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11.12.19

CONTOS DE NATAL - ANJOS A DOBRAR








Ao acordar ao som do despertador, sorri de alegria por ter que esperar só mais um dia.

Saí da cama e vesti-me com as primeiras roupas que apanhei. Revistando a cozinha à procura de algo para o pequeno-almoço, decidi-me por uma taça de cereais e umas sobras de pizza da noite anterior. Depois de ver desenhos animados, jogar alguns jogos de vídeo e conversar on-line com alguns amigos, ocorreu-me de repente que não tinha comprado um presente para a minha mãe. Era véspera de Natal e as lojas iriam fechar dentro em breve. Enfiei uns sapatos, agarrei na minha prancha de skate e lá fui eu para o centro comercial.


Abri a pesada porta de vidro para entrar no centro comercial e defrontei-me com uma visão inacreditável. As pessoas corriam em pânico por todo o lado, tentando encontrar o presente perfeito para os seus entes queridos. Era a loucura total. Decidi começar a abrir caminho através da multidão, quando um homem de casaco preto se dirigiu a mim e, com uma voz desesperada, me disse que tinha perdido a carteira. Antes que eu pudesse dizer uma só palavra, pôs na minha mão um cartão-de-visita cinzento.

— Por favor, telefone-me para o número que está no cartão se, por acaso, a encontrar — pediu.

Olhei para ele, encolhi os ombros e respondi:

— Está bem, assim farei. 

O homem virou-se para abordar outra pessoa e eu fui tentar encontrar o presente para a minha mãe. Procurei por todo o lado, mas sem sorte nenhuma. Finalmente, quase mesmo no fim do centro, vislumbrei uma pequena loja de antiguidades e artigos de arte em vidro. Pareceu-me que poderia ter algo de interessante — algo diferente do que eu tinha visto em todas as outras lojas. Como não tinha nada a perder, entrei.

Havia papéis e caixas por todo o lado, arremessados por pessoas em busca da prenda perfeita. Enquanto tentava abrir caminho através daquela pilha de coisas, tropecei numa caixa no corredor e caí. Quando peguei na caixa para a repor na prateleira, reparei numa embalagem verde e plana escondida por trás do papel de embrulho. Abri-a e encontrei um belíssimo prato de vidro com a imagem de um presépio. Ali estava ela, a prenda perfeita, atirada para o meio do lixo à espera de que eu a encontrasse.

Sorri abertamente, agarrei no objeto e dirigi-me à caixa. Enquanto a empregada registava a minha compra, pus a mão no bolso para tirar o dinheiro. O meu bolso estava vazio! Comecei a remexer em todos os bolsos quando me apercebi de que tinha deixado a carteira em casa. Esta era a minha última oportunidade de arranjar uma prenda para a minha mãe! O centro comercial fechava dentro de dez minutos e eu levaria vinte minutos para ir até casa e voltar. Comecei a entrar em pânico.

Fiz, então, a única coisa de que me lembrei naquele momento: corri para fora da loja e comecei a pedir dinheiro às pessoas. Algumas olharam para mim como se eu fosse louco; outras ignoraram-me. Finalmente, desisti, e atirei-me para cima de um banco, sentindo-me totalmente derrotado. Ao reparar que um dos meus sapatos tinha os cordões desatados, baixei-me para os apertar.

 De repente, vi uma carteira castanha mesmo ao lado da perna da frente do banco. Pus-me a pensar se poderia ser a carteira que o homem de casaco preto tinha perdido. Abri-a e li o nome que constava na carta de condução. Sim. Era dele. Quando descobri lá dentro trezentos dólares, a minha boca abriu-se de espanto.

Sem qualquer hesitação, procurei um telefone público e fiz uma chamada a pagar no destino para o número no cartão-de-visita cinzento. O homem atendeu e disse que ainda se encontrava no centro comercial. Feliz e aliviado, perguntou se eu podia ir ter com ele a uma sapataria que, por acaso, era precisamente ao lado da loja de antiguidades. Quando lá cheguei, o homem estava tão entusiasmado que me agradeceu vezes sem conta, enquanto verificava se o dinheiro e os cartões de crédito ainda lá estavam dentro.

Virei-me para sair do centro comercial e regressar a casa, quando senti uma mão no ombro.

