornalista Vera Lagoa.
Em Outubro D. Ximenes Belo e Ramos Horta, recebem o Nobel da Paz e no Congresso do PCP em Dezembro, Álvaro Cunhal, abandona a liderança do partido e passa a simples militante.
O ano terminou e seguiu-lhe outro numa rotina de dias e horas, na vida do Manuel, cuja única mudança eram as queixas de dores, uns dias mais intensas que outros, o que nem é nada de original, pois elas sempre aparecem com o passar dos anos e Manuel fez nesse ano 80 anos, de vida pesada, sempre por muito trabalho, e pobreza