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13.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXIV



Dez anos depois…

Era noite de Natal.  A casa estava em festa, havia um enorme presépio montado no átrio entre as plantas. Em casa, na sala, num grande vaso de cerâmica um pinheiro natural enfeitado com bolas de várias cores e muita luz, sob a qual se viam vários embrulhos.

No salão de jogos, João e o irmão, Gustavo e Mário, marido e pai de Inês, disputavam um renhido jogo de snooker. No antigo quarto dos bebés, hoje o quarto dos rapazes, estes brincavam com Martim, o filho mais velho de Inês, agora com doze anos. Apesar dos quase dois anos que os separava, os três sempre se deram muito bem, assim como com Bernardo, de onze anos, enteado de Olga.

No quarto de Maria esta também estava entretida com Marta, a irmã de Martim, e Sofia a filha de David e Helena. Desde muito nova Maria sempre mostrara um grande sentido de responsabilidade e sentia-se muito feliz  e protetora por ser a mais velha das três.

Na casa de jantar a grande mesa já estava posta, e na cozinha a ceia que fora encomendada num conhecido restaurante aguardava a hora de ir para a mesa. A cozinheira, fora dispensada de cozinhar, mas por ser viúva e os filhos terem emigrado para o Canadá, tinha sido convidada para jantar com eles. Afinal eles, não tinham nascido em berço de ouro, muito pelo contrário. Apenas muito trabalho e alguma sorte, os enriquecera, mas sabiam bem o que era viver com dificuldades, e sobretudo o que era a solidão.

Enquanto se arranjava para o jantar, Teresa, pensava na mãe e na avó. Como ela gostaria que as duas tivessem visto o rumo que a sua vida tinha tomado, e que tivessem partilhado um pouco da sua felicidade. 

Dez anos se tinham passado e nesse tempo quanta coisa acontecera.  Para trás ficara, aquele maravilhoso fim de semana, que fora a sua mini lua de mel e dera  verdadeiramente início `vida deles enquanto casal,  o  casamento religioso e o batizado dos meninos no dia em que eles festejavam o seu primeiro aniversário. A bonita festa, primeiro no hotel com alguns convidados e clientes importantes e depois muito mais emotiva, no refeitório da empresa com todos os trabalhadores.

 A ida dos filhos aos dois anos, para a creche da empresa, pois João dissera que preferia tê-los ali, não só porque estava mais perto deles, como porque eles deviam aprender de pequeninos a conviver com os filhos dos trabalhadores como seus iguais. A sua volta à vida empresarial,  quando Inês decidira que era hora de deixar a gerência da "Flor da Avenida", para voltar a engravidar. 

A venda da sua casa, e a concretização do sonho de construir no terreno que tinha na aldeia, um pequeno hotel rural, cuja gerência estava a cargo de Júlia Matias, uma das suas amigas de infância, filha do dono, do único café da aldeia. O hotel, onde eles já por várias vezes, tinham passado alguns dias de descanso e onde ela tinha uma certa vaidade, em se mostrar com o marido e filhos, mostrando a todos que não acabara sozinha como a mãe e avó.

Por causa da amizade dos seus filhos, com Bernardo, filho de um dos engenheiros da empresa, o menino tornara-se visita habitual da sua casa, assim como Olga que era considerada como uma irmã, não só pelo que ela e a mãe representaram no passado do seu marido, mas também porque ela era sua madrinha de casamento, e madrinha de batismo de Maria. E foi na sua casa que Olga e Duarte, o pai do Bernardo, se conheceram num dia em que ele foi buscar o filho e se apaixonaram. Com cinquenta e dois anos, Duarte não fora muito feliz até aí. A sua primeira mulher nunca quisera ter filhos, vivera mais para a carreira do que para ele, tanto assim, que quando lhe ofereceram um lugar de destaque na sede da empresa em Madrid, ela aceitou, e quando ele se negou a acompanhá-la não hesitou em pedir-lhe o divórcio. A segunda mulher morrera de desastre seis meses depois do nascimento de Bernardo, deixando-o sozinho com o filho.

A relação entre os dois podia ser tardia, mas foi tão rápida e tão apaixonada, que Olga na altura com quarenta e nove anos, se mudou para casa de Duarte, três meses depois de se conhecerem. E seis meses depois estavam casados e ela criava Bernardo com todo o amor, com se fosse sua mãe. Isso fora há sete anos e o casal continuava a irradiar felicidade.

