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28.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVIII

Santo Deus que loucura! Pedro caminhava pela rua completamente aturdido. Acabara de sair do médico e o que se passara tinha sido tão absurdo que se interrogava, se acontecera mesmo, ou se era fruto da sua imaginação delirante. Tinha saído de casa decidido a falar com o clínico. Chegou ao consultório e pediu à assistente uma consulta. Não era possível, disse ela. O médico tinha muitos doentes e não tinha ordem para marcar mais ninguém.
- Por favor menina, peça ao médico. É muito importante. Olhe diga-lhe que sou Pedro Medeiros e que me venho despedir...
A assistente hesitou. Depois virou costas, e dirigindo-se ao gabinete do médico, bateu, e entrou. Saiu logo de seguida.
- Por favor, siga-me. O Doutor vai recebê-lo já.
Ele seguira a assistente que lhe abriu a porta e se retirou. Avançou para a secretária e o médico pôs-se de pé.
- Boa-tarde, Doutor.
 – Boa tarde, Pedro. Como desejava vê-lo. Há mais de um mês que o procuro.
- Para quê Doutor? Para ver se o seu diagnóstico estava certo? - perguntou com ironia.
- Não amigo. A minha preocupação era outra. Acontece que pouco tempo depois daquela tarde em que vi as suas análises, eu tive que mandar repetir as análises de um outro doente. É que apesar das primeiras que fez me dizerem que estava tudo bem, o doente definhava a olhos vistos. Repetidas as análises, descobri que ele sofria de uma leucemia em fase terminal. Pouco ou nada podia fazer por ele.
- Como eu...
- Não! Como o senhor, não. Depois de estudar as  análises dele e as suas, que você não quis levar, e comparando os valores com das segundas que ele fez, cheguei à conclusão de que as vossas análises iniciais, tinham sido trocadas. Então procurei-o na morada que tinha na ficha, mas infelizmente não havia ninguém lá, e não sabia onde encontrá-lo.
Em silêncio, Pedro escutava a voz grave do médico, relutante em aceitar o que ele dizia. Por fim balbuciou receoso:
- Então eu...
 – Sim meu amigo – interrompeu ele – tinha apenas uma ligeiro distúrbio  nervoso, de que já deve estar curado, a julgar pelo seu óptimo aspeto.
 – Doutor não seria melhor eu fazer outros exames?
 – Se com isso fica mais descansado, posso marcar-los. Por mim não é necessário. O verdadeiro dono das outras análises faleceu na terça-feira à noite no hospital de S. José em Lisboa.
- Meu Deus!
Pedro ergueu-se. Mil pensamentos passavam velozes pela sua cabeça. A imagem de Rita, o seu olhar cândido, o som mavioso da sua voz, o toque sedoso dos seus cabelos, a casa da tia, a margem do rio, a preocupação de sua mãe, o pequeno Pedro, dona Célia, os passeios à beira-rio, tudo o que vivera nos últimos dois meses, voltaram à sua memória numa sucessão vertiginosa, como cavalos selvagens em louca corrida.
- Obrigado Doutor. Muito obrigado.


E como amanhã é domingo esta história volta na segunda.