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4.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XVII






Pedro sentiu um nó na garganta, no momento em que Joana entrou na sala, com um lindo e longo vestido de seda em tom de pérola, com um simples encaixe de renda, na parte superior do peito e ombros como adorno. O cabelo caindo sobre os ombros, preso sobre a orelha direita por uma rosa de seda,  igual ao vestido.
Entrou pelo braço do padrinho, o marido da vizinha e amiga da mãe, que estava sempre presente para as ajudar. Nas mãos um ramo de frescas flores silvestres.
O noivo que sempre se julgara um homem frio, sentiu uma emoção nova, algo que nunca experimentara, algo que ele não sabia se o deixava feliz, ou desagradado, pois temia que essa emoção o fragilizasse.
A voz da Conservadora que ia celebrar a cerimónia, fez-se ouvir:
- Estamos aqui hoje reunidos para celebrar o casamento de Pedro Mesquita e Joana Teixeira.
A cerimónia continuou com a celebrante falando sobre os trâmites legais do casamento, até ao momento da habitual advertência
Se alguém conhecer algum impedimento a este matrimónio que se manifeste agora…
Depois de um curto silêncio a celebrante continuou:
-Pedro Mesquita é de sua livre vontade que aceita Joana Teixeira como sua esposa?
- Sim. É de minha livre vontade casar com Joana Teixeira.
- Joana Teixeira, é de sua livre vontade que aceita Pedro Mesquita como seu esposo?
-Sim. É de minha livre vontade casar com Pedro Mesquita
Na hora da resposta, a voz do noivo soou forte e firme. Pelo contrário a da noiva saiu fraca, após uma hesitação que durou apenas uma fração de segundo, mas que não escapou ao noivo, que lhe apertou a mão, em sinal de confiança. Trocaram então as alianças, e a cerimónia continuou com as palavras da celebrante:
- Em nome da Lei e da República Portuguesa, declaro Pedro Mesquita e Joana Teixeira unidos pelo casamento. Pode beijar a noiva.
O beijo foi longo. Não era a primeira vez que se beijavam, tinham-no feito várias vezes ao longo daquele mês, mas agora era diferente. Era o seu primeiro beijo como mulher casada e Joana sentiu que as pernas lhe fraquejavam.
Seguiram-se as assinaturas, e logo depois os noivos foram felicitados por familiares e convidados. Joana não conhecia nenhum dos presentes, mas simpatizou com Helena, a esposa do advogado, que lhe segredou ao ouvido, enquanto a abraçava. “A nova vida assusta, mas confia na felicidade. O Pedro, apesar do seu ar durão é um excelente homem.”. Também gostou da tia do noivo. A senhora  tinha um ar tão triste que a impressionou
Mais tarde, enquanto dançavam, o noivo perguntou:
-Sentes-te bem?
Ela respondeu com outra pergunta.
-Porquê?
Tens as mãos frias, apesar do calor que está. Hesitaste antes do sim e a tua voz soou trémula. Tive a sensação de que estiveste prestes a desistir. Estou enganado?
- Não.
- Agrada-me a tua sinceridade. Poderia perdoar se tivesses desistido ontem.Não te perdoaria se me fizesses passar por isso, hoje, aqui perante toda esta gente.
- Nunca o faria, mesmo que morresse de vontade. Somos sócios no mesmo negócio e eu respeito os meus compromissos. Acontece que os sentimentos, não reconhecem regras, nem se negoceiam.
-Conversaremos mais logo. Está na hora de abandonarmos a festa.



Este é o momento chave da história. A partir daqui pode nascer uma história de amor. Ou não. O que vocês desejam?

