Levantou-se e foi até á janela. Por momentos o silêncio pesou sobre eles. Depois Luísa levantou-se e foi até ele. Pôs-lhe a mão no ombro.
- Olha para mim, Nuno. Olha-me bem nos olhos e diz-me o que vês? É por acaso compaixão? Eu olho para ti e vejo o homem maravilhoso que sempre foste. Um homem bom, um idealista que pôs toda a sua vida ao serviço dos outros, salvando dezenas ou centenas de vidas. Um excelente médico que ainda há pouco tempo salvou a vida dos meus alunos. Um homem que apesar de tudo ainda me olha com amor. Isto é o que vejo, e será o que qualquer pessoa verá. A prótese? É mais um testemunho da excelente pessoa que és.
-É fácil falar assim. Estás a ver-me vestido, e graças a Deus que me adaptei bem, nem sequer claudico, ninguém imagina que não estou inteiro. Mas já me imaginaste na intimidade, quando formos para a cama? Já te imaginaste a fazer amor com um aleijado?
- Parece-me que o aleijão está mais na tua cabeça do que na perna. Imagino que o teu orgulho, não te deixou ter acompanhamento psicológico. Desde quando um homem é, ou deixa de ser inteiro, por uma perna ou um braço amputado? Se tivesses uma doença mental, que não fosses capaz de reconhecer o bem do mal, que fosses incapaz de sentir qualquer sentimento, aí sim, dir-se-ia que não estavas inteiro. Tens medo de ir para a cama comigo? Acaso pensas que eu também não tenho medo? Que eu não penso se tudo o que passei não me tornou numa mulher frígida? Disseste há pouco que o amor que nos uniu, ainda está latente entre nós. Eu sei que sempre te amei, embora tivesse perdido as esperanças de algum dia voltar a encontrar-te. Mas a vida se encarregou de nos conduzir a esta encruzilhada, e só vejo dois caminhos a seguir. Ou damos uma hipótese, ao amor que ainda nos une, fazendo renascer os sonhos que tivemos em comum, de sermos felizes, ou nos recolhemos cada um à sua toca e levamos o resto da vida a lamber as próprias feridas.
Calou-se. Ficaram assim frente a frente, fitando-se, olho no olho, durante largos minutos.
- Tens coragem para arriscar? – perguntou ele com voz rouca
- Pensas que te abriria o coração desta maneira se assim não fosse? Mas não se trata apenas de mim. Nem tu, nem eu sabemos como vou reagir na intimidade. Tu também tens muito a arriscar. Agora é melhor que te vás. Pensa em tudo o que falámos, aqui, esta noite. Esquece os teus complexos. Interroga o teu coração e a tua mente, e vê se tens coragem para arriscar a única hipótese que ainda temos de ser felizes. E quando tiveres a certeza do que queres, sabes que estou sempre aqui.
Ele não respondeu. Encaminhou-se para a porta. Aí chegado, rodeou-lhe a cintura com um braço e puxou-a para si. Lentamente baixou a cabeça, e aprisionou a boca feminina, num beijo que ele desejava fosse uma terna despedida, mas que se tornou intenso e apaixonado ao encontrar correspondência.
Subitamente largou-a, e saiu batendo a porta.
