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17.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXX


Apesar do cansaço, Anabela tardou a adormecer. Estava habituada ao ruído constante da cidade, durante praticamente toda a noite. Estranhava o silêncio da casa, no meio da quinta, afastada da estrada principal. Ali só o galo que vira, durante o passeio pela quinta, à tarde, no galinheiro, rodeado de galinhas, como um sultão no harém, podia cantar, mas ainda faltavam umas horas para a madrugada.

Por outro lado, não podia esquecer o doente no andar inferior, nem a sua estanha atitude. Depois de tudo o que o doutor Azevedo e o Joaquim lhe contaram sobre o  jeito intratável com que reagia às profissionais que a antecederam, ela preparara-se mentalmente para uma luta diária. Porém depois do mau génio demonstrado quando ela lhe fora apresentada, a atitude do doente mudou por completo.

 Quando nessa noite lhe levara o jantar, esperava outra demonstração de fúria e má educação do doente, mas em vez disso ele mostrara que sabia ser um homem educado. Que pretenderia com a nova atitude? Esperava que ela baixasse a guarda para então lhe infernizar a vida? Devia ser isso, ou então Nossa Senhora dos Milagres passou por lá e ninguém mais deu por isso. Sim porque ela não acreditava que tivesse sido o seu sermão, que lhe tivesse mudado a atitude. Nunca acreditara em vitórias fáceis, talvez porque na sua vida nada fora fácil.

Por tudo o que lhe contaram, Anabela sentia uma profunda admiração pelo homem que tanto se preocupava com os desvalidos da sorte, a ponto de largar a sua vida de conforto e pô-la ao serviço de quem nada tinha. Por outro lado, não podia deixar de se compadecer, pela sua situação atual.

Porém, esse era um sentimento, que não podia de modo algum deixar transparecer na frente dele. Se Tiago se apercebesse de qualquer tipo de compaixão, ia lutar contra a sua vontade, fazendo-lhe a vida negra e atrasando consideravelmente a sua recuperação. Se não suportava a compaixão dos que ele amava, pais e tio, muito menos suportaria a sua, que era uma desconhecida.

Anabela preocupava-se com a magreza excessiva do doente, com os músculos enfraquecidos e atrofiados, pelo longo tempo no leito. Acreditava que durante o tempo no hospital, lhe tivessem feito alguma fisioterapia, porém há dois meses que ele estava na quinta enfiado na cama, sem qualquer espécie de tratamento.

 E segundo Joaquim, só saía da cama, pela manhã para o duche diário. Ela já vira a casa de banho, sem banheira, apenas o chão liso, de modo que a cadeira de rodas se deslocasse até debaixo do chuveiro.

 Enquanto ele estava no banho, Isilda entrava no quarto, fazia a cama e aspirava o chão. Quando Tiago saía o empregado ajudava-o a meter-se de novo na cama, arrumava a cadeira e ia buscar o pequeno-almoço

Deu uma volta na cama, ajeitou o travesseiro e deixou-se invadir pelo esquecimento, nos braços tentadores de Hypnos.