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18.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXVI



Surpreendes-me. Pensava que o sonho de todas as mulheres, fosse um lindo casamento, uma entrada na igreja, com um longo e belo vestido branco, e uma lua-de-mel, num lugar paradisíaco.
-Claro que é, quando os dois estão apaixonados e se trata de um casamento de amor. Não é o nosso caso. Outra coisa, pagarás as despesas da Matilde e da casa. Nada mais que isso, as minhas despesas pessoais serão minhas, pagá-las-ei com o meu ordenado, não quero um cêntimo teu.
- Não aceitarei uma condição tão absurda. Uma vez casada, as tuas contas serão minhas.
-Então desiste do casamento e procura outra solução.
- Dá-me uma razão lógica para tal atitude, - disse ele irritado.- Não me digas que és uma dessas feministas com a cabeça cheia de ideias idiotas.
-Não se trata de ser ou não feminista. Trata-se de que não quero sentir-me, como se me vendesse. Posso aceitar o casamento como sendo o melhor para a Matilde e por ela sacrificar-me. Mas não acredito que a perda da minha dignidade, lhe seja de algum modo benéfica. Está na tua mão aceitares ou não as condições.
Ele mordeu os lábios para conter um impropério. Não lhe agradava aquela situação, mas ainda lhe agradava menos que ela lhe lembrasse que o casamento era um sacrifício, especialmente depois da reação que aquele beijo lhe provocara. Mas que fazer? O melhor era aceitar todas as condições que ela impusesse. Depois de casados ele trataria de a fazer mudar de ideias.
-Aceito, embora me reserve o direito de tentar fazer-te mudar de ideias. Mais alguma coisa? – perguntou
- Sim. Não quero a Matilde em creches, enquanto não tiver dois anos. Deverá ficar com a Natália, a senhora que viste aqui no outro dia. É uma grande amiga, tem-me ajudado muito, e cuida da Matilde sempre que eu preciso de me ausentar, seja para trabalhar, ou para fazer compras. Gostam tanto uma da outra, que a Matilde chama-lhe  a "vó Táia". Algum problema?
- Problema nenhum. Quando podes ir comigo ao registo para dar andamento aos papéis?
- Amanhã, aviso no trabalho que preciso de sair por umas duas horas. Será tempo mais que suficiente para isso. De acordo?
- De acordo. Também quero visitar-te diariamente até ao casamento, e quero ver a menina acordada. Quero que ela se vá habituando a mim, para que não estranhe depois do casamento. Durante a semana, como estás a trabalhar, posso encomendar o jantar e jantaremos juntos. Alguma objeção?
- Nenhuma.
Ele levantou-se, dizendo:
-Então é melhor que me vá agora. Telefonas-me de manhã assim que puderes sair, e vou-te buscar. Até amanhã.
Encaminhou-se para a porta, seguido pela jovem. Aí deu-lhe um beijo rápido e saiu. Ela fechou a porta e encostou-se à mesma, com as pernas a tremer.



NOTA DA AUTORA 
O capítulo de ontem, parece ter surpreendido pela negativa. Pode ter parecido invulgar, surreal, eu mesma tive dúvidas ao escrevê-lo, não gosto muito de fugir da realidade. Porém estamos numa época em que algumas mulheres casam com homens que nunca viram, outras se mostram aos possíveis interessados como se fossem gado à espera de compra, e outras ainda vão dormir com qualquer um que acabam de conhecer. Postas as coisas neste ponto, que tem de especial que uma mulher queira saber, se não vai sentir repulsa pelo homem, com quem pode vir a passar o resto da vida, através de um beijo?