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15.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE IV



Depois do jantar, como já era tarde, e a avó se deitava cedo, Isabel arrumou as suas roupas e como a noite estava quente resolveu dar um passeio. Enquanto o fazia, pensava no que a avó lhe tinha contado. Hélder estava cego. Como era possível? O que teria acontecido? E era escritor? Ela nunca ouvira o seu nome ligado à literatura, nem vira nenhum livro dele. Decerto usaria um pseudônimo. Mas qual? 

De súbito viu-o no passeio do outro lado da rua, e agora sim, reconheceu o cão guia. Ficou parada no passeio, vendo como o cão parava junto do portão do jardim, que ele abria, e entrava, fechando-o atrás de si.

Sentiu uma pena enorme dele, e dela que em dez anos não esquecera um único dia, a vergonha da rejeição que sofrera, e o amor que desde menina lhe devotava.

Lentamente tomou o caminho de casa, uma ideia martelando na sua cabeça. A avó dissera que ele andava à procura de uma secretária. E se ela fosse essa secretária? Tinha aquele mês de férias, e depois podia pedir férias sem vencimento. Afinal nunca lhe davam casos importantes para defender pois no escritório, todos sabiam que mais cedo ou mais tarde sairia, para ir viver com a avó e montar um escritório passando a exercer lá a sua profissão.

 Mas enquanto montava ou não o escritório, enquanto arranjava clientes, podia ser secretária dele. A questão era que ainda não tivesse preenchido a vaga, e que não soubesse quem ela era. Para isso teria que pedir segredo à avó.

No dia seguinte, falaria com ela. Depois iria, vê-lo e tentar ganhar o lugar de secretária. Talvez quem sabe, ficasse a saber a razão daqueles dez anos de ausência,  do que tinha feito entretanto, e do seu pseudônimo literário. 

Será que ele se lembrava dela? Que guardaria uma boa recordação daqueles tempos, ou ficara tão zangado que a eliminara das suas lembranças?
A noite estava bastante quente. Isabel, tomou banho, enfiou um curto pijama de Verão, e finalmente adormeceu.
 
Acordou cedo. Lavou o rosto, escovou os dentes e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a avó a fazer as torradas.
Deu-lhe um beijo e disse:
- Senta-te avó, eu faço o pequeno-almoço. 

22.12.18

NADA DEBAIXO DA ÁRVORE





As melhores coisas na vida chegam inesperadamente
— precisamente por não haver expectativas.
Eli Khamarov, “Surviving on Planet Reebok”





