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21.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLI



Na casa o silêncio era rei absoluto. Estendido sobre a cama Tiago pensava em Anabela. Por mais que pensasse, desde que ela chegara à quinta há quase um mês, a vida na casa mudara. Isilda e o marido, falavam dela com carinho e admiração e inicialmente isso exacerbara a sua raiva, pois ele já tinha decidido que mais valia deixar-se cair no abismo da morte, do que lutar por uma vida em que estivesse morto como homem, pois mesmo que recuperasse o movimento total das pernas, nunca se sentiria mais do que um meio homem, um eunuco.

Porém ela conseguira impor a sua vontade e ele não podia deixar de admirar a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Tiago sentia-se perdido entre sentimentos complexos por aquela mulher, que não tendo uma beleza de estrela de revista era na verdade muito bonita. Por um lado havia uma grande admiração, um desejo de ganhar a sua amizade, por outro uma raiva sem fim, porque ele sabia que nunca mais podia aspirar a ter uma vida normal. Afinal tinham passado 5 meses depois do acidente, e nunca mais tinha tido uma ereção, nem sequer quando acordava de manhã com vontade de urinar.

A conversa de dias atrás com Anabela, mostrara-lhe uma mulher muito sofrida, embora ela não quisesse adiantar muito sobre a sua vida, pelo que Tiago telefonara ao tio e conseguira saber que era viúva e que o marido aparecera morto, segundo a polícia por um gangue qualquer.

A noite sem dormir, e o silêncio que reinava na casa, fizeram com que quase sem dar por isso Tiago caísse no sono.

E desta vez não foi o pesadelo que lhe veio ensombrar o descanso, mas Anabela. No sonho ele estava a trabalhar numa clínica onde ela era enfermeira. E não uma enfermeira qualquer, mas a sua assistente, em todas as cirurgias. E mais do que isso, eles estavam apaixonados. Naquele dia ele acabara de a pedir em casamento e de lhe colocar no dedo um lindo anel com uma esmeralda, a pedra preferida dela. E depois eles beijaram-se. O gosto dela era inesquecivelmente doce. O seu cheiro a champô e sabonete enlouquecia-o. E o beijo foi intenso, cheio de amor e paixão como são os beijos de quem está prestes a casar-se.

De súbito, o beijo era na testa, e a voz de Anabela, parecia-se demais com a voz da sua mãe.

-Tiago, meu filho, acabámos de chegar.  Como estás?

A custo ele abriu os olhos para ver a figura da mãe, inclinada sobre ele. Ia responder um tanto irritado, por ter sido obrigado a sair do sonho, quando uma sensação estranha o fez olhar para baixo e abrir os olhos de espanto, ao mesmo templo que estendia a mão e puxava rapidamente a colcha para cima, antes que a mãe se apercebesse da enorme ereção que indiscreta levantava as calcas do pijama.

 