- Então querida, ainda estás demorada? – perguntou João ao entrar no quarto. Já acabámos o jogo e as crianças estão com fome. Estão todos à tua espera.

-Vou já, estava relembrando o que foram estes dez anos, como somos felizes e de repente lembrei que a minha avó sempre dizia que “Deus escreve direito por linhas tortas” Já pensaste que se não tivesses estado doente, não terias feito a reserva de sémen, os médicos não se teriam enganado e nós nunca nos teríamos conhecido?

 -E tu já pensaste que aquilo que pensávamos ser uma cilada que a vida nos tinha armado, foi afinal a porta para uma nova vida, plena e feliz? – disse João abraçando-a e beijando-a.

Segundos depois ouviu-se uma batida na porta e a voz de David soou trocista.

-Se os pombinhos não têm fome, nós pudemos ir jantando?

Dando o beijo por terminado, os dois saíram enlaçados em direção à casa de jantar.

 

 Fim


Elvira Carvalho

 

27.12.19

CONTOS DE NATAL - A MANJEDOURA VAZIA





— Já não há mais nenhuma — disse Michael, empilhando a última caixa no átrio da minha casa.

Inspecionei as embalagens poeirentas com alguma expectativa. Estas decorações de Natal, que tinham sido guardadas depois da morte da mãe de Michael, simbolizavam, de alguma forma, o nosso futuro como casal. Tínhamos, até agora, partilhado todo o tipo de atividades típicas da quadra: festas, compras, decorações. Mas, como íamos casar dentro de alguns meses, eu queria criar algumas tradições que fossem só nossas.


Algo de significativo e de único para ambos.

Abrir estas caixas era o início dessa partilha.

— Olha só, o nosso velho presépio! — exclamou Michael, abrindo uma caixa embrulhada com cuidado. — A minha mãe punha-o sempre debaixo da árvore de Natal.

Com cuidado, desembrulhei Maria, José e a manjedoura. Enfiado dentro dos jornais estava um estábulo. Coloquei-o no chão, debaixo da árvore, e dispus os três Reis Magos, um pastor, uma ovelha e uma vaquinha. Estavam todos menos…

Verifiquei de novo os pacotes e procurei debaixo dos jornais empilhados a figura que faltava. Nada.

— Não encontro o Menino Jesus — disse para Michael, que estava ocupado na sala de jantar.

Quando chegou junto de mim, repeti:

— Não encontro o Menino Jesus do presépio.

A cara de Michael ficou tensa.

— Mas ele tem de estar aqui. Estava aqui no último Natal da minha mãe.

Horas mais tarde, depois de todas as caixas terem sido abertas, continuava a faltar o Menino Jesus. Michael sugeriu que voltássemos a embrulhar o presépio.

— Não — discordei. — Amanhã vou tentar encontrar um menino que condiga com o conjunto.

Despedimo-nos e Michael foi para casa.

No dia seguinte, coloquei a manjedoura na minha carteira e fui a uma loja temática na hora de almoço. Não havia nenhum Menino Jesus. Depois do trabalho, ainda procurei noutras lojas, mas nenhuma delas vendia o Menino Jesus em separado. Pensei comprar outro conjunto de figuras, mas nenhum dos meninos cabia na manjedoura do presépio de Michael.

Uns dias mais tarde. quando ele veio jantar a minha casa, contei-lhe o sucedido. Depois do jantar, comecei a arrumar as figurinhas na caixa. Michael interrompeu o meu gesto, colocando as suas mãos nas minhas.

— Penso que devemos deixá-lo como está.

— Mas não podemos ter um presépio sem Menino Jesus — retorqui.

— Vem comigo — pediu Michael.

Afastámo-nos da árvore e ele disse:

— Olha para o presépio. À primeira vista, nem sequer notamos que falta alguma coisa. Só quando olhamos com atenção é que vemos que não há Menino Jesus.

Inclinei a cabeça e contemplei a cena. Michael tinha razão.

— Mas ainda não percebo onde queres chegar — disse eu.

— No meio das decorações, das listas de compras e das festas, perdemos, muitas vezes, Jesus de vista. É como se ele se perdesse no meio do Natal.

Foi então que compreendi.

E, assim, demos início à nossa primeira tradição de Natal, uma tradição significativa e única para a nossa família. Todos os anos, quando colocamos as figuras do presépio, deixamos a manjedoura vazia.

É a forma de nos lembrarmos de procurar Cristo no Natal.