— Não me deem nada no Natal! — a voz do meu marido irrompeu entre os meus pensamentos, sobrelotados com todos os preparativos natalícios que tinha planeado completar nas próximas semanas. Olhei para ele e acenei que sim.
— Dizes isso todos os anos.
— Este ano é mesmo a sério. Não haverá nada para ti debaixo da árvore ou na tua meia, pelo menos da minha parte. Portanto, também não me venhas com presentes. Usa o dinheiro que sobrar para dar mais coisas aos miúdos — repetia ele.
Nem me preocupei em ripostar. Todos os anos passávamos por isto. A maior parte das vezes eu ouvia e arranjava-lhe umas pequenas lembranças para que as crianças pudessem desfrutar do momento em que ele tirava o que estava dentro da sua meia. Todos os anos ele tinha debaixo da árvore um presente para mim e a minha meia tinha dentro imensas surpresas, por vezes até surpresas caras. Todos os anos eu desejava não ter ouvido as suas instruções. Mas este ano não.
Os dias passaram num turbilhão de atividades que incluíam cozinhar, fazer compras, decorações, e enviar postais e cartas de Natal. O meu marido repetia a sua mensagem frequentemente. De cada vez, eu olhava bem fundo dentro dos seus olhos, em busca daquele brilhozinho malandro que eu tinha a certeza que estava lá, no entanto ele parecia-me mais sério do que no passado.
Por fim, os presentes estavam todos embrulhados e debaixo da árvore, as coisas para pôr nas meias bem escondidas de olhos curiosos, e as atividades infantis próprias do Natal todas prontas. A véspera de Natal tinha chegado. Meti as crianças na cama. O sono chegaria atrasado por causa de toda a sua excitação, portanto enrosquei-me no sofá e preparei-me para uma longa espera.
— Sabes que não vais ter prenda debaixo da árvore, não sabes? — perguntou o meu marido.
— Sim! Já verifiquei.
— Também não vais ter nada na meia. Portanto não fiques desapontada. Eu avisei-te. Tu ouviste e também não compraste nada para mim, certo? — disse ele.
Olhei para ele e sorri. Ia esperar para ver. Talvez este ano ele tivesse escutado as suas próprias regras e eu estivesse com uma pequena vantagem. Depois tentei expulsar aqueles pensamentos da minha cabeça. Desde quando é que dar presentes se tinha tornado uma competição? Isso não deveria ter nada a ver com o espírito de Natal. Senti-me como se tivesse acabado de deitar a cabeça na almofada quando ouvi as vozes das crianças tentando penetrar no meu cérebro tonto pelo sono.
— Levanta–te. É Natal! Levanta-te!
Eles puxaram-nos pelos braços, obrigando-nos a apressar-nos. Precisavam de ver o que o Pai Natal tinha posto nas suas meias. Enfiei o meu roupão e segui-os até à sala de estar, onde os observei ansiosamente a esvaziar as meias de todos os seus tesouros. Adorei ver as suas caras sorridentes. Depois virei-me para ver o Brian esvaziando a sua meia. Ele inclinou-se e sussurrou para os meus ouvidos apenas:
— Não era suposto eu receber coisa nenhuma.
Retirei alguns bombons de chocolate e uma laranja da minha meia. Ele estava a falar a sério. Não havia qualquer presente debaixo da árvore e nada na minha meia. Tentei esconder o meu desapontamento.
Mais tarde, nessa mesma manhã, dirigimo-nos através de alguns quarteirões até à casa dos meus pais, para celebrar com o resto da família. Quando entrámos na casa, o aroma fragrante do peru assado e das tartes penetrou nas nossas narinas.
O almoço de Natal apresentava sempre uma abundante oferta de comida deliciosa. Rapidamente me juntei aos outros para ajudar a pôr a comida na mesa, enquanto as crianças foram a correr brincar com os primos.
A seguir à refeição, as crianças reclamaram a troca de presentes mas, primeiro, todas nós, mulheres, tomámos a cargo a mundana tarefa de arrumar a cozinha, enquanto os homens saíam para espreitar os camiões e os armazéns. Com um apurado e certeiro sentido da hora, eles regressaram exatamente quando estávamos a acabar o último prato e eu esperava ansiosa por uma tarde relaxante recebendo visitas. Brian olhou para mim e disse:
— Antes de abrirmos os presentes, porque é que não levas algumas destas sobras para o nosso frigorífico e trazes para aqui alguns jogos para mais tarde?
— Parece-me bem, mas porque não vais tu? — respondi.
— Não, eu fico aqui. Vai tu. Não demores a voltar — contrapôs ele.
Olhei em volta mas ninguém me apoiou. A frustração começou a tomar conta de mim quando lhe pedi de novo para fazer aquele recado e ele voltou a recusar. Não consegui arranjar um argumento mais forte, portanto, em vez de criar uma cena desagradável, agarrei no meu casaco e enfiei lá dentro os braços. Calcei as botas, peguei em algumas caixas com sobras de casa da minha mãe e dirigi-me à porta, refreando a custo a vontade de bater com ela ao sair. Resmunguei e rosnei comigo mesma durante todo o percurso até casa, e quando cheguei à minha cozinha a frustração tinha-se já transformado em raiva pura.
Abri com um puxão a porta do frigorífico, atirei lá para dentro as caixas e bati com a porta ao fechá-la. Virei-me, quase colidindo com uma enorme máquina de lavar louça que estava no meio da cozinha.
— Uma máquina de lavar louça? Eu não tenho uma máquina de lavar louça! — gritei para o compartimento vazio. A minha raiva desvaneceu-se gradualmente à medida que as lágrimas começaram a correr-me cara abaixo. Estendi as mãos para aquele aparelho novinho em folha. A minha prenda não cabia debaixo da árvore ou na minha meia. Tinham-me mandado ir a casa precisamente para a encontrar. Ir verificar o armazém tinha sido uma desculpa para entrar sorrateiramente com a máquina da louça. Limpei as lágrimas antes de sair de novo para o frio. A minha raiva dissipara-se, dando lugar a vergonha pela minha atitude. Caminhei devagar até à casa da minha família e encarei-os timidamente. Os seus rostos estavam emoldurados por sorrisos, enquanto esperavam ansiosamente a minha reação.
Dirigi os comentários ao meu marido:
— Não cumpriste a tua palavra. Deste-me um presente!
— Que presente? — disse ele, enquanto tentava manter uma cara séria. O brilho nos seus olhos traía a batalha perdida que tinha travado.
— A máquina de lavar louça na nossa cozinha! — respondi.
Risos encheram a sala e toda a gente se pôs a falar ao mesmo tempo.
O riso levou-me os últimos vestígios de frustração, raiva e vergonha. Naquele Natal aprendi uma ou duas lições. Primeiro, as coisas nem sempre são o que parecem. Segundo, a frustração e a raiva não deveriam levar a melhor na minha vida em altura alguma, especialmente no Natal.



