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28.10.16

ESTRANHO CONTRATO- PARTE V


Francisca estava grávida de sete meses quando o marido se suicidou. Os negócios iam de mal a pior. Estava cheio de dívidas, e na eminência de abrir falência. Não aguentou a pressão e uma noite telefonou à mulher dizendo que ficava a fazer serão, para encerrar umas contas, fechou a loja e deu um tiro na cabeça.
Foi o empregado quem o encontrou no dia seguinte. Francisca recordava o grande choque que sofrera, não só com a morte do marido, mas também ao descobrir a situação económica em que se encontrava, pois o marido sempre lhe escondera o rumo desastroso que o negócio tomara, e as dívidas que a firma tinha.  De um momento para o outro, viu-se obrigada a vender a casa, para as liquidar, e a buscar protecção junto dos pais. Foi na casa paterna que se refugiou com o   filho pequeno, e lá nascera o segundo filho. Desde então tinham passado três anos. Precisava encontrar um emprego, que lhe desse meio de subsistência para ela e para os filhos, mas não podia deixar duas crianças tão pequenas com a mãe, e também não podia pagar uma creche. Encontrava-se num beco sem saída. 
Uns meses mais tarde, saía do registo civil onde fora renovar os seus documentos,  quando encontrou a Graça.
- Francisca! Que alegria. Não esperava encontrar-te aqui. Nunca mais te vi. Há tanto tempo!
Graça fora sua colega de estudos. Mais do que isso, fora uma boa amiga. Mas depois entrou na Universidade e ela ficou para trás. Nunca mais se tinham visto.
Com o à-vontade que a caracterizava, Graça pegou-lhe num braço, quase  arrastando-a atrás de si.
- Vem, vamos tomar um café. Aqui perto há uma pastelaria sossegada. Quero saber de ti.
Entraram no estabelecimento, e sentarem numa mesa perto da janela.
- Eles têm aqui uns pastéis de nata divinais. São a minha perdição. Vou pedir para as duas. Vais ver que não é exagero meu. Mas que se passa? Estás tão calada. Até parece que não gostaste de me ver.
- Claro que estou muito feliz por te ter encontrado. Ainda estou surpreendida.
O empregado aproximara-se, e Graça fez o pedido. Logo que ele se afastou perguntou:
- Casaste? E vives na cidade?
- Estou viúva. Tenho dois filhos e vivo na aldeia, em casa  dos meus pais.
Sem conseguir controlar-se, as lágrimas rolaram pela face bonita.
O empregado voltou com os cafés e dois pastéis de nata que colocou sobre a mesa. Quando ele se afastou, Graça chegou a cadeira para mais perto da amiga e pediu, apertando-lhe a mão:
-Conta-me tudo.


2.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXII

          O neto do Manuel muito compenetrado apagando a vela do seu baptizado


Um ano depois, convocado o pai biológico, ele reafirmou o seu desejo de que a criança fosse adoptada pelo casal, e o processo de adopção plena entrou nos seus trâmites legais. Ainda assim, foi demorada a sentença, que chegou quando o bebé já tinha três anos. O Juiz informou que  a partir daquele momento, a criança era legalmente filha do casal, todos os vínculos com a família biológica eram cortados, a criança perdia os apelidos com que foram registada e ganhava os apelidos do casal.  Mais, não podia antes de atingir a maioridade ser contactado pelos familiares biológicos, devendo o casal recorrer à justiça se isso acontecesse.
Foi uma grande alegria. Os avós porque se tinham afeiçoado à criança, e ao mesmo tempo porque viam a felicidade do casal, que tanto lutara por um filho sem contudo o conseguir
A sentença saiu em Outubro e a 8 de Dezembro, dia da Nª Senhora da Conceição, fez-se o baptizado do menino.
E o ano de 1983 chegava ao fim, com o Natal passado na casa do Manuel, a família toda reunida, e as duas crianças, a disputarem o lugar de Menino Jesus na festa.
Naquela época, ninguém podia adivinhar  que aquele era o último Natal que a família estava assim reunida, alegre e feliz. 
Manuel ia a caminho dos 66 anos, mas continuava a trabalhar. A reforma seria para mais tarde, não tinha pressa, ele dizia que não sabia fazer outra coisa que trabalhar. Continuava a semear o quintal e a fazer o seu vinho, agora num lagar que o filho construíra no quintal da sua casa. O filho continuava solteiro. Tinha deixado a CP, e alugado as instalações de um aviário de pintos, onde se instalou com um aviário de codornizes. Sem estudos, mas um "engenhocas" capaz de fazer qualquer coisa que se lhe metesse na cabeça, tinha a quem sair, ele mesmo construiu as chocadeiras para lhe chocarem os ovos e tirar as codornizes. O seu dia não tinha horas. Trabalhava desde antes do sol nascer, até às onze, meia-noite. Por isso a família praticamente não o via a não ser que se deslocasse ao aviário, ou uma vez por mês, quando toda a família se reunia à volta da mesa do Manuel para um alegre convívio familiar.
A Gravelina, que sempre fora muito doente, desde o parto do filho, foi reformada por invalidez, nos primeiros meses desse ano de 1984


