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13.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE V



Anabela acordou com um raio de sol acariciando-lhe docemente o rosto.     Verificou as horas. Sete horas. Adormecera tão tarde que devia ter dormido um pouco mais. Porém tinha deixado a persiana aberta e agora seria impossível dormir de novo. 

Pegou no telemóvel para ver se tinha alguma mensagem, mas verificou que estava sem bateria. Abriu a mesa de cabeceira, tirou o carregador e ligou-o à corrente. Depois ligou-o, inseriu o código e deixando o aparelho a carregar, dirigiu-se à casa de banho, despiu o pijama de algodão rosa, pôs uma touca na cabeça e meteu-se debaixo do duche. Minutos mais tarde, fechou a torneira, e envolveu-se na toalha.

Escovava os dentes quando ouviu o telemóvel tocar. Provavelmente era a comadre, ninguém mais lhe ligaria tão cedo.  Não se apressou, sabia que ela voltaria a ligar. Despois de lavar os dentes, acabou de se limpar e depois de ter passado o creme hidratante na pele, vestiu o robe, retirou a touca, pegou na escova e durante alguns minutos escovou a sua longa e bela cabeleira negra, prendendo-a em seguida numa única trança.

Acabara de sair da casa de banho, quando o telemóvel voltou a tocar.

- Sim, bom dia!

-Bom dia. Acordei-te? Já tinha ligado há minutos.

-Sim, eu ouvi, mas estava na casa de banho. Alguma novidade?

-O Óscar morreu. Ou melhor apareceu morto numa viela com um tiro na cabeça, a polícia acredita que tenha sido vítima de um ajuste de contas.

Calou-se. E o silêncio manteve-se de tal modo que Paula pensou que a chamada caíra.

Anabela sentiu as pernas a tremer. Sentou-se na cama e engoliu em seco, as lágrimas correndo silenciosas pelo rosto. Mas não eram lágrimas de dor e sim de alívio.

O silêncio manteve-se de tal modo que Paula pensou que a chamada caíra.

- Anabela? Ainda estás aí?

-Estou, desculpa, como soubeste?

A polícia foi ao hospital e à pensão à tua procura e a rececionista disse-lhes que tinhas ido de férias e deu-lhe o meu nome e o endereço da clínica. Eu disse-lhes que ia entrar em contacto contigo. Tentei falar contigo ontem à noite, mas tinhas o telemóvel desligado.

-Ficou sem bateria e só reparei esta manhã.

-Bom, suponho que virás para cima agora. O que devo dizer ao agente se voltar à clínica, ou telefonar?

-Claro que sim. Vou fazer a mala e ponho-me a caminho. Vou direta ao posto da polícia.

-Então depois telefona-me. Talvez seja melhor ires jantar connosco esta noite. Estamos a teu lado para o que for preciso, tu sabes.

-Obrigado. Logo ligo. Beijo.

-Vem com calma, não tenhas algum acidente. Até logo. Beijo


8.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVI

                                             



- Que se passa, Fernando? Dormiste mal, ou lembraste alguma coisa? – perguntou, mal ficaram sozinhos.
- Não se pode dizer que dormi mal. Agradeço-te mais uma vez a atenção que tens comigo. Mas tive um sonho esquisito, que não sei se tem alguma coisa a ver comigo, ou se é apenas um daqueles sonhos estúpidos que por vezes povoam os nossos sonos.
- Queres contar?

Ele recordou em voz alta, todos os pormenores do sonho, enfatizando o facto de o pianista não ter rosto.

- Achas que pode ter a ver alguma coisa comigo?´
- Não sei. Gostas de música?
- Muito. Mas isso não quer dizer que a toque, pois não?
- Claro que não. Mas se fosses profissional da música, decerto eras conhecido, e a polícia já saberia que tinhas desaparecido. A não ser que não fosses profissional, mas a ser assim também não irias atuar num tão grande auditório. Não se encaixa. Ouve, seria um daqueles concursos em que os amadores vão mostrar os seus talentos, na busca de se tornarem conhecidos?

