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24.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE X

 





- O que aconteceu, Lena? A Matilde está com problemas na escola?

- Não. Apesar de ter baixado um pouco nos últimos testes não foi nada de muito grave. As notas deste período não vão baixar.

-Bom. Todavia se tudo está bem, qual a razão desse nervosismo?

-Quem disse que estou nervosa? – perguntou sorrindo.

-Conheço-te bem, Lena. Podes enganar os nossos clientes com esse falso sorriso, mas não a mim.

-Tens razão! – disse deixando-se cair na cadeira. Vi o Gonçalo.

-O Gonçalo? Que Gonçalo? Não conheço nenhum… espera, estás a falar do pai da tua filha?

-Pai é quem cria, dá amor! A Matilde não tem pai.

-Pai, progenitor, dador de esperma, o que quiseres. É dele que estás a falar? Tens a certeza? As pessoas mudam muito, e já se passaram vários anos.

-Absoluta. Foi há mais de treze anos, mas podiam passar mil anos e eu reconhecê-lo-ia, em qualquer lugar da terra.

- Meu Deus, Lena! A conversa de que não acreditas no amor, não passa disso mesmo. Conversa. Tu continuas apaixonada por esse homem. Como é que eu nunca me apercebi disso!

-Não digas asneiras. Não se ama, quem se odeia!

-Não? Pois eu sempre entendi que o ódio é a outra face da moeda do amor. Mas deixemos isso agora e conta-me. Como foi isso? E ele reconheceu-te?

- Foi em frente à escola. Eu ia quase a correr, e ao dobrar uma esquina esbarrei num homem que vinha com uma menina pouco mais nova que a Matilde. Teria caído, se ele não me segurasse pela cintura, e ao levantar os olhos para me desculpar, quase desmaiava com a surpresa.

-Não me digas! Se ele tem a filha na mesma escola, significa que mora perto, e que talvez se voltem a encontrar. Mas não te reconheceu?

- Não sei! Mal me apercebi de quem era, pedi desculpa e saí correndo.

-E agora, o que vais fazer?

-Nada. Só espero nunca mais me cruzar com ele.

- A vida prega-nos muitas partidas e do mesmo modo que se encontraram hoje, pode voltar a acontecer. E um dia ele vai reconhecer-te. E se vir a Matilde e souber somar dois mais dois vai descobrir a verdade. E tens de pensar na Matilde e na promessa que lhe fizeste. Que lhe vais dizer? Que não sabes o que foi feito dele, quando provavelmente ele já se cruzou com ela na entrada ou saída da escola.

-A promessa de lhe falar sobre o pai quando fizesse treze anos!  E falta menos de um mês para o seu aniversário, - Lena deixou—se cair na cadeira com um suspiro de desalento.

--A Matilde é extremamente inteligente e muito obstinada, - continuou Rita. Tenho a certeza que é a primeira coisa que te vai perguntar no dia do seu aniversário. E é bem capaz de tentar encontra-lo. Sabes que hoje em dia os miúdos, com um computador nas mãos, sabem tudo o que querem. O que farás se ela quiser entrar em contacto com o pai?

-Não sei. Talvez lhe diga que ele morreu.

-Isso é meio caminho andado para perderes a tua filha, se ela um dia tomar conhecimento da verdade. Nunca mais confiará em ti. Se queres o meu conselho conta-lhe toda a verdade, embora claro não lhe digas que provavelmente ele vive perto. E agora vamos almoçar, ou esperamos pela Matilde?

-Hoje é Quinta-feira, ela almoça na escola tem aulas até às dezasseis. E o Inácio? Não vem almoçar connosco, hoje?

-Não. Vai almoçar com um cliente. Então vamos!

 


13.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIII



Gil entrou na loja e dirigiu-se ao escritório, onde já encontrou o irmão, passeando de um lado para o outro com evidente nervosismo.
- Bom dia, Marco. Pareces preocupado.
-Bom dia mano. Estou nervoso. E se a Isabel não está minimamente interessada em mim?
Gil olhou o irmão com estranheza. Não estava habituado a vê-lo tão inseguro, fosse qual fosse a questão. Caramba, ele tinha trinta e dois anos e nessa idade, um homem sabe muito bem conhecer os sinais que uma mulher lhe dá. E ele tinha-lhe dito que tinha a certeza de que a jovem gostava dele, só não confiava nas suas intenções. Com todo aquele nervosismo, devia estar mesmo muito apaixonado.
Pôs a mão sobre o seu ombro num gesto de carinho, tentando acalmá-lo.
- Calma, se estás assim hoje, não quero ver-te no dia do casamento – disse sorrindo. Depois olhou o relógio e acrescentou:
- Dez horas. Estão a entrar. Não tarda estão a bater a esta porta. É melhor que nos sentemos.
- Senta-te tu. Eu não consigo, - retorquiu uns segundos antes de Isabel bater na porta para a abrir de seguida.
As três mulheres entraram na sala com o semblante carregado, preocupadas com aquela reunião repentina, e mais preocupadas ficaram com a presença de Gil. As três sabiam que raramente ele ia à firma, mesmo antes da tragédia que se abatera sobre a sua vida. E naquela semana era a segunda vez…
-Sentem-se – disse Gil. Chamámos-vos aqui para lhes dar conhecimento de algumas decisões que tomámos. Porque é o vosso local de trabalho, achamos que devem saber o que se passa. 
As três entreolharam-se preocupadas. Será que a empresa ia fechar? Iriam perder os seus empregos? Sem lhes dar tempo a grandes preocupações, Gil continuou:
-A partir de hoje, vou deixar de ser um dos sócios desta firma. Ela será pertença exclusiva do Marco, estamos à espera do doutor Alcides para assinar os documentos, mas a vossa situação na empresa não corre qualquer perigo. Da minha parte, quero agradecer-vos o grande empenho e rigor com que sempre desempenharam o vosso lugar. Dir-vos-ia que podiam ir abrir as portas, mas antes o Marco tem uma declaração a fazer e quer que sejamos todos testemunhas. Marco é contigo.
- Bom, sei que o que vou fazer,- disse aproximando-se do irmão, sem contudo se sentar -  pode não parecer muito ético, para este local, mas as circunstâncias a isso me obrigam. Teresa e Raquel, vocês são mulheres inteligentes, devem ter percebido como estou apaixonado pela Isabel. Mas também devem ter conversado entre vós e sabem que ela não acredita, que eu tenha intenções sérias a seu respeito. Pois bem Isabel, - disse aproximando-se e agarrando a mão da jovem – que vermelha de vergonha não sabia onde se meter – neste momento, reitero tudo o que te disse em particular, e perante estas testemunhas te suplico, que me dês a honra de casar comigo e juro fazer da tua felicidade o grande objetivo da minha vida.
Finalmente a jovem levantou o olhar brilhante pelas lágrimas e prendeu-o nos olhos masculinos, com uma resposta muda, mas plena de amor, que Marco entendeu perfeitamente.
- Então Isabel – disse Gil levantando-se. Posso ou não dar-vos um abraço e desejar-vos felicidades?
- Claro que sim, - disse o irmão desviando o olhar e sorrindo feliz. - Mas espera um pouco, ainda não acabei.
Meteu a mão no bolso, e tirando a caixinha com o anel, meteu-lho no dedo, e de seguida puxou-a para si, abraçou-a e beijou-a.
Ouviram-se palmas e depois Gil, Raquel e Teresa abraçaram os noivos.
Uns minutos mais tarde, Gil disse:
-Agora vão abrir a porta e voltem ao vosso trabalho. E hoje vão as três almoçar connosco. É a minha despedida.