26.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVIII

       O Manuel e mulher, segurando a vela no baptizado da neta, ao colo da mãe


Nessa altura, a filha mais velha, trabalhava de novo na Seca do Bacalhau. A jovem que antes de ir para Angola, trabalhava na secretaria da Escola D. Fernando II em Sintra, e que durante os dois anos em que estivera em Luanda trabalhara como sabemos na secretaria do Colégio Marista, não conseguiu quando voltou a integração na escola. A prioridade de empregos era para os retornados, e ela não era retornada. Depois também havia o pormenor dos estudos. Ela tinha a prática de quase cinco anos de emprego em secretarias escolares. Sabia tudo sobre o trabalho, mas não tinha estudos. Havia entre os desempregados gente com toda a espécie de estudos, de modo que a jovem regressou ao trabalho na seca do Bacalhau onde fez a safra. Com menos esforço do que em outros tempos, (o trabalho estava muito mais mecanizado), mas também com muito menos alegria, pois havia menos gente, e  sobretudo gente mais velha. As jovens que em outros tempos trabalharam com ela, ou tinham arranjado outros empregos, ou tinham casado e dedicavam-se aos filhos e à lide doméstica.
Terminada que foi a safra, a jovem ficou em casa.
Depois das eleições para a Assembleia constituinte a 25 de Abril, realizaram-se a 27 de Junho as eleições para a Presidência da República, nas quais seria eleito Presidente o General Ramalho Eanes.
Naquele tempo, ir votar era uma alegria. O povo tinha bem presente o que tinham sido os anos do regime anterior e novos e velhos toda a gente ia exercer o seu dever de cidadania com vontade de que a democracia ainda bebé, ganhasse força e tivesse "pernas para andar"
 Em Julho o marido foi para o Algarve patrulhar as praias, e a jovem foi com ele. O marido era natural de Lagos tinha lá a família, e foi para lá que eles foram. 
O Manuel tinha um sonho desde há muitos anos. Havia de ir um ano às festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Desde menino, ainda lá na aldeia, já ouvia falar nelas, mas a vida nunca lhe proporcionou ensejo para realizar esse sonho.E foi assim que aproveitando as férias, a que passou a ter direito depois do 25 de Abril, foi em Agosto desse ano às ditas festas. E foi lá que receberam o telegrama contando que eram avós de uma menina, e que mãe e filha estavam bem. 
Terminada a época balnear, o genro do Manuel regressa à base no Alfeite, e o casal retoma a vida ali perto da casa paterna onde a filha vai a toda a hora encantada com a sobrinha.
Dias depois do baptizado da menina, da qual os avós foram os orgulhosos padrinhos, a mãe da bebé perguntou à irmã mais velha:

-Queres tomar conta da menina, quando eu regressar ao trabalho?
-Claro que sim, - respondeu de imediato o coração pulando de alegria.
- É claro que te vou pagar.
- Não precisas. Não fico com ela por dinheiro.
- Eu sei. Mas a outra pessoa eu ia pagar, por isso vou saber quanto é que estão a levar, e o que pagaria a outra, é o que te pagarei. E ainda fico a ganhar, pois estou mais descansada, deixando-a contigo, que se a deixasse com uma estranha.
E foi assim que a menina passou dentro em pouco a ser cuidada pela tia. A jovem vivia encantada com a bebé. Sempre adorara crianças e o facto de não poder ter filhos, fez com que se agarrasse ainda mais à sobrinha.
Os navios retornaram,  a safra foi-se fazendo, agora com uma ou outra greve pelo meio, os tempos  eram outros, o povo já não admitia certas prepotências.