Carol Harrison


8.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XX




Acabava o sumo, quando Miguel voltou.
- Bom dia! Dormiu bem, Maria? – Perguntou, tentando ver se o nome lhe provocava alguma reacção. Mas não vislumbrou qualquer alteração no rosto da jovem.
- Bom dia Miguel. Dormi toda a noite, mas acordei com a cabeça pesada, e a boca seca.
- Efeito colateral da medicação. Tenho uma boa notícia. Consegui marcar o seu exame. Dentro de dez dias em Portimão. Vamos almoçar agora?
- Não tenho fome.
-Não se preocupe. Ela virá antes de chegarmos ao restaurante. Adélia está cá?- Perguntou de seguida
-Está lá dentro- respondeu.
-Vou falar com ela. Volto já.
Encontrou-a atarefada a limpar os vidros da janela.
- Adélia queria pedir-lhe um favor.
- Pois não, Menino.
- Como lhe disse esta manhã, a jovem que está lá dentro, está doente, toma medicação, que não a deixa acordar cedo. Por isso na próxima vez, não venha antes das dez.
-Fique descansado, Menino.
-Então, estamos combinados. Agora vamos sair. Até logo.
-Vão com Deus.
Saíram e seguiram em silêncio durante uns minutos. De súbito a jovem perguntou:
- O Miguel não tem família?
- Não, respondeu secamente como se a pergunta o tivesse incomodado.
-Desculpe. Não queria zangá-lo.
- Não me zanguei. Mas nem sempre é bom despertar lembranças.
- Quem dera que eu tivesse alguma, mesmo que não fossem muito boa, -murmurou com tristeza.
- Vá lá Amélia, não se torture. Como dizia a avó Ermelinda, não é por chorar sobre o leite derramado, que ele volta para a cafeteira.
A jovem não respondeu. Após alguns minutos Miguel quebrou o silêncio.
- Estive a pensar que tenho uma tela inacabada. Amanhã, vou voltar lá à falésia. Gostava que fosse comigo. Sente-se com coragem para isso?
Notou a contracção no rosto da jovem. E a tremura na voz quando respondeu:
-Penso… que sim.