Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta princesas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta princesas. Mostrar todas as mensagens

25.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIII


Quando Fernando chegou para levar as crianças à escola, já se tinha decidido.

- Bom dia! -saudou ele

- Bom dia, - respondeu. Entra, vieste mais cedo, hoje. As meninas estão a acabar o pequeno-almoço. Queres beber um café, enquanto esperas?

-Aceito, obrigado. Tenho uma notícia para a Matilde.

- Aconteceu alguma coisa? Tiveste notícia dos noivos? - perguntou assustada enquanto fechava a porta atrás dele que já se encaminhava para a cozinha.

- Não, descansa, não é nada grave. O Sérgio ligou-me ontem à noite. A Sofia tinha acabado de dar à luz um rapagão com quase quatro quilos.

- Meu Deus, outro menino. E ela tinha tanta esperança que desta vez fosse uma menina.

- Queres dizer que eles não sabiam que era um menino? Ela não fez ecografias?

- Fez. Mas o bebé estava sempre em má posição e o médico nunca conseguiu ver. E toda a gente lhe dizia que quando é assim, é menina! Deve ter sido uma desilusão.

-Pois ele pareceu-me muito feliz, quando me deu a notícia.

- E tenho a certeza que a Sofia também estará. Na verdade, o desejo de qualquer mãe ou pai, é que o seu bebé seja perfeito e saudável.

Tinham parado no corredor, e preparavam para entrar na cozinha quando Matilde saiu, seguida da prima.

-Olá! Que fazem vocês aí a bichanar no corredor? Aconteceu alguma coisa com os meus pais? – perguntou preocupada.

-Não, - respondeu a tia. O Fernando estava a contar-me que o teu tio Sérgio lhe ligou, a informá-lo de que já tens mais um primo.

- Outro rapaz? Coitada da tia Sofia! Queria tanto uma menina! Bom, tio Fernando, esperas um pouco, enquanto nós vamos lavar os dentes e buscar as mochilas?

- Claro Matilde não te preocupes. Enquanto isso vou aceitar o café que a Laura me ofereceu. Temos tempo, eu hoje vim mais cedo.

Enquanto elas se dirigiam à casa de banho, os dois entraram na cozinha. Laura tirou do armário uma chávena que encheu com o aromático café e colocou-a na mesa em frente dele.

-Bebes só o café, não queres comer nada?

- Não, obrigado!

- Tens consultas de manhã?

-Não. Vou ter uma vídeo conferência com outros psiquiatras de várias partes do mundo, sobre o desenvolvimento de novas doenças mentais e quais as melhores terapias. Porquê?

- Porque decidi aceitar a tua proposta, e tencionava ir esta manhã ao teu consultório, se os meus pais ficarem com o Miguel.

-Mas é claro que podes ir na mesma. A Diana está lá e põe-te ao corrente de tudo. Fico muito feliz com a tua decisão. Custava-me ter de recorrer à empresa de trabalho temporário, e ter que trabalhar com uma desconhecida.

Naquele momento as duas adolescentes apareceram à porta da cozinha.

-Já estamos prontas, tio Fernando. Podemos ir quando quiseres.

Ele levantou-se e encarou-as.

- Claro, quando eu ganhar o meu beijo das duas princesas.

Rindo elas beijaram-no, e depois fizeram o mesmo com Laura e os três encaminharam-se para a porta da rua, seguidos pela dona da casa.

-Juizinho, - recomendou-lhes antes que entrassem no carro. Elas voltaram-se e atiram-lhe um beijo na ponta dos dedos entrando no veículo em seguida e fechando a porta.

Logo de seguida o carro arrancou suavemente. Laura ficou na porta até vê-lo entrar na estrada e desaparecer. Só então fechou a porta e voltou à cozinha.

 

8.12.19

CONTOS DE NATAL - DAVID E A ESTRELA











A casa de Ciryl e Paola fica mesmo no alto da serra da Malveira. Quando se chega lá acima, o ar é leve e, se levantarmos os braços, podemos tocar nas nuvens e agarrar o sol.
É uma casa antiga, de grossas paredes de pedra, com salas enormes onde se ouve música antiga, canções e poemas porque os corações de Ciryl e Paola estão sempre abertos à beleza e à amizade. Talvez por isso, porque Ciryl e Paola da serra da Malveira são pessoas especiais e lindas, esta história aconteceu.