17.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXV





Duas horas mais tarde, Odete vestindo um conjunto de seda azul celeste, composto por calças e top, desceu do quarto de hóspedes, que ocupava desde que voltara na véspera, e encontrou o marido na cozinha, comendo uma sandes de presunto e bebendo cerveja.
- Que queres lanchar? – Perguntou levantando-se
- Nada. Não me apetece comer.
- Não podes estar muitas horas sem comer. Não ajudas em nada a tua mãe se ficares doente. 
- Eu sei. Como alguma coisa lá em casa se sentir fome.
- Então senta-te enquanto acabo de comer. Quero falar contigo antes de sairmos.
Sentou-se e aguardou.
-Estive ao telefone com o meu amigo e já está tudo tratado.
Amanhã às onze horas, vais com a tua mãe ao hospital S. Francisco, e pedes para falar com o Dr. Rui Teixeira. Dizes que vais da minha parte, ele já estará à vossa espera, para assinar os documentos de internamento. A tua mãe será operada, dentro de oito dias, mas terá que fazer vários exames, testes de anestesia, e tudo o que é necessário para acautelar possíveis problemas na cirurgia. Amanhã tenho um dia complicado no hospital, não posso acompanhar-vos, mas posso garantir-te que ela vai estar bem entregue, o Rui é do melhor que temos no país como cirurgião cardiovascular. E eu próprio o assistirei no dia da cirurgia, já combinámos.
Reparou no seu rosto preocupado.
- Não fiques assim. Vai correr tudo bem, verás. Queres um chá?
- Por favor, - respondeu quase sem voz.
Ele ligou a chaleira elétrica, pôs a garrafa de cerveja, vazia, no recetáculo de reciclagem, ligou a máquina do café, introduziu-lhe uma cápsula e tirou um café que encheu a cozinha de um aroma delicioso.
Depois de o beber, abriu o armário, procurou entre os vários pacotes de chá acabando por tirar um pacotinho de camomila que pôs na chávena despejando-lhe em cima a água que acabara de ferver.
- Açúcar, ou mel? Perguntou pondo a chávena na sua frente.
-Bebo simples. Obrigado.
- Come pelo menos duas ou três bolachas, - disse colocando o pote na sua frente. – Tens que te manter o mais serena possível. Sei que é difícil, mas tens de perceber que a tua mãe já está nervosa, e com medo, porque toda a gente teme a sala de operações mesmo que seja uma coisa muito simples, quanto mais quando mexe com o coração. Quanto mais serenos estiverem, tu e o teu pai, mais confiante, ela ficará. Os teus irmãos já sabem o que se passa?
- A minha irmã, ligou-me esta manhã, e com os meus irmãos falei ontem. Só o meu pai não sabe. Tive receio que ficasse desorientado e tivesse algum acidente.
- Está bem. Eu falo com ele quando chegar. Vai lavar a cara, para que a tua mãe não veja que choraste.
-Obrigado. Não sei como te agradecer. Tenho tanto medo que alguma coisa corra mal. Não estou preparada para perder a minha mãe.
- Não penses nisso, vai correr tudo bem, - disse passando-lhe a mão pelo rosto numa suave carícia  que ela não rejeitou

7.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XVIII


Olhou-se ao espelho enquanto escovava os longos cabelos escuros, recém-lavados. Ainda estava indecisa sobre como levá-los ao jantar. Soltos ou presos?
Tinha aceitado o convite para jantar que Salvador lhe fizera no dia anterior. Ele dissera que era um jantar informal, em casa do irmão.
Anete, tinha ficado feliz por conhecer a sua família. Salvador agradava-lhe. Nunca se tinha sentido assim entusiasmada por outro homem. Mas não podia iludir-se. Ele decerto contara à família que tinha encontrado alguém muito parecido com a cunhada, e e eles sentiram a mesma curiosidade que ela sentia. Tinha que ser isso. Se ele tivesse interesse em levá-la a jantar, o faria para qualquer outro lado onde estivessem sós. Depois no dia em que saíram juntos, e ele a acompanhou a casa, nem sequer tentou beijá-la.
Acabou de escovar o cabelo, e olhou-se de novo ao espelho. Não decididamente não ia levar os cabelos soltos. Com mãos experientes, puxou-os para o seu lado direito e começou a entrança-los.
Com a trança pronta repousando sobre o ombro direito, mirou-se de novo no espelho. Gostou do resultado. Olhou o relógio. Sete horas. Salvador dissera que vinha buscá-la às sete e meia. Em cima da cama repousava a roupa que escolhera para aquele jantar.
Passou uma sombra nos olhos para lhes dar mais profundidade, um ligeiro toque de cor nas maçãs do rosto, e um pouco de brilho nos lábios. Nunca gostara de grandes maquilhagens, e nem aquele jantar se prestava a isso.
Terminada a maquilhagem envergou o fato que escolhera. Era composto por umas calças, e um casaco de seda, azul celeste, cujo decote em bico pouco pronunciado realçava o colo sem se tornar indiscreto.
Optou por uns sapatos pretos, de salto em cunha e não muito altos.
O Outono ia adiantado, dentro em pouco chegaria o Inverno, as noites estavam frias, pelo que retirou do armário um casaco comprido castanho-mel.
A campainha tocou nesse momento. A jovem enfiou o casaco, pegou na mala, e saiu abotoando o agasalho enquanto descia as escadas.
Sentiu-se reconfortada com o olhar de admiração masculino, e sorriu enquanto ele pousava ao de leve os lábios na sua face, numa saudação social.
-Boa-noite. Estás muito bonita.
- Obrigado. Tu também estás muito bem.
E estava. Com as calças antracite, a camisola de gola alta branca que ressaltava o rosto moreno, e o casaco desportivo de cor  de camelo, cujo tom se confundia com a cor dos seus olhos. 
A curta viagem até à casa dos seus anfitriões decorreu em silêncio, cada um entregue aos seus próprios pensamentos. Só quando estacionou o carro, Salvador falou:
-Antes de entrar, gostaria de te pedir que não lhes contasses como nos conhecemos. Isto é, não gostaria que eles soubessem das minhas suspeitas sobre a fidelidade da minha cunhada.
- Por quem me tomas? -Perguntou zangada.  - Nunca iria falar sobre uma coisa dessas.                                                                         

