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7.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Mais um mês se passou, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado. 
Gabriel  que viajara para o estrangeiro, já estava ausente há quatro dias, quando o inspetor se apresentou naquela tarde, no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar essas dívidas. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento das mesmas.
- Então e agora? – perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- E isso ainda vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não posso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular, a pedido do Gabriel, de quem sou amigo desde criança. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade, na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E eu só posso contar com o meu ordenado.
- Todavia vai ter que nomear um, para que possa tratar do caso e apresentar ao juiz as provas que inocentam o seu pai. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu lhe entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai vai poder provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até, ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes importantes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me telefone logo que possível.


17.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXIV




Chegaram a casa a meio da tarde, depois de uma paragem na Nazaré onde almoçaram uma deliciosa caldeirada. Não trocaram mais do que meia dúzia de palavras, no resto da viagem. O agradável convívio da tarde e noite de sábado, por certo ficara lá em Aveiro, já que agora se estudavam como dois antagonistas. Odete não conseguia perceber como João fora capaz de a trair. Como fora capaz de abraçar Inês, de se deitar com ela, depois de tudo o que tinham vivido em conjunto. E ficava furiosa consigo, por continuar a sentir-se atraída por ele, e por ter a certeza de que apesar do doloroso espinho que trazia no coração, o marido continuava a ser rei e senhor dentro dele. Tinha absoluta consciência de que teria sido sua, se ele o tivesse tentado na noite anterior. E essa consciência, deixava-a furiosa. Que tipo de mulher era ela afinal? Onde estava a sua dignidade?
Por seu lado, João sentia-se impotente, perante a indiferença da mulher. Não conseguia compreender como ela fora capaz de o abandonar, quando ele se entregou de corpo e alma a ela e ao amor que os unia. Tal como um condenado, conta os dias que faltam para a sua libertação, ele contou um a um todos os que passaram desde que ela se fora. Noite após noite, na solidão do seu leito, contabilizou, mais um dia que acabava sem saber dela. E foram muitos. Mil trezentos e  oitenta e sete dias exatos. Em tempos, pensou contratar um detetive. Desistiu, por pensar que seria indigno violar a privacidade da esposa.
- Finalmente em casa. Sei que deves estar ansiosa por ir ver a tua mãe, mas aconselho-te a tomares um banho e descansares um pouco. Está demasiado calor. Será melhor até para ela que descanse nestas horas de maior calor. O ideal será ires depois da hora do lanche. E eu acompanho-te.
Sentiu de novo vontade de o provocar.
- Porquê? Acaso pensas que me acoberto nas visitas à minha mãe para me encontrar com alguém?
Contraiu-se a expressão masculina. Cerrou os punhos e meteu as mãos nos bolsos das calças, para não ceder à tentação de lhe agarrar num braço e o apertar, como fizera no carro.
-Estás a ser perversa, e não te conhecia essa faceta,- disse com raiva. – Sempre tive um certo carinho pelos teus pais, e penso que dei sobejas provas disso. É natural que me preocupe com a tua mãe e queira ver como está.
- Desculpa. A gravidade da sua doença, e a minha vida atual, afetaram o meu discernimento.
Ele não respondeu. Virou-lhe as costas e dirigiu-se ao escritório. À entrada, voltou-se e disse quase sem expressão.
-No nosso quarto, estão todas as tuas coisas, roupas, calçado, tudo o que tinhas quando partiste.  Fisicamente não mudaste muito, por isso se precisares vai até lá e serve-te. Vou ficar por aqui uma meia hora, - disse fechando a porta atrás de si.
Ficou perplexa. Que homem guarda durante anos as coisas da sua esposa, depois de a ter traído?





19.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVIII


Um mês se passara, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado.
Gabriel viajara para o estrangeiro, há quatro dias, quando o inspetor se apresentou no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar as dívidas de jogo. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento dessas dívidas.
- Então e agora? – Perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- Vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não poso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E nós só podemos contar com o meu ordenado.
- Bom, vai ter que nomear um, para que possa tratar disto. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai pode provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me ligue.