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17.7.24

O CONVITE

 




                                                  O CONVITE


Dezembro avançava frio, alternando por entre dias de chuva e nevoeiro. Estávamos a poucos dias do Natal e o sol que tanto amamos, andava arredio há duas semanas. Terminei o dia de trabalho, encerrei o computador, vesti o casaco e saí. Apesar do tempo frio, havia muita gente nas ruas, cujas montras muito iluminadas, mostravam os mais diversos artigos alusivos à época.

Morando perto do escritório onde trabalhava, em menos de dez minutos estava em casa.

 Despi e pendurei o casaco no bengaleiro, descalcei os sapatos de salto, que me faziam as pernas, mais esbeltas e bonitas, enquanto me atormentavam os pés com dores. Estendi-me no sofá tentando relaxar, mas logo a campainha tocou.

Descalça, aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo.  Espantei-me ao ver o Pedro. Não era para menos, pois o julgava ainda em Londres. Abri a porta e ele entrou carregando uma mala que pousou no chão a seu lado e então abraçou-me com força e estalou dois ruidosos beijos no meu rosto.

 Não estranhei, éramos amigos desde criança, ambos filhos únicos, encontrámos um no outro os irmãos que nunca tivemos.  Sentámo-nos no sofá e então ele disse:

-Desculpa, ter aparecido assim de repente, mas a nossa amizade deu-me a confiança necessária para fazê-lo.

Segurou-me as mãos, os olhos brilhantes de felicidade e então contou-me como conheceu a Isabel, a sua fantástica história de amor, terminando com o convite para sua madrinha de casamento.

 

 

11.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVIII

 




- Queres dizer que ela é a mulher que procuro?

-Nada disso! Estou apenas a raciocinar em voz alta. E dizes que a criança é parecidíssima com a Laura? Que idade tem essa menina? Viste a data de nascimento?

-Claro. Faz em Maio, treze anos. Não estás a pensar que essa criança pode ser minha, estás?

-Porque não? Eu estava presente no hospital, quando o Ricardo te perguntou se continuavas apaixonado por aquela jovem, e falou de como vocês passaram as férias grudados um no outro.

-Não! Tu conheces-me. Eu nunca seria irresponsável ao ponto de engravidar uma jovem, quando ainda não tinha condições de casar com ela. De certeza tomei precauções para que isso não acontecesse.

 -Tu és médico. Sabes melhor que ninguém que não há nenhum método cem por cento infalível. Essas coisas acontecem. Pensa no que aconteceu com a tua irmã. Pensas que ela queria engravidar naquela altura?

 - Mas como é possível, se houve uma paixão tão intensa assim, eu continuar a não me lembrar dessa época?

- É possível! O nosso cérebro, é um enorme armazém, cheio de milhares e milhares de memórias. Elas não são todas guardadas da mesma maneira. Há milhares de coisas que vivenciamos um dia e que nunca mais recordamos porque o nosso cérebro as arquiva como sem importância, outras que recordamos durante uma época e outras que recordamos toda a vida, porque elas são arquivadas em diversos zonas consoante a importância que lhes damos nos momentos em que as vivemos. Não te vou falar dos vários tipos de amnésia, porque já falámos disso há bastante tempo e tenho a certeza que tens investigado todas, suas causas e sintomas. Sabes que quando a amnésia é provocada por um trauma psicológico, stress, ou álcool ela pode terminar em qualquer momento logo que a vida do paciente volte ao normal. Mas quando é provocada por um trauma físico, como uma pancada na cabeça, um AVC, um tumor, ou qualquer outra agressão, a zona do cérebro que foi afetada, pode não recuperar nunca e nesse caso, as memórias armazenadas nessa zona desaparecem para sempre tal como documentos desaparecem quando devorados por um incêndio.

- E não posso fazer nada? Meu Deus, não posso viver nesta incerteza o resto da vida.

 - Claro que podes. Deste o primeiro passo. Convence-a a escutar—te. Sê sincero.