15.12.18

A CAMINHO DO NATAL




O inverno tinha chegado e com ele a neve que caía em grandes flocos. A água deixara de correr nos ribeiros gelados, e as aves, empoleiradas nas árvores, já não cantavam, de cabeça recolhida debaixo das asas. Um vento glaciar obrigava as pessoas a manter-se em casa ao canto da lareira.
Naquela terra corria o rumor de que o senhor de um reino longínquo andava à procura de alojamento para o seu filho.
Simão, um mercador rico da cidade, que vivia sozinho com a mulher numa grande mansão, tinha ouvido falar disso. Esse tal rei vem de certeza bater-me à porta, pensava ele, pois a minha casa é a mais linda da região!
E ficou no limiar da porta, à espreita, esperando o coche real.
Mas a rua permanecia escura e deserta.
A mulher de Simão entrou na sala. Caminhava com dificuldade, de costas curvadas, apoiada numa bengala. Tinha imensas dores de pernas. Trazia um castiçal que pousou em cima da mesa.
— Uma vela só é muito pouco! — disse o marido em tom de crítica — Acende todas as lanternas da casa e põe uma em cada janela.
— Tanta luz para quê? — admirou-se a mulher.
— Vai vir um rei a nossa casa! — explicou Simão. — A casa tem de se ver ao longe, de noite. Se ficar cá, receberemos uma bela recompensa. É por isso que deves iluminar as janelas. Despacha-te! E prepara uma boa refeição, digna de um rei. Anda, despacha-te!
A muito custo a mulher deu volta à casa a iluminar todas as janelas. Tinha chegado à última divisão quando alguém bateu à porta. Foi abrir muito devagar.
O recém-chegado trazia um casaco já muito puído e, nos pés, uns sapatos rotos.
— Boa noite, minha senhora — disse ele — Será que poderia alojar o meu filho só por esta noite? Está tanto frio cá fora!
O homem tinha ar de mendigo, mas o seu rosto resplandecia. E os olhos emitiam um brilho estranho que parecia vir do mais profundo da alma.
Mas Simão não deu por nada. Só via os farrapos do pobre.
— Vai-te embora! — disse ele. — Esta casa não é para mendigos!
— A minha recompensa será grande — disse o forasteiro. — E vale mais do que todo o ouro e todas as riquezas deste mundo.
Simão desatou a rir, trocista:
— E onde escondes tu os tesouros? Debaixo desses farrapos ou no teu saco roto?
Entretanto a mulher de Simão tirara o xaile e entregara-o ao mendigo. Também lhe deu uma fatia de pão e uma chávena de leite.
— É tudo o que lhe posso dar! — murmurou.
— Muito obrigado! — disse o forasteiro.
E pegando na bengala em que ela se apoiava, arrumou-a junto do armário.
— Daqui em diante não vai precisar mais dela! — acrescentou, antes de desaparecer na noite. Envolvia-o um halo de luz.
A mulher sentiu-se de imediato livre dos seus sofrimentos. As pernas já não lhe doíam. Endireitou-se e deu alguns passos.
— Estás a andar como dantes! — exclamou Simão maravilhado. — E a bengala?
— Já não preciso dela! — disse a mulher com voz trémula. — Foi um milagre. O forasteiro curou-me…
— Um mendigo que faz milagres? Deixa-te de tolices! — resmungou Simão.
— Aquele desconhecido irradiava uma luz especial… — prosseguiu ela — O Rei é ele, tenho a certeza, um Rei vindo de longe…
Simão ficou pensativo. O desconhecido tinha falado numa recompensa que valia mais do que todo o ouro e todas as riquezas deste mundo. E acabava de realizar um milagre. Então Simão compreendeu…
— O que eu fui fazer! Que miserável sou! — exclamou ele — Depressa, tenho de o encontrar!
Enfiou as botas e o casaco e saiu a correr.
Tinha parado de nevar. O vento glaciar deixara o céu a descoberto, agora semeado de estrelas. No silêncio da noite, Simão ouviu uma voz que o chamava ao longe. Mas não via ninguém. Descobriu pegadas na estrada, e pôs-se a segui-las, descendo em direção à igreja. Ali, encontrou uma mulher a chorar.
— Que te aconteceu? — perguntou ele.
— Tenho muito frio! — gemeu a idosa.
Então, cheio de remorsos, Simão deu-lhe o casaco.
Depois continuou a caminhar, seguindo as pegadas na neve. Um pouco mais à frente, viu um rapaz a soluçar. Também ele tinha frio, descalço na terra gelada, com os pés gretados. Simão descalçou as botas forradas e deixou-as ao miúdo.
— Simão! — chamou de novo a voz. Parecia mais próxima do que da primeira vez, mas Simão continuou a não ver ninguém.
Descalço, pôs-se a andar, guiando-se sempre pelas pegadas da neve.
Mais longe, passou junto de um idoso que tremia, sentado junto de uma árvore. Vestia apenas uma camisa. Simão despiu o casaco e pô-lo sobre os ombros do mendigo. Também ele sentia agora o vento a morder-lhe a pele nua. Então, pela terceira vez, alguém o chamou:
— Simão — disse o Rei, — passaste todas as provas que semeei no teu caminho. Continua a seguir o trilho e chegarás diante de uma pobre cabana. Aí encontrarás o meu filho deitado nas palhas de uma manjedoura. Está à tua espera.
Simão obedeceu.
E as pegadas na neve conduziram-no a um estábulo.
Tal como o Rei dissera, um Menino estava deitado nas palhas de uma manjedoura.
Uma grande luz iluminava aquele lugar e um calor suave aqueceu Simão até ao fundo da alma. Sentiu-se invadido por uma enorme felicidade e uma grande paz encheu-lhe o coração.
Então, ajoelhou e pôs-se a rezar.
E o Menino sorriu-lhe.


Anneliese Lussert ; Loek Koopmans
Sur le chemin de Noël
Namur, NordSud, 1995
Tradução e adaptação