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2.7.24

SAUDADES - ELVIRA CARVALHO




 SAUDADES


Tenho saudade

Do tempo em que a minha casa

era um palácio.

Tinha por rei o Amor

e  por rainha a Felicidade.

Tenho saudade, 

do tempo que passava

Sentada no chão

Com a cabeça nos teus joelhos,

sentindo a doce carícia

dos teus dedos no meu cabelo,

tão suaves como brisa de verão.

E em silêncio vivíamos

o amor que nos unia.

Tenho saudades, amor

dos passeios de mão dada

dos sorrisos cúmplices

em palavras trocadas.

Agora a nossa casa

já não é um palácio.

Os reis partiram contigo

as paredes perderam o calor

e um silêncio de chumbo

espalhou-se pela casa,

trazendo consigo a dor

 e a saudade. 

Elvira Carvalho

21.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXIV

 



Pouco depois, toda a família se dirigiu à igreja, para a celebração da Paixão e Morte do Senhor e Adoração da Cruz. Quando criança e adolescente, Gonçalo e a irmã sempre acompanhavam os pais nessas cerimónias que em Braga a Semana Santa sempre se vive com muita intensidade. 

Porém há muitos anos deixara de o fazer. Todavia na véspera acompanhara a família às cerimónias e quando estas terminaram,  a filha quisera que ele fosse conhecer a maravilhosa e histórica vila de Alpedrinha, e Gonçalo convidara Helena a acompanhá-los. Ele sabia que haviam decisões a tomar e precisavam ter uma conversa séria sobre o futuro próximo.

 Contudo era algo que não podia fazer na presença da filha e assim decidiu-se a apreciar a visita à vila que desconhecia. Encantou-se com o Palácio do Picadero, cuja construção datava do século XVIII, surpreendendo-se com o telhado de vidro numa construção de enormes blocos de granito. 

Helena explicara-lhe que o maravilhoso edifício devia o seu nome ao pátio por onde atualmente se entra, que fora nos seus tempos iniciais quando os automóveis nem sequer ainda eram um sonho, o sitio onde se domavam os cavalos denominado como Picadero. 

Acrescentara que embora na atualidade o palácio seja um espaço de cultura, fora em tempos pertença de vários donos que lhe deram as mais variadas utilizações desde um tribunal a um hospital e até uma tipografia de jornal.

E ali quase ao lado do palácio, o belíssimo chafariz de três bicas em granito, denominado chafariz D. João V, por ter sido mandado construir por este rei em 1714, era outra obra de arte que merecia as fotos que ele tirara para mostrar à irmã.

Encantou-se com a calçada romana e admirou a Igreja Matriz com os seus sete altares e o órgão de tubos. Helena conhecia em profundidade a história da vila, talvez por ser a localidade mais próxima da quinta dos seus pais e transmitira esse conhecimento à filha, ele deduziu, pelas interrupções e pequenos comentários que Matilde ia fazendo sobre o que iam vendo.

Mais tarde, acabaram lanchando num café local,  e depois voltaram à quinta, onde Helena se apressou a ajudar a mãe na cozinha enquanto Matilde o arrastava para o seu quarto a fim de lhe mostrar o seu boletim de notas do segundo período.

O jantar decorreu animado, e pouco depois foram dormir pois o sábado seria um dia muito atarefado com os preparativos para o Domingo de Páscoa e a preparação para a Visita do Senhor que o padre faria à tarde. Ele dormira no quarto, que segundo Helena lhe dissera, era o quarto de Rita, a sua grande amiga e madrinha da filha, que ele ainda não conhecia. 

De manhã, após o pequeno almoço, ele e Helena tiveram enfim um tempo a sós, para a tal conversa sobre o futuro.