- Mas admitindo que seja ela, e que a menina possa ser minha filha. Que direito tenho eu de entrar assim sem mais nem menos na vida delas? E se ela tem alguém? O facto de não ser casada, não quer dizer que não viva numa relação feliz.

-Ou não. E não podes sabê-lo sem falares com ela.

-Se ela quiser falar comigo! E se isso não acontecer?

-Está tão atormentado, que quase não raciocinas. Estás de serviço amanhã?

- Não! Estou livre este fim de semana.

- Dá no mesmo. Podes sempre ir lá logo de manhã. Leva um Kit de ADN, e faz a recolha.

Se como penso a menina for tua filha, ela não poderá deixar de te ouvir. Tens o direito de poder ver e acompanhar o crescimento e educação dela, mesmo que ela tenha outra relação e não queira saber de ti como possível marido. E se não tiver ninguém, depende de ti quereres ou não conquistá-la de novo.

 -- Meu Deus, Fernando! Não posso admitir que aquela menina linda possa ser minha filha, e pensar que podia levar a vida inteira sem ter conhecimento disso.

-Tens que o admitir se fizeres o teste de ADN e for esse o resultado. E ela não poderá tirar os teus direitos de pai.

-Mas como vou fazer o teste de ADN sem a sua autorização? Isso é ilegal!

-É? Mas não dizem que os fins justificam os meios?  De resto se o resultado for negativo, ela nunca saberá que o fizeste. E se for positivo, não terá coragem de participar de ti. Pensará que a filha não lhe perdoaria se soubesse que acabou com a tua carreira, e as mulheres pensam sempre nos filhos antes de qualquer outra coisa.  E agora se te fosses vestir e fossemos dar uma volta por aí?

 - Desculpa, sei que a tua intenção é boa, mas não tenho vontade nenhuma de sair.

-- Bom então agora aceito aquela cerveja que me ofereceste há bocado. Também não estou com muita vontade de sair. Tens estado com a Laura? Como é que ela está?

Gonçalo levantou—se e foi à cozinha buscar a cerveja. Não lhe passara despercebida a tristeza na voz do amigo.


9.12.18

A SURPRESA DO PAI NATAL










Foi com grande espanto que, num domingo de manhã, a Marta descobriu junto à lareira da sala um saco vermelho de feltro, em forma de bota. “Terá sido o Pai Natal?”, perguntou a si mesma. Mas, pelas suas contas, ainda faltavam mais de vinte dias para o Natal, o que é uma eternidade para quem espera ansiosamente por esse momento.
A Marta abriu o saco, mergulhou a mão lá dentro e a primeira coisa que agarrou foi um pequeno envelope. O remetente, claro está, era o Pai Natal. E a carta era dirigida a “todos os que querem viver mais felizes”. No fundo, podia ser para qualquer um. E dizia o seguinte:
Queridos Amigos,
Há muitos anos que ando preocupado com a forma como vivem a época de Natal, que, aliás, é muito parecida com a forma como vivem o resto do ano.
Por isso, resolvi mudar de estratégia. Este Natal, não contem com as tradicionais prendas na noite de 24, que ocupam demasiado espaço nas vossas casas. As prendas que eu tenho para oferecer este ano podem chegar já hoje, no preciso momento em que lêem esta carta. Chamam-se ‘ Tarefas’ e são uma prenda para cada um e para o mundo. Espero que elas vos ajudem a ter um Feliz e Sereno Natal.
Um abraço,
Pai Natal
A Marta ficou um pouco triste. Ela que já sonhava com a boneca de olhos azuis que pedira ao Pai Natal. Quanto às outras prendas, não se importava de não receber. Mas a boneca… Talvez a Tia Luísa, que era sua madrinha, tratasse do assunto.
Mas que tarefas eram essas que ela lera na carta? Não havia tempo a perder. Ao mesmo tempo que vasculhava o fundo do saco, a Marta chamou a mãe, o pai, os manos e a avó, para contar tudo.
— E o saco está cheio de papéis pequenos que parecem rifas. Devem ser as tarefas — disse, depois de explicar tudo. — Vamos ver o que sai daqui.
Então, cada um tirou uma rifa que lhe destinou uma tarefa para a época de Natal:
Plantar dois pinheiros
Oferecer as cinzas da lareira às plantas
Comer mais frutas do que doces
Não ir a muitas lojas
Andar e fazer tudo mais devagar
Descobrir as cores que a Mãe Natureza apresenta nesta época.
Apesar de não parecerem prendas, a verdade é que todos ficaram entusiasmados com as tarefas que o Pai Natal tinha proposto. E esta foi a época natalícia mais feliz que a família alguma vez vivera!
E, na noite de Natal, a Tia Luísa chegou com um embrulho na mão. O Pai Natal dera outras prendas mas não se esquecera de encomendar à madrinha da Marta a boneca que ela tanto queria.