Stephanie Welcher Thompson

11.12.19

CONTOS DE NATAL - ANJOS A DOBRAR








Ao acordar ao som do despertador, sorri de alegria por ter que esperar só mais um dia.

Saí da cama e vesti-me com as primeiras roupas que apanhei. Revistando a cozinha à procura de algo para o pequeno-almoço, decidi-me por uma taça de cereais e umas sobras de pizza da noite anterior. Depois de ver desenhos animados, jogar alguns jogos de vídeo e conversar on-line com alguns amigos, ocorreu-me de repente que não tinha comprado um presente para a minha mãe. Era véspera de Natal e as lojas iriam fechar dentro em breve. Enfiei uns sapatos, agarrei na minha prancha de skate e lá fui eu para o centro comercial.


Abri a pesada porta de vidro para entrar no centro comercial e defrontei-me com uma visão inacreditável. As pessoas corriam em pânico por todo o lado, tentando encontrar o presente perfeito para os seus entes queridos. Era a loucura total. Decidi começar a abrir caminho através da multidão, quando um homem de casaco preto se dirigiu a mim e, com uma voz desesperada, me disse que tinha perdido a carteira. Antes que eu pudesse dizer uma só palavra, pôs na minha mão um cartão-de-visita cinzento.

— Por favor, telefone-me para o número que está no cartão se, por acaso, a encontrar — pediu.

Olhei para ele, encolhi os ombros e respondi:

— Está bem, assim farei. 

O homem virou-se para abordar outra pessoa e eu fui tentar encontrar o presente para a minha mãe. Procurei por todo o lado, mas sem sorte nenhuma. Finalmente, quase mesmo no fim do centro, vislumbrei uma pequena loja de antiguidades e artigos de arte em vidro. Pareceu-me que poderia ter algo de interessante — algo diferente do que eu tinha visto em todas as outras lojas. Como não tinha nada a perder, entrei.

Havia papéis e caixas por todo o lado, arremessados por pessoas em busca da prenda perfeita. Enquanto tentava abrir caminho através daquela pilha de coisas, tropecei numa caixa no corredor e caí. Quando peguei na caixa para a repor na prateleira, reparei numa embalagem verde e plana escondida por trás do papel de embrulho. Abri-a e encontrei um belíssimo prato de vidro com a imagem de um presépio. Ali estava ela, a prenda perfeita, atirada para o meio do lixo à espera de que eu a encontrasse.

Sorri abertamente, agarrei no objeto e dirigi-me à caixa. Enquanto a empregada registava a minha compra, pus a mão no bolso para tirar o dinheiro. O meu bolso estava vazio! Comecei a remexer em todos os bolsos quando me apercebi de que tinha deixado a carteira em casa. Esta era a minha última oportunidade de arranjar uma prenda para a minha mãe! O centro comercial fechava dentro de dez minutos e eu levaria vinte minutos para ir até casa e voltar. Comecei a entrar em pânico.

Fiz, então, a única coisa de que me lembrei naquele momento: corri para fora da loja e comecei a pedir dinheiro às pessoas. Algumas olharam para mim como se eu fosse louco; outras ignoraram-me. Finalmente, desisti, e atirei-me para cima de um banco, sentindo-me totalmente derrotado. Ao reparar que um dos meus sapatos tinha os cordões desatados, baixei-me para os apertar.

 De repente, vi uma carteira castanha mesmo ao lado da perna da frente do banco. Pus-me a pensar se poderia ser a carteira que o homem de casaco preto tinha perdido. Abri-a e li o nome que constava na carta de condução. Sim. Era dele. Quando descobri lá dentro trezentos dólares, a minha boca abriu-se de espanto.

Sem qualquer hesitação, procurei um telefone público e fiz uma chamada a pagar no destino para o número no cartão-de-visita cinzento. O homem atendeu e disse que ainda se encontrava no centro comercial. Feliz e aliviado, perguntou se eu podia ir ter com ele a uma sapataria que, por acaso, era precisamente ao lado da loja de antiguidades. Quando lá cheguei, o homem estava tão entusiasmado que me agradeceu vezes sem conta, enquanto verificava se o dinheiro e os cartões de crédito ainda lá estavam dentro.

Virei-me para sair do centro comercial e regressar a casa, quando senti uma mão no ombro.

— Acho que nunca encontrei um miúdo como tu, que devolvesse todo esse dinheiro quando podia ter ficado com ele e ninguém se teria apercebido — disse o homem.

