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23.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVI


Três semanas mais tarde, no supermercado da sua zona, Luísa acabara de colocar um saco com cenouras, ao lado da alface, no carrinho onde já tinha outras compras, e dirigiu-se à bancada das frutas a fim de comprar maçãs. No momento em que ia a chegar, um homem que estava à sua frente, voltou-se para por no seu carrinho de compras, um saco com laranjas, e o seu coração acelerou ao ver que era Nuno Albuquerque.  Ele também a viu e esboçou um sorriso, que no entanto não iluminou os seus olhos escuros. 

Sem poder recuar, nem fingir que não o tinha visto ela cumprimentou-o:
- Olá, como estás?
- Bem. E tu?
- Também. – Tirou um saco e começou a por nele algumas maçãs. Pelo canto do olho, olhou à volta, procurando alguma figura feminina que pudesse ser a mulher dele, mas não viu ninguém.
-Costumas vir às compras aqui? – perguntou ele, vendo como ela dava um nó no saco das maçãs, e as colocava junto das outras compras.
- É o que fica mais perto da minha casa. E tu?
- Estou na mesma situação.

Era estranho. Por razões diferentes, ambos gostariam de não se terem encontrado. Mas agora que o acaso, os juntou, nem um nem outro tinha vontade de partir. Ambos queriam saber mais do outro, mas ali estavam falando de trivialidades, sem se atreverem a fazer as perguntas que verdadeiramente lhes interessavam. De súbito ambos esticaram a mão para agarrar uma caixa de morangos, e as mãos tocaram-se. Sentindo um tremor percorrendo-lhe o corpo, como se tivesse levado um choque elétrico, Luísa apressou-se a retirar a mão recuando. Como era possível que dezasseis anos depois, ele lhe provocasse semelhante reação?

Claro que Nuno percebeu perfeitamente a perturbação feminina. Arqueou uma sobrancelha num sinal claro de estranheza. Não era possível que ela se tivesse sentido perturbada com um simples toque, tantos anos depois. Ou seria? Se assim fosse era a oportunidade de ele se vingar. Seria interessante, seduzi-la e fazer com que se apaixonasse por ele, e depois deixá-la, como ela fizera no passado. Este pensamento fez com que um sorriso sedutor lhe iluminasse o rosto, enquanto lhe estendia a caixa de morangos.

-Toma. Eu tiro outra para mim. Estás muito bonita.
- Obrigado. Desculpa, tenho de ir. Já acabei as minhas compras.
- Eu também vou.
- Estás… sozinho?
- Estamos conversando, portanto estou contigo, - disse sorrindo. - Com quem achas que devia estar? Já sou grandinho para precisar de ama. E mesmo  acreditando que não te interesse, informo-te que não tenho qualquer compromisso, a não ser com os meus doentes. E tu?
- Também não.
- Então podíamos combinar alguma coisa. Queres almoçar comigo?
- Não acho que seja boa ideia, Nuno.
Chegaram às caixas, e entraram em filas diferente acabando assim a conversa.