- Não. Lembro-me de ter visto anunciado na entrada, um concerto. E uma sala daquelas, completamente cheia, deveria querer dizer que era alguém conhecido.
- Então não pode ter a ver contigo. A polícia saberia. Deve ser um daqueles sonhos sem nexo que todos temos.
Apetece-te almoçar fora? - perguntou mudando o rumo à conversa.
- Preferia fazê-lo aqui. Deves compreender que não me sinto bem, contigo a pagar todas as contas. Mesmo que digas que se trata de um empréstimo e que te pago quando recuperar a memória. É humilhante.
- Para mim não. Mas se te sentes melhor em pagar o almoço, passamos pelo multibanco e levas dinheiro.

Ele baixou o rosto e escondeu-o entre as mãos. O seu desespero era uma realidade, mas ela estava disposta a ajudá-lo. O porquê, era algo em que não queria pensar de momento.

-Não fiques assim. Quando menos esperares, tudo se resolve. Vamos despachar-nos, para ir às compras. Precisamos comprar duas ou três mudas de roupas para ti, amanhã vamos para casa dos meus pais e não vais andar todos os dias com a mesma roupa.
- Mas doutora, o que vão dizer os teus pais? E que vou dizer-lhes eu, quando me fizerem perguntas?
- Logo se verá.  Cada coisa a seu tempo. Não te preocupes com isso agora.


12.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE IX






Abriu a porta e desviou-se para lhe dar passagem. Ela acendeu a luz, e ele olhou com curiosidade para o apartamento. Sandra encaminhou-se para a sala. Depositou a mala numa cadeira.
- Sente-se. Posso oferecer-lhe um café?
- Agora não, obrigado. Não estamos numa visita social. Estou à espera do que tenhas para me dizer.
- É complicado. O meu nome é Sandra Martins Machado. O apelido Machado diz-lhe alguma coisa?
- Não. É um apelido vulgar. Porquê?
- Porque há pouco mais de três anos, o seu contabilista Joaquim Machado, foi acusado e condenado por ter feito um desfalque na sua empresa.
- Sim. E o que é que isso tem a ver contigo?
- Joaquim Machado é meu pai. Nunca fez qualquer desfalque e está preso. É inocente, e vocês acusaram-no.
Desatou a chorar. Ele levantou-se. Começava a perceber a dor e a raiva da jovem, mas ainda não entendia o que é que ela tinha ido fazer para a firma.
- Desculpa, não fomos nós que julgamos e condenamos o teu pai. Nós só demos parte do desfalque. O resto foi trabalho da polícia, e do tribunal.
- O meu pai está inocente. Era incapaz de roubar um cêntimo que fosse. E se houve desfalque alguém o fez. Não ele, que morre um pouco todos os dias, de vergonha.
- E se houve? O que queres dizer com isso? Julgas que não houve desvio daquela verba? Que nós fizemos uma participação falsa à polícia?
- Não. Acredito que tenha havido o desvio dessa verba. Mas qualquer outro o podia fazer. Até mesmo um dos dois sócios.
- Estás doida?
- Será? Porque é que o senhor comprou a parte do seu sócio, menos de um ano depois de meu pai ser preso?
- Boa! Agora entendi. Quer dizer que pensas que eu desfalquei a empresa, para obrigar o meu sócio a vender, a sua parte, e ficar com a totalidade da firma? Era isso que procuravas, infiltrando-te como minha secretária, e vestida daquele jeito ridículo? Uma prova para me acusares?
Tinha-se levantado, e passeava pela sala como leão enjaulado. Estava verdadeiramente zangado. Mais do que isso. Estava furioso.
 Ela começava a pensar que se excedera.
- Desculpe, - balbuciou. Mas o senhor pediu sinceridade. Por outro lado, já não sei o que fazer para provar a inocência do meu pai.
Ele parou. No meio da ira que o invadia, pensou vagamente que era extraordinária, a garra com que ela defendia o progenitor. Mais, pensou que gostaria que ela confiasse nele  com a mesma fé que depositava no pai.
-Suponho que não acreditarás se te disser que não tenho nada a ver com esse desvio, - disse com ironia.