Depois, abriu a carteira e estendeu-me quatro notas de vinte dólares, agradecendo-me de novo. Agradeci-lhe, excitado, e disse-lhe que tinha que me apressar para comprar a prenda da minha mãe antes que o centro fechasse.

Comprei o prato de vidro e fui para casa. De repente, fez-se luz na minha cabeça e compreendi que tinha sido uma espécie de anjo do Natal para o homem que tinha perdido a carteira, e que ele tinha sido o mesmo para mim quando eu tinha esquecido a minha. “Anjos a dobrar!” pensei. Tinha a certeza de que nunca iria esquecer aquela véspera de Natal enquanto fosse vivo.

Na manhã seguinte, a minha mãe abriu a minha “prenda milagrosa” e o seu olhar revelou o quanto tinha gostado dela. Contei-lhe tudo o que tinha acontecido quando tentava encontrar a prenda ideal e a história ainda tornou o prato mais especial. Guarda-o ainda hoje.

O prato fá-la lembrar de mim, claro, e continua a lembrar-me de que podem acontecer coisas espantosas quando menos esperamos. Especialmente durante essa época especial chamada Natal.

David Scott

17.12.18

UMA ESTRELA NA NOITE




Matias sentou-se, muito encolhido. Todos os pastores tinham partido e ele ficara sozinho.
— Ficas a tomar conta das ovelhas — dissera o velho Simão antes de se fazerem ao caminho. — Já és suficientemente crescido.
O seu colega Tobias ainda lhe metera medo, sussurrando:
— E quando os lobos vierem, não fujas.
O facto é que Matias tinha medo. Há já alguns dias que o uivar do lobo ecoava até ao vale e aquela noite parecia-lhe agora mais escura do que as outras…
Mas talvez fosse por causa da luz estranha que brilhara há pouco, por volta da meia-noite.
De um momento para o outro, o céu ficou muito claro e brilhante. As estrelas começaram a dançar e a lua deu uma cambalhota. Os pastores ficaram cheios de medo e até o velho Simão começou a tremer. Só que, depois, aparecera no céu uma figura de luz que lhes disse:
— Não tenham medo. Trago-vos uma boa notícia. Alegrem-se, pois hoje nasceu Jesus Cristo, o Salvador. Que a paz esteja na terra!
Matias ouvira muito bem: a voz falara de um menino envolto em panos que estava deitado numa manjedoira e dissera que tudo tinha acontecido em Belém.
De repente, o céu inteiro tinha brilhado qual manto de ouro. Ouviram-se sons maravilhosos, uma música ímpar soara. E os pastores partiram: queriam ver o menino no presépio e levar-lhe prendas.
Só Matias é que ficou para tomar conta dos rebanhos.
A luz apagara-se há muito tempo, e agora encontrava-se sozinho na escuridão. Na mão direita segurava o cajado de pastor, e apertava com força no punho esquerdo um dente de leão. Matias partira na primavera com os pastores e, na despedida, o pai oferecera-lhe aquele canino de leão.
— Quando tiveres medo – dissera — aperta o dente com força. Alguma da força do leão vai passar para ti.
Matias ainda só pedira ajuda ao dente por duas vezes. A primeira, quando tivera de procurar sozinho um cordeiro perdido. Da segunda, quando uns ladrões andaram a rondar a cerca das ovelhas (mas os pastores conseguiram afugentá-los). Nessa altura, o dente de leão também o ajudara. E, de ambas as vezes, o medo de Matias desaparecera…
Nessa noite, também começou, aos poucos, a sentir a força do dente. Levantou-se e foi até junto do rebanho. Os pastores tinham construído um muro de pedras grossas, com uma entrada muito estreita por onde só passava uma ovelha de cada vez. E, todas as noites, as ovelhas eram conduzidas de volta a casa.
Matias tinha recebido de Simão uma tarefa importante: devia contar as ovelhas quando passavam para dentro da cerca. Colocava-se de pernas abertas em cima das pedras que estavam à direita e à esquerda da porta e, de cada vez que uma ovelha passava, dava-lhe uma palmada e contava em voz alta. Ia de um a duzentos e trinta e um. Quando estavam todas dentro da cerca, a saída era fechada com silvas.
— Eu conheço-as e elas conhecem-me a mim — dizia ele com orgulho.
Matias subiu para o muro. As ovelhas tinham-se deitado. De repente, soou bem perto um longo uivo. Mas as ovelhas não ergueram as cabeças. Matias agarrou com mais força no cajado. Pareceu-lhe sentir que o dente de leão ficara muito quente. Olhou fixamente para a escuridão. O olhar não via muito longe, mas não avistou sombra alguma de lobo. Admirou-se que as ovelhas não se tivessem erguido de um salto nem balissem de medo e se juntassem, como faziam sempre que os lobos se aproximavam.
Ter-se-ia enganado? Não haveria lobo nenhum?
Mas as dúvidas dissiparam-se e então pode ver com nitidez: perto dele, seis, sete sombras escuras deslizaram furtivamente e entraram, saltando o muro. Os lobos! Matias foi então tomado pelo medo.