— Acho que nunca encontrei um miúdo como tu, que devolvesse todo esse dinheiro quando podia ter ficado com ele e ninguém se teria apercebido — disse o homem.

Depois, abriu a carteira e estendeu-me quatro notas de vinte dólares, agradecendo-me de novo. Agradeci-lhe, excitado, e disse-lhe que tinha que me apressar para comprar a prenda da minha mãe antes que o centro fechasse.

Comprei o prato de vidro e fui para casa. De repente, fez-se luz na minha cabeça e compreendi que tinha sido uma espécie de anjo do Natal para o homem que tinha perdido a carteira, e que ele tinha sido o mesmo para mim quando eu tinha esquecido a minha. “Anjos a dobrar!” pensei. Tinha a certeza de que nunca iria esquecer aquela véspera de Natal enquanto fosse vivo.

Na manhã seguinte, a minha mãe abriu a minha “prenda milagrosa” e o seu olhar revelou o quanto tinha gostado dela. Contei-lhe tudo o que tinha acontecido quando tentava encontrar a prenda ideal e a história ainda tornou o prato mais especial. Guarda-o ainda hoje.

O prato fá-la lembrar de mim, claro, e continua a lembrar-me de que podem acontecer coisas espantosas quando menos esperamos. Especialmente durante essa época especial chamada Natal.

David Scott

13 comentários:

Pedro Coimbra disse...

aprendi essa lição ainda menino - pede o que quiseres, nunca tires.
Mesmo que esteja perdido no chão, se não te pertence não guardes.
Abraço

chica disse...

Mais um lindo conto de Natal! Ótimo dia! bjs, chica

Teresa Isabel Silva disse...

Mais um conto que não conhecia, confesso que também não conheço muitos, por isso estou a adorar estas publicações!

Bjxxx
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Isa Sá disse...

Mais um bonito conto de natal

Isabel Sá  
Brilhos da Moda

Majo Dutra disse...

Gostei muito do conto, Elvira, mesmo muito.
Também eu já perdi a carteira no Shopping, há cerca de 40 anos,
com todo o meu 13º mês de ordenado que se destinava às compras
de Natal...
Não foi na véspera, mas pelo dia 12, sábado, muita gente...
Que aflição, que susto! Tinha-a deixado num canto do balcão da
cafetaria e alguém entregou-a ao empregado...
Inesquecível...
Saúde e tudo de bom.
Abraço
~~~~

Marina Filgueira disse...

¡Hola, Elvira!

Fantástico relato para estas fiestas navideñas,amiga. Yo no la perdí, me la robaron hace ya muchos años de esto, en el mercado de abastos.

Me ha encado el cuento, gracias.
Un abrazo, mi inmensa gratitud y estima.

Feliz Navidad y bendiciones.

Rosemildo Sales Furtado disse...

A recíproca é sempre verdadeira. Quem planta o bem, colhe o bem. Belo conto amiga. Mais uma ótima escolha.

Abraços e muita saúde e paz para ti e para os teus.

Furtado

Manu disse...

Um conto lindíssimo que enaltece a honestidade.

Abraço Elvira

Ps. Estava com alguma dificuldade em comentar

Tais Luso disse...

Elvira... que aflição ler teu belo conto! !Você conseguiu me deixar ansiosa, até encontrar a carteira do homem, amiga!
Isso é ser boa contista.
Um beijo, e eu que ainda não comprei quase nada?! Estou começando a entrar em pânico.

Gaja Maria disse...

Que conto bonito e cheio de significado num altura como esta. Abraço Elvira

Clara disse...


É por isso que eu continuo a dizer que «Natal» tem de ser todos os dias...
(emocionei-me com este conto... sou uma lamechas inveterada)

Ainda hoje em conversa entre colegas de trabalho falei sobre a minha fé no meu anjo da guarda. 😊

Beijinhos de Fé
(^^)

Sam Seaborn disse...

Crescemos mas a verdade é que não devemos tirar a magia do Natal... a mensagem a esperança que o mundo consegue ser melhor... mais justo... mais bondoso e quem sabe, fazer por manter esta bela mensagem prolongada no tempo.

Abraço

teresa dias disse...

Elvira, aplaudo a escolha e partilha deste belíssimo conto de David Scott.
Realmente, "podem acontecer coisas espantosas quando menos esperamos".
Beijo.