3.12.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE VIII


Uma manhã a polícia telefonou-lhe para o escritório a anunciar a morte de Laura. Tivera um desastre quando conduzia a grande velocidade. Ela e o companheiro tiveram morte imediata.
Não sentiu pena. Que Deus lhe perdoasse mas até sentiu um certo alívio. E passaram-se mais três anos. Por fim decidiu voltar a Portugal. Vendeu tudo, transferiu o dinheiro – uma fabulosa fortuna – para um banco português, e comprou a viagem de regresso.
Não quisera vir de avião. A viagem seria demasiado rápida e ele precisava tempo para pensar. E agora, a poucos minutos do desembarque, só pensava numa coisa. Rever Esperança, saber como estava, o que fazia.
Assim que chegou a terra, apanhou um táxi e dirigiu-se a casa dela. Pelo caminho foi olhando tudo. Quase não reconhecia Lisboa, tão diferente estava de quando ele a deixou.
Pensava. Por certo Esperança teria casado, talvez tivesse filhos. Era o mais lógico. Quem sabe nem mais se lembraria dele. Ainda assim, ele queria pedir-lhe perdão.
A primeira decepção, apanhou-a quando ao chegar ao lugar onde outrora fora a casa da jovem, encontrou um moderno edifício, de vários andares. Ali ninguém sabia quem ela era nem onde vivia.
“Foi melhor assim” – pensou. Que podia eu dar-lhe agora? Dinheiro? E podia com dinheiro comprar o seu perdão?
Logo porém afastou os seus pensamentos e decidiu:
- Tenho de encontrá-la…



Nota: 
Espero que acompanhem esta história até ao fim, pois vejo que não vos está a agradar. Sei que criei um personagem imoral, completamente dominado pela ambição, capaz de pisar os sentimentos dos outros em seu proveito. Talvez um psiquiatra encontrasse na infância do Chico, criado num mundo em mudança, ferido por uma guerra, que deixara a Europa, a "pão e água", sem o carinho da mãe, nem a mão firme do pai, a razão para a sua ambição. Mas nenhum de nós é psiquiatra. Eu limitei-me a criar um personagem, e vocês a sentirem sentimentos de repulsa sobre ele. E no fundo é isso que se quer.
Muito mal andaria o mundo se o Chico vos despertasse
simpatia.


