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8.12.18

E MANUEL SORRIU






E Manuel sorriu
A noite aproximava-se quando o comboio chegou à cidade alemã de Colónia. Desceram muitos passageiros, entre eles um homem e uma mulher que ficaram parados na plataforma como que perdidos. Fazia frio e eles eram uns desconhecidos na grande cidade.
— Vamos procurar um quarto para passar a noite — disse o homem.
— Está bem — respondeu a mulher — Já não vai demorar muito.
O homem fez com a cabeça um sinal afirmativo.
Procuraram incessantemente por um quarto, mas não encontraram nenhum. O Natal estava próximo e já todos estavam ocupados. A dada altura pareceu-lhes que talvez tivessem encontrado qualquer coisa, mas eram pobres e as pessoas viam que a mulher estava grávida e não os aceitavam. A criança não tardaria a nascer. Por fim, um indivíduo, com uma garrafa de cerveja na mão, indicou-lhes um edifício, dizendo:
— Ali, ao virar a esquina, há um abrigo noturno. Quem não tem casa, pode lá dormir.
Chegados, o gerente olhou pela janela.
— Esta é uma casa só para homens — disse. — Não posso aceitar mulheres.
A jovem assustou-se e amparou o ventre com as duas mãos.
— O que foi? — quis saber o marido.
— As dores do parto começaram. Não posso continuar.
Então o gerente teve pena dela.
— Pronto, entre, então. Ali ao fundo da casa tenho mais um quarto.
Conduziu-os através do dormitório dos homens até um quartinho minúsculo. A criança nasceu ao fim de umas horas. Mais tarde, a mulher mostrou o bebé aos homens do albergue.
— Como é que vai chamar-se? — perguntou um.
— Vai chamar-se Manuel — respondeu a mãe.
Os homens admiraram-se com o nome, mas lembraram-se que a jovem viera de longe.
De repente, todos tinham qualquer coisa que queriam oferecer. Um, depois de vasculhar na mochila, tirou quatro flores de papel que ofereceu à mãe, outro foi buscar uma pele de ovelha quase nova e disse:
— Para o Manuel estar sempre quentinho.
— Espera aí — disse um outro. — Devo ter aqui algures uma manta de lã.
Procurou no seu saco de plástico e encontrou a manta. Era uma peça realmente bonita, felpuda e de um vermelho vivo.
— Para o Manuel — disse.
A esposa do gerente entrou para ver a criança.
— Do que vocês se lembram! — disse ela. — Manta, pele de ovelha e flores de papel! Do que a criança precisa é de fraldas, uns casacos de bebé e calcinhas.
— Clara, as coisas da nossa Elisabete não estão ainda na gaveta? — questionou o marido.
— É verdade, Francisco! — exclamou a mulher. — Como é que eu não me lembrei!
Correu a casa e regressou com fraldas, casaquinhos, calcinhas e com um maravilhoso gorro de bebé.
— Toma, para o teu bebé — disse à mãe.
— Olha! — disse um homem muito velho. — Acho que o Manuel sorriu.
Todos viram.
Um dos homens pegou então no realejo.
— Já não toco há muito tempo — disse. — Espero ainda conseguir.
Ouviram-se uns sons muito delicados e os homens começaram a cantar baixinho. E como o Natal estava próximo, cantaram “Noite Feliz!”.
— Agora chega — disse a mulher do gerente. — A mãe e a criança precisam de sossego.
O gerente murmurou:
— Esquisito! Os fulanos nunca estiveram tão calmos aqui no albergue como hoje!
E em seguida acrescentou:
— Não falta muito e ainda vão arranjar o boi e o burro!
Pouco depois, apagou a luz.
Mas alguns dos homens ainda ficaram acordados muito tempo e voltou-lhes à lembrança o tempo em que tinham sido crianças.
Um disse, já meio a dormir:
— É estranho que tudo isto tenha acontecido aqui. Pouca gente vai acreditar, quando contarmos.


Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, OMNIBUS, 2004
(Tradução e adaptação)

11 comentários:

chica disse...

Esses contos sao uma delicia de ler! LEVES fAZEM BEM! BJS CHICA

A Nossa Travessa disse...

Minha querida Elvirinhamiga

Lindo, lindo, lindo!

Muitos qjs💋💋💋 deste teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

Maria João Brito de Sousa disse...

Bom dia, Elvira :)

Outro bonito conto com saborzinho de Natal.

Conheço um menino que também nasceu na noite de Natal. Não seria exactamente pobre, mas também nunca viria a ser rico, por opção própria. É o meu avô, o poeta e tradutor António de Sousa, que já não se encontra entre nós.

Abraço e um bom Sábado.

Isa Sá disse...

Bonito conto.
Bom fim de semana!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

António Querido disse...

Noite feliz, noite de amor!

BOM FIM DE SEMANA.

Ailime disse...

Boa noite Elvira,
Um conto muito belo.
Obrigada.
Beijinhos e bom fim de semana.
Ailime

Janita disse...

Uma bonita e enternecedora versão de mais um menino que nasceu na noite Santa.
Bonita e louvável é também a iniciativa da Elvira, ao presentear os seus leitores com estas lindas histórias de Natal.

Um abraço, bom Domingo

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Mais um conto maravilhoso minha amiga, aproveito para desejar um bom fim-de-semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

Larissa Santos disse...

Mais um conto Divino...Obrigada pela sua partilha :))

Hoje : Banho de Amor em Serenas Águas. {Poetizando e Encantando}
Bjos
Votos de uma boa noite e um óptimo fim de semana.

Ana Freire disse...

Mais um conto natalício muito belo...
Gostei imenso, desta versão mais actualizada... do simbolismo do presépio... e do que o Natal, verdadeiramente celebra...
Beijinhos
Ana

paideleo disse...

Bonito o conto !