Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta psiquiatria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta psiquiatria. Mostrar todas as mensagens

13.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XV




Terminada a refeição que decorreu em amena camaradagem, como se os dois se conhecessem desde sempre, tomaram o rumo do centro da cidade.
Miguel estava espantado. A jovem que o acompanhava em nada se parecia com a do dia anterior, ou mesmo dessa manhã. Que se passara entretanto para uma mudança tão radical? Era como se a jovem se tivesse esquecido do seu problema. Mas a pergunta que lhe fizera, antes de entrarem no restaurante, demonstrava o contrário. Apesar de gostar de a ver assim, estranhava-lhe, a atitude.
Na baixa, Miguel procurou o consultório do tal psiquiatra, que lhe tinha sido recomendado. Infelizmente não tinha vagas para toda aquela semana. Miguel insistiu, era urgente, se fosse possível uma vaga. Não era possível. Só na próxima semana. Segunda-feira às 15 horas. Miguel acabara de marcar a consulta, quando o telefone tocou. A empregada atendeu e depois chamou-os ,quando os dois já se preparavam para sair..
- Parece que hoje, é o seu dia de sorte,- disse sorrindo. A marcação das dezassete horas, acaba de desistir da consulta. Pode ficar para os senhores . Em que nome fica a marcação?
E agora? Miguel procurou os olhos da jovem e só viu neles medo. Decidido deu o seu nome.
-Miguel Fernandes
-Então senhor Fernandes, a consulta está marcada para as dezassete.
- Obrigado. Voltarei a essa hora.
Uma vez na rua, disse.
- São duas e vinte. Vamos lá comprar os chinelos. Entretanto, talvez precise de outras coisas. Um creme, um perfume, eu sei lá. Não entendo nada das vossas necessidades.
Esperava um sorriso da jovem, mas o rosto dela tinha voltado a ficar taciturno.
Compraram os chinelos, e umas calças que lhe despertaram o interesse.  Depois parou junto de uma montra, cheia de bonitas malas de senhora. Porém quando Miguel lhe disse para escolher uma, a jovem encolheu os ombros e respondeu com tristeza:
-Para quê? Não tenho nada para pôr lá dentro.
Por fim, foram a uma perfumaria e depois de vários testes, escolheu o Angel, de Thierry Mugler.
Miguel, olhou o relógio. Dezasseis e trinta. Tinham apenas tempo para um bolo ou gelado antes da consulta. Porém a jovem estava demasiado nervosa e não quis nada, pelo que se dirigiram para o consultório




12.4.18

RENASCER - IX





Dois meses depois, Carlos continuava na psiquiatria do hospital sem saber mais de si do que aquilo que lhe contavam os demais. Pais, irmãs, cunhados, amigos de infância, muita gente se deslocara da Régua até Lisboa para verem o homem que voltara à vida quase sete meses depois de ter sido dado como morto em combate. Não reconheceu ninguém à exceção de Cacilda, a mais nova das irmãs. Porque a reconheceu imediatamente e não reconheceu Amália a irmã mais velha era mais um mistério da sua cabeça que ele não sabia decifrar, e que intrigou o psiquiatra. Este, fez-lhe a seguinte proposta. Gostaria de iniciar um novo tratamento com base na hipnose clínica. Porém aproximava-se o Natal e ele ia-lhe dar alta para a quadra natalícia. Queria que ele fosse a casa, convivesse com família e amigos, andasse pelos lugares da sua infância e juventude. Acreditava que nesse contexto ele poderia recuperar a memória. Se tal não acontecesse, quando regressasse ao hospital, se ele estivesse de acordo, começariam então as sessões de hipnose.
Proposta que ele aceitou imediatamente, receava endoidecer com tanta luta para se recordar de qualquer coisa, um pequeno acontecimento que fosse, e sentir-se completamente vazio. Às vezes pensava que estava num pesadelo, que ia acordar a qualquer hora, e então beliscava-se a si próprio mas nada mudava. Duas vezes por semana, Luísa ia vê-lo, e ele agarra-se aquelas visitas como náufrago, à bóia que o vai salvar. Os dois tornaram-se amigos. Ambos viveram uma tragédia, e talvez por isso, um buscasse no outro, a força que os havia de fazer esquecer. Naquele dia, mais uma vez, Luísa foi visitá-lo.
- Boa tarde Carlos. Como se sente hoje.
- Na mesma. Um pouco mais animado porque o médico me vai dar alta para passar o Natal na terra com a família. Pensa que isso me pode trazer de volta a memória, e me propôs se eu voltar na mesma, no regresso, ser hipnotizado para ver se revivendo o que se passou, quebro o bloqueio que me faz estar assim.
- E isso não é perigoso?
- O médico diz que não. Ele pensa que se isso não resultar, poderei levar anos até que um qualquer facto me faça recuperar a memória. Eu nem quero pensar nisso. Mais me valera ter morrido naquele dia.
- Não diga isso, meu amigo, está vivo, é jovem, teoricamente tem muitos anos pela frente, mesmo que durante algum tempo não se lembre, virá o dia em que recupere a memória. Para os mortos não há retorno nem esperança.
- A Luísa não sabe o que é não saber nada, não ter recordações, nem amigos, nem familiares.
- Mas o Carlos tem. Já o visitaram.
- É verdade. Mas se exceptuarmos o meu pai que reconheci porque foi como se me estivesse a ver ao espelho, embora mais velho, e a minha irmã Cacilda, acreditaria no que me dizem, apenas porque o desejo com toda a minha alma. Como acreditei que aquela carteira era minha, só porque ma deram e disseram que era.
- Entendo. Deus queira que a hipnose resulte.