18.3.14

MARIA - V - O CASAMENTO DE MARIA




O casamento de Maria


Foi neste ambiente de dor e raiva que Maria veio ao mundo.
Quando lhe pegou ao colo pela primeira vez, Elisa jurou que a sua filha não ia ser um joguete do destino como ela fora. A sua menina ia estudar, ter uma carreira, ser independente. Foi o seu primeiro erro. Ela não se dava conta que a estava a traçar para a filha, a vida que ela quisera ter.
Ao fim e ao cabo com uma meta diferente, mas estava a cometer o mesmo erro que tinham cometido com ela.
Com o dinheiro que o marido lhe deixara, alugou uma casa, montou um ateliê e começou a costurar para várias lojas. O trabalho cresceu, as suas criações fizeram sucesso e em breve tinha duas ajudantes no ateliê, e contratava uma ama para a filha já que lhe faltava o tempo e a disposição para ela. Foi o segundo erro. A filha ia sentir esse afastamento como uma rejeição.
Maria era a criança mais bem vestida do bairro. A mãe sempre estava fazendo belos vestidos para a filha que mais parecia uma boneca, que menina rica se entretivesse a mudar de roupa a todas as horas. Pouco depois de completar 4 anos ficou doente.
Vários médicos e muitos exames depois foi detectado uma doença óssea. Elisa foi aconselhada a levar a filha para Londres onde havia um médico especializado nessa doença. Ela contactou um dos irmãos que emigrara para lá cinco anos antes e contou o que acontecia com a filha. Recebeu como resposta, as passagens de avião e algumas libras, bem como a afirmação de que as esperava no aeroporto.
Partiram as duas e um mês depois Elisa regressou sozinha. Não podia estar tanto tempo longe do ateliê, e o irmão ficava com Maria até que ela estivesse curada.
Mais uma vez Maria sentiu que não era muito importante para a mãe.
Um ano depois Elisa voltou a Londres para buscar a filha. Segundo os médicos uma cirurgia resolveu o problema da malformação óssea das mãos, e dos pés, e com a medicação esperavam que não surgissem novos problemas com o crescimento. Porém Maria nunca poderia vir a ser mãe, porque a sua bacia não aguentaria as transformações de uma gestação.
Custa a crer à luz da medicina atual, que um médico dissesse "nunca". Porém Elisa sempre repetiu isto ao longo dos anos, tantas e tantas vezes, que a filha foi crescendo revoltada consigo mesmo por se achar inferior. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que comentamos esta história. Ela disse-me. "Eu vou ser mãe. Ela vai ver que eu sou capaz" Raras vezes Maria se referia à mãe como tal. Quase sempre dizia "ela".
Elisa era muito exigente com a filha. Ela sonhava a filha como um modelo de perfeição, e definitivamente ela era uma criança normal, uma adolescente igual a tantas outras.
E assim Maria foi crescendo com uma relação muito difícil com a mãe. Sentia-se incapaz de ser como a mãe desejava e isso amargurava-a. Para se "vingar"estava sempre a contrariar a mãe. Se esta lhe dizia para vestir umas calças, ela vestia saia, se lhe dizia para vir direta da escola para casa, ela ia para casa de uma amiga.
Maria era meiga com a sua ama. Também comigo. Até mesmo com a professora. Mas não com a sua mãe. Era uma relação estranha, como se estivessem sempre medindo forças entre si.
Porém quando a mãe chorava, Maria refugiava-se no seu quarto e chorava também. Era uma estranha relação de amor-ódio que durou muito para além da infância e adolescência. Eu diria até que durou toda a vida.
Quando fez 17 anos começou a namorar, e aí "caiu o Carmo e a Trindade" como soe dizer-se. A mãe não consentia o namoro. E ameaçou manda-la estudar para Londres, telefonou ao irmão para sondar a hipótese de ele receber lá a sobrinha. Resultado? Maria ficou grávida e decidiu que ia casar. A mãe repetiu o que sempre disse sobre uma possível gravidez. E disse mais. Que não ia haver casamento nenhum, que ela ia fazer um aborto, que era uma menina que tinha que estudar, ir para a universidade etc...etc. ...
A jovem não se convenceu. Disse que se a mãe não autorizasse o casamento fugia de casa e nunca mais ia saber dela. E mais, ameaçou a mãe de ir à polícia denunciá-la por querer obrigá-la a fazer um aborto.
Casou-se num Sábado à tarde. Era o mês de Maio de 1975.


Continua

(direitos reservados)


Bom amigos a boa notícia é que há quatro dias não tenho nenhuma crise de falta de ar, a sinusite, otite e conjuntivite já se foram e a tosse está quase. Ou seja. Com a graça de Deus e muitos medicamentos estou quase totalmente recuperada. 
Um curiosidade.
A foto acima, é a minha no dia do meu casamento religioso em Nampula no ano de 1971. Estava já casada há mais de 3 anos pela lei dos homens. Atenção que só usei a foto porque achei que se enquadrava no tema. A história é ficção nada tem a ver comigo que tenho um casamento de 46 anos graças a Deus muito feliz.