Fugir, foi a primeira coisa que pensou, mas ficou como que paralisado em cima do muro. Reinava um silêncio invulgar. As ovelhas tinham-se levantado mas estavam calmas, e os seus balidos baixos não soavam a gritos de medo. Matias apertou o dente de leão com quanta força tinha! Caminhou com passos pequeninos por cima do muro de pedra e aproximou-se do local por onde os lobos tinham saltado. Tinha o cajado levantado, pronto para bater. Depois, olhou melhor. Seria verdade, ou estava a ter um sonho bonito?
O rapazinho bateu com o cajado na própria cabeça. Não, não estava a dormir. Fascinado, olhava para uma cena tão bela quanto pacífica: os lobos tinham-se colocado em círculo, com as caudas juntas, e os focinhos virados para as ovelhas. Estas farejavam os lobos e não mostravam o menor sinal de medo. Em seguida, uma após outra, voltaram a deitar-se. Os lobos também se deitaram e ali estavam, lobo ao lado de ovelha, ovelha ao lado de lobo….
Matias baixou o cajado. E foi então que ouviu um velho carneiro perguntar aos lobos:
— Porque é que vocês se lançam sobre nós nas outras noites? Porque nos querem comer?
Um dos lobos respondeu:
— Só fazemos isso quando a fome nos atormenta. Vocês comem erva e verdura. Nós vivemos da carne dos animais.
— Que pena! — suspirou o carneiro. — Que pena que não seja tudo sempre tão pacífico como nesta noite!
O lobo disse:
— Na nossa alcateia conta-se que antes era diferente. No paraíso, todos os animais se davam bem uns com os outros, e isso voltou a acontecer quando Noé construiu a arca e salvou os animais do grande dilúvio. Também nessa altura o leão e o cordeiro, o lobo e a ovelha, o tigre e o vitelo se deram bem e não fizeram mal uns aos outros. Hoje é uma dessas horas em que a paz reina por todo o lado.
O carneiro abanou a cabeça e disse:
— Pena que não seja sempre assim.
O lobo tentou consolá-lo, dizendo:
— Já ouvimos que um dia a paz há de voltar a reinar entre os animais e também entre os homens.
O carneiro não conseguiu deixar de sorrir.
— Isso seria maravilhoso — disse. — Só esperemos que essa paz venha antes que os homens nos dizimem e antes que vocês nos tenham comido…
O lobo rosnou e mostrou a dentadura afiada. O carneiro assustou-se. Não sabia que os lobos rosnam e mostram os
dentes quando se riem.
Matias ainda se encontrava de pé, em cima do muro. De repente, os lobos levantaram-se e espetaram os narizes no ar.
— Estamos muito inquietos… — rosnou um.
Galgaram o muro e desapareceram na escuridão. Logo de seguida, Matias ouviu Simão e os outros pastores que regressavam.
Matias contou-lhes o que vira e ouvira. Tobias riu-se dele e disse:
— Preguiçoso, de certeza que adormeceste e sonhaste.
— Cala-te! — disse Simão a Tobias. — Já te esqueceste que os anjos anunciaram a paz? Já te esqueceste de tudo? Matias viu um lampejo dessa luz da paz com os próprios olhos.
— Mas não vi o menino na manjedoura — disse Matias.
— Consegues ver aquela estrela clara, ali, no céu? — perguntou-lhe Simão.
— Claro, Simão, tem um brilho muito mais claro do que nas outras noites.
— Se quiseres, Matias, corre na direção que a estrela te indica. Vais encontrar o estábulo e a manjedoira, o menino, Maria e José.
— Assim sozinho, pela noite escura?
— Só se tu quiseres — respondeu-lhe Simão.
Matias ainda hesitou, mas depois lembrou-se do dente do leão.
Segurou-o com força e partiu.
Desta vez, a força do leão parecia servir de pouco: Matias estava cheio de medo e começou a tremer…
— Se tivesse ficado ao pé das ovelhas… — lamentava-se.
Estava para dar meia volta quando viu, desviado do caminho e não muito longe dele, o estábulo.
E nele entrou.
Maria embalava o menino. José sentara-se a um canto e dormia. O boi e o burro, que também estavam no estábulo, fungavam e tinham os olhos semicerrados. Maria reparou no jovem pastor e acenou-lhe com a mão para que se aproximasse. Matias chegou muito perto do menino. Maria pegou-lhe na mão que apertava o dente de leão, e disse:
— Se quiseres, podes acariciá-lo.
Matias poisou o dente no cobertor e tocou cautelosamente com um dedo na cabeça do menino. Foi percorrido por uma enorme alegria e sentiu o seu medo a desaparecer…
E ficou a contemplar o menino.
— Tenho de voltar para junto do rebanho — sussurrou por fim a Maria.
— Não te esqueças do dente de leão — lembrou-lhe ela.
Matias hesitou um instante. Depois disse, baixinho:
— É a minha prenda para o menino.
Abandonou o estábulo e saiu para a noite.
No céu, a este, a luz do novo dia mostrava-se timidamente. Matias desatou a correr. Todo ele rejubilava. O medo tinha desaparecido por completo.
Os pastores dormiam e só Tobias estava sentado perto do fogo.
— Então? — perguntou. — Tiveste medo? O teu dente ajudou-te?
— Já não preciso do dente do leão. Deixei-o ao menino. Já não tenho medo.
Willi Fährmann; Astrid Krömer
Es leuchtet hell ein Stern in dunkler Nacht
Würzburg, Edition Buchbär, 2001
(Tradução e adaptação