Rosário Araújo e Catarina França
Brincar às escondidas e outras histórias da Mãe Natureza
Revista Pais & Filhos, 2009



11.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXVII









A vida que conhecera em África dera-lhe força para o que ia fazer e ajudaram-na a tomar uma decisão. Sabia que amava David, e que se ele a rejeitasse, ia sofrer muito. Mas não podia continuar a fugir dos seus sentimentos. Se não desse certo, vender-lhe-ia as suas ações e juntar-se-ia ao irmão em Marrere. Onde tudo falta, ela encontraria decerto uma boa razão para viver, e uma oportunidade de esquecer, a sua tragédia pessoal. Naquela manhã levantou-se cedo, tomou banho, vestiu o conjunto da segunda página do catálogo que tanto a encantara e comprara antes de partir, e seguiu para a fábrica. Passou pelo gabinete de Madalena que abraçou com alegria e depois bateu na porta do gabinete e entrou.
- Olá,- cumprimentou tentando aparentar uma naturalidade que não sentia.
Ele levantou-se. Estava mais magro, tinha um ar cansado. Não devia ser fácil gerir as duas fábricas e simultaneamente preparar o catálogo para a próxima época. Reparou no olhar de admiração quando a olhou. Seria pelo fato, que ele reconheceria, como criação sua, ou pela sua presença?
-Olá. Julgava-te em Moçambique.
-Regressei na madrugada de ontem, mas levei quase vinte horas horas a dormir.
- Vens trabalhar?
- Ainda não. Vim convidar-te a jantares comigo. Na minha casa.
Viu que como o corpo musculado enrijecia, enquanto o rosto se tornava pálido. Notou o apertar dos punhos, e antes que ele falasse, inclinou-se para a frente e pediu.
-Por favor, não digas nada que não possa perdoar-te. Já nos ferimos o suficiente. Tenho que te contar uma coisa, que pode ou não mudar toda a nossa história. Se ainda tens algum carinho por mim, não faltes.
Ele esticou o braço e segurou-a pelo pulso. Olharam-se profundamente, estudando-se mutuamente.
-A que horas? – Perguntou largando-lhe o pulso.
-Às oito.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando o homem perplexo.
Ela seguiu para o supermercado onde fez as compras para o jantar.
Uma perna de borrego para assar, os ingredientes para a sobremesa, um gelado e vinho.
Fez um bolo de chocolate, preparou e pôs no forno o borrego com batatas, e fez a salada. Hesitou sem saber bem como ia por a mesa, acabando por decidir por uma mesa simples para duas pessoas, sem qualquer detalhe romântico que o levassem a tirar conclusões apressadas, e não muito abonatórias para ela.
Com tudo pronto, foi tomar banho, e vestir-se. Acabava a maquilhagem, quando ouviu a campainha. Abriu a porta e ele estendeu-lhe um ramo de tulipas amarelas. Ela aceitou-as como uma promessa de paz e amor.
- Obrigada, são lindas. Entra, o jantar está pronto, é só por as flores numa jarra, e levo-o já para a mesa.
Seguiu-a para a cozinha.
- Não tenho fome. Deixa as flores aí e vem para a sala. Quero saber o que tens de tão importante para me dizer. Decerto não será que estás grávida. Porque se é isso, escusas de tentar. Lembro-te que usei proteção.

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Na reta  final. Será que estes dois, se vão entender?