31.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XII





David voltou-se. Parecia muito calmo, mas os seus olhos continuavam muito escuros, e se havia algo de que ela se tivesse apercebido no primeiro dia, é que os seus olhos ficavam claros como água, quando ele estava descontraído, e escureciam quando as emoções o assaltavam. Era um trunfo para ela, que não se deixou enganar com aquela calma aparente.
- Trouxe-te o catálogo da nova estação. Saiu hoje. Queres ver? – Perguntou estendendo-lho
Era como se lhe mostrasse uma bandeira branca.
Ela aceitou. Na verdade não conhecia o catálogo, nunca comprara roupas por aquele processo e estava curiosa.  Correu os olhos pelo vestido da capa. Muito bonito. Um corte simples mas muito elegante, voltou a página e encantou-se com um conjunto de saia-calça em seda, verde seco e uma blusa também em seda creme, de suave decote, e folho nas mangas. Levantou o rosto e mostrou claramente a sua surpresa.
- Bom, se todos os modelos forem assim, são muito bonitos. E elegantes. Quem é o estilista?
- Não tenho um estilista. Os modelos são desenhados por mim, embora às vezes a Rita me dê uma pequena ajuda com uma ou outra sugestão.
“Claro a Rita.” Pensou ela. E teve vontade de saber quem era a Rita, mas a pergunta que fez a seguir não tinha nada a ver com o que pensou.
- Quer dizer que foste tu que desenhaste este modelo?
-Esse e os outros, - respondeu com suavidade.
Ela lançou-lhe um rápido olhar e pensou que ele devia gostar muito do que fazia, pois os seus olhos mostravam -se tão claros e brilhantes como prata.
- Se não te importas gostaria de o levar para casa. Parece-me que vale a pena vê-lo com tempo.
Ele gostaria que o visse naquele momento, mas limitou-se a dizer.
-Trouxe-o para ti.
-Obrigada
Uma batida na porta, e logo depois Madalena entrou:
- O técnico deu por terminada a reparação da máquina. Diz que amanhã já poderá trabalhar em pleno.
- Graças a Deus. Diz ao Bruno para avisar o pessoal que vinha entrar à noite, para se apresentarem amanhã à hora normal.
Madalena saiu e Daniela, voltando-se para David explicou:
- A peça para a máquina avariada, só chegou esta manhã. Tenho tido metade do pessoal a trabalhar de dia, e a outra de noite, de modo a que a tecelagem não se atrase, e não deixe de cumprir os prazos. E a propósito, ainda pensas comprar as máquinas?
- Pedi orçamentos à fábrica. Ainda estou a estudar a situação


16.5.16

MANUEL DA LENHA - PARTE LXX

                           Foto de Alfredo Cunha


Quando o Manuel e a mulher chegaram ao trabalho, já na seca, se sabia que estava a decorrer um golpe de estado em Lisboa. Cabe aqui recordar que a seca, pertencia à família Bensaúde com sede em Lisboa, logo era normal a sede contactar o escritório da mesma, todas as manhãs. O gerente, comentou com o empregado, que por sua vez comentou com o encarregado, e em pouco tempo o pessoal já todo sabia, e torcia para que tudo desse certo, mas não se atreviam a manifestar-se, com receio de que as coisas dessem para o torto, e pudessem sofrer as consequências. 
Também o filho foi posto ao corrente logo que chegou ao trabalho, na CP.  Quem não sabia de nada era a filha, que embora de rádio ligado, não obtinha mais do que música e os tais apelos à calma, que de vez em quando eram transmitidos.
Naquele tempo, não se tinham ainda inventado os telemóveis, e em casa do Manuel nem sequer havia telefone. Se houvesse, talvez o namorado da rapariga, lhe contasse que estava no Terreiro do Paço e lhe dissesse o que se estava a pensar.
Às onze e meia, já com as forças do governo neutralizadas, e os ministros e chefes militares, refugiados no quartel do Carmo com Marcelo Caetano, ou em Lanceiros 2 , chega do comando de operações a ordem para sair, uma coluna para o Largo do Carmo, a fim de obter a rendição do Presidente do Conselho, e outra coluna irá sitiar o quartel general da Legião Portuguesa, mantendo-se o resto dos militares, em posição no Banco de Portugal e Rádio Marconi.  Um quarto de hora depois, Salgueiro Maia desloca-se com a coluna da Escola Prática de Cavalaria, para o Largo do Carmo. As restantes unidades, sob o comando de Jaime Neves, irão sitiar o quartel general da Legião Portuguesa, que se rende sem grande resistência.
Mais ou menos à mesma hora, o Rádio Clube Português, lê um comunicado em que se informa que o Movimento domina de norte a sul do país, e que em breve chegará a libertação.
Só então a filha do Manuel percebe o que se passa. E pensa que se não tivesse ficado em casa, talvez pudesse ver "in loco" o que se passava.
Às 13 horas, Salgueiro Maia está já no Largo do Carmo, quando o comando do regime dá ordens às forças que ainda se mantinham fiéis o cercarem. Assim a desfalcada Cavalaria 7, toma posições no Largo de Camões, forças da GNR ocupam o Largo da Misericórdia,e Rua Nova da Trindade. Uma força da polícia de choque ocupa o Largo do Chiado.   




Relembro que todos este factos, são objecto de pesquisa, de jornais da época, do arquivo da RTP, e sobretudo da base de dados históricos.