12.12.16

O PRIMEIRO PRESÉPIO VIVO


Foto de um presépio vivo feito pelos escuteiros de S, Francisco de Assis, em Cabo Verde, ano 2013. Foto Daqui







Em Itália, na aldeia de Grecchio, há séculos que os habitantes vêm contando de pais para filhos esta linda história:
«Francisco de Assis e os seus amigos tinham escolhido uma gruta próxima da aldeia para viverem uma vida de pobreza. Assim fora decidido entre eles. Afastados dos demais, os quatro jovens companheiros aproveitavam o isolamento para rezar.
Uma bela manhã, ao aproximar-se o Natal, Francisco resolveu que não iriam passar a festa sozinhos.
— Gostava que celebrássemos aqui o Natal — anunciou ele aos outros irmãos.
— Na gruta? — perguntou, admirado, o Irmão Rufino.
— Então Jesus não nasceu na pobreza? — respondeu Francisco. — O presépio de Belém não é semelhante à nossa gruta?
— Que óptima ideia! — aplaudiu o Irmão Leão .
— Então, mãos à obra! — exclamou Francisco, dirigindo-se de imediato para a aldeia.
Horas depois, ouvem-se mugidos na serra. Era o Irmão Leão que tentava trazer um boi para a gruta. Não era tarefa fácil! Atrás, vinham o Irmão Ângelo e o Irmão Rufino com um burro carregado com uma manjedoura que um morador emprestara. Durante todo aquele tempo, Francisco encarregara-se de encontrar figurantes para o presépio: uma rapariga para fazer de Maria e um rapaz, de José, um ou dois pastores e, claro, um recém-nascido!
Ao cair da noite, tudo estava pronto.
A jovem Maria foi a primeira a chegar. Estava muito comovida. Vieram depois os pastores, cada um com um borrego às costas. Mas José nunca mais chegava! De facto era tão tímido que receava não estar à altura do papel. Por fim, uma mulher pousou uma criança na manjedoura. Tinha-a agasalhado muito bem, com os bracinhos bem apertados ao longo do corpo para não apanhar frio ! A missa podia começar!»
Conta-se que este primeiro presépio vivo tocou profundamente os aldeãos que assistiram a esta missa tão admirável. Um acontecimento em particular marcou os espíritos: quando os sinos da aldeia bateram, ao longe, as doze badaladas da meia-noite, o recém-nascido acordou, abriu os olhos e sorriu!
E, não se sabe como, dos agasalhos bem enfaixados tirou os bracinhos para os estender na direcção dos habitantes da aldeia… Um autêntico milagre de Natal!


Christine Pedotti
24 histoires de Noël pour attendre Jésus
Paris, Mame, 2007
(Tradução e adaptação)