3.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XVII




- Mana, quando vamos a casa buscar o resto das coisas? Preciso dos meus livros, queria fazer uma revisão de matéria antes de começarem as aulas.
Naquele momento, encontravam-se os três na sala, depois das crianças terem ido dormir a sesta.
- Por mim poderíamos ir hoje, mas não agora que está demasiado calor  - respondeu Ricardo por ela. - Talvez mais para o fim do dia. Estou ansioso por conhecer a casa em que viviam.
- Porquê? – Interrogou Clara. É uma casa humilde, nada que se compare com esta.
- E depois? Decerto, perto de algumas onde já entrei, poderia considerar-se um palácio.
Relembrando a conversa tida no dia anterior na biblioteca, ela retorquiu:
-Desculpa. De qualquer modo, preferia ir amanhã. Hoje estou cansada.
- Calculo. Sabes Tiago, que enquanto nos divertíamos na piscina, a tua irmã fez uma revolução no quarto das crianças? A propósito - acrescentou voltando-se para ela, - fizeste um ótimo trabalho. Parabéns. Mas não voltes a fazer o mesmo sem ajuda. Podes magoar-te.
- Não foi nada demais, estou habituada a fazer este tipo de trabalho. E valeu a pena o esforço, para ver a alegria deles.
- Vai-te habituando - interrompeu Tiago. - Às vezes chegava a casa e levava cada surpresa que até pensava que me tinha enganado na porta. Foi uma pena que não tivesse continuado a estudar. Estou certo que seria uma ótima decoradora.
- Mas ainda poderá fazê-lo. É só uma questão de conciliar horários, - disse Ricardo. - Gostarias de voltar a estudar?
- Talvez um dia quem sabe. Agora tenho algo a fazer, mais importante que qualquer curso.
- Bom,  - disse Ricardo - pelo que me disseste, o que há para trazer são roupas e livros. Excetuando os manuais escolares, temos uma boa biblioteca. Tenho no computador uma lista de todos os títulos existentes. Poderás vê-la esta tarde. Não vale a pena trazeres livros que se repetiriam. Podes oferecê-los a uma instituição. Não disseste que ias dar os móveis?
- Sim. Mas há umas porcelanas antigas, de que não quero desfazer-me. Guardam muitas recordações. Poderia trazê-las?- Perguntou com uma certa ansiedade.  
-Claro. Podem guardar-se na cave. Mas então será melhor pedir ao Alfredo que nos arranje umas caixas e nos siga com a carrinha. Vou avisá-lo daqui a pouco.
- Bom, - disse Tiago, pondo-se de pé. - Se já está tudo combinado, vou sair. Até logo.
-Até logo, - responderam em coro.
Durante alguns segundos ficaram em silêncio. Depois Clara perguntou:
-Já pensaste como e quando, vais dizer às crianças que vais partir?
- Penso nisso todos os dias, desde que soube da partida, mas quando estou junto deles, não sei como lhes dizer.
- Deves fazê-lo o mais breve possível, para que se vão habituando à ideia. Se quiseres, posso estar presente. Para que sintam que estarei a seu lado e que não ficarão sozinhos. Queres fazê-lo depois do lanche?
- Tens razão. Deixar para a última hora, será contraproducente. Que te parece, se depois de lhes contar, fossemos dar um passeio com eles, e comer um gelado?
-Parece-me bem. Vou ver se já acordaram.




30.6.17

ROSA - PARTE I

Porque têm sido muitos os amigos que me têm manifestado o desejo de conhecerem esta história,  a única publicada em livro até agora, e esgotada, e de momento não ter hipótese de fazer uma nova edição, eis aqui a ROSA




Obra licenciada pelo IGAC nº  1283 e publicada em livro


(esgotado)



Olhou-se uma vez mais no velho espelho do desconjuntado armário. Não se reconhecia naquela estranha de grandes olhos negros que a olhavam com um misto de pena e desespero, na imagem que o espelho lhe devolvia. Sentia-se cansada e sem vontade de nada. Era como se dentro daquele corpo não habitasse ninguém. E se habitava não era ela. Ela ficara lá longe, na sua aldeia, muitos anos atrás. Quem sabe, andava lá pelo monte da Landeira, pastoreando as ovelhas.
Como era feliz nessa altura! Por que é que estamos sempre desejando mais do que aquilo que temos e lastimando a nossa infelicidade, para depois chegarmos à conclusão que aquela era afinal a felicidade?
Ela fora uma miúda normal numa aldeia do interior, maioritariamente povoada por gente pobre. Tivera uma infância exatamente igual à das outras meninas na aldeia. Só com a diferença que nunca conheceu o pai. Mas nem nisso era muito original, já que havia na aldeia, mais duas ou três meninas que ela pensava que eram suas irmãs, porque eram filhas do mesmo pai. Sim porque ela sabia que o seu pai se chamava “pai incógnito” e o pai dessas meninas também se chamava assim. Um dia, a avó explicou-lhe que “pai incógnito” significava que ninguém sabia quem era o seu pai. Não era nome de gente. Rosa ficou espantada. Como era possível? Não sabiam quem era o pai? Não era da aldeia? Então e as outras meninas? Também não sabiam quem era o pai? Então se calhar eram mesmo irmãs. Que não, tornou a avó. Eram filhas de outro pai. Ela não percebia. Então se não sabiam quem era como é que sabiam que não era o mesmo? Mais tarde, quando fora para a escola, atreveu-se a perguntar à professora e esta fizera-lhe entender o mistério. Ela gostava da escola. Como gostava! Os livros contavam cada história! Infelizmente, quando tinha oito anos, a mãe morreu e ela ficou sozinha com a velha avó. A vida que lá em casa já não era fácil, piorou drasticamente. Teve que deixar a escola.
O Sr. António era o homem mais rico da aldeia. Tinha terras, bois, vacas, cabras e ovelhas. Vivia numa casa grande, feita de grandes blocos de granito, e diziam os que já lá tinham entrado, por dentro parecia um palácio. A avó conseguiu que ela fosse trabalhar para lá como guardadora do rebanho. Foi um pedido feito à Ti'Zefa, a criada do Sr. António. Ganhava um dinheirito, pouco, no fim do mês, mas tinha a barriga cheia, pois segundo se dizia era casa farta. E assim a avó sempre ficava mais descansada. Ela, a avó, sempre conseguia um prato de sopa a troco de algum trabalho. Era exímia a cerzir e as vizinhas tinham sempre o bibe dum filho ou a camisa do marido com um rasgão a pedir a sua intervenção.




Continua amanhã