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12.1.19

ELISA

Reedição
Corria o ano de 1940. Elisa era nessa altura uma encantadora rapariga de dezoito anos. Pequena, bem proporcionada, cabelo escuro como noite sem lua, quase sempre preso numa farta trança.

Os olhos escuros e um rosto moreno, onde um rasgado sorriso fazia aparecerem duas graciosas covinhas. Era uma jovem alegre, com uma bonita voz, que encantava quem a ouvia ao domingo na igreja, ou nos campos enquanto trabalhava. Foi talvez a beleza da sua voz, que atraiu o patrão, naquele fatídico dia de Abril. Elisa mondava o milho numa leira, quando o patrão a surpreendeu e sem lhe dar tempo a defesa, ali mesmo a violou. Naqueles tempos nas remotas aldeias do interior, não raras vezes os patrões "desgraçavam" as jovens empregadas. Naquele dia Elisa foi para casa, com o corpo e a alma em ferida. Não disse aos pais nem aos irmãos o que tinha acontecido. De que teria servido? Só aumentaria a sua dor, e a sua vergonha.
Nunca mais foi a mesma. Não queria que ninguém soubesse o que tinha acontecido, e os pais estranhavam que não quisesse ir trabalhar para aquele patrão. Afinal era o que empregava mais gente, e pagava melhor.
 Uma noite sem que ninguém desse conta, Elisa fugiu de casa. Vagueou por montes e vales, evitando os caminhos principais, roubando frutas para enganar a fome, durante dias a que esqueceu a conta. Um dia, com os pés em ferida e as roupas sujas e rotas avistou uma cidade.
 Foi-se aproximando a medo. Teve sorte. Uma mulher idosa viu-a, e vendo o estado lastimoso em que se encontrava, levou-a até à sua casa. Deu-lhe um alguidar com água, um pedaço de sabão azul e branco, e uma toalha velha e esfarrapada, porém limpa, para ela se lavar. Em seguida trouxe-lhe umas roupas limpas que tinham sido da sua filha que Deus lhe levara havia dois anos.
 Josefa foi-lhe contando isto enquanto aquecia no velho tacho de barro um prato de caldo verde feito na véspera.
 Elisa sentiu-se como alguém que regressa a casa. Na verdade Josefa, embora não a conhecendo, estava a tratá-la como uma filha e Elisa deixou que as lágrimas rolassem pelo rosto emagrecido enquanto contava àquela desconhecida, o que não tivera coragem de contar à mãe.
 Josefa ouviu em silêncio o relato da jovem, e quando esta acabou, estendeu a sua velha mão sobre a cabeça da jovem, e murmurou entre dentes:
 "Um dia, um dia isto vai ter fim. E esses canalhas vão pagar por todos os seus crimes". E logo levantando a voz disse:
 - Ficas aqui enquanto não arranjares trabalho. Eu não tenho muito, mas há-de dar para as duas. Agora uma coisa tens que me prometer. Vais escrever aos teus pais. Diz-lhes que estás em Coimbra, e que arranjaste trabalho. Os teus pais têm que saber de ti. Eu também fui mãe e sei bem a aflição duma mãe quando não sabe dum filho.
 Elisa assim fez. Arranjou trabalho a dias para limpezas e tentava a custo apagar as recordações quando descobriu que isso era impossível porque estava grávida.
Foram tempos muito difíceis em que só no carinho de Josefa conseguiu forças para sobreviver. Aos pais não contou nada. Morria de vergonha. E foi inventando desculpas para não ir visitá-los

Quando o filho tinha três anos Josefa morreu. Morreu serenamente, sem se queixar, tal como tinha vivido.

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O Sexta ontem esteve muito concorrido. Que terá acontecido para apresentar este número de visualizações?



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21.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIII






Mal saíram dali, Miguel levou a jovem directamente para a clínica.
O médico já não estava, mas a empregada ao ouvir o relato do que tinha acontecido, disse;
- O que relata, são sintomas de um ataque de pânico. Vou ligar ao Doutor, explicar a situação, e vamos ver se ele autoriza a marcação para amanhã, uma vez que já tem a agenda preenchida.
 Fez a ligação e depois…
- O doutor disse para virem amanhã às duas. As consultas começam às três, ele vai atendê-los antes.
- Muitíssimo obrigado. Até amanhã.
O resto do dia foi tão sombrio, como noite sem lua. Miguel estava muito preocupado. Questionava-se, sobre como devia agir. Denunciar a situação da jovem à polícia e esperar que eles tomassem uma decisão, quanto ao destino dela? Era o mais razoável. Mas, como explicar a demora na denúncia do caso,  e os mais quinze dias que levavam juntos? E como arrancar do peito, aquele sentimento, mistura de carinho e pena que a jovem despertara nele? Desde que os pais tinham morrido, que vivia sozinho. Aventuras amorosas, tivera muitas. Fugazes, sem consequências. Gostava da sua vida de boémio, de partir para qualquer lado quando lhe apetecia, sem se preocupar com nada, nem ninguém. Tinha vários amigos, ali, na cidade, como tinha em Lisboa. Pintores, escritores, escultores. Gente ligada às artes como ele. Alguns tinham ao longo dos tempos, encontrado alguém com quem dividiam a vida e os sonhos. Ele não. Nunca sentira nada tão avassalador por alguém que o levasse a ponderar deixar o celibato. E aos quarenta e cinco anos,  já não acreditava  possível, que tal viesse a acontecer.
Quando viu a jovem tão nova, tão frágil, completamente perdida, sentiu que tinha que ajudá-la. Era como se o céu lhe enviasse uma filha. Claro que pôs a hipótese de que em algum local, alguém podia estar em sofrimento por causa do seu desaparecimento. Mas todos os dias comprava o jornal, ouvia as notícias na rádio e não havia nenhum apelo, nenhuma foto, nenhuma notícia na rádio, nada que se relacionasse com ela. Porém aquele episódio à tarde, deixou-o em sobressalto. E se ela sofria  de algum grave transtorno psiquiátrico? E se tinha fugido de alguma clínica do género? Atormentava-se sem saber  o que fazer e como  fazê-lo. Ir-se embora, deixando-a na casa, mesmo pagando todas as despesas, e contando com a ajuda de  Adélia, que entretanto  se fora também afeiçoando à jovem, não era viável.
Pedir ao médico que lhe aconselhasse uma boa clínica, para a internar, era o mais razoável, mas a ideia de a deixar num ambiente hostil, repugnava-lhe. Estava, como a avó Ermelinda costumava dizer, entre a Cruz e a Caldeirinha.