Da varanda da casa que lembra um desses castelos com reis, princesas e fadas boas, avista-se o mar. Até lá, muito longe, onde o olhar quase se perde, crescem as árvores, flores, e o vento que nos despenteia carrega o perfume de coisas que nos enchem de paz e alegria. Mas, o ano passado, alguém deitou fogo à serra.
Por entre as sirenes dos carros de bombeiros, os gritos, o voo assustado das aves, o gemido dos pequenos animais sem abrigo, ouviam-se as árvores a chorar. Primeiro erguiam os seus grandes ramos para o céu, depois, as pequenas folhas estalavam e, com um ruído ensurdecedor, víamo-las tombar como gigantes feridos. Foi tão triste! Nos meses seguintes o que se avistava da varanda mais alta da casa, eram apenas os caminhos queimados cobertos de tristeza e silêncio.
Certa manhã de dezembro, já perto do Natal, Ciryl e Paola tiveram uma ideia: foram pelas escolas e desafiaram as crianças: «Vamos semear pinheirinhos novos e deixar a nossa serra toda verde como era dantes.»
«Vamos!», disseram os meninos. «Vamos!», disseram as meninas.
De súbito, foi como se um sino tivesse tocado no coração do mundo.
Parecia uma só voz o que se ouviu e ecoou por todo o lado, das casas ao mar.
E tinha tanta força essa voz que os pais dos meninos, e as mães, e as avós, e os tios, e as tias, e os primos, e as primas, e as madrinhas, e os padrinhos vieram também. Traziam pás, ancinhos, enxadas, pequenos sachos, regadores. Era como um filme.
Pela serra inteira, gente que andava, parava, ria, abria buracos e plantava árvores. Árvores, dezenas de árvores que o Ciryl e a Paola mandaram vir de todas as partes do mundo: pinheiros, abetos, araucárias, cedros do Líbano.
As pessoas, pela serra, pareciam borboletas voando: corriam aqui, escorregavam ali, levantavam-se, trocavam pequenas palavras, muitas sugestões. Uns plantavam a sua árvore na encosta; outros, nas faldas da serra.
Ao fim da tarde, cansados, os pais e as mães, os primos e as primas, os tios e as tias, os padrinhos e as madrinhas, as crianças, os velhos e os assim-assim juntaram o pão e a salada, o queijo e a Coca-Cola, os pastéis de bacalhau e o bolo-rei, a alegria e o coração contente e fizeram uma grande festa.
A serra parecia pintada de verde fresco e nos olhos de todas as pessoas havia um brilho diferente. Todos se falavam, mesmo os que de manhã não se conheciam e as gargalhadas que davam eram como água fresca que apetecia beber e repartir.
Só David, um dos mais pequeninos, o que tinha olhos azuis e reflexos de ouro nos cabelos lisos, indiferente à festa, continuou a subir a serra. Queria que a sua árvore fosse a mais alta, a que ficasse lá mais acima e se pudesse contemplar da terra inteira.
Subiu, subiu. Subiu muito. Rasgou a pele nas silvas, bebeu o sumo das amoras porque tinha sede. Subiu mais ainda.
Com a sua pequena enxada de plástico cavou um buraquinho. Quando acabou de plantar o seu cedro do Líbano, deitou-se na terra fresca e adormeceu. Então, inexplicavelmente, a árvore começou a crescer, a crescer, e cobriu-o de sombra. Uma ave, veio dos lados do sol nascente e embalou-lhe o sono com seu cantar. Quando a noite desceu, perfumada, uma estrela desceu de mansinho e pousou no ramo mais alto, iluminando todos os caminhos. De repente, no meio da festa, alguém deu pela falta de David. Chamaram, chamaram e nada. Ninguém respondia. Então, como se fosse um formigueiro em movimento, as pessoas começaram a espreitar na urze, no sumo dos frutos, no espelho de água do tanque, dentro da chaminé, debaixo do piano. Chegaram à varanda. Olharam a serra.
Lá no alto, iluminado, enorme, o cedro era um sinal.
Correram todos para lá.
Um grande silêncio desceu na serra. Todos se olhavam estupefactos. Ninguém sabia explicar por que crescera assim, em tão poucas horas, aquela árvore que uma estrela iluminava.
E quando viram David a dormir, segurando ainda na mão o pequeno sacho, com a cara toda lambuzada de amoras e terra, Ciryl disse sorrindo e simplesmente: «Oh! Parece o Menino Jesus!»
E regressaram. Cantando.


