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22.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXV




“Dorme bem, -resmungou entre dentes. - Como se um homem o conseguisse fazer quando o corpo arde de paixão. Vamos Ricardo, acalma-te e pensa. Perder uma batalha, não significa perder a guerra. E se é verdade que ela te ama, vai acabar por ceder.”
Com este pensamento, apagou a luz e dirigiu-se ao seu quarto.
Aí chegado foi à casa de banho, despiu-se, abriu a torneira da água fria e meteu-se debaixo do duche. Durante alguns minutos deixou que a água gelada lhe acariciasse o corpo. Depois do banho, escovou os dentes, vestiu umas calças de pijama, e deitou-se.  Pegou no livro que tinha na mesa-de-cabeceira. Leu duas, três vezes a mesma página. Não conseguia concentrar-se. Imaginava Clara deitada, os longos cabelos soltos espalhados pela almofada. E esse simples pensamento anulou o efeito do duche frio.
Não fora assim que ele sonhara passar a sua noite de regresso. Que diabo, afinal estavam casados, ele prometeu-lhe lealdade e fidelidade.
Porque é que ela vinha com aquela treta de amor? Pela sua cabeça, passou como num filme, aquela noite de Junho, quando ele regressou a casa, depois de terminada a missão no Kosovo, onde fora substituir um outro militar que tinha sido ferido. Ele não avisara Marisa da chegada, pois pretendia fazer-lhe uma surpresa. E afinal, o surpreendido fora ele. Chegara ao princípio da noite, e não encontrando ninguém na parte inferior da casa, pensou que a mulher estaria no quarto e começou a subir as escadas. A meio, pareceu-lhe escutar uma voz masculina. Surpreso parou, e escutou. Reconheceu então os gemidos de Marisa e não teve mais dúvidas. Acabou de subir a escada, e abriu a porta do quarto. Na cama, a sua mulher, completamente nua, cavalgava o corpo do amante, como se não houvesse amanhã.
Sentiu que o sangue lhe subia à cabeça, e só o pensamento do filho, o impediu de acabar com os dois naquela hora. Depois, quando já o seu amante tinha fugido, e ela lhe disse que nunca pensara abortar só o dissera para que ele assumisse a responsabilidade do filho que estava à espera, mas que ele não era o pai do menino, sentiu vontade de esganá-la. E até hoje não sabia se não o teria feito, se naquele momento Bernardo não tivesse acordado e desatado a chorar a plenos pulmões. Fora o choro do filho que o impediram de cometer uma loucura.
Não voltou a dormir no seu quarto até ter mudado toda a mobília. E fora nessa altura, no primeiro dia em que voltou ao quarto, que jurou a si mesmo, que nunca mais ia por o seu coração nas mãos de uma mulher. Daí para a frente, ia viver para o filho, para a carreira, aproveitar das mulheres aquilo que elas estivessem dispostas a dar-lhe, e nada mais.
Meses depois, já Marisa tinha morrido, ele foi chamado para uma missão no Mali. Antónia e o marido, mudaram-se para a casa grande, pois foram eles que ficaram com Bernardo durante os meses que esteve ausente. Depois, já com Soraia, pediu dispensa de missões por um ano, em virtude de ter dois filhos pequenos. E foi assim até que findo o prazo, e na iminência de voltar a partir, Francisco, seu advogado, gestor e grande amigo de longa data, lhe aconselhou a tomar a decisão que trouxera Clara e o irmão para a sua vida.
Apesar do relatório que recebera do investigador, Ricardo não pensara que a jovem aceitasse a sua proposta. Tudo bem, ela vinha de um noivado desfeito, mas era muito jovem, para aceitar as suas condições. Uma mulher mais velha, mais vivida, provavelmente mais desiludida da vida, aceitaria aquele contrato como uma bênção. Quase se arrependeu de ter marcado a entrevista. Mas contra o que ele esperara, ela aceitou. E o que aconteceu depois disso foi uma surpresa total. Clara era autêntica com as crianças, não procedia como alguém que executa um trabalho. Também com ele o fora, contestando as suas ideias e princípios.
E ele tinha uma profunda admiração por ela. E um desejo ainda maior.
Mas amor? Amor não, nunca mais. O amor torna os homens, trouxas. E ele jurara que mulher nenhuma, nunca mais o ia enganar. 
Acabou por adormecer, quando o dia já ia despontando, depois de ter dado mil e uma voltas na cama.