2.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE XLII




Foto DAQUI




Durante o inverno o trabalho na Seca mantinha-se regular. A excepção era a GNR, que ultimamente visitava com frequência a Seca.
A pé ou a cavalo, eles lá entravam, davam umas voltas entre o pessoal, reuniam com a guarda fiscal e partiam. Não consta que tenham havido por lá informantes, mas o pessoal tremia sempre que os via, e ficava mais calado. O Inverno decorreu como tantos outros sem nada de especial a assinalar. Desde o final de 65 que a filha mais velha se mudara para casa de um tio, guarda-florestal em Monsanto. É que o ordenado que recebia no laboratório, era pequeno, a rapariga queria fazer o enxoval e as passagens ficavam caras. Além disso entrava no trabalho às 8 horas da manhã, e para isso tinha de sair de casa às cinco e meia da manhã, para apanhar o autocarro que a levaria ao barco que nessa época levava trinta e cinco minutos a chegar a Lisboa.  Depois ainda tinha que apanhar transportes no Terreiro do Paço, até ao trabalho. Cansativo e dispendioso. Assim ficava em casa da tia, só pagava o bilhete do autocarro, tinha mais horas de descanso, e só vinha à Seca ver os pais, dois fins de semana por mês.
Nesse ano de 66, a outra filha emprega-se também em Lisboa, mas essa como tinha estudos foi para um escritório, outro horário e quase três vezes o ordenado da irmã.
A vida ia-se compondo, com muito trabalho do Manuel que continuava a cavar e a semear cada vez mais. 
Porém as notícias que ouve trazem-no cada dia mais preocupado. Sabe que desde Março, com o nascimento da UNITA, já são três os Movimentos de Libertação de Angola, e que a guerra de guerrilha cresce todos os dias.
Pela Seca, no rio Coina, todos os dias fuzileiros em exercícios nos seus barcos de borracha e ele não esquece o namorado da filha na Guiné e pensa no seu próprio filho actualmente com 16 anos. E apesar de estar sempre a dizer à mulher, que não se preocupe, ele teme o que o futuro reserva para o seu rapaz.

15.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXX

foto do google


Luís era um jovem de dezoito anos, e estava loucamente apaixonado por Odete. Eram vizinhos de bairro e conheciam-se desde meninos. Quando  tinha treze anos, tomara coragem e pedira-lhe namoro. Odete, dois anos mais velha, e já uma mulherzinha aceitou. Ele ficara todo orgulhoso. E contara aos pais. O pai esboçara um sorriso e não dissera nada. O pior foi a mãe. Primeiro não gostava da gaiata, que achava pretensiosa. Depois, ele era ainda um menino tinha que se dedicar aos estudos. Claro que ele tinha ficado irritado com a opinião da mãe. Na verdade aos treze anos, Luís nada tinha de bonito. Era demasiado alto, e muito magro. A única coisa interessante nele, eram os seus olhos cinzentos que às vezes mais pareciam de prata e que se destacavam no rosto muito moreno. E Odete era a jovem mais bonita do bairro. Mais do que amor, Luís sentia um grande orgulho por ela ter aceitado namorar consigo. Tinha a certeza que era o rapaz mais invejado de todo o bairro.
Aborrecido pelo implicância da mãe, decidiu mostrar-lhe que o namoro não o impediria de ser bom aluno e sempre passou com excelentes notas.
Acabado o liceu era necessário escolher a carreira, mas na altura ele não se sentia vocacionado para nada, e escolheu Direito como podia ter escolhido qualquer outra coisa. Tinha dezoito anos, e continuava demasiado alto e magro. E cada dia mais apaixonado. Com vinte anos, Odete era agora uma linda mulher, que gostava demais dos galanteios de outros homens que não o namorado. Toda a gente no bairro via isso excepto Luís. Abandonara a escola há muito, antes mesmo de completar o nono ano, e sem emprego, passeava-se na rua sem outro motivo que não fosse exibir a sua beleza e provocar a libido masculina.  A mãe de Luís, bem que tentava abrir os olhos do filho, dizendo-lhe que Odete não era mulher para ele, mas Luís, qual D. Quixote, sempre defendia a namorada, dizendo que a mãe não precisava ter ciúmes, o amor que sentia por Odete, em nada beliscava o que sentia por ela. Se a jovem não queria estudar, que mal havia nisso?  Afinal a vontade que ele tinha de estudar também não era grande, mas a mãe voltava à carga, pois o namoro já se prolongava demais. Intuições de mãe, - respondia quando o filho lhe perguntava, o que ela tinha contra a sua namorada. Estavam as coisas neste pé quando um dia ao chegar a casa da namorada não a encontrou, e a mãe dela, lhe contou a chorar, que a filha tinha fugido com o sobrinho do Henrique do talho, ela nem sabia para onde, pois não o dizia na carta de despedida que lhe deixara .
Sentiu que o seu mundo ruía e teve vontade de morrer. 
Luís havia  completado dezanove anos, na semana anterior. Aos dezanove anos, um homem ainda tem uma visão muito romântica da vida. E afinal ele crescera a amar Odete e namoravam há mais de cinco anos. Fechou-se no quarto e chorou de frustração e raiva. E jurou a si mesmo que nunca mais ia confiar em mulher alguma. Nesse dia morreu Luís  e nasceu o Nuno. Estava no primeiro ano e como continuava sem grande interesse pelo curso, resolveu mudar. Optou por Literatura e Línguas. Aos 25 anos ingressou na Marinha já com o Curso terminado.