20.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE III





Teresa sempre lhe dizia que trabalhava demais. Numas férias, pelo Natal, há oito anos atrás, quis que ele a acompanhasse à terra a fim de conhecer a sua família. Aquilo cheirou-lhe a compromisso e isso era algo que estava fora das suas ambições. Ela foi sozinha, e ele aproveitou para se despedir do banco, entregar na editora, o trabalho que tinha em mãos e partir. A Inglaterra pareceu-lhe o melhor sítio para levar a cabo o seu plano de enriquecimento e foi para lá que seguiu. Nunca mais soube da jovem Teresa.
  Que seria feito dela? Teria regressado à terra quando acabou o curso, ou teria ficado na cidade? Devia ter… trinta e um anos. E se era linda quando a conheceu, agora devia ser uma mulher muito bela. Talvez tivesse casado, quem sabe tinha filhos. Passou a mão pela testa, como se quisesse afastar aqueles pensamentos.
Devia concentrar-se no negócio do dia seguinte. Estava prestes a comprar mais uma empresa, para juntar ao lote das que já tinha. Naqueles oito anos, construíra quase um império. E tudo começou com a compra de uma pequena fábrica de loiça, em vias de falência. Quando conseguiu erguê-la e já lhe dava lucro comprou outra.
Tinha-se rodeado de pessoal eficiente e de confiança. Tornara-se num negociador implacável. Por vezes, sentia – se como um abutre humano sempre seguindo aqueles que estavam na pré falência.
Os seus negócios eram tão diversificados que iam desde a fruta até aos medicamentos.
Agora estava na eminência de adquirir uma empresa de produtos para o lar, no seu país. Já tinha apresentado uma boa proposta, e no dia seguinte se veria se o negócio se concretizava.
Pensou que talvez fosse a sua última aquisição. Sentia-se cada dia mais cansado. Quase não viveu com a ânsia de enriquecer, e agora que sentido tinha a sua vida? Com quem partilhar aquela esplêndida casa?
Se ao menos a mãe fosse viva. Mas coitada, partira antes de ver o filho concretizar os seus sonhos de grandeza.
Estava a ficar velho. Decididamente. Só assim se justificavam os sentimentos que ultimamente o vinham assaltando.
Se ao menos tivesse um irmão, um sobrinho, alguém de família. Mas apenas lhe restavam uns primos, com quem nunca teve afinidade e que segundo informações recentes tinham emigrado para o Canadá.
 Estava sozinho. Olhou o relógio. Quase duas horas. Eram horas de dormir. Levou o copo, para a cozinha
Depois dirigiu-se à casa de banho.
Tomou um duche, vestiu apenas uns calções de pijama, escovou os dentes e dirigiu-se ao quarto.
Puxou a colcha para trás, e antes de se deitar, lançou um breve olhar para a cama. Demasiado grande para a sua solidão.




15.5.18

RENASCER - XXXVIII







Vejo que estão todos a achar lenta esta história. Lembrem-se que estamos em 1969. Nesse tempo as únicas coisas rápidas que existiam eram os ritmos musicais.  Posso garantir-vos uma coisa. Já leram muito mais do que aquilo que falta. 




5.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE IV





A sua estatura, não ultrapassava o metro e sessenta, mas era bem proporcionada e o corpo apresentava umas curvas tentadoras. Era empregada de uma pastelaria perto da sua casa, onde ele entrara uma vez por acaso, a fim de tomar o pequeno-almoço antes de ir para o hospital, e de onde acabou por se tornar freguês diário por causa dos lindos olhos de Odete, e do seu jeito tímido e simpático tão diferente das mulheres com quem ele se dava ultimamente.
Encantou-se com ela, mas se por um lado compreendeu que a jovem não era mulher que se contentasse com uma simples aventura sem compromisso por outro lado assustava-o a juventude dela, que tinha exatamente menos dez anos do que ele.  Porém um dia convidou-a para uma ida ao cinema, depois para um passeio e quase sem dar por isso, estavam apaixonados.
Odete era a mais nova dos quatro filhos da família Oliveira. Os dois irmãos mais velhos, ainda solteiros, eram emigrantes em França, para onde tinham partido em busca de uma vida melhor. A sua irmã casara com um inglês, que conhecera no Algarve onde estava a trabalhar, e vivia em Leeds. O seu pai era camionista e a mãe, trabalhava numa firma de limpezas. A jovem terminara o secundário e aceitou o primeiro emprego que lhe apareceu, precisamente naquela pastelaria perto da casa do médico. Aurora, a mãe de João aprovou feliz a escolha do filho. “Odete é uma mulher a sério, filho. Uma das nossas” dissera-lhe depois de conhecer a jovem. Casaram meio ano depois. Uma cerimónia simples mas muito emotiva. E durante  mais de três anos foram muito felizes.
Odete era uma mulher maravilhosa, apaixonada, que transformara a sua vida solitária e sem graça, numa vida alegre e feliz.  De súbito, um dia, a sua mulher começou a mudar. Naquela época ele trabalhava muito. Saía do hospital às quatro horas e seguia para o seu consultório, onde atendia até às oito, nove horas. E depois ainda havia as noites de plantão no hospital. Acabava por chegar a casa, como se costuma dizer de rastos e talvez por isso inicialmente nem se tivesse dado conta da mudança subtil da mulher. Uma manhã ao chegar depois de mais uma noite de plantão, encontrou-a com sinais evidentes de ter chorado. Interrogou-a e ela disse-lhe, que eram saudades de Laura a sua irmã. Pensou que era normal e como estava demasiado cansado foi-se deitar.