Maria Rosa Colaço 



Fonte   A

20.6.19

UM PRESENTE INESPERADO -PARTE XXVIII

Ricardo encontrava-se sentado no sofá, da sala, que mantinha às escuras, desde que chegara, da casa de Isabel.
Estava contente por ela ter aceitado a sua proposta. Era o melhor para a criança e para eles. Não ia para tribunal, lutar pela sua guarda, mas aquela menina era a única pessoa do seu sangue, que lhe interessava, não queria nada com o irmão e dispensava os filhos dele. Reconhecia que pela emoção, Isabel deveria ficar com a menina. Amava-a, cuidara dela desde que nascera. Mas as suas condições financeiras não lhe permitiam dar-lhe o que ele lhe podia proporcionar. Logo o ideal era a criança ser criada pelos dois. Depois, casar com Isabel, não era sacrifício nenhum. Ela não era propriamente uma beleza, mas tinha um rosto interessante, onde brilhavam uns olhos castanhos, num tom que lhe lembrava o chocolate, e uma boca pequena e bem desenhada. O cabelo comprido (que ele gostaria de ver solto) era castanho dourado. Não, não era uma beleza que chamasse a atenção, mas havia qualquer coisa nela que a tornava especial. Talvez a luz que irradiava dos seus olhos. Era como se a alma lhe quisesse escapar por eles. Nunca tinha visto aquela luz em qualquer outro ser. Se ele confiasse nas mulheres, seria fácil apaixonar-se por ela. Mas não, ele não se deixaria enganar de novo. Tinha-o jurado a si mesmo, há muitos anos atrás. Além do mais, casado não teria necessidade de procurar outras mulheres, nem de estar sempre alerta contra as armadilhas em que elas são mestras. Tinha a certeza que a nível sexual o casamento ia ser um sucesso. Excitava-se só de lembrar o que tinha sentido quando a beijara.
Admirara-se com o casamento quase clandestino que ela impôs. Sempre pensou que o dia do casamento, era o dia com que as mulheres mais sonham, e os casamentos de amigos a que foi convidado, as noivas sempre pareciam umas princesas. Mas enfim ela tinha uma ideia diferente, ele não ia criar um entrave por causa disso. Tinha a certeza que mais tarde, quando ela se habituasse à vida que ele tinha, iria mudar de ideias. 
Quem em plena posse das suas faculdades mentais, iria querer uma vida de privação e sacrifício, quando tinha à mão de semear, uma vida sem dificuldades?   
Esticou o braço, acendeu a luz e pôs-se de pé. Olhou o relógio de pulso. Meia-noite. No dia seguinte tinha muito que fazer. Ir ao registo para dar andamento aos papéis necessários ao casamento. Precisava ligar ao Artur. Contar-lhe o que tinham decidido e convidá-lo para apadrinhar a cerimónia. Afinal aquele casamento tinha sido ideia sua. Esperava que o tempo de espera não fosse longo, afinal se os dois tinham nascido na cidade e eram maiores de idade, não havia razões para longa espera. Se houvesse necessidade de pagar urgência fá-lo-ia. Faltava pouco mais de um mês para o Natal, e gostaria de já estar casado nessa data. Era a única época do ano em que sempre se sentia sozinho, e meio depressivo.
Apagou a luz e dirigiu-se à casa de banho, a fim de se preparar para dormir.


Estão todos convidados para o casamento. Amanhã.