O problema é que António queria casar, e Carlota não o podia fazer, pois já era casada.
E em Portugal naquela época, não havia divórcio. Porém quando um homem e uma mulher se amam de verdade, não há obstáculo, intransponível.
E em Portugal naquela época, não havia divórcio. Porém quando um homem e uma mulher se amam de verdade, não há obstáculo, intransponível.
Depois de algumas saídas, em que ambos falaram das suas vidas, das más experiências, da dor porque cada um passou, e dos sonhos que ainda queriam viver, Carlota, pensou, que devia aproveitar a oportunidade que a vida lhe dava, e ser feliz. E decidiu ir viver com António. Foi um escândalo, pois naquela época dizia-se que viver amancebado, não era para os animais, não para os cristãos. Além das discussões com a irmã e o cunhado, choveram cartas do resto da família, dizendo a Carlota para ter juízo, era um escândalo, e um pecado. Afinal ela era casada, e tinha jurado fidelidade ao marido. Ela não se importou. Tinha-lhe sido fiel, durante anos, sem nem sequer saber por onde ele andava, e apesar de todo o sofrimento que ele lhe infligira, durante o pouco tempo de vida em comum. Pela primeira vez na vida estava apaixonada. Sentia que todo o seu corpo vibrava, quando António a beijava, sentia desejo das suas carícias, queria sentir-se amada. Embora aparentasse pouco mais de trinta, ela ia fazer em breve quarenta anos. Sabia o que sentia, e o que queria. E o que ela queria era ser feliz. Preocupava-se com a opinião do filho, e por isso apressara-se a mandar-lhe uma carta, dando conhecimento das suas intenções e pedindo a sua aprovação. Na volta, o filho escrevera, "seu coração seu mestre, minha mãe. Faça o que ele lhe ditar". E foi o que ela fez. Arrendaram uma casa nos Olivais e juntaram os trapinhos no início de Abril do ano da graça de mil novecentos e setenta e quatro.
Apesar dos seus sentimentos, e do desejo que a invadia, cada vez que António a beijava, Carlota temia a intimidade da primeira noite, não só pela violação que sofrera, mas também por que a vida amorosa com o marido, fora sempre uma penosa obrigação. Sabendo o que ela sofrera anteriormente, e homem experiente, António, pôs em prática todo o seu conhecimento do que deve ser uma noite de amor, fazendo com que Carlota, fosse relaxando, substituindo o medo, pelo desejo, até acordar a mulher adormecida que havia dentro dela, e fazer com que se entregasse por completo.
Nunca, nem nos seus sonhos mais loucos, ela pensara que se podia sentir e viver a intimidade daquela maneira.
Dias depois,o calendário assinalava o vinte e cinco de Abril, o país acordava com a revolução, que mudaria o destino do povo português.
E com ela, não foi só o medo que se perdeu, nem a guerra que acabou. Com a revolução vieram novas ideias, as mentalidades como que se abriram. O povo começou a achar normal, situações, que até aí foram censuradas. A mulher ganhou uma nova dignidade, deixou de ser considerada uma propriedade do marido.
Carlota era agora uma mulher feliz. Deixara de trabalhar. António, gostava que ela se dedicasse apenas à casa, ele tinha um pé-de-meia, amealhado nos anos de emigração, alugara uma oficina e trabalhava por conta própria. Era um bom mecânico, não lhe faltava trabalho.
Entretanto Carlota soubera que havia campanhas de alfabetização, e resolveu aprender a ler. O filho voltou da Guiné, conheceu o companheiro da mãe, que o tratou com cordialidade, e lhe disse que haveria sempre naquela casa, um quarto e um lugar na mesa para ele. Mais, se quisesse aprender o ofício, haveria lugar para ele na oficina. João agradeceu, dizendo que tencionava seguir a carreira militar, e despediu-se pensando que a mãe tivera muita sorte em encontrar um homem bom como António.
Depois, novos políticos, novas leis, o divórcio chegou a Portugal, e Carlota pode enfim pôr um ponto final no seu casamento, e casar com António, embora só no registo. Mas no íntimo ela estava em paz, Acreditava que se Deus pusera o marido no seu caminho, queria que ela fosse feliz. E ela era-o. O resto não lhe interessava.
Fim
Elvira Carvalho
Nota: Amanhã vou sair. Num passeio de estudo que mostrarei como sempre no blogue de imagens. Por isso o final do conto entra hoje. Espero que gostem.

